segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A vertente religiosa e mariana da poesia de Bocage


 

No rescaldo da peregrinação internacional de outubro a Fátima e no decurso das celebrações do 250.º aniversário do nascimento de Bocage, oferece-se-me o ensejo de apresentar uma faceta menos conhecida da poesia do poeta sadino – a sua vertente devocional e, sobretudo, mariana.

Em termos formais, mantém-se integral a estética neoclássica e, em termos das ideias e do sentimentalismo, sobressai a estética pré-romântica, do lado da exacerbação do ego pessoal e do lado da exaltação do cristianismo na esteira de François-René de Chateaubriand. E importa que se deixe de enclausurar exclusivamente o poeta de Setúbal nas malhas do anedotário ou da vida dissoluta e revoltosa.

Bocage, não obstante a vida libertina em que se afundou ao longo dos anos, como ele próprio confessa – “eu aos céus ultrajei” (…); “Outro Aretino fui!... A santidade Manchei!..” – nunca se afastou da matriz cristã de fé e de vida. Ele mesmo, dirigindo-se a Deus num soneto, o confessa:

“Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.”


Superada, entretanto, a exacerbação egotista e o “desatino das paixões”, na fase final da sua breve vida – faleceu com a idade de 40 anos – operou-se nele a muito marcada metanoia, voltando a uma vivência cristã entusiasta. O momento de total arrependimento e de propósito firme de emenda surge em termos testamentários no seguinte soneto, de que já se respigaram acima segmentos discursivos: 

Já Bocage não sou, à cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento.
Eu aos céus ultrajei, o meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
 
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa, tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
 
 
Eu me arrependo: a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade
Que atrás do som fantástico corria:
 
Outro Aretino fui!... A santidade manchei!...
Oh, se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
 

É daquela fase de vida uma boa vintena de poemas que fazem dele um poeta de notável religiosidade. A maior parte são sonetos, mas há também pelo menos quatro odes em honra de Nossa Senhora, além de uma tradução. Longe de poderem ser considerados qualitativamente inferiores à sua restante produção poética, os poemas de teor religioso ora fazem afirmações de ordem teológica geral ora refletem a própria vivência pessoal da fé. Os sonetos, mais próximos desta segunda orientação, serão porventura mais interessantes pela original atualidade dos temas versados. Vejam-se alguns títulos: 

A existência de Deus provada pelas obras da criação, Contradições do ateísmo, Hino a Deus, Confiança na misericórdia divina, O retrato de Deus desfigurado por ministros embusteiros, Tentativa de suicídio combatida pelas lembranças da Eternidade, Vendo-se exposto a tribulações imerecidas, Afetos dum coração contrito, Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada, Ditado entre as agonias do seu trânsito final, Invocando o amparo de Maria Santíssima, A Paixão de Jesus Cristo, etc.

A noção de Deus não é, no poeta, muitas vezes tão evangélica como era de supor. Porém, não podemos olvidar que o poeta teve uma educação neoclássica, em que a estética pagã integrava o cânone literário e era mais aparentada com a ideia veterotestamentária da divindade. Não obstante, parece que o ideário do poeta ainda supera o da pregação comum do seu tempo. Assim, no Hino a Deus, nota-se bem o amor e o temor do crente pelo seu Deus, mas não a essência amorosa de Deus. É mais o Deus dos filósofos – um Ente, Grão Ser ou uma espécie de Júpiter – ou o típico Deus veterotestamentário que aparece por entre trovões e coriscos:

Pela voz do trovão corisco intenso
Clama que à Natureza impera um Ente,
Que cinge do áureo dia o véu ridente,
Que veste da atra noite o manto denso.

Pasmar na imensidade é crer o Imenso;
Tudo em nós o requer, O adora, O sente;
Provam-Te olhos, ouvidos, peito e mente?
Númen, eu ouço, eu olho, eu sinto, eu penso!

 
Tua ideia, ó Grão-Ser, ó Ser divino,
Me é vida, se me dão mortal desmaio
Males que sofro e males que imagino:

Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.

Todavia, esta noção de Deus marca vincadamente a diferença em relação à perspetiva cristã de Deus espelhada nos poemas O retrato de Deus desfigurado por ministros embusteiros ou Confiança na misericórdia divina, em que o nosso poeta rejeita o Deus distante das pessoas, o só todo-poderoso, de quem se ignore a dimensão paternal, como alguns dos oradores sagrados.

Veja-se o segundo dos mencionados poemas:

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada:

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza;
Fingem-Te então com ímpeto e braveza
Erguendo contra nós a dextra armada.

 
Ó almas sem acordo e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!... Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.



Lá vem a sua veia pré-romântica a colocar a sua vivência da relação com Deus em confronto com o pensamento teológico dominante, o que é um louvável atrevimento, mesmo se às vezes produzido em termos menos aceitáveis, resultantes do seu pendor de polemista. Esta dimensão mais católica descobre-se sobretudo nos poemas dedicados a Nossa Senhora e em A Paixão de Jesus Cristo:

O Filho do Grão-Rei, que a monarquia
Tem lá nos Céus, e que de Si procede,
Hoje, mudo e submisso, à fúria cede
De um povo, que foi Seu, que à morte O guia.

