quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Será reposta a dignidade o túmulo de Dom Dinis, o que decidiu ficar só



O sarcófago do rei poeta, diplomata, culto e lavrador, que está no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, em Odivelas, foi gravemente desvirtuado pelo terramoto de 1755 e por restauros posteriores pouco ortodoxos. Agora uma equipa vai tentar restituir-lhe a dignidade.
A informação detalhada é prestada por Lucinda Canelas no Público de ontem, 13 de dezembro. Recorda-nos a articulista que, para ascender ao trono, Dinis teve que enfrentar o irmão Afonso, filho bastardo do pai, e para se segurar no trono, teve de lutar contra o filho, o futuro Dom Afonso IV. Mas pretendeu também decidir como havia de ser recordado após a morte. Escolheu o sítio da sua sepultura e a configuração do túmulo. Foi o primeiro soberano português que dispôs duma escultura – a representá-lo – jacente sobre a tampa do sarcófago; e foi o primeiro português (e a primeira personalidade laica no mundo) a quem o Papa autorizou a colocação dentro duma igreja e não em espaço anexo. Na verdade, o fim do rei lavrador condiz com o que foi em vida. E, a este respeito, Giulia Rossi Vairo, investigadora da Universidade Nova de Lisboa (autora de tese que encara o monarca e a esposa, a rainha Santa, a partir da arte tumulária a eles associada), diz:
 “Dom Dinis não é um rei qualquer, é um dos mais importantes da história de Portugal e uma personalidade fascinante por variadíssimos motivos com um percurso cheio de revoluções, de primeiras vezes”. (D. Dinis de Portugal e Isabel de Aragão in vita e in morte. Criação e transmissão da memória no contexto histórico e artístico europeu).
As aludidas revoluções “passam pela administração do território, pela agricultura e pela construção naval, pela educação e pela cultura”, e culminam no túmulo que ocupou lugar de destaque a meio da igreja do Mosteiro, entre a capela-mor e o coro das monjas de clausura.
Aquela localização tumular foi inovadora, mas, segundo a investigadora, o rei e a rainha quiseram “determinar que imagem sua ficaria para a eternidade”, o que era “muito moderno para a época”, sendo estes “os primeiros reis portugueses a fazê-lo”. Além disso, frisa que foi Dom Dinis (1261-1325) quem erigiu este mosteiro cisterciense (entre 1295-1305) na obediência à casa-mãe de Alcobaça, onde até aí se sepultavam os reis e sua descendência (com exceção de Afonso Henriques e Sancho I, que repousa, em Santa Cruz de Coimbra), e que foi ele que, por um breve lapso de tempo, o transformou num panteão régio.
No seu primeiro testamento, o de 1318, Dom Dinis determinou que o Mosteiro de Odivelas deveria receber o seu túmulo e o da esposa. Mas, em documento redigido quatro anos mais tarde, mudou de ideias, provavelmente devido à guerra civil que opôs o rei ao filho Afonso, que temia ver o pai nomear como sucessor o seu meio-irmão, Afonso Sanches, filho bastardo do soberano e certamente o seu predileto (trovador como o pai), e ao facto de a rainha estar longe de ser a figura que viria a promover a reconciliação entre o rei e o herdeiro real.
Segundo a historiadora italiana, “o casal zanga-se, a guerra separa-os, e nem mesmo a ligação emocional e até financeira que têm a Odivelas resolve as coisas”, “até o Papa lhes pede que se reconciliem porque a desunião do casal era a desunião da coroa”, o que podia ser perigoso, e pede que “Isabel reconcilie pai e filho, o que acaba por fazer”.
Rossi Vairo não sabe se foi o rei se a rainha quem determinou ficar sozinho por toda a eternidade, embora cronologicamente essa decisão pareça ter cabido ao rei, que morreu primeiro, e seja provável que a rainha tivesse conhecimento da decisão do rei. E foi Isabel de Aragão que depois escolheu o mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, e aprovou o túmulo que para si foi construído. Era “uma mulher de personalidade forte, com dinheiro e influência em Portugal e não só. Ela também não é uma rainha qualquer.”.
