segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ir a Roma e ver os sem-abrigo

É ditado popular que nem todos cumprem: ir a Roma e ver o Papa. Mas é impossível não ver os sem-abrigo, nos quais quase tropeçamos nas arcadas de edifícios do Vaticano e da Cidade Eterna. São muitos, tapados por cobertores, que escondem o rosto e a miséria. De dia, vê-se que esses muitos são também imigrantes que procuraram na Europa a vida que a guerra, a fome e a pobreza lhes roubaram nos seus países de origem.
Estamos no país de Lampedusa, a ilha-cemitério de imigrantes que arriscam a travessia do Mediterrâneo, onde o Papa chegou primeiro do que qualquer responsável europeu. Estamos na cidade onde Francisco resolveu instalar duches nas colunatas vaticanas para que os sem-teto de Roma possam tomar banho. Parece pouco, é pouco: uma pequena gota de água que se gasta na dignificação de homens e mulheres que vivem nas ruas. Mas é um gesto que dignifica mais do que muitas políticas desta Europa-fortaleza. Que tem em conta homens e mulheres, que não se perde em números, não atira só esses números para a mesa em qualquer debate político, para justificar as opções de governos que preferem os mercados às pessoas.
É um gesto de um homem que já na sua Buenos Aires natal ia ao encontro dos pobres, dos que estão na margem, dos que se escondem debaixo de cobertores. E que em Roma já repetiu este gesto. É esse também o discurso que Francisco quer recentrar na prática de uma Igreja - que tem na opção preferencial pelos pobres a chave do seu magistério - ao pedir aos cardeais que abandonem os seus paços e se deixem inquietar pelos marginalizados. Entre estes, o Papa recordou os desempregados. Muitos deles, por essa Europa fora, dormem na próxima noite ao relento e ao frio. Sem emprego, caíram nas ruas. Com troikas, desesperam na pobreza. Talvez os governantes europeus devessem vir mais a Roma, mas não para ver o Papa.
MIGUEL MARUJO, in DN, hoje

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