sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A onda da Web Summit: tecnologia e empreendedorismo


Decorreu, pela primeira vez em Lisboa (após as 7 edições em Dublin), de 7 a 10 de novembro, a Web Summit. Não sendo o maior evento de tecnologia da Europa, é indubitavelmente uma das feiras mais importantes da área, principalmente no que diz respeito às startups (definíveis como como empresas iniciantes de tecnologia) e ao empreendedorismo. Estiveram presentes mais de 53 mil pessoas, das quais cerca de 42% eram mulheres.

A Web Summit dividiu-se entre o MEO Arena e a FIL e serviu essencialmente para startups de várias partes do mundo mostrarem os seus produtos, fazerem novos contactos e encontrarem investidores ou parceiros. Participaram a Y Combinator, Intel Capital, Silver Lake, Google Ventures, Sherpa Capital, Union Squares Ventures, Portugal Ventures, Salesforce Ventures, 500 Startups… em suma, empresas com muito dinheiro para investir.

Além da componente de exposição, a Web Summit contou com uma série de conferências (21) a cargo de alguns dos maiores nomes da indústria, incluindo: Sean Rad, cofundador e CEO do TinderMike Schroepfer, diretor de tecnologia do Facebook; Takeshi Idezawa, CEO do Line, uma das aplicações de mensagens mais populares no Japão; Mike Quigley, diretor de marketing da Niantic, empresa que desenvolveu o Pokémon GoWerner Vogels, diretor de tecnologia da Amazon; Ryan Hoover, fundador do Product HuntEric Friedman, cofundador do Fitbit; Gillian Tans, CEO do site de reservas hoteleiras Booking.com; Eric Wahlforss, cofundador e diretor de tecnologia do SoundCloud; Corinne Vigreux, cofundadora da TomTomAlexis Ohanian, cofundador do RedditBlackstock, cofundador e CEO do BitmojiNicolas Brusson, cofundador e CEO do BlaBlaCar, um dos serviços de partilha de carro mais populares; Robert Scoble, um dos bloggers de tecnologia mais influentes; David Marcus, diretor do Messenger no Facebook; Alan Schaaf, fundador do ImgurMichael Pryor, CEO do TrelloTill Faida, fundador e CEO do Adblock PlusJustin Smith, CEO da Bloomberg Media… e muitos mais.

Temas atuais como a inteligência artificial, o ad-blocking, a condução autónoma, a realidade virtual, o open-source ou a utilização de cannabis medicinal não ficaram de fora do debate e da mostra. Também estiveram presentes políticos como Durão Barroso (que foi vaiado), Paulo Portas ou Tiago Brandão Rodrigues, bem como pessoas ligadas ao mundo do desporto como Patrícia Mamona, Luís Figo, Rui Costa ou Bruno de Carvalho. Ao Primeiro-Ministro coube participar na sessão inaugural e visitar a feira, visita onde chegou a ser confundido com um investidor. Também Fernando Medina, presidente do município lisboeta, deu as boas-vindas.

À semelhança do que acontecia em Dublin, a Web Summit não ficou restrita à zona oriental da capital, mas espalhou-se pela cidade, a coberto de diversos eventos paralelos, entre eles, visitas culturais a Lisboa e  saídas noturnas com os oradores e investidores que houveram por bem participar. O Turismo de Portugal  organizou eventos complementares da Web Summit: durante os dias 8 e 9, houve música (a editora Mano a Mano, o brilhante Benjamin, o campeão DJ Ride e outros mais), gastronomia e produtos regionais, bem como uma sessão videomapping. Já no dia 5, Paddy Cosgrave, fundador do evento, deu o pontapé de saída ao Surf Summit na Foz do Lizandro, na Ericeira, onde cerca de 200 participantes aproveitaram as ondas, após uma breve aula de surf.

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Embora a Web Summit seja um evento mais pequeno que qualquer um dos festivais de verão que se realizam em Portugal, tem gozado de um mediatismo excecional, não só pelas vozes oficiais do Governo, como pela comunicação social, que lhe tem dedicado páginas inteiras em jornais e rubricas em noticiários.

O evento chegou a Lisboa numa altura em que a cidade está na moda como nunca esteve. Com efeito, assistiu-se a um aumento substancial do turismo na capital e o ecossistema empreendedor da cidade ganhou relevância no panorama europeu e global. Lisboa tem centenas de startups, incubadoras, fablabs, espaços de coworking e investidores. António Costa, Primeiro-ministro e anterior Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e João Vasconcelos, Secretário de Estado da Indústria e fundador da incubadora Startup Lisboa, foram os principais rostos desta transformação de Lisboa numa “cidade startup”. E o empreendedorismo, abordado na recente Cimeira Ibero-americana, é, na senda do que se passou com governos anteriores, um dos principais pilares de ação do atual Governo, que, vendo nesta economia um forte potencial e rica oportunidade de crescimento e de valorização competitiva, lançou iniciativas como o Startup Portugal, com vista a ajudar quem pretende começar o próprio negócio.

Se os festivais de música como o NOS Alive colocaram Portugal na rota dos grandes eventos de música a nível europeu, a Web Summit pode ter o mesmo impacto no âmbito da tecnologia e das startups; e as startups nacionais tiveram aqui uma oportunidade para alcançarem o mercado internacional, sem terem de se deslocar.

