sábado, 23 de março de 2013

O canal Sócrates

O regresso de José Sócrates prova que, como diz o povo, o criminoso volta sempre ao local do crime.
O convite a José Sócrates para comentador da RTP pode ter uma de três finalidades. Em primeiro lugar, se levarmos em conta o que disse a oposição sobre outros episódios recentes, como o despedimento do diretor de Informação, Nuno Santos, trata-se de uma jogada política de Miguel Relvas, que detém a tutela da televisão do Estado.
Neste caso, a finalidade seria tentar entalar António José Seguro. Com alguma razão, o atual líder do PS tem procurado fugir como o diabo da cruz da pesada herança que José Sócrates deixou ao partido e ao País.
Será uma pura maldade obrigar Seguro a ter de assistir todas as semanas às preleções do ex-primeiro-ministro socialista na RTP. Esta versão peca, porém, por atribuir a Relvas dotes políticos maquiavélicos que o ministro manifestamente não tem.
A segunda finalidade é mais prosaica: o regresso de José Sócrates prova que, como diz o povo, o criminoso volta sempre ao local do crime. A verdade é que, apesar dos supostos estudos filosóficos em Paris, o ex-líder do PS manteve sempre a ligação direta ao seu grupo de fiéis em Portugal.
A última vez que foi comentador na RTP, na altura com Santana Lopes, isso serviu-lhe de rampa de lançamento para se candidatar a primeiro-ministro. Neste cenário, o ex-líder do PS tentará agora reabilitar a imagem, porque ainda sonha com a possibilidade de ser Presidente da República em 2016.
A terceira hipótese é simples: a RTP pretende concorrer com os privados na guerra de audiências do comentário político. Sócrates, por ser odiado, mas também venerado por alguns, pode aumentar o número de telespectadores do canal público.
Falta saber se a televisão do Estado deve usar este tipo de argumentos, uma vez que é paga pelos contribuintes, que tão depauperados ficaram com os seis anos de governo do putativo comentador. Seja como for, à RTP exige--se serviço público. Espera-se, por isso, que Sócrates responda a algumas perguntas. A começar pela razão por que negociou com a troika o pagamento de 40 mil milhões de euros até 2021, pelos empréstimos contraídos, sendo que quase 10 mil milhões terão de ser reembolsados já em 2016. Ao contrário do que o próprio disse em Paris, as dívidas têm de ser pagas. Por todos nós.
Paulo Pinto Mascarenhas, Jornalista, aqui

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