No último dos seus três testamentos, Dom Dinis exigiu que o túmulo ficasse no centro da igreja, entre a nave central e a capela-mor, um lugar de destaque onde a comunidade pudesse rezar pela sua alma e recordasse a memória do rei até à eternidade.
É este túmulo, gravemente danificado pelo terramoto de 1755 (a abóbada da igreja abateu-se sobre ele), que a DGPC (Direcção-Geral do Património Cultural) e a Câmara Municipal de Odivelas intentam restaurar, já que foi sujeito a inúmeras intervenções em moldes discutíveis, entre as quais se incluem as mais abrangentes: em meados do século XIX, por ordem da rainha Dona Estefânia; e a dos anos 1960, pela DGMN (Direção-Geral dos Monumentos Nacionais). Após anos de incúriae esquecimento, as entidades competentes juntam-se para dar renovada dignidade ao túmulo do 6.º rei, que, durante quase meio século, “consolidou as fronteiras, revolucionou a agricultura”, incrementou “a exploração mineira, impulsionou o comércio, fundou a universidade, travou uma guerra civil (1319-1324) e ainda escreveu poesia, sendo compositor de dezenas de cantigas de amor e de amigo – uma referência das letras trovadorescas no reino e fora dele.
O seu monumental sarcófago passou a ocupar uma capela lateral do mosteiro (à esquerda do altar-mor), que é monumento nacional desde 1910 e está entregue ao Ministério da Defesa Nacional (segundo a DGPC, a autarquia espera resposta ao pedido para que o edifício passe para a sua guarda).
Para já e até fins de dezembro, os trabalhos  da 1.ª fase concentram-se na limpeza do sarcófago.
Maria Antónia Tinturé, técnica de conservação e restauro da DGPC, apontando para a argamassa que cola o tampo à base, que não estava lá nas fotografias dos anos 1960, diz que “estava muito sujo” e que, “sem retirar as camadas de sujidade, é impossível perceber a própria estrutura do túmulo, distinguir o que é original do que é dos restauros dos séculos XIX e XX”.
Crendo serem desta época os acrescentos em cimento e ferro e a fina camada acinzentada que cobria todo o conjunto, supõe tratar-se duma “espécie de véu” posto para dar “unidade ao conjunto”, sendo ainda visíveis alguns vestígios da policromia, que pode ou não ser do original. Entretanto, o Instituto Politécnico de Tomar estudará amostras da pedra e da tinta usada para decorar o sarcófago para que se possa determinar a sua idade.
Apesar de tudo, não há intenção de retirar o que o tempo lhe foi acrescentando, por mais despropositado que hoje pareça, pois as técnicas de conservação regem-se por uma cartilha de intervenção que, evitando as reconstituições, “deixa bem visíveis quaisquer alterações ao original”. A exceção a essa permanência, segundo Tinturé, é quando ameaçam a integridade do original, o que aqui não acontece. João Seabra Gomes, outro dos técnicos da DGPC, assegura:
“Hoje sabemos que a intervenção deve ser mínima, que devemos manter lacunas e omissões, que não deve haver qualquer especulação. No passado não era assim, mas os restauros do passado também fazem parte da história e, por isso, devem ficar.”
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Não se sabe como era o túmulo antes do terramoto e, embora alguns defendam que lhe falta nas mãos a espada, comum nas estátuas jacentes dos reis europeus da Idade Média, outros levantam a hipótese de ela nunca ter existido. Por outro lado, questiona-se por que razão a cabeça do rei é tão desproporcional face ao resto do corpo e porque segura ele um pedaço do manto, num gesto tipicamente feminino. Depois, pergunta-se se o túmulo foi construído em calcário colorido ou se veio a ser pintado no grande restauro do século XIX.
Reunida e tratada a informação do levantamento em curso, começará a 2.ª fase dos trabalhos.
