terça-feira, 11 de agosto de 2015

43.ª Semana Nacional das Migrações


Está a decorrer, desde 9 a 16 de agosto, a Semana Nacional das Migrações 2015, em que a Igreja Católica convida “a colocar os migrantes e refugiados no coração da Igreja”, através de “gestos concretos”. Em mensagem oportunamente divulgada, a OCPM (Obra Católica Portuguesa das Migrações) salienta a condição da Igreja como uma porta “aberta ao mundo” e “por isso sem fronteiras”.

Sob o tema “Igreja sem Fronteiras: somos um só corpo”, a 43.ª Semana Nacional das Migrações estimula toda a Igreja Católica a “mergulhar nas suas raízes” do Evangelho e da História da Salvação e a “redescobrir” uma “identidade cristã” que tem de estar impregnada pelo exemplo de Jesus.

Uma vez que o corpo eclesial é “composto por diversos membros”, unidos “num só”, é vital que os cristãos consigam, seguindo as pegadas de Cristo, isto é, como Cristo fez, olhar para “o rosto dos migrantes e refugiados”, para os que hoje buscam fora do seu país alternativas ao desemprego, à pobreza e à guerra, e ter para com estas pessoas uma atitude de abertura e “fraternidade”.

Num tempo em que os portugueses tiveram de sofrer coletivamente na carne o êxodo numeroso de muitos concidadãos para fora do seu lar e país, a maior parte por deparar com circunstâncias adversas à consecução e/ou manutenção do emprego (embora alguns, acusando tudo e todos, tenham espreitado a ingrata oportunidade de sair do país, que lhes forneceu quase gratuitamente os saberes) e viram também o abandono dos imigrantes que ajudavam o país a afirmar-se como comunidade solidária – há que refletir a sério em que medida falhou o projeto coletivo de desenvolvimento e de esperança num futuro de fraternidade.

Perante os fenómenos indicados e face à necessidade de fornecer acolhimento fraterno aos que se viram desalojados do seu território e seus lares e despojados dos seus haveres e – sentindo o peso dos sacrifícios que o desmando económico-financeiro e o desgoverno político de quem tinha obrigação de zelar pela boa gestão da coisa pública – tem de erigir-se a oportunidade de colocar de lado “medos, egoísmos, invejas e indiferenças”, aspetos que muitas vezes “encerram as pessoas no seu bem-estar” e as “isolam do convívio com aqueles que parecem diferentes”.

A este respeito, a OCPM, enquanto organização católica integrada na CEPSMH (Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana) sublinha que “a Igreja na sua solicitude maternal não faz aceção de pessoas”, mas, antes, “acolhe, cuida, reconhece, valoriza, promove o encontro e o diálogo entre pessoas, culturas e religiões…, porque é perita em humanidade”.

No texto do seu comunicado, a OCPM fala ainda numa “Igreja peregrina também através dos seus filhos que partem pelo mundo, numa aventura profética de denúncia de injustiças, conflitos, corrupções” e que “recorda a centralidade da dignidade da pessoa humana e do destino universal dos bens da terra”, sendo necessário, neste campo, seguir “desafiando governantes, nações e instituições a percorrer os caminhos do diálogo e cooperação, da injustiça e solidariedade”.

Também a OCPM recorda que “a comunidade cristã não só é chamada à conversão pessoal e comunitária, como também é enviada ao mundo para estar e ser luz, sal, fermento, a fim de transformar relações pessoais, familiares, institucionais, sociais”.

Aludindo ao apelo do Papa no sentido da solidariedade por palavras e gestos portadores da proximidade eficaz junto dos irmãos, a Obra Católica Portuguesa das Migrações pretende que os cristãos promovam “gestos concretos” de atenção a todos os migrantes, que passem “pela oração, pelas ações de sensibilização/formação, pelas ocasiões de encontro/convívio e gestos solidários que possam surgir em cada diocese, paróquia e missão católica”.

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É inegável o interesse deste instrumento prático de doutrina e ação em que é explanado o essencial do ser e da missão da Igreja encarnada num mundo de sofrimento e mudança profunda – a unidade do corpo na diversidade de membros, a imersão no Cristo do Evangelho, a senda da oração como fator de união ao Pai e suporte do apostolado, a atenção próxima e eficaz ao outro, a edificação da comunidade, mesmo sobre os escombros humanos plantados pelo desastre, desmando, egoísmo hostilidade e indiferença de tantos e tantas.

Neste sentido, a 43.ª Semana Nacional das Migrações culmina na habitual peregrinação dos migrantes ao Santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 de agosto – a peregrinação internacional de agosto, com o tema próprio “Formamos um só corpo” (Ef 4,4) que, este ano, é presidida por Dom Manuel das Silva Rodrigues Linda, bispo das Forças Armadas e de Segurança e vogal da CEPSMH – evento que estará em destaque na emissão do Programa ECCLESIA, na RTP2, com reportagens para acompanhar entre os dias 13 e 18 de agosto.

