sexta-feira, 26 de junho de 2015

Contracrítica à encíclica Laudato Si’


À pergunta d’ O Diabo, de 23 de junho, “Como comenta a encíclica papal sobre o Ambiente?”, João Tito de Morais, professor de Direito na Universidade Lusófona, responde, entre outras, com palavras como as seguintes: “… é com enorme desconforto que afirmo que este [o Papa Francisco] comete mais um trágico erro político e comunicacional”. E aduz três argumentos que parecem sensatos: não é para tratar destes assuntos que existe a Igreja (e muito menos o Papa); além de não ter autoridade em matéria científica e política, “não possui competência para se pronunciar sobre o assunto”; ainda que a tivesse, “este não é um tema que nós, católicos, sentimos urgência em ouvi-lo pronunciar”; e “porque acaba por comprometer política e mediaticamente a Igreja numa posição para a qual não há nenhuma evidência científica que a suporte”.

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Ora, apesar da aparente sensatez, a posição deste homem que ensina Direito e presumivelmente católico (nós, católicos) revela distração em relação ao ser, missão e história da Igreja.

Primeiro, a Igreja é sinal e fator da comunhão dos homens entre si, com Deus e com o mundo; testemunha da comunhão misteriosa entre Pai, Filho e Espírito Santo; instrumento da salvação oferecida a todos e a cada um; corpo de Cristo e povo de Deus. Por isso, marcada pela unidade na diversidade. Ora, se quer ser portadora de uma mensagem espiritual para os homens – e esta constitui a sua missão fundamental – tem de os conhecer e a acompanhar nos seus dramas e sofrimentos, anseios e preocupações, tal como nas alegrias e satisfações, progresso e bem-estar. Sendo assim, permito-me perguntar que temas e assuntos possam ficar fora do tratamento discursivo da Igreja e do Papa. A atitude e o discurso humanista de Terêncio “homo sum ac nil humani alienum a me puto” (sou homem: e nada do que é humano julgo estranho a mim) assumidos pela Igreja fazem-lhe dizer:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história. (GS,1).

 

Por outro lado, a gestão dos recursos da Terra, a condução política dos povos, a práxis económica e social, os fenómenos bélicos, as atitudes e comportamentos das pessoas, a não observância do preceito fundamental do destino universal dos bens, a gestão da propriedade (negligente ou avara, egoísta e despida da sua função social) e o ataque indiscriminado e injustificado à sua privacidade – tudo isto levanta problemas éticos e atropelos tanto ao código sinaítico como ao código das bem-aventuranças. Sendo assim, embora a Igreja não tenha um projeto próprio de governo, de organização social, de sistema económico ou não seja uma academia nem mesmo uma ONG, não pode deixar de intervir e pronunciar-se sobre as diversas matérias que preocupam e afligem os homens ou em que eles se põem a morderem-se e a matarem-se uns aos outros (cf Gl 5,15) – tenha ou não a sua intervenção ou pronunciamento conotação política, social ou económica, científica ou ética.

Se efetivamente a Igreja, através dos seus servidores, se coloca a pregar o Evangelho junto de populações que não dispõem de condições de vida condigna, ela não pode deixar de socorrer os doentes, de dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, de vestir os nus, de dar pousada aos peregrinos, de assistir aos enfermos e presos (vd Mt 25,34-36.37-40.42-45). Se não há água potável, deve promover a abertura de poços; se não há estruturas de saúde e de educação, deve erigir hospitais e postos sanitários e fundar escolas; e analogamente rasgar caminhos, construir pontes, construir habitações, etc. Isto, porque não se prega a estômagos vazios, não se evangeliza sem zelar pela promoção humana e social. Ademais, não basta prestar assistência pontual na falta de recursos ou em situação de catástrofe natural ou provocada pelas mãos do homem (terramoto, tufão, guerra, má experiência técnica e/ou científica, peste, epidemia, incêndio, etc.), mas, na lógica de que mais vale ensinar a pescar que dar o peixe, deve ajudar a criar estruturas e acompanhar a sua organização e seu funcionamento enquanto necessário. Tudo isto implica a mobilização de conhecimentos científicos e tecnológicos, recursos económicos e sociais, meios artesanais e técnicos, atitudes amadoras e profissionais. E, se os meios e recursos não existem ou não existem em suficiência, cabe à Igreja ajudar a inventá-los e a disponibilizá-los. Faça-se a modos de parêntesis a clarificação de que a Igreja não são exclusivamente os padres, bispos e o Papa (estes são-no em menor número); o grande número dos membros da Igreja são os leigos, os religiosos e religiosas (estes só por serem religiosos não são clérigos). Ora, admitindo que só os leigos se empenhariam nas atividades de promoção humana e social, económica e científica, cultural e artística, antropológica e política, não seria decente que o seu bispo e o seu Papa se revelassem indiferentes à sua ação e não fizessem o discurso de animação e até de orientação. Depois, política não pode confundir-se restritivamente com a política partidária enquanto projeto de conquista e manutenção do poder ou oposição sistemática a ele.

