quarta-feira, 22 de março de 2017

Coração político do Reino Unido atingido pelo terrorismo



São as vítimas o objeto de lamento e os atacantes objeto de repulsa e condenação. Porém, um ataque terrorista perpetrado nas barbas das Casas do Parlamento britânico deve interpelar politicamente as autoridades, dado o significado que tem para a soberania nacional, para a segurança dos cidadãos e para a decência democrática.

E tudo aconteceu no dia em que os atentados terroristas em Bruxelas fazem um ano, tendo o governo britânico afirmado que não havia indicações que levassem a aumentar o nível de alerta de atentado terrorista no Reino Unido, país que está no segundo nível máximo de alerta desde 2014, o que significa que se considerava um ataque terrorista como “altamente provável”.

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Eram 14,40 horas quando a Polícia Metropolitana foi chamada ao Parlamento britânico. Um tiroteio tinha feito pelo menos 12 feridos. Um polícia tinha sido esfaqueado e o atacante abatido. As sessões parlamentares foram suspensas e Theresa May foi posta em segurança, escoltada pelos seus serviços de segurança pessoal. Porém, iria presidir hoje a uma reunião do comité de emergência, que inclui os principais ministros, para abordar o atentado terrorista em Londres.

Entretanto, com o alerta de segurança acionado, os edifícios em redor do Parlamento foram evacuados pelas autoridades. E membros do Parlamento partilhavam imagens do interior da Câmara dos Comuns do Reino Unido. Eram estas as notícias que abalavam a opinião pública no começo da tarde.

Segundo o balanço da polícia, pelo menos 5 pessoas morreram e 40 ficaram feridas no atentado terrorista da tarde de hoje, quarta-feira e dia 22 de março, em Londres. E, apesar de o Primeiro-Ministro de Portugal ter declarado que não dispunha de informação de que entre os feridos estivesse algum português, há efetivamente um português de 26 anos, ferido por atropelamento quando se preparava par apanhar o metro. Conforme as informações da TVI, o homem tem feridas nas pernas e na mão esquerda, mas já recebeu apoio psicológico, fez uma radiografia e deverá ter alta ainda hoje.

O ataque começou na ponte de Westminster e só terminou junto ao Parlamento. Na ponte, o atacante acelerou (aparentemente um turista assassino, que pilotava um Toyota todo-o-terreno) para cima dos transeuntes – matando 3 pessoas –, e seguiu até ao palácio do Parlamento. Aqui, esfaqueou um polícia, que acabou por morrer no local. Ao que tudo indica, o homem tentava entrar no edifício, mas foi parado pela polícia, após tiroteio.

O suspeito foi, depois, identificado pelo Channel 4 como Abu Izzadeen, um clérigo radical islâmico nascido no leste de Londres – informação que a polícia nem confirmava nem desmentia.

Os relatos de que o ataque tinha sido perpetrado por dois terroristas, estando ainda um suspeito em fuga, foram desmentidos pela polícia, que afirmou, no balanço à imprensa, ao fim da tarde, que o autor será apenas um homem, aquele que foi baleado mortalmente junto ao Parlamento.

A polícia informou, desde o primeiro momento, que o incidente estava a ser tratado como um ato terrorista. As imagens do carro utilizado no ataque, após ter chocado contra as grades do Palácio de Westminster foram também divulgadas. As autoridades britânicas neutralizaram o suspeito com três tiros no pescoço quando ele se dirigia para a entrada.

Um grupo de polícias à paisana acionou imediatamente o plano de segurança. A zona manteve-se totalmente isolada até cerca das 19,50 horas. A estação de metro de Westminster foi encerrada a pedido das autoridades, assim como várias estradas perto do local. Funcionários e deputados do parlamento foram instruídos a ficarem dentro dos escritórios e alguns foram retirados do local em segurança pela polícia. Foram encerradas várias atrações turísticas, como o London Eye, o Madame Tussauds, London Dungeon, Shrek's Adventure! e o Southbank Centre.

Pelo Twitter, o editor do jornal britânico The Sun, citando fontes do governo, confirmou que a primeira-ministra britânica Theresa May está em segurança, após ter saído num jaguar de cor prateada.

Mark Rowley, comissário adjunto e diretor das forças antiterrorismo, afirmou que “o ataque começou quando um carro foi conduzido sobre a ponte de Westminster atropelando e ferindo um número de membros do público incluindo três agentes da polícia”. Depois, “o carro depois bateu perto do Parlamento, contra os rails da ponte, e um homem armado e vestido de preto, com uma faca continuou o ataque, seguindo a pé, e tentou entrar no Parlamento”. Uma mulher que terá caído da ponte (ou se terá atirado fugindo do ataque, não é claro exatamente o que aconteceu) foi, a meio da tarde, retirada do Rio Tamisa. Segundo os media britânicos, está viva, embora ferida. Pessoas atropeladas na ponte foram assistidas por outros transeuntes ainda antes de a polícia chegar ao local. Entre os feridos contam-se 3 estudantes franceses, de 15 e 16 anos, como confirmou o Primeiro-Ministro francês Bernard Cazeneuve pelo Twitter. E testemunhas dizem haver um grupo de estudantes franceses na ponte, segundo o The Guardian.

