terça-feira, 20 de outubro de 2015

A crise da carência de Deus na base de todas as crises


Decorreu em 12 e 13 de Outubro de 2015, em Fátima, a peregrinação aniversária internacional de outubro sob a presidência do cardeal italiano Dom Giovanni Battista Re, Prefeito Emérito da Congregação para os Bispos e Presidente Emérito da Pontifícia Comissão para a América Latina. As celebrações observaram o programa das peregrinações aniversárias de maio a outubro e desenrolaram-se em torno do tema “Vigiai e Orai” (Mt 26,41).

Esta foi a quinta vez que Sua Eminência esteve em Fátima, destacando-se a sua presença no Santuário por ocasião das duas últimas visitas do Papa João Paulo II, em 1991 e em 2000.

Dados do Santuário indicam que se inscreveram para a peregrinação 127 grupos de diversos países, sendo a maioria deles oriundos da Alemanha, Itália, Polónia, Espanha e Timor-Leste.

Já na manhã de 18 de setembro, a partir de Roma, o purpurado da Cúria Romana prestou declarações à Sala de Imprensa do Santuário de Fátima, mostrando-se “muito feliz” com a possibilidade de vir a Fátima presidir a esta peregrinação, a convite de Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, explicitando que regressava a este santuário com grande alegria e que seria um momento muito importante na sua vida este, o da sua 5.ª peregrinação à Cova da Iria.

Efetivamente, o purpurado, de 81 anos de idade, esteve em Fátima em dois momentos da sua vida “por devoção pessoal a Nossa Senhora de Fátima” e em outros dois momentos “importantes na história de Fátima e da Igreja”: por ocasião das duas últimas peregrinações do Papa João Paulo II a Fátima, no ano de 1991 (10.º aniversário do atentado contra o Papa na Praça de São Pedro) e no de 2000 (ano do jubileu do milénio e beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco).

A propósito da sua participação presidencial nesta peregrinação, referiu na ocasião, o que agora reiterou, que estaria em Fátima “como peregrino entre os peregrinos” e que trazia consigo duas intenções principais:

“Honrar e venerar Nossa Senhora, e pedir-lhe ajuda e proteção para mim e para a Igreja e também para as famílias, já que estaremos unidos a todos os participantes no Sínodo sobre a Família [Vaticano, de 4 a 25 de outubro de 2015]”.

Não havendo ainda tido, naquela data, a possibilidade de informar o Santo Padre Francisco de que viria a Fátima, o cardeal afirmou que “queria dizer-lho” e anunciou também que viria confiar “a Nossa Senhora de Fátima os bons resultados espirituais do Ano do Misericórdia [com início a 8 de dezembro de 2015], solenidade da Imaculada Conceição, que devem ser aquilo de que os acontecimentos de Fátima nos falam: necessidade de conversão, de oração e de misericórdia”, até porque “ainda que os acontecimentos de Fátima se situem numa época passada, valem para hoje e apontam para o futuro”.

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O Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, em conferência de imprensa, no dia 12, teceu considerações sobre o contexto sociopolítico em que se move o país, denominando-o de “momento crítico”, e aproveitou o areópago fatimita para apelar aos responsáveis políticos a “que manifestem uma profunda responsabilidade pelo bem comum”, colocando “os interesses do país acima dos interesses partidários”, para que se possa criar um clima de estabilidade e crescimento económico, “que promova a erradicação da pobreza e a criação de emprego”. Contudo, o prelado – também Vice-Presidente da Conferência episcopal e do seu Conselho Permanente – mostrou “esperança de que os nossos responsáveis encontrem o caminho mais justo para o país”.

Dom António Marto lembrou ainda a visita dos bispos portugueses Ad Limina Apostolorum, que ocorreu em setembro passado, sublinhando que o Papa reafirmara “a sua vontade de estar presente no Santuário” e que nos vários encontros foi sublinhada a importância de Fátima. Por outro lado, os temas do Santuário estiveram muito presentes naquela visita, incluindo os momentos de presença dos prelados na Congregação para as Causas dos Santos, que “manifestou interesse na canonização dos pastorinhos”. Em relação à possibilidade de a visita papal poder ser mais alargada ao país, o Bispo de Leiria-Fátima afirmou que “neste momento só está garantido que o Papa vem” ao Santuário.

Na predita conferência de imprensa, Dom António Marto aludiu à visita da Imagem Peregrina da Virgem Maria às dioceses portuguesas, relevando a receção de inúmeros relatos de “multidões congregadas em torno de Nossa Senhora”, e assegurou que esta visita tem tido frutos muito positivos no país, que vem celebrando o centenário das aparições.

