sábado, 13 de maio de 2017

Viagem de oração, de encontro com o Senhor e com a Santa mãe de Deus



 

O Papa Francisco esteve em Portugal quase 24 horas, onde pronunciou ao todo em público apenas 2351 palavras, sem contar as orações da Missa e a fórmula da bênção papal na Capelinha das Aparições, mas incluindo a oração que pronunciou aquando da sua primeira visita à Capelinha à chegada ao Santuário. Esta oração que já constava do missal preparado, no Vaticano, para esta viagem de peregrinação a Fátima, integra a oração jubilar. E tanto a parte oracional típica do Pontífice como a oração jubilar (a assembleia proferiu esta parte em conjunto com o Papa) era entrecortada pela antífona aclamatória em latim: Ave o clemens, ave o pia! /Salve Regina Rosarii Fatimæ. /Ave o clemens, ave o pia! /Ave o dulcis Virgo Maria. (Avé, ó clemente, Avé ó piedosa, Salve, Rainha do Rosário de Fátima, Avé, ó clemente, Avé ó piedosa! Avé, ó doce Virgem Maria.).

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A saudação e consagração a Maria no serviço evangélico

A Rainha Universal, a Virgem Peregrina é saudada como “Senhora do Coração Imaculado” e refúgio e caminho que nos conduz até Deus. A “Mãe de Misericórdia”, a vida e doçura, que a todos mostrou “os desígnios de misericórdia do nosso Deus”, é a “Senhora da veste branca” e tem “veste de luz” que irradia.

Ela vê, no mais íntimo do seu coração, “as alegrias do ser humano” que peregrina e “as dores da família humana”, mas também nos adorna “do fulgor de todas as joias” da sua coroa para nos fazer peregrinos como ela foi. E com o seu “sorriso virginal” vem robustecer a alegria da Igreja”, com o seu olhar de doçura fortalece a esperança dos filhos e com as suas mãos orantes une a todos numa só família, a família humana.

Por seu turno, Francisco, o bispo vestido de branco e peregrino da Luz e da Paz, agradece ao Pai que, “em todo o tempo e lugar, atua na história humana” e, louvando a Cristo, nossa Paz, pede “a concórdia entre todos os povos”. E, como peregrino da Esperança, quer ser “profeta e mensageiro” do serviço evangélico da caridade, “para a todos lavar os pés, na mesma mesa que nos une”. E, na sua veste branca, lembra à Mãe da candura “todos os que, vestidos da alvura batismal, querem viver em Deus e rezam os mistérios de Cristo para alcançar a paz”.

O Papa deseja que sigamos o exemplo de Francisco e Jacinta e “de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho”, porfiando que percorreremos

Todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus”.

E, partindo da brancura da veste de Maria e apresentando-se vestido de branco, garante a semelhança da Igreja com Maria, porque mergulhada no sangue de Cristo, hoje como ontem:

Seremos, na alegria do Evangelho, a Igreja vestida de branco, da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras que destroem o mundo em que vivemos. E assim seremos, como Tu, imagem da coluna luminosa que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está, que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.”.

E a Mãe do Senhor, “bendita entre todas as mulheres”, é “a imagem da Igreja vestida da luz pascal”, a honra do nosso povo, o triunfo sobre o assalto do mal, profecia do misericordioso Amor do Pai, “Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho, sinal do Fogo ardente do Espírito Santo” a quem nos consagramos e que nos ensina, “neste vale de alegrias e dores, as verdades eternas que o Pai revela aos pequeninos, mostrando-nos a força do seu manto protetor no seu No teu Imaculado Coração, qual refúgio dos pecadores e caminho que conduz até Deus.

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Contra a miopia do olhar, seguir o exemplo da Mãe e dos Pastorinhos

Na homilia da missa da peregrinação centenária, o Papa garantiu a todos: “Temos Mãe!”. E a Mãe de que fala é a mulher revestida de sol que surge no céu e que estava para ser mãe, de que fala o vidente de Patmos (cf Ap 12,1-2); é aquela que Jesus entrega ao discípulo no alto da cruz (cf Jo 19,26-27); é a “Senhora tão bonita” a que se referiam os pastorinhos quando iam a caminho de casa a 13 de maio de 1917 e de quem Jacinta, não se contendo, dizia à mãe em casa à noite: 

Hoje vi Nossa Senhora”.

