sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cardeal Bertone no centro do mal-estar e das lutas pelo poder

A boa notícia? Na semana passada, uma cimeira inédita em Roma estabeleceu um conjunto de normas para lidar com a questão dos abusos sexuais, que tem devastado a Igreja Católica em vários países. Tirando isso, o último mês não foi fácil para Bento XVI, que viu serem divulgadas acusações de corrupção ao mais alto nível no Vaticano, além de uma notícia "delirante" sobre um alegado complô para matar o Papa. Depois do WikiLeaks, o Vaticano teve também as suas leaks, comentou o porta-voz do Vaticano.

Começou tudo com a divulgação, no final de Janeiro, de duas cartas do actual núncio (embaixador) do Vaticano nos Estados Unidos, o arcebispo Carlo Maria Viganò. Nelas, o diplomata, ex-responsável pelo governo interno da Cidade do Vaticano, queixava-se ao Papa e ao secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, de haver corrupção ao mais alto nível no Estado pontifício. A acusação deixava a entender que Bertone, se não era um dos corrompidos, teria pelo menos fechado os olhos a diversos factos graves.

O prestígio de Viganò enquanto governador do Vaticano era reconhecido por todos - foi o responsável pelo saneamento das finanças da Santa Sé. Por isso, a divulgação dos documentos causou um grande mal-estar no Vaticano. O porta-voz, padre jesuíta Federico Lombardi, sem desmentir a existência das cartas, criticou duramente o método utilizado para a divulgação da acusação.

Na semana passada, soube-se que o cardeal Castrillón Hoyos, que ocupou diversos cargos na Cúria, entregara uma nota na qual reproduzia inconfidências do arcebispo de Palermo, cardeal Paolo Romeo. Numa viagem à China, Romeo dissera a empresários italianos com os quais se encontrara que o Papa estaria morto até final deste ano, depreendendo-se a existência de uma conspiração.

"Delirante" foi como Lombardi classificou tal ideia. O porta-voz alinhava pela opinião de que há um ataque violento contra o Vaticano em marcha. "Sinal de que qualquer coisa de importante está em jogo."

Talvez Lombardi tenha razão. Para observadores contactados pelo PÚBLICO e para vaticanistas que têm escrito sobre o assunto, está de facto em causa uma campanha. Mas onde esses observadores divergem do porta-voz é sobre a origem dos casos: eles traduzem uma luta pelo poder e um belicoso marcar de território, tendo já em vista um eventual conclave.

Nem de propósito, numa reunião com os responsáveis dos diferentes organismos da Cúria Romana, que decorreu na semana passada, o cardeal Bertone, visado pelas acusações de Viganò, disse que era necessário mais competência, colaboração mútua, confiança recíproca e mais reserva. Pelos vistos, no entanto, esses desejos pios do secretário de Estado não são tidos em conta por alguns outros responsáveis do Vaticano.

Bertone ganhou a confiança de Bento XVI depois de ter sido o número dois do então cardeal Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé. Mas a sua gestão da Secretaria de Estado é criticada por muitos, que lhe apontam as prolongadas ausências em viagens, os seus discursos frequentes ou as suas promessas de cargos depois não confirmadas pelo Papa. Ou ainda aquilo que muitos consideram intromissões em assuntos que não lhe respeitam - invasões de campo de um apreciador de futebol, escreveu há dias o vaticanista Sandro Magister.

O clima está "mau", caracterizava o cardeal Walter Kasper em entrevista ao Corriere della Sera. E provoca "confusão" nos fiéis. O Papa Bento XVI, respeitado como intelectual, ter-se-à afastado demasiado do governo quotidiano da Igreja? Talvez por perceber esse mal-estar que domina o ambiente Vaticano, o Papa referiu-se anteontem aos riscos do poder da finança e dos meios de comunicação.

"Não se conformar não quer dizer fugir do mundo", disse Bento XVI, referindo-se a um texto de uma carta de São Paulo, que diz que os cristãos não se devem conformar com este mundo. "É, isso sim, uma via para se ser verdadeiramente livre. O poder da finança e o poder dos meios de comunicação ambos necessários e úteis, por vezes correm o risco de dominar o homem."

"Foi um recado claro para dentro", disse ao PÚBLICO um observador no Vaticano. O Papa, aliás, falava aos alunos do Seminário de Roma, futuros padres. "O mundo das finanças já não representa um instrumento para favorecer a vida do homem, mas torna-se um poder que o oprime, que deve ser como que adorado", acrescentou. Para apelar: "Contra este conformismo, sejamos anti-conformistas! O que conta é o ser, não o ter! Não nos sujeitemos" ao poder do dinheiro.      

Fonte:  aqui                                      

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