quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Os Espiões do Papa – A Guerra Secreta de Pio XII contra Hitler


Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado” – que a opinião pública mundial vem absorvendo a tese de que Pio XII fora o “Papa de Hitler”. Com efeito, muitos o apresentaram como aliado do regime nazi. Não obstante, há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que a referia tese não passa de uma distorção deliberada, pois, vários líderes judeus vieram em defesa de Pacelli. Agora surge a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade. Na verdade, com base em documentos do Vaticano, o historiador Mark Riebling conta o outro lado de um dos mais importantes dilemas do século XX.

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Como surge a ideia do filogermanismo do cardeal Pacelli? O Secretário de Estado de Pio XI tinha sido núncio apostólico na Baviera e, depois, em Berlim – cargo que desempenhou com proficiência. É normal que tivesse conhecimento apurado da idiossincrasia do povo alemão e da Igreja na Alemanha. E  é natural que, enquanto diplomata tentasse equilíbrios difíceis ou até incorrido na crença de que o Governo estaria bem intencionado, pois Hitler chegou ao poder por via eleitoral em tempo de crise social, política e económica. Por outro lado Riebling recorda:

“Quando os nazis tomaram o poder, em 1933, Pio XII [aliás, Pacelli] elogiou o anticomunismo de Hitler e aceitou a proposta deste para formalizar os direitos dos católicos. Pacelli negociou uma concordata garantindo o financiamento da Igreja com 500 milhões de marcos de receitas fiscais anuais.”.

Entretanto, a Igreja Católica estabelecera, como Riebling refere, uma concordata com o Estado alemão como o fizera com o Estado italiano e outros Estados. Ora, a concordata é um pacto entre Estados que estabelece obrigações entre as partes, reconhecimento de legitimidades mútuas e cedências em matérias que não descaraterizem as partes.

Foi com base na confiança mútua que, em 11 de fevereiro de 1929, Pio XI e o Estado italiano celebraram o Tratado de Latrão, que reconhecia a soberania dos Estado Pontifício na atual faixa territorial e nos locais onde se situam imóveis da Santa Sé, bem como a concordata.

Não obstante, os acontecimentos cedo ultrapassaram os tratados. E, logo em 29 de junho de 1931, promulgou a encíclica “Non abbiamo bisogno” (Não Precisamos) que possuía uma postura fortemente antifascista, recebendo como retaliação à sua publicação, da parte do ditador Benito Mussolini, que seguia tal política, a ordem de que fossem dissolvidas as associações católicas de jovens na Itália. Por ouro lado, o Papa teve de limitar fortemente a ação do Partido Popular, até que ele foi dissolvido, negou qualquer tentativa de Sturzo de reconstruir o partido e viu-se forçado a lidar com enormes conflitos e embates com o fascismo por causa de tentativas do regime de hegemonizar a educação dos jovens e da intromissão do regime na vida da Igreja. É óbvio que Pio XI foi também muito crítico sobre o papel da pessoa social imposto pelo capitalismo e, na encíclica “Quadragesimo anno”, de 1931, apelou à urgência de reformas sociais já identificadas 40 anos antes pelo Papa Leão XIII, reiterando a condenação de todas as formas de liberalismo e de socialismo. E condenou fortemente o nacional-socialismo (nazismo), em 1937, por meio da encíclica “Mit brennender Sorge”, sobretudo na vertente da estatolatria  e na racista alegadamente por motivos biológicos.

No entanto, num primeiro momento, o Episcopado alemão manifestou-se por Hitler, a ponto de o Presidente da CEP ter sido chamado ao Vaticano com ordem de promover a retratação.

Também, ao emitir a encíclica “Quas primas”, em 1925, com a qual estabeleceu a festa de Cristo Rei para lembrar a lei da religião a permear todas as áreas da vida quotidiana (o Estado, a economia e as artes), chamou os leigos a um maior envolvimento religioso e, em 1938, promoveu a reorganização da Ação Católica.

Contudo, a uns meses antes de morrer, Pio XI deixou de suportar o regime italiano e o regime alemão, sobretudo por causa da disseminação violenta do racismo e pelo endeusamento dos dois líderes – estado de alma de que dada conta nas audiências em Castelgandolfo. E encomendou um projeto de encíclica sobre a unidade do género humano a um padre da Companhia de Jesus, que agregou a si, para o trabalho, mais dois colaboradores jesuítas sob os auspícios do superior geral. Ora, é exatamente ante a atitude do Secretário de Estado, o cardeal Pacelli, que os colaboradores vaticanos se interrogam: Porque é que Pacelli fez desaparecer os papéis com o texto que estavam na escrivaninha do Papa moribundo?

À partida, poderia ser por discordância. Mas também poderia ser por não haver tempo de tratar o texto-projeto de encíclica de modo a dar-lhe forma encíclica e publicável em nome do Papa, o qual tinha preparado um discurso duro contra os dois regimes – italiano e alemão – que não chegou a pronunciar, embora a Rádio Vaticano tivesse feito algumas referências claras às disposições do Papa nos últimos dias de vida. No entanto, sabe-se hoje que Pio XII incluiu a maior parte das ideias na sua primeira encíclica “Summi Pontificatus” (publicada 10 meses depois da eleição papal), em que traça o programa do seu ministério petrino e exprime a sua angústia pelo sofrimento que atinge os indivíduos, as famílias e toda a sociedade. 

