terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Aristocracias

No caso do nosso, são os socialistas, no sentido de membros do Partido Socialista. Os socialistas adquiriram esse estatuto graças a terem estado "historicamente correctos" duas vezes: quando lutaram contra o fascismo, antes do 25 de Abril, e quando lutaram contra o comunismo, logo depois. O resto da esquerda não tem os segundos galões, a direita nunca se libertou bem da sombra do salazarismo. O problema das aristocracias é a crença na sua superioridade natural. É por isto que, quando algum caso judicial envolve socialistas, se cria logo um ambiente paranóide e fervem as acusações de perseguição. Se o caso envolve não-socialistas, são logo culpados muito antes do julgamento. Se envolve socialistas, são vítimas inermes de espantosas caçadas políticas. Foi sempre assim, do caso "Casa Pia" aos vários "casos Sócrates" (incluindo o actual), passando pelo caso "Face Oculta". No corrente "caso Sócrates", o folclore atingiu níveis de verdadeira psicose. A "narrativa" em construção faz de Sócrates uma espécie de preso político: a troca epistolar do cárcere com Mário Soares é, a esse respeito, notável. Tudo serve de pretexto: a entrevista que não pôde dar, as encomendas que não pôde receber, a "defesa da imagem" das visitas que recebeu ou não recebeu. Tudo é um escândalo. Mas depois, vai-se a ver, e está tudo na lei. Inúmeras pessoas passaram pelas mesmas situações, sem que se desse idêntico rebentamento de indignação. O problema deste comportamento de fidalgote mimado é a degradação daquilo por que os próprios socialistas lutaram. Estabelecer paralelos entre o Ministério Público e a PIDE e comparar Sócrates com quem foi preso no salazarismo é brincar com quem teve efectivamente de lidar com a PIDE e o salazarismo. A PIDE era um instrumento para dificultar a luta pela democracia. O actual sistema de justiça, apesar dos defeitos, é um instrumento para manter a democracia. Não perceber isto é não merecer a democracia.
Luciano Amaral, Correio da manhã, 05.01.2015

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