terça-feira, 26 de abril de 2016

No centenário da trágica morte de Mário de Sá-Carneiro


Muita da opinião pública não descola dos classificativos de “suicida” ou de “desregrado” para enquadrar o perfil pessoal e literário do português residente em Paris, em grande parte do seu tempo de vida, usufruindo do contacto com os grandes artistas do tempo e assistindo à génese daquela que viria a ser a grande revolução artística do século XX, a Vanguarda, ora com ceticismo ora com entusiasmo. Ora nem a sua obra reveste o formato ou compagina o conteúdo de autobiografia em verso, como quiseram alguns (vg Giorgio di Marchis), nem o epidérmico confessionalismo dos seus versos leva a encontrar com segurança na obra uma justificação para a vida ou na vida uma justificação para a morte – a não ser em termos da empírica verificação existencial de que todos os que agora vivem hão de morrer a seu tempo.

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Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, a 19 de maio de 1890, no seio duma família abastada da alta burguesia. Filho e neto de militares (descendentes de cristãos novos da zona de Bragança), ficou órfão de mãe (Águeda Maria de Sousa Peres Murinelo) apenas com a idade de 2 anos e, dado que o pai (Carlos Augusto de Sá Carneiro) – um coronel de engenharia – teve de encetar uma vida de viagens, ficou entregue ao cuidado dos avós, passando a viver com eles na Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, passando aí grande parte da infância.

À semelhança do trisavô (que fez parte da Legião Portuguesa), do bisavô (que participou nas lutas liberais e que foi par do Reino) e do seu avô, também o pai seguira a carreira militar, depois de concluir o curso de Engenharia. Já a mãe, oriunda de família modesta de pequenos funcionários públicos, era filha de José Leopoldo Murinelo.

Segundo João Pinto de Figueiredo, autor de A Morte de Mário de Sá-Carneiro, José Leopoldo tornou-se conhecido pelo crime de abuso de confiança na Santa Casa da Misericórdia, onde trabalhava, tendo sobre ele recaído como sanção a reforma compulsiva (com o vencimento por inteiro). O caso, badalado nos jornais, fez com que o mui indignado jornalista Silva Pinto, amigo de Cesário Verde e Camilo Castelo Branco, criasse o neologismo murinelizar.

A trágica morte da mãe do escritor, por febre tifoide, viria a originar a criação de alguns dos mitos associados ao poeta. Em 1991, António Quadros escreveu, na introdução à edição da poesia completa de Sá-Carneiro, da Europa-América: “O drama psicológico de Mário de Sá-Carneiro principiou sem dúvida com a morte prematura da sua mãe”. Tal asserção, contudo, parece não corresponder à verdade, dado que Mário era ainda muito criança ainda.  Em todo o caso, o escritor viu-se desde cedo rodeado apenas de figuras masculinas, de que se destacam o pai, com quem acabou por conviver mais à distância, e o avô, José Paulino, com quem o pequeno vivia na Quinta da Vitória. A quase única presença feminina na infância de Sá-Carneiro terá sido Maria Encarnação, a antiga governanta da quinta de Camarate.

Foi naquela Quinta que em rapaz se iniciou na escrita das primeiras linhas. Com 9 anos, tinha o hábito de criar pequenas peças de teatro, que distribuía pela cozinheira e criadas. Costumava representar em cima dum pequeno poço que o pai mandara tapar para ele poder brincar sem perigo, como lembrou anos mais tarde Edith de Sá Carneiro, tia de Sá-Carneiro e filha do segundo casamento do avô.

Deixou a quinta de Camarate, em 1900, para ingressar no Liceu do Carmo (hoje, Escola Secundária Veiga Beirão); e é daí que datam as primeiras deambulações pela poesia e jornalismo. Em 1904, lançou O Chinó, um jornal académico humorístico, que pôs à venda no quiosque do Largo do Carmo, mas que teve vida curta, pois, no início de 1905, o pai proibiu a sua venda por ser demasiado humorístico em relação a alguns professores do Liceu do Carmo.

Iniciado na poesia aos 12 anos, já traduzia Victor Hugo aos 15; e aos 16, traduzia Goethe e Schiller. E foi durante o ensino liceal que teve as episódicas experiências como ator e começou a escrita em forma. Só aos 21 anos se matriculou em Coimbra na Faculdade de Direito, mas não chegou a concluir o ano letivo. Em 1912, travou conhecimento com Fernando Pessoa, aquele que veio a ser o seu melhor amigo. E, desencantado da lusa Atenas, seguiu para a cidade das Luzes a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Porém, em breve, abandonou as aulas na Sorbonne e passou à vida boémia deambulando por cafés e salas de espetáculo, conhecendo a fome e o desespero – situação que o levou à ligação emocional a uma prostituta com o fito de ultrapassar frustrações e angústias, mas com tempo para editar.

A sua vida desregrada e os fumos da nascente revolução artística a que estava a assistir vêm espelhados na correspondência trocada com Fernando Pessoa – escritor, “irmão de Alma” – com quem fundou, em 1915, a revista Orpheu (nela foram publicados os desabafos do poeta residente em Paris), um dos mais importantes acontecimentos literários do século XX português.