De trevas, de pavor se veste o dia,
Inchado, o mar o seu limite excede,
Convulsa a terra, por mil bocas pede
Vingança de tão nova tirania.
 
Sacrílego mortal, que espanto ordenas,
Que ignoto horror, que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu Juiz!... Teu Deus condenas!

Ah, castigai, Senhor, o mundo ingrato:
Caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas,
Também eu morra, que também vos mato.

***

E já parecia que estava esquecido o título deste arrazoado reflexivo, mas é de sublinhar que o mistério mariológico não se entende separado do Deus que endereçou à menina de Nazaré o convite para se envolver no projeto salvífico da humanidade tornando-a mãe do Filho de Deus, para O acompanhar desde Nazaré/Belém até Jerusalém, no Calvário, onde à sombra da Cruz foi entregue como mãe dos discípulos e, neles, como mãe de todos os homens. E é do Filho de Deus e de Deus – Grão-Rei, Grão-Ser, o Ente, o Imenso, o Pai, o Amor – que Ela é serva, testemunha e porta-voz. Todavia, os poemas dedicados expressamente à Virgem Mãe merecem destaque especial.

Neles, a imaginação de Elmano Sadino (o seu pseudónimo de árcade) comprazia-se em realidades apocalípticas, de grande impacto. Por isso, os poemas dedicados a Nossa Senhora eram-lhe particularmente queridos, pois gosta de A apresentar como a vencedora de Satã, num cenário algo dantesco. Por exemplo, o “tartáreo monstro” vencido, que no soneto Invocando o amparo da Virgem Santíssima aparece no terceiro verso, surge sempre nas três odes À Puríssima Conceição de Nossa Senhora, À Santíssima Virgem a Senhora da Encarnação e À Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Diga-se, em abono da verdade, que nos poemas em honra da Virgem Maria, nunca fica colocada de lado a prerrogativa da sua conceição imaculada.

Assim, à Virgem Imaculada, o nosso vate setecentista dedica três odes. São composições que, no conjunto da obra de Bocage, nos dão o tom exato em que a imaginação poética de Bocage converge com a verdade mais simples e profunda da sua alma e da sua psicologia. Como era previsível, o privilégio de Maria facilmente se amolda ao mecanismo do complexo de Jonas, já que supõe um abismo de pecado e um monstro infernal, sobrepujados pela aparição da Mulher coroada de brilhantes estrelas, na sua trindade de caraterísticas – “mãe, filha e esposa”, respetivamente do Filho, do Pai e do Espírito – liada na unidade de “mais que tudo amada”.

Nas odes à Imaculada e na ode à Senhora da Encarnação, fica bem patente o tremendismo do poeta perante as seduções e insídias do mundo, os instintos individuais exacerbados, a revolta dos elementos da Natureza e os caprichos da fortuna. Mas ressalta a esperança de que a sua prece seja tida em conta graças à Mãe de misericórdia e ao Deus, que é trono da mesma misericórdia.

Comecemos pela leitura do soneto Invocando o amparo de Maria Santíssima:

Tu, por Deus entre todas escolhida,
Virgem das virgens; Tu, que do assanhado
Tartáreo monstro com Teu pé sagrado
Esmagaste a cabeça entumecida;

Doce abrigo, santíssima guarida
De quem Te busca em lágrimas banhado,
Corrente com que as nódoas do pecado
Lava uma alma que geme arrependida;
 
Virgem, de estrelas nítidas c’roada,
Do Espírito, do Pai, do Filho Eterno,
Mãe, Filha, Esposa e, mais que tudo, amada:

Valha-me o teu poder e amor materno;
Guia este cego, arranca-me da estrada
Que vai parar ao tenebroso inferno!

 

Aqui, o seu habitual imaginário hiperbólico quase se anula, numa atitude de simplicidade filial. Manifesta-se, neste soneto, bem mais sentido que as aludidas odes, a sua fé e devoção a Maria, recorrendo ao seu “amor materno” para que o arrancasse do caminho que o poderia arrastar “ao tenebroso inferno”; a tensão existente entre a fé católica e o ideal racionalista, então em voga; e sobretudo o conflito entre a vida boémia que levava e o ideal moral que existia na sua consciência. Trata-se de um texto bem expressivo da sua cultura católica em que se destaca a importância da Mãe de Deus na vida dos cristãos e dos homens em geral.

Fica bem realçada a oposição entre Deus e o diabo, entre a Virgem e o “tartáreo monstro”, a qual, com seu pé virginal, lhe esmagou “a cabeça entumecida”. Apesar da menção do monstro infernal, o que sobressai é a Virgem como doce refúgio ou abrigo e guarida santíssima para este Jonas arrependido de não ter cumprido a sua missão, ora banhado em lágrimas, órfão de mãe terrena, que fora atraído pelos abismos de amargura.

Evidencia-se a fé no mistério da Santíssima Trindade, com o qual relaciona a Virgem como Mãe, Filha e Esposa, relação para que utiliza uma figura de retórica tão do agrado dos poetas barrocos – o quiasmo – que consiste num cruzamento de vocábulos (atente-se no 1.º terceto).

