sábado, 6 de abril de 2013

Carta de uma alentejana

 Ponho-te estas poucas linhas que é para saberes que tôu  viva.
Escrevo devagar porque sei que não gostas de ler depressa. Se  receberes esta  carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu  mando outra.
O tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a  1 km de casa. Por isso, mudámo-nos pra mais longe.
Sobre o casaco que  querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa
dos botões de ferro que pesam muito. Assim, arranquei  os botões e meti-os no  bolso. Quando chegar aí prega-os de novo.
No outro dia, houve uma  explosão na botija de gás aqui na cozinha. O pai e  eu fomos atirados pelo ar  e caímos fora de casa. Que emoção: foi a primeira  vez em muitos anos que o tê  pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi  atropelado e tiveram de lhe cortar  o rabo, por isso toma cuidado quando  atravessares a rua.
Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou  na minha boca um tubo  de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem  falar. O tê Pai  ofereceu-se para comprar o tubo.
Tua irmã Maria vai  ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina.  Portanto, nã sei se
vais ser tio ou tia.
O tê mano Antóino deu-me hoje muito trabalho. Fechou  o carro e deixou as  chaves lá dentro. Tive de ir a casa, pegar a suplente  para a abrir. Por  sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota
estava em baixo.
Se vires a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembranças.  Se nã a vires, nã  digas nada.
Tua Mãe Mariana

PS: Era para  te mandar os 100 euros que me pediste, mas quando me lembrei já  tinha fechado
o  envelope.

(Enviado por email)

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