A demanda sobre o que se passou com a projetada encíclica de Pio XI “Humani Generis Unitas”, bem como a dupla posição de Pacelli pode ler-se no livro “O Papa e Mussolini”, de David I. Kertzer (ed. Individual Livros: 2015), que desvenda o relacionamento entre duas das mais importantes figuras políticas europeias do século XX.

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“Pio XII” foi o nome escolhido pelo cardeal romano Eugénio Pacelli, eleito papa a 2 de março de 1939, num conclave que, “pela primeira vez desde que havia memória, atraiu uma multidão de correspondentes da imprensa estrangeira, cujas teleobjetivas, no dizer de uma testemunha, faziam lembrar canhões antitanque”. E, mal o cardeal Eugenio Pacelli se tornou o Papa Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, padre laicizado, que preparasse um dossiê sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que negociara com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma. Pacelli – dizia Hartl – acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Mais: pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o antissemitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo que “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.

Entretanto, Pio XII reunia-se com cardeais alemães a discutir o problema de Hitler. E queixou-se de que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi, que sustentou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.

O cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937, “Mit Brennender Sorge”, publicada em alemão e não em latim e distribuída por um exército de motociclistas. O texto, escrito em parte por Pacelli antes de se haver tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber:

“A questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado diretamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.

Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”, propondo que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e atualizada.” E o Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina”, pois, “quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. Tais sugestões mereceram a concordância do Papa XII.

Assim nasceu o plano de construção duma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.

No seu livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler” (agora a chegar às livrarias em português, editado pela Presença), Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e atas secretas, ora divulgadas que descrevem as táticas clandestinas de Pio XII para o derrube do regime nazi.

Após a invasão da Polónia por Hitler em 1939, o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A encíclica “Summi Pontificatus””, já mencionada, rejeitou o racismo, no pressuposto de que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo. Mais: o Pontífice escreveu que “ainda que à custa de ‘tormentos e martírio’, há que ‘confrontar essa perversidade dizendo: Non licet – não é permitido!’”. No mesmo texto, o Papa consagrou “a unidade do género humano”, sublinhando “que essa unidade negava o racismo” e rematou declarando: “Não há gentio nem judeu”.

O Papa foi amplamente louvado por isso. A este propósito, um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas sentia que era pouco.

Depois, “conforme afirmou um oficial das SS [organização paramilitar nazi], seria absurdo acusar Pacelli de ser pró-nazi” e, por outro lado, “as declarações públicas de Pacelli incomodavam Berlim”.

Convicto de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos que colaborassem com ações clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era Josef Muller, advogado e herói da I Guerra Mundial, que organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Estes forneciam ao Vaticano informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942, Muller introduziu Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objetivo era fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões para os cristãos poderem coordenar a luta contra Hitler.

As tentativas de assassinato de Hitler falharam devido, segundo Muller, à “sorte do diabo”. Mas, em relação a tais planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.

Depois do falhanço do plano “Valquíria”, a Gestapo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.

Muller foi enviado para Buchenwald. A 4 de abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. E, depois dum julgamento fantoche, foram condenados à morte. Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas, temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15.º Exército dos EUA.

Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o, dizendo que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.

Riebling revela que, durante a visita de Muller ao Vaticano, o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra. Muller disse que durante a guerra a sua organização antinazi na Alemanha tinha insistido muito em que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico, os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras, o que teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis, tendo restringido imensamente a sua liberdade de ação na resistência ao regime. Muller disse que a política da resistência católica no interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. E o Papa seguira sempre este conselho durante a guerra.

De tal modo foi percebido o papel do Papa por Hitler que, segundo alguns historiadores, ordenou o sequestro do Papa por medo de Pio XII vir a aumentar e agravar as suas críticas à perseguição judia levada a cabo pelos nazistas. E temia que a oposição papal inspirasse mais resistência e oposição à ocupação alemã na Itália e outros países católicos. Nessa eventualidade, o Papa disse à Cúria que a sua captura pelos nazistas implicaria resignação imediata, abrindo caminho à eleição do sucessor. Os cardeais teriam de se refugiar em país seguro e neutro, como Portugal, onde iriam restabelecer a liderança da Igreja Católica Romana e eleger novo Papa.

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Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu Nêmesis.

É certo que a suposta impassividade do Vaticano face às atrocidades nazis na II Guerra Mundial representa uma das maiores controvérsias da atualidade. A história apelidou Pio XII de “O Papa de Hitler”, considerando-o conivente com a política nazi. Porém, mais do que manter-se distanciado ou cúmplice dos acontecimentos ocorridos num dos mais períodos negros da história, o Papa teve papel fundamental nos eventos que levaram à derrota nazi. Mark Riebling, baseado em documentos recentemente abertos pelos arquivos secretos do Vaticano e pelo British Foreing Office, apresenta a versão que, ao longo de décadas, foi encoberta, abrindo as portas do Vaticano para revelar factos surpreendentes na história do pontificado.

2016.10.19 – Louro de Carvalho

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