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Tobias Ellwood, deputado britânico e secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros (ou ministro para a Commonwealth), está a ser elogiado pela sua ação junto ao Parlamento. O governante tentou socorrer o polícia esfaqueado. É, pois, um novo herói do Reino Unido no dia em que Londres está outra vez a viver o horror dum ataque terrorista. Foi a primeira pessoa a prestar assistência ao polícia esfaqueado pelo atacante às portas do Parlamento. Segundo os relatos que estão a correr nas redes sociais, ajoelhou-se junto do agente para estancar a ferida provocada pelo atacante que foi depois abatido pelas autoridades. Fez respiração boca a boca ao agente na tentativa de lhe recuperar o pulso. Não conseguiu. Ficou ao seu lado até à chegada dos paramédicos. E deu a notícia da morte do agente aos médicos “em lágrimas”. Os polícias abraçaram-no assim que o polícia foi transferido para o hospital. Os médicos encontraram Ellwood, de 50 anos, com sangue do polícia na cara, nas mãos e nas roupas sujas. Tinha aplicado técnicas de reanimação cardiorrespiratória, fazendo força com os dois braços em cima do peito do polícia atacado. Não conseguiu encontrar o pulso, mas só se afastou quando o homem foi levado de helicóptero para o Hospital de St. Thomas. Foi imediatamente questionado pela polícia. E, tentou ajudar os paramédicos a assistir outras pessoas, conta o The Independent.

Ellwood sabia o que estava a fazer. Foi capitão do Exército britânico durante os anos 90: foi soldado do Royal Green Jackets, companhia de infantaria, encerrada em 2007, entre 1991 e 1996. Saiu das Forças Armadas britânicas depois de ter servido o país na Irlanda do Norte, Chipre, Kuwait, Alemanha, Gilbraltar e Bósnia. Agora faz parte do Exército Territorial. Depois entrou para a política, mas só em 2005 se tornou membro do Parlamento inglês.

Casado com a advogada Hannah Ryan, com quem teve 2 filhos (Alex e Oscar), Tobias Ellwood viu o irmão (um dos 27 britânicos entre as 202 vítimas mortais) morrer há 15 anos nos atentados de Bali protagonizados por um grupo violento de inspiração islâmica, o Jemaah Islamiyah. O professor Jon Ellwood tinha 37 anos e estava na Indonésia para dar uma conferência.

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As reações dos líderes internacionais não se fizeram esperar. O próprio Presidente norte-americano, Donald Trump, declarou a solidariedade, cooperação e apoio, depois de ter sido informado do incidente em Londres, explicitando, ao entrar para uma reunião na Casa Branca, que estava “a receber atualizações sobre Londres”.

Também o Chefe de Estado francês, numa breve intervenção durante uma visita a um subúrbio de Paris, disse:

“Expressamos em nome de França toda a nossa solidariedade e o nosso apoio ao povo britânico e à primeira-ministra, Theresa May, que estava na Câmara dos Comuns (câmara baixa do Parlamento britânico) quando isto aconteceu e teve de sair de forma precipitada do local.

E, porfiando que “o terrorismo afeta todos nós”, nomeadamente a “França, que tem sido atingida ultimamente” e “sabe o que o povo britânico está a sofrer hoje”, sublinhou a necessidade de uma organização a nível europeu para enfrentar a ameaça terrorista.

A chanceler alemã, por seu turno, expressou o seu apoio aos “amigos britânicos e a todos os habitantes de Londres” e declarou através de comunicado:

“Embora as razões destes atos não serem ainda claras, reafirmo que a Alemanha e os seus cidadãos mantêm-se firmemente e resolutamente ao lado dos britânicos na luta contra todas as formas de terrorismo”.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, disse hoje em Washington que “tudo leva a crer que seja um ataque de natureza terrorista” os acontecimentos que hoje vitimaram pelo menos 4 pessoas (era o número então avançado) em Londres. E acrescentou:

“Queria condenar, em nome do governo português, este ataque, e exprimir ao povo inglês e às autoridades britânicas os nossos sentimentos e solidariedade”. 

E o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, expressou em Bruxelas a solidariedade de Portugal para com o Reino Unido, “parceiro” na defesa de valores como a paz, liberdade e democracia, na sequência do ataque em Londres, declarando:

“Manifesto a solidariedade para com o Reino Unido no dia daquilo que aparece como um atentado em Londres e, portanto, estamos solidários, a União Europeia e Portugal, com aqueles nossos parceiros naquilo que é a afirmação dos valores da paz, da liberdade e da democracia”.

E Comissão Europeia e Parlamento Europeu Parlamento Europeu, apesar do Brexit, não puderam ficar indiferentes ao que se passou em Londres.

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O comentário que me aprazia fazer vejo-o espelhado nas palavras do Primeiro-Ministro António Costa proferidas perante os jornalistas no final da visita ao evento Portugal Fashion, que decorre na Cordoaria Nacional, relacionando o atentado com a atualidade europeia:

“Em vez de perdermos tempo abrindo visões inúteis, criando conflitos entre nós, é triste ser necessário eventos destes para nos lembrarmos que temos que nos unir”.

E Só unidos temos capacidade de enfrentar estas ameaças”, sublinhou, recordando que o ataque ocorre “precisamente um ano após o atentado dramático (...) de Bruxelas e demonstra bem que a ameaça terrorista é uma ameaça global”.

A Europa tem de se repensar e saber articular segurança e liberdade, soberania e solidariedade. Prosit!

2017.03.22 – Louro de Carvalho

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