segunda-feira, 24 de julho de 2017

Não acabaram os devotos do pensamento único


As ideias bem cimentadas e consolidadas são a força que move as pessoas e as norteia na ação e na influência aos outros. É, por isso, que se constituem os partidos que disputam as eleições junto do eleitorado para alcançar o poder, se fazem os seminários, simpósios e congressos, se criam as academias, se põem a funcionar escolas, se faz apostolado, missionação e até proselitismo. Por isso, se estabeleceu como direito fundamental a liberdade de pensamento, expressão, associação e reunião e se criam e mantêm órgãos de comunicação social.

Critica-se o fundamentalismo e os ataques aos órgãos de comunicação social, a censura prévia e o dirigismo.

Não obstante, de forma encoberta ou de forma deslavada, os paladinos do pensamento único e do uniformismo andam por aí.

Quem não se lembra do desastre que foi a tentativa de exportar para o Norte de África e para o Médio Oriente o figurino de democracia ocidental? E o que deu a veleidade de conceder (!) a independência às colónias somente quando aqueles povos estivessem bem preparados?

Depois, há muitos casos em que aqueles ou aquelas que se manifestarem contra a corrente são objeto de procedimento disciplinar ou são vistos de soslaio pela opinião pública.

Podiam mencionar-se muitos casos. Vou, porém, ater-me necessariamente apenas a alguns.

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A 14 de julho, podia ler-se num dos sites do Vaticano um artigo de Lola González sob o título “Uma mulher africana dá a cara contra as imposições antinatalistas do Ocidente”. Veja-se o texto em: https://infovaticana.com/2017/07/14/una-mujer-africana-planta-cara-las-imposiciones-abortistas-occidente/.

A ativista nigeriana pelo direito à vida, Obianuju Ekeocha, denuncia o desrespeito dos governos ocidentais pela democracia africana ao quererem impor o aborto legal contra a vontade da maioria dos africanos. Ora, segundo a articulista, os inquéritos de opinião mostram abundantemente que os africanos – tanto as mulheres como os homens – odeiam o aborto. E sublinha a ativista, em declarações ao Catholic News Service, que “ignorar a vontade do povo é cuspir no tipo de democracia que se supõe que temos nos países africanos”.

A fundadora da Culture of Life Africa assegura que as nações ricas que injetam dinheiro na promoção e financiamento de abortos em África se comportam como os antigos senhores coloniais, já que, segundo refere, nunca no seu trabalho encontrou ninguém que suspirasse pela ajuda pelo aborto. E segue acusando muitos dos países ocidentais da síndrome de supremacia cultural em nome da qual tratam de impor a prática do aborto.

Também a ideia de promover a anticonceção para combater a pobreza em África não passa de uma “solução ocidental” que ignora o que pretendem os africanos. Em resposta à asserção da entrevistadora da BBC que lhe referia que centenas de milhões de mulheres não têm acesso à anticonceção e que deveriam tê-lo, Ekeocha contrapôs: “Bom, estás a dizer ‘deveriam’, mas quem és tu para decidir? Não há uma petição popular.”.

E, quando a entrevistadora insistia dizendo ter nascido e sido criada em África, aonde vai várias vezes por ano, para sustentar a garantia de que a anticonceção é um direito humano fundamental e necessário para superar a pobreza, a ativista contrapôs e interpelou-a: “Essa é uma espécie de solução ocidental, não? Porque não escutas a gente primeiro?”. E advertiu que os promotores da anticonceção em África não acautelam os seus efeitos secundários.

Esta nigeriana conta como tem de atender e acompanhar as raparigas a quem proporcionaram métodos anticoncetivos, como o DIU (dispositivo intrauterino), sem a correta informação. E denuncia:

“Estas mulheres estavam a chorar e alguém duma organização ocidental veio, pôs-lhes um DIU dizendo que isso era o que necessitavam para sair de a pobreza”.

Ora, para Ekeocha, “a salvação da pobreza chegou com a educação, não com a anticonceção”.

Em relação ao aborto, a fundadora de Culture of Life Africa defende:

“Não creio que nenhum país ocidental tenha o direito de pagar os abortos num país africano, especialmente quando a maioria das pessoas não quer o aborto – o que é uma forma de colonização ideológica”.

Entretanto, enquanto Mientras Ekeocha defendia nos meios de comunicação o direito à vida e denunciava a colonização ideológica em África, Melinda Gates, num congresso internacional sobre planificação familiar apoiava o controlo da natalidade como forma de poder para as mulheres. Semanas antes, Gates prometera arrecadar quase 5.000 milhões de dólares para financiar a anticonceção em 69 países, muitos deles africanos.

Ora, em  carta aberta a Melinda Gates, Ekeocha refere ter crescido numa cidade remota em África, numa sociedade que ama e dá as boas-vindas às novas vidas. E diz:

“No meio de todas as nossas aflições e dificuldades africanas, no meio de todos os problemas socioeconómicos e instabilidades políticas, os nossos bebés são sempre um firme símbolo de esperança, uma promessa de vida, uma razão para lutar pelo legado dum futuro brilhante”.