A intervenção deverá estender-se ao outro túmulo do mosteiro, que pertencerá a um dos netos de Dom Dinis (durante muito tempo cria-se que nele jazia uma das suas duas filhas bastardas – ao todo o rei teve 7 filhos ilegítimos –, mas hoje as teses andam entre os netos João e Dinis, infantes que terão morrido com cerca de um ano). E persiste a possibilidade de os restos mortais do rei serem estudados durante o processo, embora não haja ainda qualquer projeto nesse sentido.
O Túmulo de Dom Dinis não é atribuído a nenhum artista ou oficina específicos. A estética permite-nos apenas especular a influência da arte tumular francesa na escolha do seu autor.
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Filho de D. Afonso III e Dona Beatriz de Castela, Dom Dinis pontificou os destinos de “Portugal e do Algarve” durante 46 anos, entre fevereiro de 1279 e janeiro de 1325, comummente associado ao restabelecimento de relações com a Santa Sé, ao desenvolvimento da marinha e da agricultura. São-lhe atribuídos os louros pela consolidação do poder nas comarcas e no território nacional e por uma estabilidade monárquica pouco comum na Europa de então. Foi um rei marcadamente diplomático na ação voltada para outros reinos no Mediterrâneo, com fulcral relevância no xadrez político. O “Rei Poeta” afirmou-se como homem da cultura, das artes, da poesia e incrementou a literatura e a tradução de obras para português. Foi graças a si que ficou assinado o primeiro estatuto de universidade em Portugal, pela Magna Charta Privilegiorum. 
Porém, a representação tumular da imagem do 6.º rei português foi totalmente adulterada aquando do restauro do século XIX, por um lado, pela utilização de gesso em contacto com o ferro, o que levou à oxidação, e, por outro, pela reconstrução da imagem real, longe de qualquer rigor histórico e num puro exercício de invenção. Traje, cabelo e barba são reconstituídos à imagem régia de oitocentos, não há símbolos associados às esculturas régias, como a espada e as esporas ou outras insígnias do rei; e a coroa é anacronicamente caraterística do século XIX. 
Assim, sobre as operações de restauro, o vereador da cultura do município de Odivelas, refere:
“Hoje, a fazer-se o restauro, ter-se-ia de perceber o que é o original e o que é do século XIX. E depois tomar uma decisão. Muitos conservadores defendem que mais vale ficar uma coisa imperfeita, mas respeitando a primeira versão, do que fazer uma reconstrução. É preciso perceber o que é original e o que é gesso. Mas isso é uma decisão que não nos cabe a nós”.  
A coordenadora do setor do Património Cultural da Câmara pormenoriza a explicação do vereador Edgar Valles, lembrando que foi o próprio rei que projetou a sua representação futura:
“Quando mandou fazer a sua estátua jacente, o rei nunca se deixaria representar sem ser com a sua espada e com as esporas, como outros reis ibéricos. Aqui nesta recuperação, tudo desapareceu. A mão aparece a segurar o manto do rei, uma posição mais feminina. Só com um estudo prévio é que temos alguma garantia de que se tratou de uma invenção do século XIX. A tutela terá de tomar essa decisão e perceber se se pretende manter a reconstrução errada ou fazer um novo restauro. Mas aqui há outro problema, não podemos inventar o que não sabemos como era”.
André Varela Remígio, especialista em conservação e escultura em talha dourada, embora nunca tenha trabalhado o túmulo de Dom Dinis, conhece o caso e adverte:
“O estado atual do túmulo é mau, muito mau. Tanto têm problemas o original como as matérias novas adicionadas. Olhando para o túmulo, vemos que faltam partes, existem fraturas e fissuras, para além da sujidade imensa. Existem fragmentos dispersos que se podem perder”. 
Todavia entende que, enquanto representações de figuras cimeiras da História, o tratamento de túmulos como este é “quase uma obrigação nacional”, uma retribuição pelo legado deixado por estas personagens. Mas reconhece as dificuldades que poderão ser encontradas na eventualidade do restauro:
“É um caso muito complicado em termos técnicos. Há efetivamente uma grande parte de matéria nova que está a sobrepor-se à pedra original. Claro que não podemos censurar o restauro do século XIX. Foi feito de acordo com as ideias de então. Mas mais vale termos pouco original do que termos um puzzle, com várias matérias que deturpam a leitura. É complicado, só depois da desmontagem se pode tomar uma decisão e procurar um equilíbrio”.
