domingo, 8 de maio de 2016

“Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo”


Celebra-se hoje, dia 8 de maio, o 50.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, para o qual o Papa Francisco elaborou e fez divulgar uma pertinente mensagem, datada de 24 de janeiro, dia litúrgico de São Francisco de Sales, proclamado patrono dos escritores e jornalistas por Pio XI.

O tema da mensagem papal – comunicação e misericórdia: um encontro fecundo – parece um tanto surpreendente, já que muita da comunicação social hodierna, a coberto da propalada objetividade, marca distância, cria saturação e gera indiferença. Por outro lado, a sede do lucro, a arreigada obsessão da venda de papel ou da consecução de audiências e o protagonismo do exclusivo do preenchimento da cena pública são marcas da atividade empresarial no campo das comunicações chegando a espezinhar a liberdade, a dignidade, a privacidade e a sobrevivência de tantos. Tanto assim é que alguns, como Dom Pio Alves, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, afirmam que a misericórdia está muito ausente da comunicação social. Por outro lado, assistimos a fenómenos de intoxicação da opinião pública através da repetição e excesso de informação que levam à habituação ou à indiferença perante os dramas da humanidade que a comunicação social ostenta, tantas vezes, sem piedade, sem pena, compaixão e misericórdia – como dado inerente à sociedade ou aos poderes. Além disso, muitos repórteres perdem tempo a expor as vítimas, os sinistrados ou os simples “seres frágeis” ao incómodo de terem de expressar os seus sentimentos e as suas vivências, quando aquilo que que precisavam era tranquilidade, paz, acompanhamento e apoio.

Não obstante, Francisco tem razão ao olhar para as comunicações como fator e instrumento de misericórdia por várias razões. Antes de mais, comunicar é pôr em contacto pessoas, estabelecer pontes entre mundos iguais e diferentes. Conhecendo o outro e o seu mundo, temos a rampa de lançamento para a proximidade. Depois, comunicar é alimentar a relação dialógica diluindo o sofrimento e potenciando o gosto de viver. E comunicar é cair na realidade com os olhos, os ouvidos, o olfato, o sabor e o tacto. Ora, se a aguda lucidez da inteligência analisar a realidade e a força da vontade a quiser modificar em ordem à melhoria, a misericórdia acontecerá.

É que a misericórdia é cair na realidade com o coração, saboreando o gosto das coisas boas e a felicidade daquelas pessoas que são felizes e dinâmicas e, ao mesmo tempo e por maioria de razão, abeirar-se dos infelizes, dos que não sabem, não têm e sofrem os males do corpo ou do espírito – não têm vez nem voz, sofrem o descarte, não são livres, tiraram-lhes as condições de viver em dignidade.

E hoje a comunicação social passou de típica comunicação unilateral e difusão a efetivo espaço comunicação interativa e multilateral: muitos programas de rádio e de televisão dão vez e voz aos ouvintes e telespectadores; os jornais editados suporte de papel têm a secção do correio do leitor ou de cartas ao diretor; os jornais on line permitem comentários e artigos de opinião; foi instituído o mecanismo do exercício do direito de resposta; e multiplicam-se os debates, simpósios, fóruns e mesas redondas. Portanto, se a justa liberdade de expressão, o apreço pela insofismável dignidade da pessoa humana, o equilíbrio informativo com a objetividade possível e a capacidade discreta de formação pelos valores axiológicos se sobrepuserem aos objetivos meramente empresariais e ideológicos, fica aberto o campo para a misericórdia. Com efeito, conhecendo os bons ideais enunciados algures temos acesso à adesão a eles através das pontes de encontro criadas e facilitadas pela comunicação social. As mesmas pontes nos permitirão aderir às boas práticas que virmos em outras comunidades. As mesmas pontes de encontro nos abrirão ao mundo dos que mais precisam e mais sofrem, tornando-nos nós os seus próximos. E as mesmas pontes nos exporão naturalmente, com os nossos ideais, boas práticas e dores ao apelo à comunhão dos outros connosco.

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Francisco, na sua já mencionada mensagem, chama a atenção para o facto de o “Ano Santo da Misericórdia” nos convidar a “refletir sobre a relação entre a comunicação e a misericórdia”. Isto, porque “a Igreja unida a Cristo, encarnação viva de Deus Misericordioso, é chamada a viver a misericórdia como traço caraterístico de todo o seu ser e agir”. Assim, cada palavra ou gesto deveria expressar a compaixão, a ternura e o perdão de Deus para todos. E diz o Papa:

“O amor, por sua natureza, é comunicação: leva a abrir-se, não se isolando. E, se o nosso coração e os nossos gestos forem animados pela caridade, pelo amor divino, a nossa comunicação será portadora da força de Deus.”.

