domingo, 29 de novembro de 2015

Abertura antecipada da Porta Santa


Decididamente o Papa Francisco está apostado no testemunho e no apostolado da misericórdia. Além de o tema da misericórdia e da ternura de Deus ser recorrente nas suas intervenções, o Papa lançou a Igreja no Jubileu Extraordinário da Misericórdia, a que acoplou a iniciativa de espalhar pelo mundo os missionários da misericórdia e deu à XXXI Jornada Mundial da Juventude (JMJ) o tema da misericórdia em torno da V bem-aventurança do Sermão da Montanha: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7).

Na sua prévia mensagem por vídeo à viagem apostólica ao Quénia, Uganda e República Centro-Africana, o Papa diz aos quenianos e ugandeses que vai até ao meio deles como “ministro do Evangelho para proclamar o amor de Jesus Cristo e a sua mensagem de reconciliação, perdão e paz”. Este amor de Cristo é misericórdia expressa na mensagem de reconciliação e perdão rumo à paz, dom de Deus e produto do esforço dos homens.

Mais adiante, afirma o seu objetivo de “confirmar a comunidade católica no seu culto a Deus e no seu testemunho do Evangelho”. Ora, sem o testemunho claro e empenhado dos crentes, a misericórdia de Deus ficaria obnubilada e o mundo, não a conhecendo, não tiraria qualquer benefício dela. É certo que Deus pode mudar, por Si próprio, o coração dos homens, contudo, o tornar necessária a mediação de homens junto dos homens e junto de Deus é uma outra forma de expressão da misericórdia divina.

Entretanto, o testemunho da misericórdia não se circunscreve a uma exposição de motivos da fé, por maior que seja o pode da palavra, ou a um exemplo de vida bondosa e orante, por mais necessário que seja para a edificação da Igreja. Implica necessariamente o ensino teórico-prático da “dignidade de cada homem e de cada mulher” e a exigência de abertura do nosso “coração aos outros, especialmente aos pobres e necessitados”.

Depois, o Bispo de Roma, na sua primeira visita a terras de África pretende “oferecer uma palavra de encorajamento” ao diálogo ecuménico e inter-religioso, convicto de que “vivemos uma época em que os fiéis das religiões e as pessoas de boa vontade em toda a parte são chamados a promover a compreensão e o respeito recíprocos e a ajudar-se uns aos outros como membros da nossa única família humana”. Ou seja, na firme crença de que todos somos filhos do único Deus misericordioso, Francisco prega a fraternidade universal e quer que todos embarquem nesta onda da ternura de Deus, o Pai comum. E, na esteira da paternidade divina, o paizinho da Igreja (papa, papá ou papai), tal como acaricia uma criança, também quer puxar pela juventude em qualquer lugar por onde passe – também no Quénia e Uganda – porque os jovens “são o vosso maior recurso e a nossa esperança mais promissora para um futuro de solidariedade, paz e progresso”. É a abertura do coração e do olhar a todos com a caridade evangélica e a justiça bíblica, como resposta à dicotomia aspiração-conflituosidade do mundo, sem discriminar ninguém, mas a começar pelos que mais precisam.

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Em mensagem similar, o Papa, apresentando-se como “mensageiro da paz, dirige-se aos habitantes da República Centro-Africana. E o seu propósito é também o testemunho explícito da misericórdia. Verificando a continuada e nefasta situação de “violência e insegurança” por que vem passando o país, causando “inúmeras vítimas inocentes”, tem em vista levar, “em nome de Jesus, o alívio da consolação e da esperança” e “contribuir, de um modo ou de outro, para curar as vossas feridas e abrir um futuro mais sereno para a África Central e para todos os seus habitantes”. Como os profetas, os evangelistas e os apóstolos, no meio da miséria, da fome, da guerra e da iniquidade puderam anunciar a esperança e a salvação, também Francisco no meio dos povos, que reconhece como de Deus e seus, conforta, testemunha e faz esperar. 

A seguir, revela ao povo centro-africano o tema da sua viagem: passemos para a outra margem (Mc 4,35). A simbólica do Evangelho de passar de uma para a outra margem do lago sugere o convite, o apelo a deixar a situação de insegurança e de violência, que, no caso vertente, não são provocadas pelos elementos tempestuosos da natureza, como em Marcos ou hoje em muitas partes do Globo, mas pela ambição desmedida de riqueza e poder de alguns e pela impaciência de uns e submissão de outros. Porém, o Senhor que acalma o mar tem capacidade para, longe de anular a liberdade e a vontade dos homens, encorajar a mudança e a conversão.

Assim, Francisco apela às “comunidades cristãs” para que olhem “em frente com decisão” e a “cada um” para que renove “a sua relação com Deus e com os irmãos para edificar um mundo mais justo e fraterno”. Ao mesmo tempo, reitera o propósito de “fomentar o diálogo inter-religioso para encorajar a convivência pacífica” no país, afirmando “que isto é possível, em razão da fraternidade universal face à filiação comum em relação ao mesmo Deus.

E, para selar simbolicamente este apelo e testemunhar eloquentemente esta possibilidade de abertura ao “perdão genuíno”, à atitude de “dar” e “receber” e à “renovação no amor”, o Papa anunciou que iria abrir, por antecipação, em Bangui, o Ano Jubilar da Misericórdia, que vai ser inaugurado para toda a Igreja a 8 de dezembro.

