quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Dom Frei Bartolomeu dos Mártires vai ser canonizado




O Gabinete de Dom Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas divulgou, em nota assinada ontem, dia 9 de fevereiro, uma mensagem por ocasião do anúncio da dispensa do milagre do Beato Bartolomeu dos Mártires em que informa que o Papa Francisco autorizou a canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), sem necessidade de um novo milagre atribuído à intercessão do futuro (do ponto de vista técnico-teológico) santo português.
Com efeito, segundo a predita nota, Francisco, na audiência, em 20 de Janeiro de 2016, à Congregação para a Causa dos Santos, concedeu a necessária autorização à dispensa do milagre formalmente demonstrado para a declaração de santidade de Frei Bartolomeu.
O arcebispo Dom Jorge Ortiga designa este gesto papal como passo decisivo para a declaração pública da santidade do arcebispo quinhentista pela via da canonização equipolente. Já são poucos os procedimentos a corporizar para alcançar tal desígnio.
Por outro lado, o atual arcebispo bracarense declara o acolhimento desta feliz notícia como “um novo estímulo para a caminhada arquidiocesana de conversão pessoal e pastoral”, de que esta Quaresma constitui uma etapa importante. Nesta ótica espiritual e apostólica, roga a poderosa intercessão do beato Bartolomeu “por todos os cristãos de Braga” e a continuidade da sublime inspiração para a Arquidiocese “no caminho da nova evangelização”.
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Dom Frei Bartolomeu nasceu em Lisboa, em maio1514, e ingressou na Ordem Dominicana em 1548. Dez anos mais tarde, concluiu os estudos e ordenou-se sacerdote. Até à sua eleição como arcebispo de Braga (1558) dedicou-se ao ensino.
No exercício do múnus de professor teve como aluno, entre outras figuras coevas, Dom António Prior do Crato, que ficou na História de Portugal como o malogrado pretendente ao trono no contexto da crise dinástica de 1578-1580, que iria dar origem a 60 anos do regime de uma coroa sobre dois reinos na península ibérica.
A arquidiocese de Braga do seu tempo abrangia os territórios pastorais das atuais dioceses de Viana do Castelo, Braga, Vila Real e Bragança-Miranda, tendo o arcebispo cumprido um fatigante plano de visitas pastorais em que estabeleceu contacto com a indigência material e cultural das populações.
Legou à posteridade mais de 30 escritos, de que se destacam: Stimulus Pastorum (21 edições); Catecismo da Doutrina Cristã (15 edições) e Compendium Spiritualis Doctrinae (10 edições).
Participou ativamente no Concílio de Trento, nos anos de 1562 e 1563, de que foi uma figura conciliar de referência e onde sobressaiu pela sua simplicidade pessoal, pela defesa do primado peninsular da arquidiocese bracarense e, sobretudo, pela afirmação de uma reforma da Igreja urgente, permanente e eficaz – à luz do princípio Ecclesia semper est reformanda. Neste sentido, criticou as excessivas prerrogativas e honrarias dos cardeais, que integram uma instituição de direito eclesiástico, em confronto com o pouco relevo reconhecido aos bispos, instituídos por direito divino. Ficou famosa a sua frase sentenciosa Eminentissimi cardinales indigent eminentissima reformatione, como a proverbial a admiração que manifestou pelos tesouros das Casas Pontifícias, mas a que sobrepôs a sede de almas.
Relativamente às consequências do debate da reforma conciliar, o metropolita bracarense foi o primeiro prelado a promulgar os decretos tridentinos, aquando do sínodo arquidiocesano de Braga de 1564. Dois anos depois, organizou o 4.º Concílio Provincial Bracarense, onde se redefiniram e ajustaram os decretos tridentinos segundo as necessidades existentes na província a que presidia a sua arquidiocese.
Não obstante as várias oposições que teve de enfrentar, instaurou a reforma na Igreja, ao nível da arquidiocese, vindo a influenciar muitas outras dioceses nesse ímpeto reformista.
Como linhas-força da sua ação, pretendia formar um clero zeloso e culto, que moralizasse os fiéis e administrasse os bens e os partilhasse com o povo mais carenciado. Num tempo em que a peste arrasava de uma forma avassaladora o povo, levou a sua caridade ao extremo, chegando a dar as suas vestes e até mesmo a ceder a própria cama.
Como prelado empenhado na formação clerical e nas suas reformas de disciplina, costumes e vida eclesiástica, reperspetivou o Colégio de São Paulo em Braga, redefinindo os seus programas de ensino em consonância com os princípios emanados de Trento relativos à instrução do clero. Ainda neste âmbito, introduziu e fundou a disciplina de Casos da Consciência em Braga, em Viana do Castelo e no Seminário Conciliar Bracarense, com o fim de formar o clero segundo as ideias de reforma que defendia.