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O que ficou do evento?

Ficaram 500 “estrelas de rock” portuguesas, os afetos do Presidente Marcelo, um robô que almeja destronar Donald Trump e outro que visa pôr crianças a programar, 1.200 milhões de euros para startups, reuniões e 53.056 QR Codes. Em três dias e meio, o evento abarcou 53.056 pessoas, 4 pavilhões da FIL para 1.490 startups, o MEO Arena cheio, mais de 4 milhões de visualizações de vídeo em direto do Facebook, 1.835 milhões de mensagens trocadas na app97.000 pastéis de nata, 37.000 quilómetros de cabos, 1.300 investidores.

A Web Summit foi uma conferência de 21 conferências, com 663 oradores e 2.000 jornalistas. 500 engenheiros portugueses asseguraram a internet de banda larga no evento (embora com críticas, algumas merecidas por cá e lá fora). Várias intervenções em palco abordaram a segurança nas redes sociais, a música, o amor, o empreendedorismo, o investimento, os meios de comunicação social, a inteligência artificial e, obviamente, as eleições norte-americanas (cujos resultados foram saudados por uns e vaiados por outros). 

Dos 1.200 milhões de euros, acima referenciados, 1.000 milhões são da Comissão Europeia para apoiar startups europeias e mais 200 milhões que o Estado português lançou para poder coinvestir em empresas, com mais 200 milhões dos privados. Ficou relevada – segundo Andrus Ansip, vice-presidente da Comissão Europeia e responsável pelo projeto do Mercado Único Digital – a vontade de acabar com uma certa Europa que tem “28 tipos de regras de mercado diferentes”, onde é “praticamente impossível” para as startups crescer, e que obriga “os cidadãos a usarem métodos ilegais para acederem a conteúdos digitais”.

Ficou também a imagem de Sophia, um dos robôs mais avançados do mundo, a propor-se como candidata à presidência dos EUA para que o país se visse livre de Trump; e a de Dave McClure, sócio fundador da aceleradora norte-americana 500 Startups a pedir aos milhares de pessoas sentadas no MEO Arena que se levantassem contra o novo presidente dos EUA. Antes, já o empresário norte-americano Bradley Tusk confessara sentir-se “envergonhado por estar no meio dos europeus com isto a acontecer” nos EUA.

Foi alertada a tecnologia, os políticos e os legisladores. Paddy Cosgrave disse, na última conferência de imprensa da Web Summit, que “a tecnologia também está a ter um impacto negativo no mundo e é importante que as pessoas que tomam decisões estejam aqui e conheçam as pessoas que estão a desenvolver estas tecnologias”. O orador pretende que haja diversidade de pessoas nesta que é a maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa, para que as startups interajam com empresas maiores, investidores, potenciais clientes, parceiros. E disse que “é um erro achar que toda a tecnologia é boa, na melhor das hipóteses é neutra”, pois, há “tecnologias que podem destruir o mundo inteiro”.

Pairou o medo do futuro. Segundo um inquérito feito, no evento, aos investidores, cerca de 1.300 (53%) creem que a inteligência artificial levará ao desaparecimento de milhões de empregos no mundo e 93% consideram que os governos não estão preparados para enfrentar essa realidade. Todavia, ficou também a esperança no futuro: quando o cubo dinamarquês que venceu os “óscares das startups portuguesas”, como lhes chamou Jaime Jorge, líder da Codacy, em 2014. Duzentos pitches depois, foi a Kubo-Robot que levou 100 mil euros da Portugal Ventures. O líder Tommy Otzen explicou aos jornalistas que quiseram “tirar a programação drag and drop do ecrã e passá-la para a vida real”, como se fossem legos. Construíram um robô em forma de cubo dotado de um sistema de inteligência artificial, que as crianças aprendem a controlar através da utilização das ordens certas, a base da programação.

E ficou a política. Ficaram os “afetos”, os beijinhos e as selfies  de Marcelo. O Presidente da República fez uma visita pelos stands dos pavilhões da FIL para conversar com empreendedores portugueses, acompanhado pelo Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, e pelo Secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos. E disse: “Estamos prontos para explorar as novas paisagens tecnológicas convosco”. Marcelo, num discurso marcado por três palavras-chave “gratidão”, “felicidade” e “crença” no futuro, deixou um alerta: “A tecnologia é apenas um instrumento”, que “não pode excluir os mais carenciados”.

Ficaram as chaves da cidade de Lisboa nas mãos de Paddy Cosgrave, depois de o Presidente da Câmara Municipal lhas ter dado na cerimónia de abertura, dizendo-lhe: “Lisboa é a tua casa”. E ficaram “as estrelas de rock” de João Vasconcelos: os engenheiros, programadores, empreendedores portugueses; o talento português; e, do Primeiro-Ministro, ficou a certeza de que “Portugal é o espaço ideal para tentar, falhar e voltar a tentar”.

E o que fica para as startups portuguesas?

Ficam reuniões, contactos trocados, esperança no futuro, conhecimento. Não ficam milhões, nem tanto mais investidores, mas fica a perspetiva e os olhos de futuro.

E não ficou o “adeus” ou o “até já” do criador da Web Summit. Onde se realizará no próximo ano a feira da tecnologia e do empreendedorismo?

2016.11.11 – Louro de Carvalho  

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