Quando o ocorreu o suicídio, a 26 de abril de 1916, o poeta tinha apenas 25 anos, mas a sua obra influenciou a geração da Presença e muitos escritores que lhe seguiram toparam nos seus textos uma linguagem tão estranha e intrigante como tempo fascinante. Por isso, pode dizer-se, com Fernando Cabral Martins, “Mário de Sá-Carneiro ajudou a mudar a literatura portuguesa”.

Apelidado de “maluquinho”, sem nunca parar, escreveu poesia, prosa (nomeadamente ficção: conto, novela e romance) e teatro. Porque tinha “um sentido de obra relativamente grande”, como refere Ricardo Vasconcelos “levava aquilo de uma ponta à outra e desenvolvia as obras com grande coerência. Tinha muito mais esse sentido de obra e de conclusão” (cf Observador, de 26 de abril), muito mais do que Pessoa, para quem a literatura era sempre um work in progress.

Entre 1912 e 1915, datas respetivamente do primeiro livro e do último, editou vários livros de contos, novelas, um romance e uma plaquette de poesia sem igual com o título de Dispersão. Por editar ficaram ainda dezenas de poemas.

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Aquando do nascimento do poeta escritor, ainda estava muito vivo na mente dos portugueses o ultimatum inglês que obrigou, a 11 de janeiro daquele ano, à retirada das tropas chefiadas pelo Major Serpa Pinto da faixa territorial compreendida entre Angola e Moçambique, representada nos mapas a cor-de-rosa – o que fez a gota de água que, 10 anos mais tarde, havia de conduzir levaria à queda da monarquia e ao advento da República.

Um dos poemas mais antigos de Sá-Carneiro foi dedicado à Quinta da Vitória. “Não veem que nessa quinta/ Dá uma fruta tão bela?/ Seus caturras duma figa/ Sejam gratos pra com ela” – escreveu, então com 13 anos. Mas já, em 1910, em parceria com Tomás Cabreira Júnior, amigo de escola, Mário de Sá-Carneiro escrevera Amizade, peça de teatro que viria a ser apresentada dois anos depois pela Sociedade de Amadores Dramáticos, no Clube Estefânia e que António Quadros consideraria “o primeiro trabalho de vulto” do escritor. E constitui, com Fernando Pessoa Almada-Negreiros, Luís de Montalvor, Armando Cortes-Rodrigues, Alfredo Guisado e outros, o grupo exponencial do modernismo em Portugal e Mário passa a figurar como um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.

Os poemas editados no número 1 de Orpheu, destinados a Indícios de Oiro, são denunciadores da adesão às estéticas paúlica e sensacionista, gerada na correspondência entre Pessoa e Carneiro, glosando, em moldes do simbolismo-decadentismo, a abjeção de um eu em conflito com um outro eu, verso da frustração/insatisfação. Por sua vez, Manucure, no número 2 de Orpheu, revela um excursus por uma forma poética mais próxima da escrita da vanguardista futurista, sobressaindo a autonomização do significante. Porém, já na revista Renascença (1914), onde Pessoa publica Impressões de Crepúsculo Sá-Carneiro instituíra a experiência poética situada entre a herança simbolista e as tentativas paúlicas e interseccionistas.

Por outro lado, em Sá-Carneiro ganha vulto o sustentável paradigma da prosa modernista com a publicação das narrativas Céu em Fogo A Confissão de Lúcio, construídas essencialmente a partir do estranhamento dum narrador insolitamente imerso em situações em que aos temas obsessivos do desdobramento, fragmentação e autodestruição do “eu” se associam o erotismo, o onirismo e o fantástico. O seu óbito, com 26 anos, parece vir confirmar o agudo sentimento de inadaptação à vida, de permanente incompletude, de narcísico autoaviltamento e de consciência angustiada da irremediável cisão do eu. É o corolário da tensão existencial entre um “eu” que faz o que não quer, arrastado pelo materialismo da vida, e um outro “eu”, seu contraponto ideal, que não consegue fazer aquilo a que o espírito o provoca – seres diálicos que alimentam temática e esteticamente a obra, fazendo do escritor uma espécie de poeta proscrito. E é desta veia pessimista e melancólica que se alimentam, em parte, os poetas e prosadores subsequentes, assaz tocados pelas nefastas consequências do primeiro grande conflito bélico mundial, a que se seguem as alastrantes crises políticas, económicas, sociais e financeiras – a servir de lastro ao imparável mundo da fome, exploração e miséria, campo fértil à proliferação de totalitarismos.

Aqui se deixa, por amostra, sem comentário que manipule o leitor o poema Último soneto:

Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes – e vieste...
– Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
 
Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste –
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...
Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...
 
E fugiste... Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?...
 
Paris, dezembro 1915
 

 

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Em suma, Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, estudou em Paris e fundou, com outros, a Orpheu, revista que veio a ter um papel fundamental na compaginação da nova da literatura portuguesa, a do século XX. Sofrendo uma crise existencial grave, suicidou-se num quarto de hotel em Paris. Como principais obras poéticas, legou-nos: Dispersão (1914), Indícios de Oiro (1937). E, como principais obras de ficção: A Confissão de Lúcio (1914) e Céu em Fogo (1915).

Não vale julgá-lo pelo estilo de vida nem pelo modo como lhe pôs fim (como Camilo ou Antero), mas pelas aspirações e mensagens plasmadas na obra literária através da qual podemos compreender melhor o drama humano.

2016.04.26 – Louro de Carvalho

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