No términus da Semana Nacional das Migrações 2015, a 16 de agosto, as dioceses e paróquias portuguesas estão convocadas para uma “jornada de solidariedade” a favor dos migrantes e refugiados. Nessa data, todas as eucaristias serão celebradas em “ação de graças” por toda a proteção de Deus aos seus filhos e de prece pelo êxito do trabalho pastoral que a Igreja desenvolve em favor dos migrantes e refugiados. E os ofertórios desse dia reverterão para a missão da pastoral da mobilidade humana da Igreja Católica em Portugal.

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Sobre a peregrinação internacional de agosto e tendo em conta a temática da 43.ª Semana Nacional das Migrações, o Bispo das Forças Armadas e Segurança de Portugal teceu algumas considerações em entrevista a Leopoldina Simões, do Centro de Comunicação Social do Santuário de Fátima.

As suas declarações gravitam em torno do eloquente mote temático Os migrantes devem tornar-se evangelizadores de uma Europa que carece da luz da fé”.

É usual as diferentes realidades que caraterizam a migração serem evidenciadas nestas peregrinações de migrantes, seja pela elevada presença de comunidades e famílias migrantes em demanda do santuário, seja pela consonância com as preocupações da Igreja relevadas na Semana Nacional das Migrações.

Assim, Dom Manuel Linda antecipa as principais ideias-chave que deixará aos peregrinos: “que a Igreja é, por natureza, migrante” e que “a Europa estaria a lutar contra a história se construísse muros de qualquer espécie para barrar a entrada de emigrantes”.

O bispo vogal da CEPSMH apoia-se no exemplo de Abraão e no fenómeno da difusão do cristianismo após o martírio de Estevão devido, precisamente, às migrações dos cristãos por motivos de segurança”, para comprovar a natureza migrante da Igreja. E assegura que também hoje os migrantes “têm de sair das suas legítimas preocupações económicas e tornarem-se evangelizadores de uma Europa que carece da luz da fé”.

Verificando que a sociedade e a Igreja da Europa se deparam com a intempestiva chegada de muitos migrantes, em grande número em situações de extrema gravidade humana e social, este bispo adverte que o projeto de Deus deve estar acima de todos os interesses. E explicita:

“Quanto ao acolhimento dos migrantes na Europa, embora com critérios de racionalidade, é preciso lembrarmo-nos de que Deus criou o mundo, como casa comum de todos os homens, e nós criamos as nações, enquanto linhas imaginárias de fronteiras, mas o projeto de Deus tem de se sobrepor aos regionalismos humanos”.

Quanto à oração e seu enquadramento na peregrinação internacional aniversária, o bispo antecipa a principal intenção da oração que pretende promover e fazer em Fátima: “rezar por todos os pobres do mundo que arriscam tudo para atingirem uma existência minimamente humana” e, de “uma forma especial, pelos africanos que intentam chegar à Europa através do Mediterrâneo e os do Médio Oriente que fogem às guerras fratricidas”. E a quem menospreza o valor da oração, D. Manuel Linda esclarece que a oração pela paz “não é para mover ou demover o mundo ou os que mandam nele: é para que Deus lhes humanize o coração, para que sejam menos selvagens, é para se tornarem mais pessoas”. 

Depois lembra que a oração intensa e solidária corresponde ao cumprimento de muitos pedidos de Nossa Senhora: Rezai, rezai muito. E sublinha que, por estas palavras ou outras semelhantes, “o apelo à oração percorre todas as aparições de Fátima”.

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Finalmente, a entrevistadora não desperdiçou o ensejo que teve de lhe suscitar declarações e solicitou-lhe um balanço sobre o trabalho desenvolvido no Ordinariato Castrense, diocese que se apresenta como aquela que, em Portugal, detém a missão de estar “ao serviço daqueles que vivem das armas mas que anseiam a paz do Senhor” – num momento em que Dom Manuel está a governar a diocese há sensivelmente um ano e meio.

A este propósito, o bispo começou por referir que “seria presunçoso dizer que já se transformou tudo, até porque o objetivo da Igreja, nas suas estruturas, é sempre o mesmo: que sejamos mais santos, isto é, mais amigos de Deus e dos outros irmãos; e esta tarefa nunca está suficientemente cumprida”.

Depois, avaliou o saldo como “imensamente positivo” e “de forte amizade e aceitação do bispo; da revalorização da figura dos capelães, pois cada vez me pedem mais… e eu cada vez tenho menos...; e de escuta da palavra do bispo”.

Releva os aspetos positivos em outras áreas, nomeadamente, a “credibilização do dado da fé no meio militar ou nas Forças de Segurança e o sentido de proximidade da Igreja a setores muitas vezes desprezados pela sociedade”.

Enfim, a avaliação que faz é extremamente positiva, quer sob o ponto de vista humano, pelo carinho que lhe dedicam, quer sob o ponto de vista da fé, pela assistência espiritual, que efetivamente se está a prestar.

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Só me resta fazer votos pelo bom êxito da Semana Nacional das Migrações, da peregrinação internacional dos migrantes e do trabalho pastoral deste grande bispo (de vida interior, aguda consciência crítica e audácia pastoral)!

2015.08.10 – Louro de Carvalho

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