segunda-feira, 4 de maio de 2015

Douro singular


Há alguns anos descobri, e li num trago, um livro extraordinário acerca do vinho do Porto e do Marquês de Pombal. A sua autora é Susan Schneider e ajuda-nos a perceber "a dependência e subdesenvolvimento em Portugal no século XVIII". Para aqueles que gostam de analisar as taxas neste Portugal contemporâneo, incluindo as novas taxas, para mim sem sentido, nos aeroportos, recordo que em razão do valor económico do vinho do Porto havia um conjunto de taxas por pipas e que passavam pela companhia vinícola do Alto Douro. Entre aquelas taxas estavam os subsídios "literário" e "militar", para além da "sisa da Câmara". Neste livro extraordinário aprendi que devido à eficiência dos métodos - sempre a eficiência! - "o Alto Douro subsidiou a educação portuguesa e, entre 1777 e 1782, os recebimentos provenientes dessa região representaram 20,8% da taxa da educação coletada em todo o país. Lisboa, com uma população muito maior, contribuiu apenas com 2,8% da totalidade."
Mas, e apesar das taxas - ou em razão delas... - o Douro é um espaço único. E o Douro, o rio Douro, uma imensa dificuldade. Só entre o Pinhão e a Régua, e como se aprende a partir de um interessante artigo com o sugestivo nome de "corações aflitos" - de Luís Miguel Duarte e Amândio Morais Barros - "os viajantes enfrentavam dezoito perigosos obstáculos até à desembocadura do rio Tedo, que levava a Moimenta da Beira"!
Estas dificuldades da natureza moldaram o homem duriense. Aqui sente-se a verdade de sermos "nós e as nossas circunstâncias". E apesar de tudo, este Douro aqui está. Património da Humanidade. Lindo e atrativo, com novas potencialidades e velhos humores, hospitaleiro e livre. Este Douro de hoje é de todo o Mundo e é, cada vez mais, um singular promotor de Portugal. Este Douro com as suas quintas e os seus solares, com a sua gastronomia e os seus lagares, com as suas quintas, os seus vinhos e os seus azeites, é uma das pérolas deste nosso Portugal. Este Douro com as adegas concebidas por Siza Vieira - como a da Quinta do Portal - e com as suas barragens que quase domesticaram o rio é um local para múltiplas imaginações e para constantes recriações. As suas vinhas, os seus socalcos, a sua luz, os seus nevoeiros, as suas aldeias, as suas estradas - as velhas e as novas! - as suas comunidades, as suas gentes, são exemplos de vida e de esforço, de abnegação e de gentileza, de grandeza e de qualidade, de perseverança e, também, de juventude. Permitam-me que, como mero exemplo, refira o "chefe" - e como estão na moda os "chefes" na nova gastronomia portuguesa! - Milton Ferreira, que a partir daquela Quinta sabe mostrar e combinar os sabores do Douro e de Portugal. E sabe, também, que as "velhas taxas" não podem ser esquecidas por todos aqueles que, hoje, ou criam outras ou distribuem os "novos e europeus subsídios"!
Fernando Seara, in DN de hoje

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