Participou nas cortes de Tomar de 1580, com os Arcebispos de Lisboa e Évora (a diocese de Lisboa ainda não estava instituída como patriarcado). A 20 de fevereiro de 1582, retirou-se das suas funções eclesiásticas, renunciando assim também à mitra primacial de Braga.
Faleceu a 16 de julho de 1590, no convento dominicano de Santa Cruz, que fundara em Viana do Castelo. O seu último suspiro foi o culminar de uma vida regrada e indesmentivelmente cristã; o povo da cidade do Lima guardou ciosamente o seu corpo, com armas até, para que os bracarenses não o levassem para Braga, a sede da arquidiocese.
Bartolomeu dos Mártires foi declarado venerável a 23 de março de 1845, pelo Papa Gregório XVI, e Beato a 4 de novembro de 2001, pelo Papa João Paulo II.
Foi objeto de uma biografia, em 1619, intitulada a Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires, da autoria de Frei Luís de Sousa (fidalgo de nome Manuel de Sousa Coutinho que professara na Ordem Dominicana, após resignação ao casamento com D. Madalena de Vilhena, anteriormente casada com D. João de Portugal).
Também Aquilino Ribeiro escreveu uma biografia romanceada do arcebispo, a que deu o título Dom Frei Bertolameu. Nela, Aquilino denomina-o de “perfeito pastor de almas, mais que príncipe da Igreja” e “homem extraordinário, aparentemente compósito, imperioso e humilde, democrata e absoluto, a quem a mitra pesava como os montes Apeninos.
No tridentino beato arcebispo de Braga, Dom José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança e Miranda, viu os seguintes predicados de Pastor: em termos de perfil, “pureza de intenção, conversação santa e irrepreensível, humildade interior e sincera”; em termos de atitude, “coragem da esperança”; e em termos de programa, “a caridade, a sabedoria, a retidão e a justiça” (cf Ecclesia, 2014/02/22).
A 1 de maio de 2014, a Conferência Episcopal Portuguesa publicou uma nota pastoral a assinalar o V centenário do nascimento do insigne arcebispo de Braga, que se encontra sepultado em Viana do Castelo, no Convento de São Domingos por ele próprio mandado construir, como se referiu, e onde se recolheu até à sua morte, em 16 de julho de 1590.
A 5 de fevereiro de 2015, Dom Jorge Ortiga entregou, em mãos, ao Papa Francisco um dossiê sobre a vida do beato prelado e formulou o pedido de canonização equipolente.
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Assumindo-o como “um companheiro de viagem que nos abre novos horizontes” desde sempre, o atual metropolita bracarense diz que o testemunho de São Bartolomeu dos Mártires “é eloquente”. Ao reler o lema episcopal do seu antecessor quinhentista, Ardere et Lucere, vê nele a convicção de que “o Evangelho é luz que arde nos corações de todas as pessoas de boa vontade”. Evoca, a este respeito, “a imagem dos discípulos de Emaús, que reconheceram arder-lhes o coração enquanto Jesus lhes falava pelo caminho e lhes explicava as Escrituras” (cf Lc 24,32), para afirmar o fervor apostólico, a docilidade discipular e a índole testemunhal de Bartolomeu dos Mártires. Apresenta-o ainda como o modelo do evangelizador ex corde ad mundum, pois dirigiu-se ao mundo a partir do coração, ou seja, quis a partir da transformação espiritual do ser e atuação de sacerdotes e leigos chegar à transformação do mundo, tentando assim realizar a evangelização com frutos já neste mundo, mas com vista à eternidade feliz.
Em homenagem ao insigne prelado, Dom Jorge Ortiga informou que, em parceria com a Câmara de Braga e num gesto de reconhecimento público, a Igreja bracarense procederá à colocação de uma estátua no lugar mais caro ao Beato Bartolomeu, isto é, na proximidade do antigo Colégio de São Paulo, atual Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo – estabelecimento de ensino que foi, para muitos, uma escola de vida, de fé e de debate cultural.
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A ‘canonização equipolente’, que produzirá a declaração formal de santidade de São Bartolomeu de Braga, e a que o Papa Francisco tem recorridos em diversas ocasiões, é um processo instituído no século XVIII por Bento XIV, através do qual o Papa “vincula a Igreja como um todo para que observe a veneração de um Servo de Deus ainda não canonizado pela inserção da sua festividade no calendário litúrgico da Igreja universal, com Missa e Ofício Divino” próprios.
Dois desses processos levaram à canonização de figuras ligadas à missionação portuguesa: o padre José Vaz, nascido em Goa, então território português, a 21 de abril de 1651, que foi declarado santo no Sri Lanka; e José de Anchieta (1534-1597), religioso espanhol que passou por Portugal e se empenhou na evangelização do Brasil juntamente com o Padre Manel da Nóbrega.
2016.02.10 – Louro de Carvalho

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