terça-feira, 16 de maio de 2017

Nossa Senhora, há cem anos, não apareceu a três jornalistas importantes


No voo de regresso de Monte Real a Roma, a 13 de maio, o Papa concedeu uma Conferência de Imprensa sob a condução de Greg Burke, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, que iniciou o colóquio com o reconhecimento de que foram 24 horas muito intensas dedicadas à Senhora.

Mais acentuou que os portugueses sentiram tudo quanto Francisco lhes disse em torno da afirmação: “Temos uma Mãe!” – exclamação que Sua santidade vive em profundidade.

E, salientando que a Senhora não aparecera a três jornalistas importantes, mas a três pastorinhos que na sua simplicidade e santidade saíram a fazer chegar a mensagem a todo o mundo, considerou que os jornalistas também levam a todo o mundo uma mensagem.

E o Papa, saudando a todos, dispôs-se a responder ao máximo possível de perguntas, ao mesmo tempo que iam lanchando (embora não lhe tenha agradado a informação de que se avizinhava o lanche). No fim, agradeceu a todos o trabalho e a perspicácia das questões e pediu que não se esquecessem de rezar por ele.

Segue a passagem pelos diversos conteúdos, sem repetições, aspetos de pormenor e marcas de oralidade

***

– A Fátima Campos Ferreira, da RTP, que perguntou o que, do ponto de vista histórico, ficará para a Igreja e para o mundo da mensagem de Fátima e da canonização de dois dos pastorinhos, respondeu que Fátima tem uma mensagem de paz levada à humanidade por três comunicadores com menos de 13 anos de idade; que veio como peregrino; e que, embora a canonização não estivesse prevista a princípio, quase de súbito as perícias deram todas positivas e o caso foi dado por concluído. Ficou feliz por isto e o mundo pode esperar a paz, pois Francisco continuará a falar de paz. Por outro lado, confidenciou que recebera uns cientistas de várias religiões e alguns agnósticos e ateus que faziam estudos no Observatório Vaticano em Castelgandolfo. E um deles segredara-lhe que é ateu, mas pede que diga aos cristãos que amem mais os muçulmanos. Ora isto é mensagem de paz – diz o Pontífice.

Tendo a jornalista perguntado se iria dizer isto a Trump, a 24 de maio, limitou-se a sorrir. 

– Aura Miguel, da Rádio Renascença, questionou-o sobre o significado de se ter apresentado como “o Bispo vestido de branco”, expressão da 3.ª parte do Segredo aplicada a São João Paulo II e aos mártires do século XX. E Francisco revelou que a oração em que figura tal expressão foi redigida pelo Santuário, mas é uma conexão semântica em torno do branco na oração: Bispo vestido de branco, Senhora vestida de branco, alvura branca da inocência das crianças depois do batismo – é literariamente o branco do desejo de inocência, paz, não fazer mal a outrem, não fazer guerra. Porém, negou que se tratasse de uma reinterpretação da mensagem, opinando que o então Cardeal Ratzinger, ao tempo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), explicara tudo com clareza.

– A Cláudio Lavagna, da NBC, que lançou a questão da diferença entre o Papa, que pediu aos fiéis o derrube de todos os muros, e Trump, que ameaça construir mais muros (no atinente ao aquecimento global e ao acolhimento de migrantes), contrapôs que não faz juízos sobre uma pessoa sem a escutar. No encontro previsto, cada um dirá o que pensa. Já todos sabem o pensa Francisco sobre o acolhimento aos migrantes e refugiados. E, em relação ao que espera do encontro com um Chefe de Estado que pensa diferente de si, garante não ter portas fechadas, mas, ao menos com alguma abertura para cada um poder dizer o que pensa, para cada um entrar e falar sobre problemas comuns e andar para a frente, passo a passo. E reiterou que a paz é artesanal, se constrói no dia a dia, como a amizade, o conhecimento mútuo, a estima. Escuta-se e diz-se o que se pensa, mas sempre com respeito. Sobre a hipótese de o Presidente vir a modificar as suas decisões, o Papa diz tratar-se de um cálculo político que se abstém de fazer e disse que também no plano religioso não é proselitista.

– Elisabetta Piqué, do La Nación, recordou um outro facto importante para Francisco: fez a 13 de maio 25 anos que o Núncio Calabresi lhe disse que seria Bispo auxiliar de Buenos Aires. E perguntou se tal coincidência, que marcou a sua saída de Córdoba e mudou a sua vida, o ligou à Virgem de Fátima e se neste dia se lembrou daquele acontecimento. Respondeu que não tinha pensado na coincidência. No entanto, enquanto rezava a Nossa Senhora, lembrou-se de que num dia 13 recebera um telefonema do Núncio e falou com a Senhora sobre os seus erros e ainda sobre o pouco gosto na escolha de pessoas.

– Nicholas Senèze, do La Croix, pergunta o que se passa com a Fraternidade de São Pio X, que tem por Fátima uma grande devoção e se virá a ter um estatuto especial na Igreja, como pergunta quais os obstáculos à reconciliação e se esta significará o regresso triunfal dos fiéis que mostram o que significa ser verdadeiramente católico.