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Seria lamentável que os católicos não sentissem necessário, conveniente ou oportuno que o Papa ou os bispos falassem de temas atinentes à falta de ética da parte daqueles poucos que, mercê da ambição desmedida, se apoderam avara e hedonisticamente dos recursos da Terra, espezinhando, escravizando e explorando a seu bel-prazer os pobres, as mulheres, as crianças (a economia que mata), fazem do jogo financeiro imoral e destruidor o eixo em torno do qual gravita o poder político e o poder económico. Não creio que a maior parte dos católicos se sinta não incomodada com as situações que o Papa denuncia com clareza e firmeza. E aqui, entra o problema da ecologia, integrado no sistema da ecoeconomia. É preciso que os homens não perturbem desnecessariamente o equilíbrio dos elementos existentes na Terra, seja a nível do ar, da terra e do mar, seja a nível da água, do fogo e dos resíduos, seja ao nível das energias fósseis, das florestas, dos prados e das reservas naturais, dos minérios, rochas, espécies vegetais e animais, distribuição da população. Não digam que a dizimação de populações, as ondas de refugiados, a exploração de migrantes, as guerras, os atentados às condições climatéricas não merecem uma palavra nítida, firme e solidária da autoridade da Igreja. Ora, tal palavra só fica robustecida se vier fundada na ciência disponível.

Também é preciso anotar que a ciência não contém a explicação de tudo; precisamos de outros modos de conhecimento, designadamente a filosofia e a teologia. Também a ciência no estado atual não está chegada a soluções científicas últimas e definitivas, mas é temerário não reconhecer os esforços científicos e tecnológicos e não utilizar a ciência disponível e os recursos técnicos e tecnológicos disponibilizados ao serviço do homem e da comunidade.

Também a comunicação tem de ter em linha de conta a dimensão tipicamente humana e, nesse sentido, sem cair em automatismos e servidões psicológicas e socais, colocar ao seu serviço todos os instrumentos e meios que a inteligência humana colocou ao dispor do homem e da sociedade. Neste sentido, a Igreja e os Pontífices não deixaram nem deixam os créditos comunicacionais por mãos alheias. E o estilo do Papa Francisco tem-se revelado peculiar, quer nos momentos mais formais quer nas realizações mais coloquiais. Pena é que, por vezes, alguns dos ouvintes se fixem apalermadamente em pormenores de que possam não gostar. Mas a preocupação do Pontífice tem sido a profundidade, a clareza, a eficácia. E estas, por vezes, requerem a solenidade; outras vezes, postulam a informalidade.

Não podemos outrossim esquecer que o Papa, enquanto Chefe de Estado, tem ele, com seus serviços (e a bem da Humanidade), responsabilidades protocolares e diplomáticas (e porque não políticas?) junto dos outros Estados.

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Quanto à encíclica Laudato Si’, diga-se que o Papa parte da atitude franciscana de contemplação da Natureza enquanto criatura de Deus e espelho da glória e ternura do Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor e induz a postura de comunhão fraterna com a Natureza. Mergulha na missão que o Criador confiou ao homem de dominar sobre a terra, ar e mar, com as suas pedras, plantas e animais (e não sobre o outro homem), não como dono, mas como administrador e guarda. E esta missão de guarda estende-se à guarda sadia e solidária do irmão (cf Gn 1,28-29; 4,9-10).

E a encíclica trata expressamente da ecologia, mas na sua perspetiva totalizante, integral e integradora. Tem em conta as diversas reflexões teológicas e/ou filosóficas e mobiliza os conhecimentos científicos disponíveis (que nem todos aceitam por ferirem os seus interesses). Depois, o documento põe em paralelo os atropelos económicos e os atropelos ecológicos (quais deles os mais graves!), propondo a proporcional responsabilização humana, sobretudo para com os gravemente lesados pela ganância de outrem. E a perspetiva de fundo é a decorrente da sadia visão teológica da realidade e do olhar que Deus tem do mundo e da posição responsável do homem sobre a Terra.

Finalmente, o Papa lança o apelo à mudança de paradigma em relação à Casa Comum, uma nova atitude, uma outra perspetiva educacional e enuncia a sugestão de algumas medidas, terminando com duas propostas de oração. Não digam que fica mal ao Papa rezar e fazer rezar!

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No atinente à História da Igreja (de luzes e sombras) e à intervenção da Igreja na História, sugiro, sem mais delongas:

. A consulta do site do Vaticano. A Santa Sé tem seis academias – a Academia das Ciências Sociais; a Academia para a Vida; a Academia S. Tomás de Aquino; a Academia de Teologia; a Academia Mariana Internacional; a Academia de Belas Artes; a Academia Romana de Arqueologia; a Academia Cultorum Matyrum; a Academia Eclesiástica; e a Pontifícia Academia da Latinidade. Tem dois comités: o das Ciências Históricas; e o dos Congressos Eucarísticos Internacionais. Dos Pontifícios Conselhos, destaco o da Cultura e o das Comunicações Sociais. Não se esqueçam: a Biblioteca, a Tipografia Poliglota, os museus, os arquivos, o Osservatore Romano, a Sala de Imprensa, a Rádio Vaticano, o Centro Televisivo, o Centro Internet e as diversas Universidades (pontifícias e católicas) por todo o mundo.

. A leitura ou a releitura do livro O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica, de Thomas E. Woods, Jr (2009, Aletheia Editores, trad. Maria José Figueiredo).

. A Leitura ou a releitura de uma obra atualizada de História da Igreja, vg História da Igreja, 3 vol, de Carlos Verdete (2009, Lisboa: Paulus).

2015.06.25 – Louro de Carvalho


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