Para ela, os milhares de milhões de dólares que Gates pretende arrecadar “compram miséria” para a sua terra. Por isso, reclama:

“Por favor Melinda, escute o grito do coração duma mulher africana e canalize misericordiosamente os seus fundos para pagar aquilo de que que realmente necessitamos: bons sistemas sanitários – especialmente atenção pré-natal pediátrica –, programas de alimentação para crianças pequenas, oportunidades de educação superior ou fortalecimento das ONG que trabalham para proteger as mulheres do tráfico sexual, da prostituição, do matrimónio forçado ou do trabalho infantil”.  

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Recentemente, o panorama português também regista sérias tentativas de não aceitação de pensamento e expressão que atentem contra o pensamento único ou contra o comummente estabelecido, que se quer impor de certa maneira.

Recordo o caso da psicóloga que fez declarações públicas sobre os casos de homossexualidade, dizendo basicamente que, se tivesse um filho homossexual, que o aceitava, mas como se dum doente se tratasse a quem se deve acompanhamento e carinho. Ia caindo o Carmo e a Trindade e a Ordem dos Psicólogos, além de ter de se debruçar sobre o caso em razão das presumíveis queixas à Ordem, teve vedetas a verberar a senhora psicóloga pela alegada inexatidão científica do que propalara publicamente.

Ora, do meu ponto de vista – não vindo ao caso as questões de juízo moral decorrente das religiões do Livro – pergunto-me em que critérios de cientificidade se baseavam os profissionais da ciência para dantes rotularem de doença ou anomalia a homossexualidade. Mas também me questiono em que critérios de cientificidade se baseiam os neocientistas da praça para vincarem com toda a autoridade absoluta que não se trata de doença nem de anomalia. Ora, respeito, tolerância e aceitação são exatamente aceitação, tolerância e respeito – o que não obriga à confissão da mesma fé científica, sobretudo quando é comum dizer-se que a ciência não tem categorias absolutas!

É óbvio que admito que o Estado produza leis que protejam as pessoas e grupos que não se têm enquadrado convencionalmente nos parâmetros tradicionais. Porém, o alcance deste tipo de legislação (como por exemplo, a referente a barrigas de aluguer, adoção e coadoção por pessoas do mesmo sexo, casamento de pessoas do mesmo sexo) é sobretudo a possibilidade do exercício do direito a ser e a viver diferente. Não implica a adesão inabalável a tais desideratos, mas necessariamente ao respeito, tolerância e aceitação, não coibindo ninguém de pronunciar juízos morais sobre ações e situações e nunca sobre as pessoas. Assim, embora o adultério não seja objeto de cominação por parte da lei, tal não impede o juízo moral sobre ele, a que se sujeita quem entende que se deve sujeitar.

Juízo semelhante fiz em relação ao candidato socialdemocrata à Câmara de Loures, que, para mim, além da inabilidade política, errou na generalização comportamental dos ciganos, na circunscrição aos ciganos dos erros apontados, ignorando outros cidadãos e no exagero e na má explicação da sua defesa da prisão perpétua em alguns casos. De resto, defesas e ataques assumidos foram-no obviamente por desígnios políticos de pragmática, que não de ideologia.

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Os casos presentes ultimamente à Ordem dos Médicos, nomeadamente os atinentes a Manuel Pinto Coelho e a Gentil Martins, também merecem atenção.

Manuel Pinto Coelho, já com dois processos disciplinares a decorrer, foi objeto de mais um processo disciplinar por causa de algumas das suas ideias polémicas, como a ingestão diária de água do mar diluída, a exposição solar sem proteção ou a suspensão das estatinas na maioria dos casos de colesterol. Alegadamente, vieram a terreiro queixas de sociedades científicas e de especialistas nacionais (Somos ricos em ciência). Não seria mais positivo optar pela discussão científica e necessário acompanhamento dos doentes – e penalizar o clínico por eventuais infrações à informação e liberdade dos clientes – do que optar pela queixa pública e procedimento disciplinar?

Em relação a Gentil Martins, sabe-se que a queixa formal enviada à Ordem dos Médicos, devido às declarações polémicas do cirurgião sobre a homossexualidade, foi reencaminhada para o Conselho Disciplinar do Sul, segundo o Expresso, que cita fonte oficial da OM. Este conselho funciona, dentro da OM, como um tribunal e de forma independente. O organismo espera agora a decisão daquele Conselho Disciplinar para depois se pronunciar.

O cirurgião sustentou, na entrevista à revista do Expresso, que a homossexualidade constitui “uma anomalia”, “um desvio da personalidade”, comparável ao sadomasoquismo ou à automutilação. O médico garantiu que não faz aceção de pessoas no tratamento de doentes e, quando tem de tratar estas pessoas o faz “como a qualquer doente”, mas realçou que não aceita promover esta vertente. Além da já apontada discutibilidade científica da questão, devo sublinhar que o médico está no seu direito de pensar, desde que aja no estrito patamar da tolerância, respeito e aceitação das pessoas.

Por conseguinte, de modo similar vejo a sua postura contra a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, contra barrigas de aluguer e, sobretudo, contra o aborto. Porém, era desnecessário fazer um juízo sobre Cristiano Ronaldo e sua mãe, embora aceite que na mente estivesse apenas o ato da “compra” dos três filhos.

Concluído: Respeito e liberdade são tão difíceis de conciliar? É obrigatório o unanimismo?

2017.07.22 – Louro de Carvalho

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