quarta-feira, 12 de julho de 2017

As crianças não são hiperactivas, são mal-educadas


É uma comédia que se acumula no dia-a-dia. Um sujeito vai ao café ler o jornal, e o café está inundado de crianças que não respeitam nada, nem os pardalitos e os pombos, e os pais "ai, desculpe, ele é hiperactivo", que é como quem diz "repare, ele não é mal-educado, ou seja, eu não falhei e não estou a falhar como pai neste preciso momento porque devia levantar o rabo da cadeira para o meter na ordem, mas a questão é que isto é uma questão médica, técnica, sabe?, uma questão que está acima da minha vontade e da vontade do meu menino, olhe, repare como ele aperta o pescoço àquele pombinho, é mais forte do que ele, está a ver?". E o pior é que a comédia já chegou aos jornais. Parece que entre 2007 e 2011 disparou o consumo de medicamentos para a hiperactividade. Parece que os médicos estão preocupados e os pais apreensivos com o efeito dos remédios na personalidade dos filhos. Quem diria?
Como é óbvio, existem crianças realmente hiperactivas (que o Altíssimo dê amor e paciência aos pais), mas não me venham com histórias: este aumento massivo de crianças hiperactivasnão resulta de uma epidemia repentina da doença mas da ausência de regras, da incapacidade que milhares e milhares de pais revelam na hora de impor uma educação moral aos filhos. Aliás, isto é o reflexo da sociedade que criámos. Se um pai der uma palmada na mão de um filho num sítio público (digamos, durante uma birra num café ou supermercado), as pessoas à volta olham para o dito pai como se ele fosse um leproso. Neste ambiente, é mais fácil dar umas gotinhas de medicamento do que dar uma palmada, do que fazer cara feia, do que ralhar a sério, do que pôr de castigo. Não se faz nada disto, não se diz não a uma criança, porque, ora essa, é feio, é do antigamente, é inconstitucional.
Vivendo neste aquário de rosas e pozinhos da Sininho, as crianças acabam por se transformar em estafermos insuportáveis, em Peter Pan amorais sem respeito por ninguém. Levantam a mão aos avós, mas os pais ficam sentados. E, depois, os pais que recusam educá-los querem que umas gotinhas resolvam a ausência de uma educação moral. Sim, moral. Eu sei que palavra moral deixa logo os pedagogos pós-moderninhos de mãos no ar, ai, ai, que não podemos confrontar as crianças com o mal, mas fiquem lá com as gotinhas que eu fico com o mal.
Hoje há, até, filhos a proibirem oa avós de imporem regras de darem uma boa palmada às netos! Absurdo!
Mas há mais: há avós que têm, também, muita culpa!!! Se há! Egoístas, desejam, a todos o custo agradar (e nunca desagradar) aos "preciosos netinhos". Refiro-me aos avós que estão bastante tempo com os netos. Muitos deles são autênticos criminosos! Lá "sacodem o pó" de vez em quando, dão regras que os miúdos infringem facilmente e (chantagem destes), com um abracinho, ou um beijinho aos avós "babados e estúpidos", resolvem tudo. E quando crescerem? Estes avós devem assumir, claramente, a sua função de avós ( e não de bisavós decadentes). Estes avós devem, eles também, educar: com rigor, com seriedade, impondo regras e limites claros, regras e limites a sério. Educar não é fácil: mas é imperioso. Se queremos, mais tarde, ter adultos responsáveis e equilibrados. Educar é contrariar, é frustrar, é ensinar a viver. E a vida não é fácil. Sem educação, sem formação cuidada, estamos a criar seres monstruosos, infelizes, sem referências, sem limites, sem ideais. Estamos, com esta "criação" delico-doce, a construir egoístas, seres caprichosos e mimados, sem capacidade de esforço, para construir o que quer que seja. Estamos a construir seres que não "crescem por dentro": serão sempre infantis - com pesadas consequências para eles, no futuro? Serão, sempre, "meninos hiperactivos", isto é: "meninos malcriados", detestáveis, com personalidades distorcidas! Como conseguirão ultrapassar as dificuldades da vida? Como reagirão às exigências do trabalho, do casamento, da vida social?
Pais e avós: tenham juízo! Eduquem! A bem das vossa crianças!
Henrique Raposo, aqui

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