segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pedofilia na Igreja e acusações: é preciso bom senso

Na última quinta-feira, a diocese de Coimbra publicou um comunicado no seu site, pedindo a quem tenha informações sobre casos concretos de abusos de menores por membros do clero que denuncie essas situações aos responsáveis diocesanos.
O caso foi contado pelo DNque adianta que a Polícia Judiciária iniciou entretanto uma investigação, uma vez que se trata de um crime público (na notícia, quando se refere o caso do Fundão, deve corrigir-se que não é da diocese de Coimbra, mas da Guarda).
No ionline conta-se também a história, referindo mais pormenores, a partir das acusações do blogue que esteve na origem deste casoEsse blogue aponta nomes concretos, mas um dos visados admitiu já processar o(s) autor(es) de tal informação, por difamação.
O comunicado foi publicado na página da diocese de Coimbra na internet e pode ser lido aqui.
Nesse documento, de Abril de 2012, o episcopado estabelece que as instituições da Igreja – nomeadamente as dioceses – devem prestar toda a colaboração às entidades competentes, às vítimas e suas famílias e que cada bispo deve também desencadear um processo canónico, quando haja matéria para tal.
Se eventualmente há algum fundamento nas acusações feitas no blogue, e porque haverá várias dioceses envolvidas, a primeira atitude deveria ter sido que os diferentes bispos se pusessem de acordo sobre eventuais procedimentos. Em seguida, o caso deveria ter sido entregue às autoridades. Por isso, publiquei este sábado no Diário de Notícias um pequeno comentário sobre o tema, defendendo que o caso deveria ter sido gerido de outra maneira - o comunicado não tem consequência concreta a não ser a de pedir que sejam comunicadas informações a quem as tenha e levantar mais suspeitas.
Fonte: aqui

Bom senso
A questão dos abusos sexuais na Igreja tornou-se uma das mais graves crises do catolicismo no último século. Mas, apesar da vontade dos três últimos papas - João Paulo II quis "tolerância zero", Bento XVI criou normas e Francisco quer total transparência na questão, levando até às últimas consequências o castigo não só dos prevaricadores, mas também dos encobridores. O problema é que a questão é ainda muito mal gerida por diversos responsáveis da Igreja. Por vezes, continua-se a culpar o "mensageiro" pelas más notícias; outras vezes, as reacções indiciam uma condenação "a priori" dos acusados. Mas deve privilegiar-se uma grande sensibilidade e ter muito bom senso na gestão do assunto.
Em Portugal, há sinais de que o episcopado ainda não descobriu - no seu conjunto e em algumas dioceses - a forma mais eficaz de lutar contra o problema e, ao mesmo tempo, de revelar esse bom senso na gestão da crise. Claro que não falamos de um problema qualquer, mas de um verdadeiro pecado de bradar aos céus, que atenta contra valores dos mais profundos do cristianismo. Mesmo se é verdade que, ainda há quatro décadas atrás, era grande a tolerância das sociedades para com os abusos sobre os mais novos.
Este caso de Coimbra manifesta alguma falta de habilidade na forma de lidar com o problema. Perante uma denúncia anónima, a diocese deveria ter alertado imediatamente as autoridades. O comunicado tornado público não adianta nada para a necessária descoberta da verdade, antes só vem lançar um véu de suspeita sobre muitos padres (que continuam a ser esmagadora maioria) que exercem o seu ministério de forma positiva.
A necessidade de esclarecer não deve levar a criar mais suspeitas e rumores. Mas sobre isso todos temos de fazer uma profunda reflexão em sociedade.
ANTÓNIO MARUJO, 18 julho 2015, DN OPINIÃO



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