O Bispo vestido de branco diz que, pela esteira que seguiram os olhos dos videntes de Fátima, “se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram”. E foi perentório ao advertir:

“A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu”.

E diz-nos que Maria, “antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno aonde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem Deus e profanando Deus nas suas criaturas”, nos lembra “a Luz de Deus que nos habita e cobre”, pois “o filho foi levado para junto de Deus” (Ap 12,5). E, contra os que se fixam apenas no inferno, o Papa sublinha que “os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora” e acentua que, “no crer e sentir de muitos peregrinos”, Fátima “é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha: mostrai-nos Jesus”.

Por isso, Francisco sugere que agarrados a Maria como filhos, “vivamos da esperança que assenta em Jesus”, pois “aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo” (Rm 5,17). E, querendo que a esperança seja a alavanca da nossa vida a sustentar-nos sempre, “até ao último respiro”, explicita:

Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf Ef 2,6)”.

E, apelando ao agradecimento, à adoração permanentes e ao apreço por Jesus escondido no sacrário, a exemplo dos novos santos, hoje canonizados, rumo à missão, ensina:

Com esta esperança, nos congregamos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a ‘Jesus Escondido’ no Sacrário.”.

E, para urgir o duplo compromisso com a oração comunitária e, consequentemente com os pobres e deserdados, chama a atenção para a parte das Memorias de Lúcia (III, n. 6) em que esta dá a palavra à Jacinta que beneficiara duma visão:  

Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?”.

Tocado por este duplo fragmento de visão, o Papa agradece a solidariedade dos peregrinos para consigo e reconhece que “não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas”, pois sabe que, “sob o seu manto, não se perdem” e que “dos seus braços, virá a esperança e a paz de que necessitam” e que roga para todos os irmãos “no Batismo e em humanidade”, sobretudo “os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”. E acentua que Deus nos criou “como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um”; e que, ao “exigir” o cumprimento dos nossos deveres de estado, o Céu desencadeia uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar”.

Por isso, pede que “não queiramos ser uma esperança abortada”, pois “a vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. E, citando do Evangelho de João, “Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12,24), assegura que o Senhor assim o disse e assim o fez, já que Ele sempre nos precede. Assim:

Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz.”.

E apela a que

Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

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Os doentes não são meros recetores da solidariedade caritativa

Aos doentes presentes (física ou espiritualmente) para receber a bênção eucarística o Papa dirigiu palavras luminosas, reconfortantes e esperançosas.

Recordou que, se passamos por alguma cruz”, Jesus “já passou antes”. Com efeito, “na sua Paixão, tomou sobre Si todos os nossos sofrimentos”. Sabendo o significado do sofrimento, Jesus “compreende-nos, consola-nos e dá-nos força”, como fez a Francisco e a Jacinta e “aos Santos de todos os tempos e lugares”. E, enquanto Pedro estava na prisão, toda a Igreja rezava por ele e o Senhor consolou-o. Na verdade, este “é o mistério da Igreja: a Igreja pede ao Senhor para consolar os atribulados como vós e Ele consola-vos, mesmo às escondidas”.

Depois, refletiu com os peregrinos:

Diante dos nossos olhos, temos Jesus escondido mas presente na Eucaristia, como temos Jesus escondido mas presente nas chagas dos nossos irmãos e irmãs doentes e atribulados. No altar, adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus.”.

E deixou a todos o desafio lançado pela Virgem Mãe, há 100 anos, aos pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus?”, assegurando que a resposta decidida, “Sim, queremos!” nos possibilita compreender e imitar as suas vidas, vividas “com tudo o que elas tiveram de alegria e de sofrimento, em atitude de oferta ao Senhor”.

