quinta-feira, 2 de junho de 2016

Frederico Lourenço às voltas com Jesus


Neste livro, um grande intelectual português e um dos nossos maiores classicistas coloca em evidência o que deveria ser um dado cultural inquestionável: “mesmo não acreditando que a Bíblia transmita ‘sem erro’ a palavra infalível de Deus e duvidando, ao mesmo tempo, que a correcta leitura da Bíblia seja relativizar e alegorizar tudo o que lá encontremos que não nos convém, mesmo assim considero o tempo gasto a ler este mais fascinante de todos os livros tempo ganho e (porque não?) infalivelmente bem empregue.”
Frederico Lourenço repetirá esta sua paixão pela Bíblia por diversas vezes ao longo do livro. E esta atitude de reconhecimento pelo valor do texto bíblico é de destacar mais ainda, quanto ela é rara na cultura portuguesa contemporânea. E é de sublinhar ainda mais quando se sabe que o autor se afastou do catolicismo em grande parte por causa da sua homossexualidade, facto que ele recorda de várias formas, em diferentes passagens do livro.
Composto por pequenos ensaios sobre os mais diversos temas, textos e personagens da Bíblia, O Livro Aberto devolve-nos ainda o prazer imenso da leitura de um texto literariamente rico e bem escrito.
Nesse exercício, Frederico Lourenço faz um trabalho (quase) completo: ele lê, desvela, revela, decifra, comenta e interroga o texto bíblico. Usando por vezes a ironia fina, o humor ou entrando em diálogo com o leitor.
O que falta, então? Colocando-se claramente numa posição antagónica da infeliz frase de Saramago, quando o escritor Nobel falou da Bíblia como um “manual de maus costumes”, Lourenço acaba por deixar o leitor frustrado porque não leva o seu exercício até ao fim. Ou seja, fica enredado quase numa tentação próxima da de Saramago: a de recusar a possibilidade da hermenêutica de um texto clássico.
Essa frustração é tanto maior quanto, em alguns momentos, Lourenço entra nesse domínio de forma arguta. Por exemplo, quando, a propósito de algumas visões cristãs mais tradicionais sobre a família, contesta a “ênfase hiperbólica na família enquanto estrutura divinamente sancionada, quando no fundo o que Jesus não parou de dizer foi precisamente o contrário: quem segue a palavra de Deus não quer saber da sua família, porque os laços de sangue não contam para nada: o que conta são os laços espirituais”.

É precisamente esse exercício que se tem pena, não ver mais assumido – e ser mesmo contrariado, por vezes. O autor contesta que a Bíblia possa ser lida de forma “alegórico-relativizante”, quando os seus muitos autores quiseram que os seus textos fossem “tomados à letra”. Seria preferível, no entanto, falar de uma leitura espiritualmente fundante ou fundadora (ou inspiradora). Ou seja, o texto bíblico, tendo sido escrito por muitos autores (talvez não todos – basta pensar nos livros “sapienciais” ou “proféticos”) para serem tomados à letra, devem ser lidos, cada vez mais, no seu contexto.
Isso não retira valor à intenção dos autores bíblicos: a leitura contextualizada não tem de ser necessariamente alegórico-relativizante. Mesmo se admite a alegoria e a relativização, ela procura, sobretudo, o modo como o texto pode ser espiritualmente fundante. Para um crente, desde logo, mas também para um não-crente: este procurará entender o modo como as várias leituras possíveis (porque de várias leituras se trata, diacrónica e sincronicamente) foram interpretando o que ali é dito.
Também no que escreve sobre São Paulo e as origens da zanga entre os primeiros cristãos e o judaísmo, Frederico Lourenço coloca o ónus da condenação do judaísmo em várias referências do Novo Testamento. Mas a questão é mais vasta do que isso: logo desde muito cedo, e durante os dois primeiros séculos da era comum, cristãos e judeus arremeteram verbal mas violentamente uns contra os outros naquilo que Isidro Lamelas já designou como o proto-cisma. O que se passou está, aliás, muito bem sintetizado numa frase de Frederico Lourenço, depois de referir as críticas do Novo Testamento cristão ao judaísmo: “Compreensivelmente, este novo movimento – o cristianismo – é visto por muitos judeus como visando a anulação da identidade judaica; e por isso o rejeitam. Os judeus desistem de tentar compreender os cristãos; e os primeiros cristãos desistem dos judeus.”
Os últimos capítulos, sobre Jesus, são – creio – os mais interessantes. Lourenço mostra aí, claramente, porque anda às voltas com a Bíblia. O texto com o título “Sepultar Jesus (em três etapas)” é, a esse respeito, de uma notável força humana (e literariamente belíssimo). Cito o final: “Se [Jesus] ressuscitou (ou não) não sei; mas que aqui, no mundo em que morreu, ele venceu a morte, disso tenho a certeza: porque tanto crentes como não-crentes andaremos às voltas com Jesus nas nossas cabeças enquanto houver seres humanos na Terra.”

O Livro Aberto: Leituras da Bíblia
Autor: Frederico Lourenço
Edição: Cotovia
152 pág., PVP 16 euros
 
(Texto publicado no Diário de Notícias de 10 de Abril de 2016)
Fonte: aqui

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