sábado, 30 de maio de 2020

CATOLICISMO NA EUROPA OCIDENTAL

Países com a maior percentagem da população que se identifica como cristã, em 2017

50%60%70%80%90%100%DinamarcaEspanhaAlemanhaReino UnidoSuíçaFinlândiaItáliaÁustriaIrlandaPortugal

Fonte: Jornal Observador

sexta-feira, 29 de maio de 2020

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Carícias de Deus

1. Em 24 de maio,  celebra-se, na liturgia católica, a festa da Ascensão de Jesus ao Céu. Evidentemente, quando se fala em ascensão, não se está a fazer descrições geográficas; trata-se tão-só de tentar expressar simbolicamente que Jesus entrou na plenitude da Vida que é Deus.
Antes da despedida, prometeu aos discípulos o Espírito Santo, o Espírito de Deus, que é Amor, aquela luz e força que ilumina, vivifica, dá ânimo, consolação, confiança, coragem. E disse-lhes, segundo os Actos dos Apóstolos, de São Lucas: "Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo." Desapareceu da sua vista e "como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: "Porque estais assim a olhar para o céu?" E observou-lhes que agora a sua missão era partir, para cumprir a missão que Jesus lhes entregara.
Esta é a missão da Igreja. Sim, olhar para o Céu, anunciar o sentido da vida, o Sentido último da existência humana, que não caminha para o nada, mas para a plenitude da Vida em Deus. A missão da Igreja, essencial, é ser a multinacional do sentido de todos os sentidos, do Sentido último. Ao mesmo tempo, e por isso mesmo, não pode ficar parada a olhar para o Céu. Não pode abandonar o mundo, a Terra, criação de Deus. É aqui que vivemos e a missão da Igreja é continuar o projecto de Jesus, concretizá-lo, aqui, porque queremos, como é desígnio de Jesus, viver num mundo que é de todos e que deve ser para todos, na justiça, na igualdade radical, na dignidade livre e na liberdade digna, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar a sua dignidade humana e divina.
A missão da Igreja tem esta dupla vertente: olhar, na Terra, para o Céu. A igreja de Marco de Canavezes, de Siza Vieira, di-lo como só um artista o sabe dizer. Tem uma porta com 10 metros de altura e, quando se sai da celebração, ela abre-se e continuamos com os pés assentes na Terra, mas, diante de nós, abre-se o Céu.
2. Durante muito tempo, impôs-se uma espiritualidade de fuga do mundo, desprezo e abandono do mundo, esquecendo que ele é, repito, criação de Deus e é nele que é preciso encontrar Deus, uns com os outros. Mas também é preciso transformar o mundo. Porque o mundo, no Evangelho, aparece num duplo sentido: por um lado, no sentido positivo, ele é criação de Deus; por outro, no sentido negativo, ele pode ser lugar da tentação, pode ser sujo. Por isso, há o contraponto entre cosmos, que significa, em grego, belo (donde vem cosmética?), e caos, o seu contrário: a desordem; e mundo (limpo, belo, universo), que tem o seu oposto em i-mundo. Não é necessário limpar o mundo, também o mundo humano, das suas imundícies? A vida humana e, consequentemente, a vida cristã também, são e estão, portanto, continuamente em tensão.
Também a Igreja enquanto organização necessita de limpeza. Morreu, em Tóquio, na passada Quinta-Feira, dia 20 de Maio, o Padre Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas. Num texto emocionado, José M. Castillo, revela como no seu último encontro, em Roma, poucos dias antes de se saber da renúncia ao papado de Bento XVI, quando se estavam a despedir, ele lhe disse algo que o marcou profundamente: "Reza, reza muito pela Igreja. Porque para pior do que está agora não creio que possa cair". E aí está Francisco a dar uma viragem à Igreja, apesar de todas as resistências. E o problema são mesmo as resistências. Numa entrevista recente, o conhecido vaticanista Marco Politi, afirmou: "Não são uma minoria. 30% do clero, dos bispos e dos leigos mais comprometidos no mundo estão contra Francisco. Há uma parte da Igreja que não está de acordo com Francisco e que está já a tratar de influenciar o próximo conclave. Nunca houve tantos ataques contra um Papa."