Em resposta, Francisco descarta qualquer forma de triunfalismo. Revela que a CDF estudou um documento que ainda não lhe chegou às mãos. Recorda que as relações atuais são fraternas e que, o ano passado, deu licença para a confissão aos seus fiéis e uma forma de jurisdição para os matrimónios. É certo que havia e há problemas, que vão sendo resolvidos ao nível da CDF e da Penitenciaria Apostólica. Porém, com Monsenhor Fellay há um bom relacionamento, tendo falado várias vezes, mas não interessa apressar as coisas. Importa caminhar em conjunto e, depois, se verá. Não é um problema de vencedores ou de vencidos; é um problema de irmãos que devem caminhar em conjunto, procurando a fórmula de dar passos em frente.     

Tassilo Forchheimer, da ARD, considerando o aniversário da Reforma, perguntou se os cristãos evangélicos e os católicos podem percorrer um outro troço da estrada em conjunto, por exemplo, a participação na mesma mesa eucarística.

O Bispo de Roma diz que foram dados grandes passos. Após a Declaração sobre a Justificação, nunca mais se parou no caminho. E a viagem à Suécia foi muito significativa por ser o início das celebrações e uma comemoração com a Suécia. Depois, foi significativa pelo ecumenismo do caminho, que é caminhar em conjunto pela oração, testemunho, obras de caridade e obras de misericórdia. E um grande passo foi o acordo celebrado entre a Cáritas luterana e a Cáritas católica para trabalharem em conjunto. Porém, esperam-se sempre novos passos, pois Deus é o Deus das surpresas. Nunca devemos parar, mas andar sempre – rezar em conjunto, testemunhar, fazer as obras de misericórdia, que é anunciar a caridade de Jesus Cristo. Anunciar que Jesus é o Senhor, o único Salvador e que a graça vem apenas dele. Neste caminho os teólogos continuam a estudar, mas deve-se andar no caminho, com o coração aberto às surpresas.  

Mimmo Muolo, do Avvenire, partindo da verificação do que se viu em Fátima – o Papa envolvido num grande testemunho de fé popular –, questionou-o sobre as ditas aparições de Medjugorje e o fervor religioso que suscitam, dado que nomeou um Arcebispo delegado para os aspetos pastorais. E ainda perguntou o que pensava sobre a notícia de que as ONG terão feito acordos com passadores traficantes de homens.

À segunda questão, respondeu que teve conhecimento pelos jornais matutinos, mas não opinava por não conhecer pormenores, apenas esperando que as investigações sigam em frente.

Em relação a Medjugorje, disse que todas as aparições ou as presumíveis aparições pertencem à esfera privada, não fazendo parte do Magistério público ordinário da Igreja. Porém, Bento XVI constituiu uma comissão presidida pelo Cardeal Ruini (integrada por competentes teólogos, bispos e cardeais), que produziu um relatório muito bom e o remeteu ao Pontífice nos fins de 2013 ou princípios de 2014. Todavia, por restarem algumas dúvidas, a CDF julgou oportuno enviar a todos os membros do congresso da sua ‘feria quarta’ toda a documentação e também o que parecia contrário ao relatório Ruini. O Papa recebeu a notificação e, não lhe parecendo justo como que pôr em leilão o relatório Ruini, que estava muito bem feito, enviou carta ao Prefeito da CDF a solicitar que, em vez de enviarem para a ‘feria quarta’ as opiniões, as enviassem para o próprio Papa. Tais opiniões foram estudadas e todas enfatizam a densidade do relatório Ruini.

Sobre as primeiras aparições, quando os “videntes” eram jovens, o relatório diz que se deve continuar a investigar; sobre as supostas aparições atuais, o relatório tem dúvidas; e Francisco prefere a Nossa Senhora mãe, nossa mãe, e não a chefe de escritório telegráfico, que, todos os dias, envia uma mensagem a tal hora... E garante: “Esta não é a Mãe de Jesus. E pergunta: “Quem pensa que a Nossa Senhora dizia: ‘Venham que, amanhã, a tal hora, vou dizer uma mensagem àquele vidente’?”. Porém, o ponto crucial próprio do relatório Ruini é o facto espiritual, o facto pastoral: as pessoas que vão lá e se convertem, pessoas que se encontram com Deus, que mudam de vida. Ora, esse facto espiritual e pastoral não pode ser negado. Entretanto, para ver as coisas com todos os dados, com as respostas que os teólogos lhe enviaram, nomeou o predito bispo – muito competente, porque tem experiência – para ver como vai a parte pastoral. E, no fim, se dirá alguma palavra.

Joshua McElwee, do National Catholic Reporter, levantou a questão da renúncia, em março, de Marie Collins, o último membro da Comissão para a Proteção dos Menores, que foi abusada por um padre. A senhora alegou renunciar porque as autoridades no Vaticano não colocavam em prática os conselhos da Comissão que o Santo Padre aprovou.

