terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

DEPOIS DO ENTRUDO, A ENTRADA


1. Depois da Terça-Feira de Carnaval, a Quarta-Feira de Cinzas. Após o Entrudo, a Quaresma. Aliás, chama-se Entrudo por ser precisamente entrada na Quaresma.

2. Dir-se-ia que é o tempo litúrgico que mais se assemelha à vida humana. Muito mais que o Carnaval.
Poucos, com efeito, encontrarão motivos para folia. Pelo contrário, o que mais nos pedem são sacrifícios.

3. A Quaresma é um tempo de penitência e o que mais se vê, hoje em dia, são pessoas com uma vida inteira de penitência.
Temos a penitência da crise. Temos a penitência de ouvir falar da crise e, ainda por cima, a toda a hora. Temos a penitência do desemprego. Temos a penitência da criminalidade. Temos a penitência da injustiça. Temos a penitência da pobreza, da exploração, da fome.

4. Pode parecer, por isso, pouco oportuno (e até desumano) vir apelar a mais penitência. Que maior pode ser a penitência de quem não tem pão para comer ou casa para habitar? Que maior pode ser a penitência de quem perdeu o emprego?
Como bem lembrou o Padre Ignacio Ellacuría, a Cruz tem uma permanente actualização histórica. Há pessoas crucificadas nas esquinas da existência. Cristo continua a ser torturado, condenado e morto em tantos deserdados da sorte, em tantos abandonados da vida: Ele está neles.

5. É fundamental, portanto, que quem faz apelos à penitência apresente também gestos visíveis de despojamento.
Isto significa que aquilo de que nos privamos há-de ser oferecido a quem precisa. Veremos então que muitos passam mal porque nós não nos importamos. E notaremos que o nosso supérfluo é essencial para eles.

6. Se somos capazes de jejuar por razões egoístas, porque é que não havemos de jejuar por razões altruístas?
Não falta quem reduza ao alimento para perder peso, para ser elegante. Porque não reduzir ao alimento para ajudar quem tem menos, quem tem quase nada?

7. Urge que nos habituemos a fazer do outro o centro do nosso ser, o centro da nossa preocupação, o centro da nossa vida.
Temos, pois, de nos des-centrar para nos re-centrar. O nosso centro só pode ser o centro de Cristo.

8. O centro de Cristo foi sempre Deus e o Homem. O centro dos membros da Igreja de Cristo só poderá ser Deus e o Homem.
Daí o grande tripé que alavanca toda a trajectória quaresmal: a oração (relação com Deus) e o jejum e a esmola (partilha com o ser humano).

9. Sabemos, por exemplo, que, no dia 25 de Janeiro de 2010, 120 milhões de cristãos de 39 países promoveram uma jornada de oração e de jejum pela justiça no Zimbabwe.
Muita coisa poderá ser feita. Porque não, por exemplo, oferecer o peditório de um mês nas paróquias para ajudar os mais carenciados? Uma Igreja pobre será sempre uma Igreja próxima, uma Igreja capaz de interpelar.

10. Façamos penitência apoiando quem tem de fazer penitência. A penitência por opção é um gesto de comunhão para com quem tem de fazer penitência por imposição.
Despojemo-nos da carne e do peixe caro, levando um pouco de pão a quem nada tem para comer. Mas porque não fazer também, de vez em quando, jejum do automóvel desanuviando o ambiente? Porque não fazer jejum do cigarro, contribuindo para a saúde pessoal e para a saúde dos outros?

11. Façamos também jejum de imagens e de palavras. E não deixemos de fazer jejum dos juízos precipitados, das acções agressivas e dos sentimentos violentos.
Deixemos que a bondade brilhe. Que a paz se instale. Que a justiça floresça. E que o amor vença. Não foi por tudo isto que Ele [Jesus] deu a vida?
João António Teixeira, in Facebook

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