quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"Mas o povo sempre fala, Tio Ambrósio!"


– Parece que vens um bocado apressado, Carlos! Tem calma, porque as pressas são, além de tudo o mais, a causa de muitas doenças. Anda por aí muita gente com a tensão arterial elevada, não por comer isto ou aquilo, mas por aquilo a que os especialistas agora chamam de "stress", que é uma outra maneira, mais pomposa, de dizer "andar sempre preocupado e apressado".
– Por acaso, hoje, até tenho o tempo contado, Tio Ambrósio! Desculpe lá, mas eu tenho que manter, a todo o custo, a paz na minha família, nomeadamente entre mim e a Joana…
– A Joana é a melhor pessoa do mundo, Carlos!
– Como todos os seres humanos, tem os seus momentos! E eu já lhe tenho dito a si que dou mil graças a Deus pela mulher que colocou no meu caminho. Mas eu procuro corresponder aos dons que, através dela, o Senhor me fez chegar. E o certo é que ela hoje me pediu para eu não me demorar muito, porque quer ainda dar um salto ao cemitério para botar umas flores na campa dos pais. E eu até lhe perguntei por que razão não ia ela sozinha. Não me respondeu
palavra, mas olhou-me cá duma forma que eu não tive outro remédio senão pedir-lhe desculpa e garantir-lhe que, antes das três estaria em casa para a acompanhar nesta piedosa peregrinação de saudade.
– E não deves faltar à tua palavra, Carlos! Mas ainda pouco passa da uma…
– Mas os dias agora são pequenos, Tio Ambrósio! Mal um homem se descuida e já a noite começa a envolver tudo de trevas. Eu nem sei para que serve esta coisa de andarem com a mudança da hora. Mas, enfim! Os entendidos decidem, e nós não temos outro remédio que não seja o de baixarmos as orelhas.
– Não é bem assim, Carlos! Num regime democrático, os cidadãos têm todo o direito de emitirem a sua opinião, mesmo que seja para discordarem das enormes asneiras que as chefias cometem.
– E que importa a gente falar, Tio Ambrósio? Eles, quando chegam ao poleiro, não ligam nenhuma àquilo que a gente do povo reivindica. Pelo menos durante os primeiros três anos de mandato, entra-lhes por um ouvido e sai-lhes pelo outro a grande velocidade. De resto nós até já estamos habituados, de tal modo que me parece uma toleima estarmos sempre a repisar no mesmo tema. Eles são felizes assim…deixá-los ser! Como diz o nosso povo, quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita…
– Nem com uma operação à coluna vertebral!
– E o Tio Ambrósio hoje não vai ao cemitério? Se quiser, eu tenho muito gosto que vá na minha companhia e da Joana…
– Já lá fui, Carlos! Aliás, eu passo por lá muitas vezes, parando sempre largos momentos, sempre com duas finalidades. A primeira é a de fazer a minha meditação sobre a vida terrena que, mesmo sendo longa como a minha, é sempre mais breve do que todos desejávamos. O tempo das ilusões é muito curto e passageiro, e tudo correria melhor nas nossas relações pessoais com o nosso próximo, se tivéssemos permanentemente em conta esta realidade a que ninguém consegue subtrair-se.
– Essa é a primeira finalidade. E a segunda?
– Evidentemente que a segunda é fazer uma piedosa oração, pedindo a Deus que tenha no Paraíso todos aqueles de quem eu recordo os nomes (e são tantos!), e mesmo dos outros que não tiveram quem lhes mandasse gravar uma pequena lápide em sua memória. Tão importantes são uns como os outros, Carlos! E eu estou mais que convencido que não são as lápides e muito menos os molhos de flores que alcançam o refrigério a nenhum defunto…
– O Tio Ambrósio não está muito para flores, pois não?
– Não tenho nada contra, Carlos! Mas penso que é muito mais cristão e evangélico fazer uma oração por aqueles que partiram antes de nós marcados pelo sinal da fé, do que colocar-lhes sobre a sepultura um ramo de flores, por mais bonitas que estas sejam. Eu, na sepultura dos meus antepassados, deixei apenas uma rosa!
– Ainda há-de haver quem o critique…
– Com essas posso eu bem, Carlos! De resto, as flores e os carinhos para com os nossos entes queridos devem-lhes ser dados durante a vida presente. Os braçados de flores não servem absolutamente nada para a vida eterna. As orações, essas sim! A Sagrada Escritura afirma que é um piedoso dever rezar pelos defuntos, "para que as suas boas obras os acompanhem".
– Eu também penso mais ou menos como o Tio Ambrósio, até porque sempre ouvi dizer que o discípulo não deve querer ser mais do que o mestre. Mas quem é que vai convencer a Joana duma coisa dessas? Começa logo a dizer-me que a irmã, a minha cunhada Ermelinda, não se iria calar o ano inteiro…
– Não há razão menos importante do que essa, Carlos! Se eu vou fazer uma coisa só para que os outros não falem de mim, onde é que está a minha personalidade?
– Mas o povo sempre fala, Tio Ambrósio!
– Que fale! Fazer seja o que for só para dar nas vistas, isso é que não é comigo! Eu nem queria referir uma coisa destas, Carlos! Mas posso dizer-te que fico verdadeiramente magoado que alguns filhos que, durante a vida não cumpriram o sagrado dever de honrar o pai e a mãe, não lhes prestando a devida assistência na sua velhice, depois da morte lhes atulhem as sepulturas com braçados de flores, algumas das mais caras que existem no mercado. Esta situação, que se repete a cada passo, deixa-me realmente triste. E muitos defuntos, se voltassem por momentos a esta vida, tenho a certeza de que haveriam de pegar numa vassoira e varrer da sua última morada terrena todo o lixo que ali depositam, sobretudo quando em vida não receberam nenhum apoio, nenhum carinho e nenhuma demonstração de amor. Alguns filhos, depois dos tratos que, durante a vida, deram a seus pais, deviam ter vergonha de agora lhe irem enfeitar as sepulturas. Mas não é este o teu caso, Carlos! Por isso vai lá acompanhar a Joana nesse piedoso acto!
In O Amigo do Povo

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