A penhora do Cristo-Rei e o beijo do cardeal
Ontem Belmiro de Azevedo
disse que se não houvesse salários baixos, não haveria emprego. De imediato foi
contrariado. Em particular, porque com salários baixos as pessoas pouco compram
nas lojas do Sr. Sonae. E em geral, porque como alguns dizem, o consumo é que
cria emprego, não os patrões (o que também não é linearmente verdade, mas não
adianta entrar aqui em pormenores).
Em todo o caso, o que muito me admirou foi os patrões pedirem o aumento do ordenado mínimo. Não sei se a notícia era a mesma, porque desde há uns anos ver notícias na televisão, cá em casa, é coisa quase impossível a horas decentes, mas estava certamente no mesmo bloco temático.
Os patrões acham que o ordenado mínimo é curto. É mais do que curto, é miserável. Mas porque não o aumentam? É preciso o Estado aumentar o ordenado para os patrões o seguirem? Confesso que ver patrões queixarem-se que o Estado devia aumentar o ordenado mínimo foi dos episódios mais surreais dos últimos tempos.
E vai daí, fui ler a
entrevista que Belmiro de Azevedo deu ao “Público” no dia 10 de março. Partilho
agora estas pérolas, com destaque para o beijo do cardeal por o engenheiro ter
evitado a penhora do Cristo-Rei. Também achei piada à sugestão de ler “O Mundo
de Sofia” (da?) para ficar a saber tudo sobre filosofia e fé.
Revista 2 - É um homem católico?
Belmiro de Azevedo -
Sou baptizado. Não fiz a segunda comunhão e agora vejo-me à rasca para rezar
o terço. É o tal problema. Uma vez fui com a minha mulher a Coimbra quando
morreu a irmã Lúcia e fui apanhado na fila e transformaram-me logo em crente.
Não tenho nada contra. Esta história dos milagres não me incomoda nada. Quem
acredita acredita.
Até há bem pouco tempo a
Sonae era a única entidade a ter ganho uns milhões com o negócio em
televisão?
... TVI?
De alguma maneira
contratámos alguém, o José Eduardo Moniz [ex-director geral], que acabou por vir
a ser, provavelmente, a pessoa mais importante da TVI dos últimos anos. Ele não
tinha emprego. Conhecia-o de quando estudámos a entrada [da Sonae] na televisão.
E, então surgiu aquela hipótese, pois a Igreja estava com alguns
problemas.
Estamos em 1998 [aquisição e venda de créditos da TVI pela Sonae Tecnologias]?
Sim. Até levei um beijo na
testa do cardeal-patriarca que estava no Centro Cultural de Belém. Fui ter com o
João Salgueiro [presidente da CGD] para saber se a CGD ia executar a penhora que
estava a garantir a dívida da Igreja. Sabem o que estava penhorado? O Cristo-Rei
e o Santuário de Fátima. A Sonae assumiu a posição na TVI e assegurou que ia
estudar uma solução que possibilitasse à CGD não fazer a penhora. As
responsabilidades foram transferidas para nós. Estivemos lá mais ou menos seis
meses. O Paes do Amaral arranjou o dinheiro, levantou-o e pagou
tudo.
(…)
Como é que olha para a
decisão de Bento XVI de resignar?
O Papa de quem mais gostei
foi o João Paulo II. Sabe porquê? Porque era jogador de futebol. É outra louça.
Uma vida frugal. Nesse aspecto senti-me mais próximo
dele.
Compreende a decisão de Bento XVI?
Já devia ter feito há mais
tempo. Uma vez, numa entrevista, na televisão, o bispo de Setúbal apertou-me:
"Mas você tem ou não tem fé?" Respondi-lhe: "Se calhar a minha fé não é a sua
definição de fé." Ter fé é diferente de se saber que o mundo vai ser diferente e
que devo adaptar-me a essa mudança. Tenho fé de que o mundo vai ser sempre
melhor. Agora, quem é o artista que está por detrás, quem fez o Universo...
Devem ler o livro "O Mundo da Sofia" [Jostein Gaarder] e ficam a saber tudo
sobre filosofia e sobre fé. A ideia de que existe um ser humano que concentra
todos os poderes e insistir que um indivíduo, quando se sabe que não há nenhum
corpo humano que não fique cada vez mais debilitado à passagem do tempo, deve
ser Papa até ao fim, é uma coisa tola.
A Igreja deve adaptar-se aos novos tempos?
Há medida que a idade
avança, até podemos ficar mais sábios, mas somos sábios mais ignorantes.
Portanto, o Papa tomou a decisão correcta e a minha convicção é que daqui para a
frente não voltará a haver cargos vitalícios. Foi esta, aliás, a decisão que
tomei quando disse que não queria ter lugares executivos no grupo com mais de 70
anos. Vou fazer outras coisas que podem ser mais úteis.
Fonte: aqui
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