Porque na nossa condição de filhos de Deus e irmãos de todos, “somos chamados a comunicar com todos, sem exclusão”, torna-se “próprio da linguagem e das ações da Igreja” a transmissão da misericórdia, “para tocar o coração das pessoas e sustentá-las no caminho rumo à plenitude da vida que Jesus Cristo, enviado pelo Pai, veio trazer a todos”. É “acolher em nós mesmos e irradiar ao nosso redor o calor materno da Igreja, para que Jesus seja conhecido e amado”.

Porque “a comunicação tem o poder de criar pontes, favorecer o encontro e a inclusão” – “tanto no ambiente físico como no digital”, “enriquecendo assim a sociedade” – as nossas “palavras e ações hão de ser tais que nos ajudem a sair dos círculos viciosos de condenações e vinganças que mantêm prisioneiros os indivíduos e as nações”. Ao invés, “a palavra do cristão visa fazer crescer a comunhão e, mesmo quando deve com firmeza condenar o mal, procura não romper jamais o relacionamento e a comunicação”. Por isso, Francisco pretende “convidar todas as pessoas de boa vontade a redescobrirem o poder que a misericórdia tem de curar as relações dilaceradas e restaurar a paz e a harmonia entre as famílias e nas comunidades”.

Neste aspeto, a mensagem papal parte do dinamismo da comunicação para lançar o apelo para as palavras e atitudes de misericórdia a toda a Igreja, a cada um dos cristãos e às pessoas de boa vontade. Porém, não deixa de apelar a que “também a linguagem da política e da diplomacia se deixe inspirar pela misericórdia, que nunca dá nada por perdido” – apelo extensivo àqueles que têm responsabilidades políticas, institucionais e de formação da opinião pública, “para que estejam sempre vigilantes sobre o modo como se exprimem a respeito de quem pensa ou age de forma diferente e ainda de quem possa ter errado”.

E a mensagem de Francisco pretende lançar as bases da alteração do modo de comunicar e servir dos pastores na Igreja de forma a nunca expressarem “o orgulho soberbo do triunfo sobre um inimigo”, nem humilharem “aqueles que a mentalidade do mundo considera perdedores e descartáveis”.

A quem pense que “uma visão da sociedade enraizada na misericórdia seja injustificadamente idealista ou excessivamente indulgente”, recorda as primeiras experiências de relação no seio da família:

“Os pais amavam-nos e apreciavam-nos mais pelo que somos do que pelas nossas capacidades e os nossos sucessos. Naturalmente os pais querem o melhor para os seus filhos, mas o seu amor nunca esteve condicionado à obtenção dos objetivos. A casa paterna é o lugar onde sempre és bem-vindo (cf Lc 15,11-32).

Por analogia, o Papa encoraja todos a pensarem “a sociedade humana não como um espaço onde estranhos competem e procuram prevalecer, mas antes como uma casa ou uma família onde a porta está sempre aberta e se procura aceitar uns aos outros”. Por isso, lembra o essencial do ato de comunicar: comunicar é partilhar; e partilhar exige escuta e acolhimento para se poder responder em conformidade enriquecendo o que se escutou. É preciso escutar mais que ouvir: ouvir refere-se à informação; escutar refere-se à comunicação e postula a proximidade.

Falando de e-mails, sms, redes sociais, chats, sustenta que “podem ser formas de comunicação plenamente humanas, pois “não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao seu dispor”.

Verificando que “a comunicação, os seus lugares e os seus instrumentos permitiram um alargamento de horizontes para muitas pessoas”, define este fenómeno como “um dom de Deus” e “uma grande responsabilidade”. E, finalmente, sintetiza o essencial da mensagem:

“Gosto de definir este poder da comunicação como proximidade. O encontro entre a comunicação e a misericórdia é fecundo na medida em que gerar uma proximidade que cuida, conforta, cura, acompanha e faz festa. Num mundo dividido, fragmentado, polarizado, comunicar com misericórdia significa contribuir para a boa, livre e solidária proximidade entre os filhos de Deus e irmãos em humanidade.”

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Hoje, após a oração do Regina Coeli, Francisco evocou o 50.º Dia Mundial das Comunicações Sociais celebrado neste Domingo da Ascensão do Senhor (nalguns países, a Ascensão celebrou-se passada quinta-feira, como é da tradição bíblico-litúrgica), enviando a todos quantos trabalham na comunicação uma cordial saudação e fazendo votos para que o modo de comunicar na Igreja tenha sempre um claro “estilo evangélico”, um estilo que una a verdade e a misericórdia.

É o recado que visa incutir na comunicação social o elemento fundante da comunicação – proximidade e partilha – possibilitador do ambiente da misericórdia e, o mesmo tempo, lançar as bases de uma comunicação mais misericordiosa e inclusiva em Igreja.

É óbvio que a Igreja, consciente da sua missão de evangelização, não se fica na função informativa e na de entretenimento da comunicação social; quer ir mais longe, fomentando o levar da proximidade solidária a quem festeja a vida e os seus valores, atender com alma e coração solidários os que sofrem lutando pela implantação da justiça e formando na doutrina e nos costumes.

Prosit.


2016.05.08 – Louro de Carvalho

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