Com efeito, a 29 de novembro, início do novo ano litúrgico e I Domingo do Advento, que significa o começo da caminhada de Deus ao encontro misericordioso com os homens por meio de Jesus Cristo, o romano Pontífice, no início da celebração eucarística na catedral de Bangui, depois do Ato Penitencial, procederá ao rito da Abertura da Porta da Misericórdia, rezando:

Senhor Deus, Pai de misericórdia, Vós concedeis à vossa Igreja este tempo de penitência e de perdão para que ela tenha a alegria de se renovar interiormente por obra do Espírito Santo e andar cada vez mais fielmente nos vossos caminhos, permanecendo no meio do mundo como sinal de salvação e de redenção; dignai-vos responder às nossas súplicas, abri-nos completamente a porta da vossa misericórdia, para se nos abrirem um dia as portas da vossa morada no céu, onde está Jesus, o primeiro da estirpe dos homens que nos precederam, para podermos todos em conjunto cantar-vos eternamente. Por Cristo Nosso Senhor. Ámen.

 

Depois, aproxima-se da Porta da Misericórdia e, enquanto bate à porta, estabelece diálogo orante:

Abri-me as portas da Justiça                              

R/ E entrarei e darei graças ao Senhor.

Esta é porta do senhor,

R/ Que entrem os justos

Eu entro na vossa casa, Senhor

R/ Voltado para o vosso templo, eu me prostrarei.

A seguir, o Santo Padre apoiado na Porta da Misericórdia reza em silêncio, após o que entra seguido pelos demais.

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Embora pudesse ter maior impacto a abertura oficial do Ano Santo este rito de misericórdia desenvolvido num dos países de África esperançosa para o futuro da Igreja e da Humanidade, porém, de momento, uma das periferias existenciais, todavia este gesto simbólico de Francisco não deixa de ter um enorme significado. Prega-se e reza-se a misericórdia onde é necessário, independentemente do lugar ou do momento, sendo apenas necessário que os homens sintam que precisam dela e acreditem nela. E as ações eclesiais valem por si mesmas quer sejam lançadas em Roma e a partir de Roma quer em e a partir de qualquer outra parte do mundo. Não estamos perante um fenómeno de descentralização ou desconcentração política ou económica, mas do pulsar da Igreja sob o impulso do Espírito com Pedro e com os demais membros da família universal.

Pelos vistos, Francisco deseja que em todo o mundo – e não só em Roma – se abram as portas santas da misericórdia. Ele próprio pensa passar pela Porta da Misericórdia por ocasião da Jornada Mundial da Juventude 2016. Com efeito, segundo informação do cardeal Stanislaw Rylko, será instalada a simbólica Porta Santa no Campus Misericordiae, onde decorrerá a vigília e a missa de encerramento da JMJ – ambas sob a presidência do Papa.

O purpurado afirmou que o Santo Padre, seguido de alguns jovens, passará pela Porta Santa logo no início da vigília de oração, a 30 de julho. E, no dia 31, último domingo de julho após a celebração da eucaristia, “entregará a cinco casais de jovens, vindos dos cinco continentes, lâmpadas acesas, símbolo do fogo que trouxe a misericórdia de Cristo, além de enviar os jovens de todo o mundo como testemunhas e missionários da Divina Misericórdia”.

É de recordar que a JMJ Cracóvia 2016 decorrerá em pleno Jubileu Extraordinário, sendo que os temas de ambos os eventos se interpenetram, segundo o cardeal, “de modo muito oportuno”. Tanto assim é que, tornando-se a JMJ de 2016 um verdadeiro Jubileu dos jovens a nível mundial, o seu epicentro espiritual será o Santuário da Divina Misericórdia e de Santa Faustina Kowalska – conhecida como a ‘Apóstola da Misericórdia’ – inaugurado em 2002 pelo insigne promotor deste intenso testemunho orante e missionário: São João Paulo II, o Papa polaco.

Os participantes na JMJ de Cracóvia poderão visitar aquele santuário e integrar-se no desenvolvimento de um programa especial, que inclui a meditação das parábolas do Evangelho da Misericórdia Divina (sobretudo o cap. 15 de Lucas) e do Rosário da Divina Misericórdia, podendo, no final, passar pela Porta Santa do Jubileu e ganhar a indulgência jubilar. Para o efeito, será instalado, neste lugar, o grande “Centro da Misericórdia”, que disponibilizará muitos confessionários para que os jovens se aproximem do Sacramento da Reconciliação.

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O Papa Francisco prega incessantemente a misericórdia, mas não se refugia nela como que num cantinho abrigado. Ao invés, segue Urbi et Orbi as consequências desta bem-aventurança: desde logo, a limpidez de coração para olhar para o homem e para o mundo; depois e ao mesmo tempo, a construção da paz, para podemos ser chamados filhos de Deus e, como corolário imperativo, a luta oportuna e importuna pela justiça (cf Mt 5,8-10; Lc 6,20-26).

Francisco não se cingiu à leitura dos livros teológicos, mas passou ao múnus de pastor. E foi, não na leitura dos escritos de Rousseau ou de Marx e fãs, mas no Evangelho, lido e meditado, no âmbito de todo o contexto bíblico e a olhar o mundo de opressão e repressão, que aprendeu a força da razão dos pobres, dos explorados, dos enjeitados. E aí ganhou ânimo para clamar:

Levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima (Lc 21,28)!

2015.11.28 – Louro de Carvalho

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