sexta-feira, 3 de abril de 2015

Estão a matar cristãos, mas não se ouve um pio


 Um rapazola palestiniano apanha com uma bala de borracha israelita e, de imediato, os média europeus entram num frenesim de indignação. O mundo inteiro fica suspenso naquela nódoa negra. Milhares e milhares de cristãos são assassinados ou expulsos de suas casas por muçulmanos e, de imediato, essas notícias são remetidas para cantinhos de página e o mercado de indignação não abre a sua mui delicada boca, ou melhor, abre a boca para dizer que "a maioria dos muçulmanos não é violenta" ou "não podemos cair na islamofobia". Há qualquer coisa de errado aqui. Os cristãos deviam começar a pôr bombas em mesquitas ou atacar revistas satíricas com Ak-47. Aí sim, receberiam um pouco de atenção da compreensiva indústria da indignação.
Em quase 2000 anos, é a primeira vez que não há cristãos em Mossul, a grande cidade do norte do Iraque, invadida e pilhada pelo ISIS, que provavelmente já queimou documentos cristãos do século I
Na Nigéria, os cristãos adultos têm sido estorricados em igrejas e as crianças têm servido de escravas sexuais; no Egito, os coptas sofrem violência diária debaixo da complacência das autoridades; no Paquistão, a par do críquete, existe um desporto nacional chamado queimar ou explodir a igreja alheia; na Síria e Iraque, centenas de milhares de cristãos sofreram ou ainda sofrem debaixo do califado do Isis. Só no Iraque, 125 mil cristãos fugiram para a zona segura do Curdistão. O número assusta, mas a verdadeira sensação de apocalipse surge quando sabemos que as comunidades cristãs do Iraque (caldeus, por exemplo) deixaram o Iraque pela primeira vez em 2000 anos. Estas pessoas são herdeiras do cristianismo original, ainda têm monges e padres que falam aramaico, a língua de Jesus Cristo. É como se fossem a personificação da nossa Era. Mas não se ouve um pio, não há hashtags fofas para estas pessoas. Em quase 2000 anos, é a primeira vez que não há cristãos em Mossul, a grande cidade do norte do Iraque, invadida e pilhada pelo Isis, que provavelmente já queimou documentos cristãos do século I. Livros do tempo de São Paulo estão a ser transformados em cinza, mas não se ouve um pio.
Em redor de Mossul, todos os cristãos de todas as denominações (arménia, assíria, grega, síria) não tiveram outro caminho: fugir para o Curdistão ou Jordânia. Ficar na cidade significaria morte, tortura, conversão à força, perder as filhas para a escravatura sexual disfarçada de casamento pio. Parece que os capangas do Isis não querem esperar pelas 72 virgens e não têm problemas em casar com meninas de dez anos. Mas não se ouve um pio. Se querem respeito, os cristãos têm mesmo de se converter ao islão. Só assim serão vítimas aceitáveis.
Henrique Raposo
Expresso online, 2015.04.01

Sem comentários:

Enviar um comentário