O sentimento quase universal da contingência humana, associado à pandemia, insere-se bem na vivência da Semana Santa; e tanto mais quanto a pandemia se reflete na quase paralisação da economia e no agravamento da situação social, particularmente sob a forma de empobrecimento e desigualdades sociais. Estas desigualdades, que sempre existiram, revestem agora a forma de contraste enorme entre as condições de subsistência dos vários estratos sociais.
Vive-se, em cada momento, o risco do contágio e da morte, a par do agravamento da situação social; e, ao mesmo tempo, também se vivem, ressurrecionalmente, as pequenas-grandes vitórias da ajuda mútua, da prestação de cuidados, das curas ou expectativas de evoluções favoráveis, da abertura de perspectivas para um futuro mais fraterno que o passado…
No fundo, cada “estação” desta “via sacra” é, simultaneamente, morte e ressurreição: morte, nas vivências negativas, incluindo as inúmeras mortes biológicas; e ressurreição, nas vivências positivas, incluindo as curas de pessoas infetadas. Nada repugna incluir nesta ressurreição – bem pelo contrário – a fé na vida eterna, articulada com a eternidade da vida; se a vida eterna aponta para a vida depois da morte, a eternidade da vida aponta para todo o mistério de cada vida humana, em comunhão com todas as outras, independentemente de estarmos vivos ou mortos no sentido mais corrente.
Procedem muito bem os cristãos ao viver a Semana Santa em comunhão com suas comunidades e com o Papa, recordando os acontecimentos de há dois mil anos; mas que isso não impeça a comunhão e vivência dos acontecimentos atuais… que, no fundo, partilham daqueles e são vividos em toda a parte.
Acácio Catarino, aqui

Sem comentários:
Publicar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.