Porém, aos doentes, cujo sofrimento é útil no grémio da Paixão de Cristo e da Igreja, pediu:

Vivei a vossa vida como um dom e dizei a Nossa Senhora, como os Pastorinhos, que vos quereis oferecer a Deus de todo o coração. Não vos considereis apenas recetores de solidariedade caritativa, mas senti-vos inseridos a pleno título na vida e missão da Igreja.”.

E, garantindo que a “presença deles, silenciosa mas mais eloquente do que muitas palavras”, a sua oração, a oferta diária dos seus sofrimentos em união com os de Jesus crucificado pela salvação do mundo, a aceitação paciente e até feliz da sua condição são recurso espiritual, património para cada comunidade cristã”, pediu que não tenham “vergonha de ser um tesouro precioso da Igreja” e que a Jesus que ia passar junto deles no Santíssimo Sacramento a “mostrar a sua proximidade e o seu amor” confiassem as dores, sofrimentos e cansaço, contando com a oração da Igreja que de todo o lado se eleva ao Céu por eles e com eles, pois Deus é Pai e nunca os esquecerá.

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A Saudação aos peregrinos. Que Maria escolhemos?

O Papa começou por agradecer o acolhimento e a associação à sua peregrinação vivida na esperança e na paz, garantindo que a todos tinha no coração, pois o Senhor lhos confiou.

Por isso, a todos o Pontífice abraça e confia a Jesus “principalmente os que mais precisarem”, como a Senhora nos ensinou a rezar (Aparição de julho de 1917) e roga à “Mãe doce e solícita de todos os necessitados que lhes obtenha a bênção do Senhor. E, citando, segmentos da 1.ª leitura da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus – “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz” (Nm 6,24-26) – deseja “que sobre cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente, dos excluídos e abandonados a quem negam o futuro, dos órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado, desça a bênção de Deus encarnada em Jesus Cristo”.

Tendo-se esta bênção cumprido na Virgem Maria, pois nenhuma outra criatura viu brilhar sobre si a face de Deus como Ela, que deu rosto humano ao Filho do Pai, podemos nós contemplá-Lo nos momentos gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos da sua vida, que repassamos ao recitar o Rosário. Na verdade, “se queremos ser cristãos, devemos ser marianos”, reconhecendo a relação essencial, vital e providencial que une a Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele. Assim, ao rezarmos o terço, o Evangelho retoma o seu caminho na vida de cada um, das famílias, dos povos e do mundo.

Depois, questionou que Maria os peregrinos escolhem. E elege, entre as várias escolhas dicotómicas, as mais evangélicas: não a Senhora inatingível, mas a Mestra de vida espiritual, a primeira seguidora de Cristo; não a “Santinha” com quem se negoceiam favores, mas a Bendita por ter acreditado (cf Lc 1,42.45) sempre e em toda a circunstância na palavra divina; não a portadora do braço justiceiro de Deus pronto a castigar ou uma Maria melhor do que Jesus Cristo, visto como Juiz impiedoso e mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós, mas a Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante e Mãe e pregoeira da Misericórdia.

Classifica de “grande injustiça” que se faz “a Deus e à sua graça”, ao pensar-se que “os pecados são punidos pelo seu julgamento”, sem antepor que “são perdoados pela sua misericórdia”. Com efeito, “devemos antepor a misericórdia ao julgamento” e saber que “o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”, embora a misericórdia de Deus não negue a justiça, pois “Jesus tomou sobre Si as consequências do nosso pecado juntamente com a justa pena”; “não negou o pecado, mas pagou por nós na Cruz”. Ora, porque “na fé que nos une à Cruz de Cristo, ficamos livres dos nossos pecados”, temos de abandonar qualquer medo e temor, que não se coadunam em “quem é amado” (cf 1Jo 4,18). E, citando a sua primeira exortação apostólica, diz:

“Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização” (EG. 288). 

E, chamados, com Maria, a “ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo” e “tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor”, dizendo-Lhe o louvor, contrição e esperança com Maria:

“A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração.”.

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E assim decorreu uma das mais breves jornadas peregrinantes de Francisco – terna, popular e evangélica, mas também “política”, por almejar o bem comum, sobretudo o dos deserdados.

2017.05.13 – Louro de Carvalho

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