sábado, 1 de janeiro de 2011

"Não se governa nem se deixa governar!»

«Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»
Esta frase foi escrita por um general romano em serviço na Ibéria em carta enviada ao Imperador. É atribuída ao General Galba, que teria sido um dos primeiros governadores romanos na península, no Séc III antes de Cristo.

Referia-se o general romano aos Lusitanos, uma tribo guerreia que habitava também uma parte do actual território nacional. Não foi fácil às legiões romana dominarem os Lusitanos que ofereceram acesa resistência. Lembremos um dos seus chefes: Viriato.

Parece que a célebre frase aplicada aos nossos antepassados se pode igualmente aplicar aos portugueses da actualidade. Não nos governamos nem queremos que nos governem.

Num país endividado até ao tutano a quem não faltará muito os credores deixarão de emprestar dinheiro ou então fá-lo-ão com juros incomportáveis, os portugueses continuam a soprar para o lado:
- No Natal de 2010, os portugueses gastaram mais dinheiro do que no ano transacto.
- Ao contrário do que se verifica na Europa, em Portugal acelerou a compra de carros novos no último trimestre de 2010.
- Tudo o que era local de passagem de ano e tudo o que era avião pejou de portugueses.

Poupança? Prevenir o futuro? Investir? Nada disso. Gastar, gastar, gastar. Parece que o pensamento de muita gente anda por aqui: quem vier depois de nós que feche a porta, isto é, que pague as dívidas. Que direito temos nós de fazer pagar às gerações futuros as dívidas que elas não contraíram?

Existe uma burguesia média e média-alta citadinas para quem a máxima é gozar a vida, sem horizontes nem amanhãs. Parece que três deuses enchem por completo o coração desta gente: prazer, ter, e poder. Valores? Que valores? Cada um que se safe! Egoístas até ao fundo, só pensam no seu próprio bem-estar, o resto é paisagem.
E se pensarmos que é esta gente que, através de lobbys bem organizados e pouco ou nada transparentes, está por trás dos decisores políticos, económicos e jornalísticos, compreendemos que estamos bem entregues... A crise começa na ausência de valores, derivam muito daqui as crises económicas e sociais.

Há ainda a célebre mania nacional do dar nas vistas. Da primazia do parecer sobre o ser. "Se o meu vizinho goza, eu também tenho do gozar." Não interessa como, não interesse o futuro que se hipoteca...

Depois queixamo-nos dos políticos. É certo que, na maioria das vezes, com razão. Mas os políticos emergem do povo que somos, são portugueses como os outros. Se os políticos são fracos, é porque nos tornamos num povo fraco.
Ainda não nos habituamos a castigar nas urnas os mentirosos e falsos e a premiar quem nos diz a verdade, mesmo quando esta não nos é agradável. Vejamos o caso das últimas eleições legislativas. Quem é que o povo escolheu? Sócrates. Exactamente aquele que todos já sabiam que não cumpre o que promete, aquele que hoje diz uma coisa e daqui a dias o contrário...

Há ainda uma mentalidade dependentista na sociedade portuguesa. Parece que as Câmaras e o Estado é que têm de fazer tudo. Não queremos o comunismo, mas depois acabamos por proceder como se vivêssemos num estado comunista. Não há emprego? Culpa do Estado e das Câmaras. Não há empresas? Culpa do Estado e das Câmaras? Há pobres? O Estado e as Câmaras que resolvam...
Precisamos de despertar para a cidadania plena, tanto na reivindicação, na vigilância aos governos, na manifestação dos nossos pontos de vista, como na realização, na iniciativa, na solidariedade...
Quanto menos precisarmos dos políticos, menos dependência deles teremos, mas servidores os tornaremos, menos corrupção existirá...

Às vezes parecemos um povo infantil: só causas concretas e imediatas nos movem. Somos capazes de fazer uma manifestação porque na cantina de uma escola foi encontrada uma lagartixa na sopa, mas nunca nos movimentamos por valores.
Como é que um povo sente uma minoria de privilegiados (gestores, boys e muitos ricos) a ganhar loucuras e não se revolta, não se manifesta quando no mesmo país há reformas que não dão sequer para os medicamentos?

17 comentários:

  1. Uma amiga brasileira, radicada em Portugal, comentou esta postagem nestes termos:

    "Se há 2000 mil anos os romanos já reclamavam, hj entrariam em processo de loucura com esse povo!!!!!"

