quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Comemoração católico-luterana do V Centenário da Reforma


Pela primeira vez, se procedeu à comemoração conjunta católico-luterana da Reforma. Para assinalar o V centenário da Reforma operada no século XVI, o Papa Francisco deslocou-se a Lund, na Suécia, a 31 de outubro, num propósito muito eclesial no campo do ecumenismo.
Obviamente que o Papa não despiu as vestes de Chefe de Estado, pelo que se encontrou com o Primeiro-Ministro, no Aeroporto Internacional de Malmö, e fez a visita de cortesia à Família Real, no Palácio Real Kungshuset em Lund. Porém, as ações mais significativas e que motivaram a deslocação pontifical foram a oração ecuménica e a declaração conjunta, na Catedral Luterana de Lund, bem como o evento ecuménico e o encontro com Delegações Ecuménicas na Arena Malmö, em Malmö.
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Na oração ecuménica, o Papa fez um discurso homilético a partir das palavras de Jesus no contexto da Última Ceia, “Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós” (Jo 15,4) – que nos levam a “sondar o coração de Cristo pouco antes da sua doação definitiva na cruz” em amor por nós e no desejo de unidade para todos os que n’Ele creem.
Manifestando o desejo comum de permanecer unidos a Ele para termos a vida, ousa pedir-Lhe a graça da ajuda a estarmos mais unidos “para darmos, juntos, um testemunho mais eficaz de fé, esperança e caridade” e declara este como “um momento propício para dar graças a Deus pelo esforço de muitos irmãos”, de diferentes comunidades eclesiais, que não se resignaram com a divisão, mas mantiveram viva a esperança da reconciliação entre todos os que creem no único Senhor”. Referindo-se ao contexto da comemoração comum da Reforma de 1517, assegura tratar-se de “nova oportunidade para acolher um percurso comum”, desenvolvido “ao longo dos últimos 50 anos no diálogo ecuménico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica”; e reconhece a possibilidade conjunta de “reparar um momento crucial da nossa história, superando controvérsias e mal-entendidos”.
Atendendo a que “o dono da vinha é o Pai (cf 15,1), que dela cuida e a poda para dar mais fruto (cf 15,2), apela a que olhemos, “com amor e honestidade, para o nosso passado” reconhecendo o erro e pedindo perdão, porque “a nossa divisão se afastava da intuição originária do povo de Deus” e “historicamente foi perpetuada mais por homens de poder deste mundo do que por vontade do povo fiel, que sempre e em toda parte precisa de ser guiado, com segurança e ternura, pelo seu Bom Pastor”. E salienta a “vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé” surgida de ambos os lados, a partir da consciência de que “nos fechamos em nós mesmos com medo ou preconceitos relativamente à fé que os outros professam com uma acentuação e uma linguagem diferentes”. Porém, como dizia João Paulo II, “não devemos deixar-nos guiar pelo intento de nos tornarmos árbitros da história”, mas “pela intenção de compreendermos melhor os acontecimentos e de sermos portadores da verdade”.
A separação, diz o Papa, fonte imensa de sofrimentos e incompreensões”, também nos levou “a tomar consciência sinceramente de que, sem Ele, nada podemos fazer” e que teremos “a possibilidade de compreender melhor alguns aspetos da nossa fé”. Por isso, Francisco refletiu:
“Com gratidão, reconhecemos que a Reforma contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja. Através da escuta comum da Palavra de Deus nas Escrituras, o diálogo entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial, cujo cinquentenário celebramos, deu passos importantes. Peçamos ao Senhor que a sua Palavra nos mantenha unidos, porque Ela é fonte de alimento e vida; sem a sua inspiração, nada podemos fazer.”
Evocando um dos principais corifeus da Reforma, explicitou:
“A experiência espiritual de Martinho Lutero interpela-nos lembrando-nos que nada podemos fazer sem Deus. Como posso ter um Deus misericordioso? Esta é a pergunta que constantemente atormentava Lutero. Na verdade, a questão da justa relação com Deus é a questão decisiva da vida. Como é sabido, Lutero descobriu este Deus misericordioso na Boa Nova de Jesus Cristo encarnado, morto e ressuscitado. Com o conceito ‘só por graça divina recorda-nos que Deus tem sempre a iniciativa e que precede qualquer resposta humana inclusive no momento em que procura suscitar tal resposta. Assim, a doutrina da justificação exprime a essência da existência humana diante de Deus.”