Na convicção de que a observância da mensagem da Virgem é garantia espiritual da consecução da paz, o prelado fatimita proferiu uma especial saudação ao Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia, laureado com o Nobel da Paz, neste ano de 2015, confessando que recebeu a notícia “com grande satisfação”, acentuando a importância da sociedade civil para a construção da paz.

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Escutando e relendo as homilias do cardeal Re em Fátima, pode notar-se quão difícil se torna num mundo demasiado laicizado no pior dos sentidos a assunção generalizada do tema “Vigiai e orai”.

Na celebração eucarística da vigília da noite do dia 12, o presidente da assembleia litúrgica aproveitou a homilia para acentuar alguns “sinais preocupantes de futuro em risco”, dando exemplos das “várias crises atuais”. O Prefeito Emérito da Congregação para os Bispos relevou a magnitude da “crise económica e financeira que desde há vários anos pesa sobre as famílias”, aliada à crise moral e à crise social, que “comporta tantos problemas”, frisando que “na base destas crises está uma, que é a raiz de todas as outras: a carência de Deus”.

O cardeal sublinha o tema fundamental da vida do homem: o amor de Deus por nós, ao ponto de vir habitar em cada homem e em cada mulher, fazendo de cada um de nós “o seu templo”. E salientou o facto de Cristo haver derrubado os objetos de venda no Templo de Jerusalém e expulsado os vendilhões (cf Jo 2,14-17), para nos interrogar sobre que lugar o templo humano de Deus ainda tem lugar para Deus, quando andamos assolados pelo bem-estar material e pelo culto dos ídolos mundanos. Tinha já, por certo, em mente a denúncia, que fez no dia seguinte, do regime antiteísta da URSS e similares, que durou mais de 70 anos, e o nazi-fascista dito cristão, de mais de 12 anos, os quais perseguiram, atropelaram mortal e cruelmente e eliminaram milhões e milhões de cristãos, judeus e elementos de outras religiões ou simples seres que ousavam ser pessoas com vez e voz. E poderia ter aludido aos milhares e milhões de perseguidos, presos, torturados e mortos por obra e graça das autoproclamadas democracias ocidentais que alimentaram as duas guerras mundiais e vários conflitos regionais, impuseram e sustentaram ditaduras na América Latina e tentaram impor democracias em vários países de África e de Ásia à imagem das democracias ocidentais – representativas e parlamentares ou presidenciais.

Depois, embora conceda que o homem e mulher podem conseguir muito conhecimento sem Deus, contudo, para o cardeal Re é certo que “sem Deus, o homem e a mulher deixam de ter princípios que iluminem o caminho da vida”, e “quando Deus perde o lugar central que Lhe compete, também o homem perde o seu lugar”, porque “longe de Deus, o ser humano perde-se, ficando à mercê de egoísmos pessoais e interesses de grupo”, não havendo recursos técnicos  e tecnológicos que lhe valham em satisfação plena das suas ânsias e justas aspirações.

E, falando de Fátima como espaço em que brilha no rosto de Maria a luz de Deus, o celebrante presidente da assembleia sagrada evocou a homilia da beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta, a 13 de maio de 2000, momento em que João Paulo II, embora tenha dito que a gente não pode dizer como é Deus, assegurou que Deus é uma luz “que arde, mas não queima” e “quantos acolhem esta presença [de Deus] tornam-se morada e, consequentemente, “sarça-ardente do Altíssimo” (cf Ex 3,2; Jo,14,23).

Na manhã do dia 13, o mesmo eminente purpurado valorizou, na sua homilia da missa do encerramento da peregrinação, a importância da fé. Na sua perspetiva, a fé é algo essencial que não pode ser marginalizado ou tido como algo irrelevante “porque muda radicalmente a maneira de pensar e agir”. Não se trata de uma questão importante apenas para a salvação eterna, é também algo essencial para “uma vida serena nesta terra” e, a meu ver, trampolim para a confiança no próximo e para a capacitação para a comunidade solidária.

É assim que se compreende que o cardeal italiano tenha professado desassombradamente que “a maior desgraça que nos pode acontecer é precisamente a perda de fé”, dado que ela enforma a vida dos crentes e enriquece a existência humana em todas as dimensões.