    A análise de Viriatus, no entanto, serve aos brasileiros também, a despeito de estarmos hoje em uma fase econômica de crescimento e de já termos feito algumas conquistas no campo da cidadania. Mas tudo ainda é embrionário, frágil, a exigir que nos amadureçamos muito mais como povo que deseja ir mais à frente...

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    1. os portugueses sao uma mistura de todas as raças, povos, tradiçoes, religioes. tudo o que é bom e o pior que a humanidade tem somos nós. integramo-nos em qualquer ponto do espaço , lutamos, misturamo-nos e sobrevivemos

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  2. Obrigado pela presença e pelo comentário.
    Felizmente que o Brasil está em progressão. Essa grande nação, com enormes recursos e pontencialidades, merece o seu lugar ao Sol no panorama mundial. Oxalá as pessoas queiram!

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  3. no sec. III a.c. não havia imperadores. Roma era uma república.

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  4. Diocleciano foi imperador romano no período de 284 a 305. Portanto, fins do séc. III e início do século IV.

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  5. perdao , no sec III Roma nem Republica era.... era ainda uma Monarquia( eleita).Os reis eram eleitos...

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  6. Que confusão! Não foi no séc III a.C., mas sim no séc II a.C.! Servius Sulpicius Galba foi um general romano que tinha servido sob Lucius Aemilius Paulus, chamado Macedonicus, na terceira guerra macedónia e depois veio para a Ibéria como pretor, em 151 a.C., onde se destacou pela sua crueldade, assassinando traiçoeiramente um número de lusitanos, que se tinham rendido, sob promessas de posse de terras dadas pelo próprio pretor! Por este crime foi levado a tribunal em 149 a.C., sendo absolvido, graças a suborno! Tornou-se cônsul em 144 a.C! Cícero considerava-o o primeiro dos oradores romanos, mas já estava esquecido pela maioria nos tempos do próprio Cícero! Não escreveu cartas a imperadores nenhuns, porque os que existiam, eram "imperatores" militares, de onde o título de estado se originou, para contornar o termo "rex"! Mais aprumo, minha gente! é por estas e outras, que o país está onde está! É só trafulhices!!!

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  7. Que eu saiba, a frase «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!» é atribuída a Gaio Júlio César e não a um general romano, mas mesmo assim, há quem defenda, que é uma frase posteriormente inventada! Não estou certo...

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    1. eu era pequeno nesses seculos antes de cristo mas já o povo não se deixava governar nem queriam ser governados.o mundo não sei como começou e nem sei como vai acabar mas tudo que nasce morre,isso eu não tenho a menor duvida,mas os povos do mundo todos são ruins de ser controlados.o ser humano a cada vez mais intriguista por isso todos nós sofremos claro tem as elites que vivem sempre muito bem.e não querem saber dos menos sortudos a por ai.

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  8. Nada morre.
    Tudo se transforma.
    Duvida tudo.
    Questiona tudo. (?)

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  9. Eu,filho de pobres trabalhadores do campo e simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote,889 anos),digo simplesmente que estranho que hoje ainda haja lusitanos depois dos romanos terem sido corridos pelos visigodos e êstes pelos berberes e árabes que ocuparam durante mais de 4 séculos o território que mais tarde foi Portugal e aqui deixaram mais de 300 palavras de origem árabe e certamente também DNA e maneira de ser e pensar.E a sultura e civilização «bebida» na bíblico-judaico-cristã Religião,também gerou muita corrupção,cinismo,
    E a cultura e civilização «bebida» na bíblico-judaico-cristã Religião também gerou muita vigarice,trafulhice,hipocrisia, cinismo,velhacaria,pulhice que em diversas escalas sociais desde a Alta Burguesia até à Plebe,afecta a maioria da população. Mas,porém,todavia,contudo.....
    Com populismo e demagogia,
    muita mentira,verdade parece,
    mas em liberdade e «democracia»,
    o Povo tem o Governo que merece.

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  10. É engraçado, como a partir daquela frase relativa ao comportamento dos lusitanos, se gera uma série de comentários colaterais ao tema em questão.
    Em vez de se centrarem no SIGNIFICADO daquela frase, anda-se

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  11. em volta, em redor, moendo e remoendo, como acantece nos debates televisivos

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  12. ou a mesa do café. Típico do português. Um acontecimento que poderia ser debatido e esclarecido em poucos minutos, dá para conversa durante semanas.

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