quinta-feira, 23 de maio de 2013

Um cardeal orgânico

Há dois tipos de intelectuais: os orgânicos e os inorgânicos. D. Manuel Clemente é da primeira categoria. O que significa que o ainda bispo do Porto consegue dar conteúdo prático às ideias que organiza e transmite conforme consta de dezenas de livros publicados. O Papa Francisco, que não se cansa de marcar todas as suas ações com um cunho social e político de uma nova evangelização, vai poder contar com mais um cardeal conhecedor dos novos paradigmas culturais e civilizacionais que estão a abalar as sociedades, incluindo as do modelo social da Europa.
Um dos prazeres que a minha função me permitiu foi o de conversar com D. Manuel Clemente, que aceitou pertencer à equipa de conselheiros editoriais do JN.
Não é fácil encontrar quem tanto saiba ouvir. Essa dimensão é, desde logo, o primeiro dos valores que ele vai acrescentar aos debates no Vaticano. Também não é fácil ser cidadão do Porto de corpo inteiro sem ter aqui nascido. Ele foi. E essa circunstância é a revelação mais intensa do seu método orgânico de ir ao encontro das pessoas e das suas coisinhas.
"Tempo para uma nova evangelização", o seu mais recente livro, é cristalino sobre essa capacidade de ouvir, de analisar e de fazer a síntese para a ação. No caso, convocando-nos para reatar as relações de proximidade e de vida em comunidade alienadas aos bezerros de ouro do consumismo e da acumulação do lucro sem partilha social a que o Papa Francisco se referiu esta semana, em vésperas de receber Angela Merckel, a todo-poderosa chanceler alemã.
Quando chegou ao Porto, em 2007, D. Manuel Clemente trazia consigo a marca do intelectual profundo conhecedor em História e essa imagem não tardou em acentuar-se dois anos depois com a atribuição do Prémio Pessoa. Mas como todos os que por aqui passam não chega ser inteligente e D. Manuel Clemente teve de viver e pregar à sombra tutelar do inteligente mas também corajoso D. António Ferreira Gomes, o bispo que Salazar tanto temeu.
Sendo estes tempos felizmente diversos dos da ditadura, mas persistindo apesar de intensos focos de injustiça e de falta de solidariedade, incluindo os da discriminação territorial, podemos dizer, nós, os portuenses, que D. Manuel Clemente esteve à altura do bispo corajoso.
Se há coisa de que a Igreja católica, apostólica e romana não necessita de todo é de padres, bispos ou cardeais que cedam à tentação de administrar o reino dos pobres em vez de combater as causas das exclusões.
Ora, pelo que disse e pelo que fez no Porto e pelo Porto, D. Manuel Clemente é um valor seguro para combater esses bezerros de ouro de que nos tem falado o Papa Francisco na sua cruzada contra a ditadura dos mercados.
Manuel Tavares, aqui

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