Respondeu que Marie Collins se explicou bem perante ele e que esta ótima mulher continua a trabalhar na formação com os sacerdotes sobre esta matéria. E tem alguma razão. De facto, há muitos casos atrasados, porque se amontoavam. Teve de se fazer legislação para isso, nomeadamente sobre o que devem fazer os bispos diocesanos. Hoje, como em quase todas as dioceses, há o protocolo a seguir nesses casos – grande progresso –, os arquivos são bem feitos.

Depois, há poucas pessoas. Precisa-se de mais pessoas capazes disso. O Secretário de Estado e o Cardeal Müller estão interessados em apresentar novas pessoas. Já foram admitidas mais duas ou três. Mudou-se o diretor do escritório disciplinar, que era muito competente, mas estava um pouco cansado. Voltou ao seu país para fazer o mesmo com o seu episcopado. E o novo – é um irlandês, Dom Kennedy – uma pessoa muito competente, muito eficiente, rápida, o que ajudará bastante. Por outro lado, sucede que os bispos enviam os casos. Se o protocolo está bem, vai imediatamente para a “feria quarta”, e a “feria quarta” estuda e decide. Se o protocolo não está em conformidade, deve voltar e ser refeito. Por isso, se pensa em ajudas continentais, ou duas por continente: por exemplo, na América Latina, uma na Colômbia, outra no Brasil... Seriam como que pré-tribunais ou tribunais continentais. Mas isso está em planeamento.

Depois, a “feria quarta” estuda e delibera tirar da pessoa o estado clerical. O sacerdote retorna à diocese e recorre. Antes, o recurso era estudado pela mesma “feria quarta” que tinha dado a sentença. Mas isso é injusto. Por isso, foi criado outro tribunal sob a responsabilidade duma pessoa indiscutível: o arcebispo de Malta, Dom Scicluna, que é um dos mais intrépidos contra os abusos. E, neste segundo tribunal – porque devemos ser justos –, a pessoa que recorre tem direito a advogado de defesa. Se o tribunal confirma a primeira sentença, acabou o caso. Só resta o direito implorar por carta a graça ao Papa, sendo que este Papa nunca assinou uma graça. É assim que as coisas estão, estamos seguindo em frente. Marie Collins, nesse ponto, tinha razão, mas nós também estávamos na estrada. Há ainda dois mil casos amontoados.

– Finalmente, Joana Haderer, da agência portuguesa Lusa, apontou o caso de Portugal, aliás como o de muitas sociedades ocidentais, em que (no caso português) quase todos se identificam como católicos (quase 90%), mas a forma como a sociedade se organiza e as decisões tomadas são contrárias às orientações da Igreja: matrimónio dos homossexuais, despenalização do aborto e agora a despenalização da eutanásia em discussão…

O Papa encara tal situação como um problema político e refere que nem sempre a consciência católica é uma consciência de pertença total à Igreja, faltando uma catequese matizada, humana. E evoca o Catecismo da Igreja Católica como um exemplo do que é uma catequese séria e matizada. Depois, aponta a falta de formação e de cultura, que leva muitos dos muito católicos (em Itália e em alguns lugares da América Latina) a serem anticlericais, os papa-padres – o que muito o preocupa. Por isso, insta os sacerdotes a que fujam do clericalismo, porque este afasta muita gente, é uma peste na Igreja. Assim, exige-se o trabalho de catequese, de consciencialização, de diálogo, incluindo valores humanos.

***

Trata-se duma sessão em que o Papa revela a sua audácia de Igreja em saída na caminhada reformista, sinodal e ecuménica e o cuidado com as questões de melindre, como as aparições, visões, mensagens e fé popular. Não sendo um político do ponto de vista técnico, assume-se como o político de intervenção em nome do Evangelho da misericórdia, da paz e dos pobres.

Dizer que não é mariano como João Paulo II ou fatimita por ser latino-americano é esquecer a profundidade daquele que pretende recentrar a Mariologia no mistério de Cristo e da Igreja e reescreve a Salve Rainha com a colaboração do Santuário de Fátima (em que, não sei porquê, muitos ainda não reconhecem o serviço evangelizador); e é esquecer que solicitou a consagração do Pontificado à Mãe de Fátima, venerou publicamente a sua imagem no Vaticano e veio inferir audazmente as consequências da Mensagem. Se não ajoelhou perante a Imagem na Capelinha (com escândalo de alguns), incensou-a na missa; e não ajoelhou perante o Santíssimo Sacramento, mercê da artrose e da ciática. E não sabem que a oração em pé também é uma boa postura adorativa, sobretudo quando em nome do santo Povo de Deus. Mas ele teve o santo atrevimento de frisar que os pastorinhos são santos e se colocam à veneração universal, não por lhes ter aparecido a Senhora, mas pela santidade de vida e dedicação ao conteúdo da Mensagem, articulando a oração a Jesus e a Maria, em união com a Igreja, com a afeição pelos pobres e doentes. Grande Papa! 

2017.05.16 – Louro de Carvalho

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