É Cristo que “intercede por nós como mediador junto do Pai, pedindo-Lhe a unidade dos seus discípulos para que ‘o mundo creia’ (Jo 17,21) – o que “nos conforta e impele a unir-nos a Jesus para implorar o Pai com insistência. Assim, nós, luteranos e católicos, “rezamos juntos nesta Catedral e estamos conscientes de que, sem Deus, nada podemos fazer; pedimos o seu auxílio para sermos membros vivos unidos a Ele, sempre carecidos da sua graça para podermos levar, juntos, a sua Palavra ao mundo”, necessitado da sua “ternura e misericórdia”.
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Um dos resultados da celebração católico-luterana do V centenário da Reforma é a Declaração Conjunta a partir do segmento textual evangélico:
Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim.” (Jo 15,4).
Com coração agradecido, os dois líderes iniciam o ano comemorativo do V centenário da Reforma e os 50 anos do “constante e frutuoso diálogo ecuménico entre católicos e luteranos”, que ajudaram “a superar muitas diferenças e aprofundaram a compreensão e confiança” mútuas, bem como facultaram a aproximação mútua no serviço comum ao próximo.
Do conflito à comunhão. Reconhecem os “dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, mas lamentam “diante de Cristo que luteranos e católicos tenham ferido a unidade visível da Igreja”, como lamentam que “diferenças teológicas” tenham sido “acompanhadas por preconceitos e conflitos”, com a instrumentalização da religião “para fins políticos”. Porém, sabem que a fé e o batismo comuns exigem a conversão diária para repelir “as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação”. Por isso, rezam pela cura das feridas e lembranças “que turvam a nossa visão uns dos outros”; rejeitam categoricamente “todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião”; escutam “o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito”; e sentem-se libertos “pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama”.
O compromisso em prol dum testemunho comum. Comprometem-se “a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus”, “visível em Cristo crucificado e ressuscitado”, e “a crescer ainda mais na comunhão radicada no Batismo, procurando remover os obstáculos ainda existentes que nos impedem de alcançar a unidade plena”. Verificam o anseio de “muitos membros das nossas comunidades” em “receber a Eucaristia a uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena” e assumem a “responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que o nosso povo tem de ser um só em Cristo”. E, sabendo daquele desejo das comunidades, fazem dele o objetivo dos seus “esforços ecuménicos”, que desejam “levar por diante” inclusive renovando o comum “empenho no diálogo teológico”. Entretanto, rezam “a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo, convidando a humanidade a ouvir e receber a boa notícia da ação redentora de Deus” e pedem-Lhe “inspiração, ânimo e força” para poderem continuar “juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando todas as formas de violência”. Porque Deus nos chama a estar perto de quantos “anseiam por dignidade, justiça, paz e reconciliação”, levantam hoje, de modo particular, as suas vozes a “pedir o fim da violência e do extremismo que ferem tantos países e comunidades e inumeráveis irmãos e irmãs em Cristo”; e exortam “luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher o estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição e defender os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo”. Mais do que nunca, hoje dão-se conta de que o serviço comum no mundo “deve estender-se à criação inteira, que sofre a exploração e os efeitos duma ganância insaciável”; reconhecem o direito das gerações futuras a gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza; e rezam “por uma mudança dos corações e das mentes” conducente a “um cuidado amoroso e responsável da criação”.
Um só em Cristo. Ao renovar o compromisso de passar do conflito à comunhão, fazem-no como “membros do único Corpo de Cristo, em que “estamos incorporados pelo Batismo”. Convidam os “companheiros de estrada no caminho ecuménico a lembrar-nos dos nossos compromissos e a encorajar-nos”, a “rezar por nós, caminhar connosco, apoiar-nos na observância dos compromissos de religião”.
Apelam aos católicos e luteranos do mundo inteiro, nomeadamente às paróquias e comunidades luteranas e católicas “para que sejam corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no seu compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera”. Importa que seja “o dom divino da unidade” a guiar a colaboração e a aprofundar a solidariedade. E, “estreitando-nos a Cristo na fé, rezando juntos, ouvindo-nos mutuamente, vivendo o amor de Cristo nas nossas relações”, abrimo-nos “ao poder de Deus Uno e Trino”, e, “radicados em Cristo e testemunhando-O”, renovam a determinação de ser “fiéis arautos do amor infinito de Deus por toda a humanidade”.
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No Encontro com Delegações Ecuménicas na Arena Malmö, Francisco agradeceu a Deus esta comemoração conjunta dos 500 anos da Reforma, vivida com espírito renovado e na convicção de que a unidade dos cristãos é uma prioridade, pois reconhecemos ser “muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa”. Confessando que o “caminho empreendido para a alcançar é um grande dom de Deus” há que dirigir “o olhar ao único Senhor, Jesus Cristo”.
