quinta-feira, 8 de setembro de 2011

À sombra do castanheiro

– Como vão por aí as vindimas, Carlos?

– Mal começaram ainda, Tio Ambrósio! Mas parece que vamos ter boa qualidade e quantidade que baste. Aquela chuva dos últimos dias de Agosto, que foi uma arrelia para os veraneantes, foi oiro para nós. Veio engrossar o bago, embora tenha feito baixar o grau um tudo-
-nada. De qualquer modo, o sol que se seguiu nos primeiros dias de Setembro veio completar uma obra quase perfeita. Vamos ter aí uma pinga digna de lábios sacerdotais...

– Tu já mandas tudo para a Cooperativa...

– Quase tudo, Tio Ambrósio! Fico aí com meia dúzia de cartolas para consumo próprio. Que eu ainda sou daqueles que gostam de saber o que metem na boca. Tudo o que eu puder produzir, quer em legumes, quer em fruta, quer mesmo em carne, ninguém me vê ir ao mercado. O que não posso é criar no tanque do meu quintal nem as sardinhas nem o bacalhau. No resto posso dizer que sou autosuficiente. Até no pão que se come lá em casa, Tio Ambrósio! Muitos deixaram de cultivar milho, ou introduziram aí uma espécie híbrida, que dá maior produção mas não serve para fazer aquela brôa cheirosa que nos abre o apetite quando a vemos sair do forno. Eu ainda semeio duas leiras de milho tradicional e a Joana todas as semanas amassa uma fornada de pão de milho com uma mistura de centeio, que eu próprio também produzo, ceifo, malho e transformo em farinha. E feijão? Nem um quilo compro nas lojas, tal como faz o meu cunhado Acácio. Tanto eu como ele temos produção que chega e sobra para as necessidades da família.

– Mas nem todos têm as oportunidades que tu tens, Carlos!

– Nem oportunidades nem vontade, Tio Ambrósio! Conheço por aí muitos que preferem andar de costa ao alto e que detestam exibir estes calos que a vida me obrigou a fazer nas mãos. Há por aí muita leira inculta que, com um bocadinho de boa vontade, podia dar feijão verde, cebolas e cenouras, para não falar de umas favas que em qualquer canto se dão.

– Eu entendo tua posição, Carlos! Mas não te esqueças que quase oitenta por cento da população do nosso país vive nas cidades, onde até os quintais das casas são cobertos de cimento... E, que eu saiba, no alcatrão não é possível plantar uma couves ou criar, mesmo quando a chuva cai, umas saborosas nabiças. Toda essa gente tem que recorrer ao supermercado se quer comer umas verduras ou fazer um simples caldo verde...

– De duvidosa qualidade, Tio Ambrósio! A maior parte dos legumes e de outros alimentos por aí comercializados são criados à base de fertilizantes artificiais e tratados com produtos químicos que lhes dão uma bonita aparência mas lhe alteram o verdadeiro sabor. E até há quem diga que muitos desses alimentos não são muito recomendáveis para a saúde...

– Sei lá, Carlos! Como tu sabes, eu também ainda vou cultivando o suficiente para o meu sustento. Ainda este ano tive maçãs que me chegaram até à Páscoa.
E a castanha chega-me duma colheita à outra. Umas seco-as, para fazer com elas uma deliciosa sopa, que não consigo degustar outra igual nem nos restaurantes mais requintados. Outras conservo-as congeladas. Se quiseres saborear umas poucas cozidas, tenho aí ainda com fartura... e a nova apanha está à porta.

– Se calhar é por estas e por outras que aqui, pelo menos em matéria de alimentação, não sentimos de modo tão agudo os efeitos da crise. Pelo menos pão e sopa não nos irão faltar. Pão de qualidade e sopa feita com legumes nossos, frescos e criados nos nossos quintais. E olhe que até a nossa canja é diferente, Tio Ambrósio!

– Pois claro, Carlos. Uma boa canja depende da qualidade do galinácio utilizado na sua cozedura. E, neste sector, tu sabes bem que já raramente aparece galinha caseira ou um capão daqueles que antigamente chegavam às mesas dos lavradores, por altura das festas, feitos de cabidela ou mesmo à maneira de chanfana. Hoje é tudo de aviário, e já vais com sorte!

– Quase tudo, Tio Ambrósio! Eu posso dizer-lhe, com conhecimento de causa, que alguns criadores de frangos, de porcos e até de vitelos, sabem ditinguir muito bem entre o que é para introduzir no mercado e aquilo que é para consumir em casa, pela própria família. Tem aí o caso do Quintino, dono de uma pocilga com mais de duzentos suinos, entre criadeiras, leitões e efectivos para abate. Todas as semanas vem uma carrinha carregar umas dezenas de cabeças para o matadouro. Aquilo é gado que, com ração, água e umas vitaminas, se faz em pouco mais de três meses. Mas julga vossemecê que em casa do Quintino os rojões são da carne que vai para o mercado? Nem pensar nisso! Ao lado da pocilga tem ele
sempre dois ou três animais, criados com lavagem, com abóbora e com beterraba, como manda a tradição dos antigos. Chegada a altura, os animais são abatidos, exclusivamente para consumo próprio.
E acredite que uma sopa de ossos, feita pela mulher do Quintino, é uma iguaria de um homem se lamber!

– Fico contente com isso, Carlos! Além de se preservar a tradição, que também passa pela forma como se criam os animais destinados à alimentação humana, zela-se pela saúde dos familiares, porque eu não acredito que as hormonas dadas nos aviários e nas pocilgas não tenham nenhuma interferência na saúde dos consumidores.

– Está a ver os privilégios que nós temos, Tio Ambrósio? Se vivêssemos numa grande cidade, onde iríamos nós merendar uma alheira como estas que aqui trago, feitas pela minha Joana, com produtos criados todos cá pelo rapaz?

– Eu considero-me um homem cheio de sorte, Carlos! Por isso e por muitas outras coisas, que podem ficar para uma próxima ocasião. Agora façamos as honras aos enchidos da Joana! E não te esqueças de lhe agradecer da minha parte!

In O Amigo do Povo

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