Porém, na contemporaneidade, a fé enfrenta o desafio dos estilos de vida e das correntes de pensamento, por vezes, agressivas, ridicularizantes e discriminatórias. Não obstante, “em Maria, temos um apoio da Nossa Fé”, já que Ela disponibilizou, pela fé confiante, a sua vida (inteligência, vontade, ações e sofrimentos) para o projeto de Deus em ordem à salvação do mundo. E a sua bem-aventurança resulta do facto de ter acreditado em tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor (cf Lc 1,45) e, consequentemente, ter estado colaborante desde a anunciação do anjo até ao Calvário, onde permaneceu de pé junto à Cruz (cf Lc 1,38; Jo 19,25-27). Por isso, Ela cumpre a missão de, em razão da sua íntima proximidade de Deus, de interceder por nós, e de, em razão da sua natureza humana – carne da nossa carne – visitar de muitos modos, em diversos lugares e tempos, os homens e suplicar “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Por isso, a literatura mariana a denomina de “Omnipotência Suplicante”.

Finalmente, urge reter que o cardeal  Prefeito Emérito considera que as aparições de Fátima transmitem uma mensagem inegável de santidade e um convite à mudança radical de vida. 

Ora, para que os obstáculos à fé sejam vencidos e a carência de Deus se transforme em sede de superação das demais crises, é imperioso que muitas e muitos se encarreguem de orar e vigiar para que a fé levede toda a humanidade com a proposta do Evangelho.

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Cumpre ainda evocar o testemunho do reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, como exemplo de que uma laicidade mal perspetivada pode ser má conselheira para o homem e para a sociedade, sobretudo no atinente à economia pelo lado do turismo e da cultura.

Efetivamente o reitor afirmou que “o poder político continua a envergonhar-se de Fátima” e considerou “muito insuficiente” a aposta na promoção externa do principal local de peregrinação do país. Mais referiu que “o Santuário de Fátima cresceu com ofertas dos peregrinos e não com apoios do governo e, nesse sentido, manteve sempre uma distância e uma independência em relação ao poder político”. Esta posição nem significa “uma indiferença” nem a ausência de “expectativas em relação àquilo que deveria ser o olhar do poder político para a importância de Fátima hoje em dia”.

Reconhece, no entanto, o relevo que atualmente o Turismo de Portugal vai procurando dar ao turismo religioso e, mais concretamente, o Turismo Centro de Portugal em relação ao fenómeno de Fátima. Todavia, isso não obsta a que se considere “muito insuficiente” a aposta na divulgação externa de Fátima e que isso depende sobretudo do “poder político”. E, na ótica do reitor, “o poder político português continua a envergonhar-se de Fátima e isso é embaraçoso”.

Julga esse fenómeno “embaraçoso porque Fátima é um dos grandes destinos turísticos portugueses, é um dos grandes cartões de visita e a verdade é que o poder político continua a envergonhar-se de Fátima e a querer calar esse fenómeno que é inegável”.

O padre Carlos Cabecinhas fez votos para que “haja, de facto, uma aposta sincera, real, verdadeira naquilo que é a potencialidade de Fátima”, mas frisou não se pretender que o Estado perca a sua laicidade, mas que reconheça a existência de todo o valor dum “turismo religioso que se dirige a Fátima e que deve ser assumido pelo poder político como não tem sido até agora”.

Sobre as suas preocupações em torno da fé, que enforma as comemorações do centenário dos acontecimentos da Cova da Iria, o reitor realçou que o próximo ano é já de celebração:

“Em 2016, estaremos já, plenamente, a celebrar o centenário das aparições do Anjo, que prepararam as aparições de Nossa Senhora”.

Depois, afirmou que o programa do templo para o próximo ano “ajudará os peregrinos a concentrarem-se nesta dimensão religiosa”, e que o santuário vai apresentar, também, propostas a nível cultural.

Quanto a prendas que o santuário mais deseje para 2017, o reitor apontou que para maio desse ano há já uma “prenda prometida”, a visita do papa Francisco. Porém, frisou que “um santuário vive da presença de peregrinos, peregrinos muito conhecidos como o papa Francisco ou peregrinos anónimos”. No entanto, não deixou de referir que “a grande prenda para o Santuário de Fátima, em centenário ou noutro momento, será sempre a visita e a presença de peregrinos”, que é a “razão de ser de um santuário”. (vd DN, de 13 de maio).

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E a vigilância e a oração frutificarão em mais fé, que debelará as demais crises e levará a ultrapassá-las com fé, lucidez e vontade!

2015.10.13 – Louro de Carvalho

 

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