Sente que “o diálogo entre nós permitiu aprofundar a compreensão mútua, gerar confiança recíproca e confirmar o desejo de caminhar para a plena comunhão”. Nesta ótica, selecionou como fruto deste diálogo “a colaboração entre distintas organizações da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica”. Assim, a Caritas Internationalis e a Lutheran World Federation World Service assinarão “uma declaração comum de acordos com vista a desenvolver e consolidar a cultura de colaboração para a promoção da dignidade humana e da justiça social”. São duas entidades que, “num mundo dividido por guerras e conflitos, foram e são um exemplo luminoso de dedicação e serviço ao próximo”.
Depois, referiu-se aos testemunhos que ouviu de “como, no meio de tantos desafios, dia após dia” muitos “dedicam a vida a construir um mundo que corresponda cada vez mais aos desígnios de Deus, nosso Pai”.
Um deles referiu-se à criação. Com efeito, sendo toda a criação “uma manifestação do amor imenso de Deus para connosco”, podemos “contemplar a Deus por meio dos dons da natureza. Neste sentido, o Papa compartilha a “consternação pelos abusos que danificam o nosso planeta, a nossa casa comum, com graves consequências também sobre o clima”, sendo que “os maiores impactos recaem frequentemente sobre as pessoas mais vulneráveis e com menos recursos, que se veem forçadas a emigrar para se salvarem dos efeitos das mudanças climáticas”. Ora, como todos e, em especial os cristãos, “somos responsáveis pela salvaguarda da criação”, temos de adotar um estilo de vida e uns comportamentos “coerentes com a nossa fé”. Na verdade, “somos chamados a cultivar uma harmonia com nós mesmos e com os outros, mas também com Deus e com a obra das suas mãos”.
Mons. Héctor Fabio informou sobre o trabalho conjunto de católicos e luteranos na Colômbia. Enquanto recebe como boa notícia “saber que os cristãos se unem para dar vida a processos comunitários e sociais de interesse comum”, o Pontífice pede “uma oração especial por aquela terra maravilhosa para que, com a colaboração de todos, se possa chegar finalmente à paz, tão desejada e necessária para uma digna convivência humana” e uma oração que “abrace também a todos os países onde perduram graves situações de conflito”.
Um outro testemunho evidenciou “o trabalho em prol das crianças vítimas de tantas atrocidades e para o compromisso a favor da paz”. É um trabalho admirável e um “apelo para tomar a sério inúmeras situações de vulnerabilidade que padecem tantas pessoas indefesas, que não têm voz”. Aquela missão, segundo Francisco, foi “uma semente que produziu frutos abundantes, e hoje, graças a esta semente, milhares de crianças podem estudar, crescer e recuperar a saúde”. É “a loucura do amor a Deus e ao próximo”.
Foi ainda oferecido um testemunho comovente de alguém que “soube tirar proveito do talento que Deus lhe deu através do desporto”. É o de uma jovem que, na convicção de que todos somos filhos de Deus, queridos e amados por Ele, animou muitas meninas “a regressar à escola” e reza “todos os dias pela paz no jovem Estado do Sudão do Sul”.
Depois, aproveitou o ensejo para agradecer aos governos que prestam assistência aos refugiados, aos governos que prestam assistência aos deslocados e àqueles que pedem asilo, porque “cada ação em favor destas pessoas que precisam de proteção constitui um grande gesto de solidariedade e reconhecimento da sua dignidade”. E porfiou para os cristãos a prioridade de “sair ao encontro dos descartados – porque são descartados pela sua pátria – e marginalizados do nosso mundo, tornando palpável a ternura e o amor misericordioso de Deus, que não descarta ninguém, mas acolhe a todos”. É a revolução da ternura que hoje se pede aos cristãos.
E anunciou o testemunho do Bispo D. Antoine, que vive em Alepo, cidade exausta pela guerra, onde se desprezam e espezinham os direitos mais fundamentais no contexto do conflito sírio, que dura há mais de 5 anos. No meio de tanta devastação, diz o Papa, “é verdadeiramente heroica a permanência lá de homens e mulheres para prestar assistência material e espiritual aos necessitados”. E é imperioso implorar a graça da conversão dos corações de quantos têm a responsabilidade dos destinos do mundo.
Finalmente, Francisco pretende que os testemunhos que ouviu estimulem a um trabalho conjunto e ao “compromisso de realizar diariamente um gesto de paz e reconciliação” como “testemunhas corajosas e fiéis de esperança cristã”.
2016.11.01 – Louro de Carvalho

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