segunda-feira, 6 de julho de 2015

Jesus e a política

1 Em 2011, realizei um colóquio internacional sobre "Quem foi/Quem é Jesus Cristo?", com especialistas de vários horizontes do saber. Paulo Rangel foi um dos conferencistas. Ele acaba de publicar o texto, numa edição apoiada pelo Grupo do Partido Popular Europeu, com tradução para francês e inglês e uma belíssima reprodução da Pietà (segundo Delacroix) de Van Gogh, 1889: Jesus e a Política. Reflexões de Um Mau Samaritano. Para a apresentação, convidou o ex--presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, agnóstico, e o filho deste, João Gama, católico, professor de Direito Fiscal na Universidade Católica. O Salão Árabe do Palácio da Bolsa foi pequeno para acolher centenas de pessoas, numa grande noite cultural sobre Jesus.

2 Qual é a tese de Paulo Rangel, que se define a si mesmo como "cristão de cultura católica" "e não simplesmente um católico"? Em Jesus, não há "a ousadia de um programa temporal e o risco de um projecto social ou societal", "pensamento ou ensinamento político". Porque "o ensinamento de Jesus aspira à totalidade, mas não é total". O próprio poder sabe que "não é ao poder que Jesus vem, nem é ao poder que Jesus vai". A proposta de Jesus dirige-se a todos e a cada um, sem excluir ninguém, numa "política do amor", uma contradição nos termos, porque transcende a política. Jesus não foi político nem fez política, "mas não deixa de ser politicamente perturbador e politicamente relevante". "Jesus e o Seu ensinamento estão de tal maneira alheados dos limites quase físicos da política que representam um marco de "provocação à política", de "provocação" política."
Daí, a pergunta essencial de Rangel: a que título o poder precisou de desfazer-se dele, num julgamento? Podia tê-lo feito de modo expedito, armando uma cilada, por assassínio...

3 Numa brilhante intervenção de cariz teológico, Jaime Gama deu indicações para expandir as reflexões de Rangel. "Estamos perante um texto louvável, mas redutor, porventura demasiado espiritualista, demasiado individualista na utilização que faz do texto neotestamentário e não enquadrando tudo num contexto mais vasto e geral que é aquilo que constitui na verdade a presença testemunhal da Igreja de Cristo na sociedade humana e no próprio ordenamento cósmico, desde a sua origem até ao Apocalipse." Não há referência à relação de Jesus com o Pai nem à presença do Espírito Santo na Igreja, Povo de Deus, de tal modo que, dessubstancializando a doutrina e mensagem cristológica, não se permite, por exemplo, uma Doutrina Social da Igreja, "a possibilidade de definir uma doutrina inspiradora para a responsabilidade dos homens no quadro da criação". João Gama seguiu outra via: "Aquilo que Paulo Rangel não diz, e eu penso que ninguém diz, é que Jesus é um não político." Jesus joga com "a surpresa na política: o amor", um amor que "não é só dar a outra face, é a destruição da inimizade do inimigo". Por isso, é um provocador da política. Se se pensar bem, o reino político "também não é deste mundo": há a necessidade de querer um mundo melhor e transformá-lo. Assim, não concorda com o subtítulo da obra, porque "todo o político, mesmo o mau, é um bom samaritano". O mau samaritano é aquele que fica a ver e nada faz.

4 Coube-me abrir o debate e moderá-lo. Jesus é "figura determinante" (K. Jaspers) na história da humanidade, incompreensível sem ele. A sua influência é decisiva: foi, por exemplo, por seu intermédio que a ideia de pessoa veio ao mundo. Mesmo se teve de impor-se contra a Igreja institucional, não é por acaso que a doutrina dos direitos humanos nasceu em contexto, também geográfico, cristão. Vários pensadores de renome o sublinharam: foi pelo cristianismo que soubemos da "infinita digni-dade" do homem (Hegel), que nenhum ser humano pode ser tratado como "gado" (E. Bloch), "um homem, um voto" é a tradução política da fé religiosa na relação de Deus com cada ser humano (J. Habermas). A laicidade do Estado, que garante a liberdade religiosa de todos, já estava em gérmen na palavra de Jesus: "A César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Jesus não pretendeu conquistar o poder para impor um programa político, mas deixou a igualdade de base, a justiça, a dignidade de todos como critério de "Juízo Final" e da religião verdadeira, sem nada de confessional: "Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; vestistes-me, fostes visitar-me, estando eu doente ou na cadeia..." Na fé na ressurreição de Jesus anuncia-se a vida eterna, e, como observou Tocqueville, enquanto os homens acreditaram na eternidade, até neste mundo construíam de modo durável; hoje, sem eternidade, o tempo reduz-se a instantes que se devoram uns aos outros e, vivendo num presentismo niilista, até a política se ressente do curto-prazismo. No Salão Árabe, vinha à mente a urgência da reflexão sobre o diálogo intercultural e inter-religioso.
Anselmo Borges, aqui

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