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A incúria e o esquecimento em relação ao túmulo a que se alude acima devem-se à diversidade de entidades que têm a responsabilidade do mosteiro e ao facto de o mosteiro – e obviamente o túmulo – ficar num sítio isolado e sob a alçada do MDN (Ministério da Defesa Nacional). Por outro lado, não podem esquecer-se as consequências da extinção das ordens religiosas em 1834 e, no caso das ordens femininas, a manutenção até ao óbito da última freira, o que redundou na dificuldade de manutenção pela ausência de recursos.
O mosteiro foi classificado como monumento nacional em 1910 (ficando sob a alçada da DGMN, agora da DGPC), mas lá funcionava o Instituto de Odivelas (da responsabilidade do MDN), criado em 1900, pelo infante Dom Afonso, irmão do rei Dom Carlos, que fechou portas no ano passado, com as alunas a serem transferidas para o Colégio Militar, em Benfica. E a Câmara Municipal quer ficar com a gestão do imóvel, pois não quer que este excelente património caia nas mãos de privados ou acabe por ser usado para outros fins que não fins públicos.
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Sobre o futuro do túmulo e as condições do restauro e conservação de obras desta natureza, estão em confronto correntes de pensamento distintas. Assim, o esteta Eugène Viollet-le-Duc defende a busca pela perfeição formal em termos estéticos puros, desconsiderando os aspetos históricos. O historiador John Ruskin bate-se pela intocabilidade do monumento degradado, onde a intervenção deve ser mínima e de cariz apenas preventivo, pois também o monumento tem uma hora para a sua morte digna.
Entre as duas teorias, o crítico e historiador Cesare Brandi defende uma intervenção que tenha em conta o significado histórico do objeto e o estado físico em que se encontra. E Valdirene do Carmo Ambiel entende que esta teoria defende que o restauro “não pode depender do gosto particular do restaurador” e deve deixar os acréscimos e intervenções facilmente reconhecíveis.
Ora, ao longo dos séculos, o túmulo dionisíaco não teve a melhor sorte. Foi destruído, adulterado e sobretudo esquecido.
Afinal, qual será a melhor forma de intervir e garantir a conservação deste túmulo, respeitando a obra original? Para Carla Varela Fernandes é “a pergunta de um milhão de dólares”, mas aventa uma hipótese, mais próxima do que é sustentado pelo crítico italiano e a juízo de “um grupo muito sério de conservadores”:
“Seria excelente que se pudesse reconstruir o túmulo com materiais mais novos e menos perecíveis, que pudessem devolver alguma dignidade à figura de Dom Dinis. Mas, é claro, mostrando sempre o que é novo e o que é da peça original”.
O vereador Edgar Valles, que incentiva o restauro e a conservação nas melhores condições, identifica o túmulo e o mosteiro que o encerra como o “ex-libris do concelho de Odivelas”, pois “trata-se de um mosteiro do século XIII, com um rei de Portugal da I Dinastia. Isso é algo que não pode ser esquecido e de que muito nos orgulhamos”.
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Parece que, além do restauro e conservação destas peças monumentais, será útil aproveitar o ensejo para o estudo osteológico e similares das figuras históricas cujos restos mortais ali se encontram. No caso vertente, era saber se a cabeça desproporcional da estátua jacente se deve a uma razão de simbologia ou se a outra – o que poderia constituir um interessante contributo para a história das mentalidades ou para a perceção das caraterísticas somáticas.  
2016.12.14 – Louro de Carvalho

1 comentário:

  1. Finalmente! Um rei como este e tão pouco estimado.
    Se falassemos mais destes Homens Grandes teríamos menos políticos corruptos. Cultura da ética e dignidadeL

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