A terminologia do soneto integra-se perfeitamente num mundo semântico de Elmano relacionado com o “locus horrendus”, conceito dominante nos literatos do Romantismo, nomeadamente com os termos “inferno”, “tartáreo”, “tenebroso”; e ainda com o do amparo maternal onde os mortais encontram descanso, como os bebés nos seios das suas mães: “doce abrigo”, “santíssima guarida”, “amor materno”.

Nas odes, o esquema psicológico tremendista acima aludido repete-se no texto poético desenvolvido em oitavas heroicas, fazendo lembrar a celebração da subida do “balão aerostático” do capitão Lunardi, a 24 de agosto de 1794: sobre a vertigem da queda e da atração do abismo, surge a vitória da luz e das alturas (vd João Mendes, Literatura Portuguesa II, Ed. Verbo).

Veja-se como este dinamismo espiritual em confronto com um mundo hostil se evidencia na ode À Santíssima Virgem, a Senhora da Encarnação, em que sobressai a inefável ação divina:

Acatamento em si e audácia unindo,
Sobre o jus de imortal firmando os voos,
A impávida Razão, celeste eflúvio,
Se eleva, se arrebata.
Por entre imensa noite e dia imenso
(Mercê do condutor, da Fé, que a anima)
Sobe de céus em céus, alcança ao longe
O grão Princípio dos princípios todos.

Além do firmamento, além do espaço
Que, por lei suma, franqueara o seio
A mundos sem medida, a sóis sem conto,
Imóvel trono assoma:
De um lado e de outro lado é todo estrelas;
Vence ao diamante a consistência, o lume;
Absortos cortesãos o incensam curvos,
Tem por base e dossel a eternidade.

Luz, de reflexos três, inextinguível,
Luz, que existe de si, luz de que emanam
A natureza, a vida, o fado, a glória,
Dali reparte aos entes
Altas virtudes, sentimento augusto;
Aos entes, que na Terra extraviados,
Das rebeldes paixões entre o tumulto
Ao grito do remorso param, tremem.

Filho do Nada! Um Deus te vê, te escuta!
Seus olhos imortais do empíreo cume
(Aos teus imensidade, aos d'Ele um ponto)
Atentaram teus dias,
Teus dias cor da morte, ou cor do Inferno;
De alma em alma grassando a peste avita;
Hálito de serpente enorme, infesta,
Da primeva inocência a flor crestara:

Aos dois (como Ele) do Universo origem
Diz o Nume em si mesmo: — «O prazo é vindo;
Cumpra-se quanto em nós disposto havemos.»
Eis o Espírito excelso,
Radiosa emanação do Pai, do Filho,
Mística pomba de pureza etérea,
A Donzela Idumeia inclina os voos,
Pousa, bafeja, e diviniza o puro.
 
 
Tu, Verbo, sobrevéns; aérea flama
Com tanta rapidez não sulca o polo!
Eis alteado o grau da humanidade;
Eis fecunda uma virgem:
A redenção começa, o Deus é homem.
Da graça, da inocência, oh paz, oh risos,
Do Céu vos deslizais, volveis ao mundo!
Caí, torres de horror, troféus do Averno!

Que estrondo!... Que tropel!... Ao negro abismo
Que desesperação revolve o bojo!...
Para aqui, para ali por entre Fúrias
O sacrílego monstro,
O rábido Satã em vão blasfema.
Lá quer de novo arremeter ao mundo;
Mas vê rapidamente aferrolhado
O tartáreo portão com chave eterna.

Enquanto brama, arqueja, enquanto o fero
Morde, remorde as mãos, e a boca horrenda
(As espumas veneno, os olhos brasas)
Mulher divina exulta;
Celestial penhor, que os anjos cantam,
Que as estrelas, que o Sol, que os Céus adoram
Virgem submissa, mereceu na Terra
Circunscrever em Si do Empíreo a glória.

Salve, oh! salve, imortal, serena Diva,
Do nume oculto incombustível sarça,
Rosa de Jericó por Deus disposta!
Flor, ante quem se humilham
Os cedros de que o Líbano alardeia!
Ah, no teu grémio puro amima os votos
Aos mortais de que és Mãe: seu pranto enxugue,
Seus males abonance um teu sorriso!


Bocage, apesar de nascido no século do Iluminismo e de ser contemporâneo de Kant, tinha pouco de filósofo. Para afirmar a existência de Deus e os mistérios com ela conexos, não recorre a subtilezas filosóficas; é-lhe suficiente o bom senso transtemporal e que está no famoso versículo bíblico que declara que “os céus proclamam a glória de Deus” (cf Sl 19/18,2). Por outro lado, depois duma vida agitada e afogada no turbilhão das paixões, parece ansiar pelo sossego e tranquilidade de quem se há de sentir “como criança saciada ao colo da mãe” (cf Sl 131/130,2).

Uma especial atenção a este filão da sua poesia faz outra luz sobre o poema em que o poeta, que cortou com o passado libertino, declara que “viver não soube” mas que terá sabido morrer.

2015.10.14 – Louro de Carvalho

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