Com a presente pandemia, tomámos consciência de muitas realidades de que andávamos muito afastados. Uma delas é que precisamos de atender à natureza, aos ecossistemas, à biodiversidade, à "ecologia integral" de que fala Francisco, precisamos de viver com mais moderação, e a Igreja, concretamente, uma vez que tem de dar o exemplo, não pode continuar no luxo ou a utilizar símbolos, mesmo na liturgia, que não são senão sinais de poder e ostentação. Impõe-se viver com simplicidade, segundo o estilo de Jesus. Nesse sentido e para dar um exemplo apenas, a irmã Mercedes Loring, de 95 anos, religiosa da Assunção, sugeriu: "Seria possível pedir ao Papa que acabe com as mitras dos bispos, inúteis, e que dão a impressão de "alta categoria"? Fico mal humorada, quando vejo uma cerimónia religiosa, sobretudo a Eucaristia, e o bispo com mitra. Ou quando vejo um grupo de bispos, todos com as suas mitras! Não consigo imaginar Jesus com essas pretensões."
Já depois de este pedido se ter tornado viral, a irmã Mercedes Loring, que dedicou a sua vida à promoção dos pobres, voltou à carga, em diálogo com José Manuel Vidal, director de Religión Digital: "As mitras episcopais sempre me pareceram ridículas. Agora, com o confinamento, participei em muitas Missas pela internet, algumas presididas por bispos, todos eles com a mitra. E o antigo mal-estar voltou. Aquele tira e põe da mitra parece-me ridículo." Acrescentou: "Se pudesse realizar o sonho de ver o Papa, dir-lhe-ia que acabasse com a mitra para ele e também para os bispos."
É claro que Francisco não vai satisfazer o pedido da irmã Mercedes, pois não pode arranjar mais um problema, ele que já tem tantos. Há pouco tempo, encontrou o Padre Ángel, um exemplo notabilíssimo de cuidador atento e eficiente dos mais pobres e frágeis. O Papa perguntou-lhe: "Como estás, Ángel?" Resposta: "Vou indo, com os meus problemas." "E tu?" Francisco: "Os meus problemas? Nem te falo...".
De qualquer forma, fica aí o eco do pedido da irmã Mercedes, com 95 anos. Para exemplo, um extracto de um poema do célebre bispo-poeta Pedro Casaldáliga, também ele nonagenário (92 anos): "A tua MITRA será um chapéu de palha sertanejo./ O teu BÁCULO será a verdade do Evangelho/ e a confiança do teu povo em ti./ O teu ANEL será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador/ e a fidelidade ao povo desta terra./ Não terás outro ESCUDO/ para lá da Esperança/ e da liberdade dos filhos de Deus."
3. Há muito pouco tempo, telefonei ao bispo de Bragança-Miranda, José Cordeiro. Para lhe manifestar a minha total simpatia. Porque vi no JN uma reportagem da jornalista Glória Lopes sobre ele, vestido normalmente e, como se impõe, com a máscara, a distribuir nas ruas alimentos e remédios a quem necessita. Leva também, e talvez seja por vezes o mais importante e necessário, palavras de conforto, "uma carícia de Deus", como ele diz, neste tempo de pandemia, quando as pessoas se sentem mais sós e tristes. Fá-lo duas vezes por semana, indo ao encontro não só de pessoas mais velhas, mas também de migrantes e alunos estrangeiros do Instituto Politécnico de Bragança. "Eu senti o dever de acompanhar o trabalho da Cáritas Diocesana como um sinal em toda a Diocese, pois não posso acompanhar todas as instituições. Esta crise sanitária transformou-se rapidamente numa crise económica e social", sublinhando que "não se trata de caridadezinha, mas de um amor em saída (aqui, lembro que Francisco não se cansa de repetir que quer "uma Igreja em saída"), para sermos solidários e de ir para o terreno "para estar junto das pessoas e dizer-lhes que não podemos ter medo".
Estou convencido de que o bispo de Bragança não é caso único. Mas é um excelente exemplo da Igreja em saída, que olha para o Céu, com os pés assentes na Terra, distribuindo "carícias de Deus". Para que se concretize um mundo melhor.

sábado, 23 de maio de 2020

"‘Para que possas contar e fixar na memória’. A vida faz-se história”,


A mensagem do Papa para esta celebração alerta para as narrativas “falsas” e “devastadoras” que marcam a comunicação atual, apelando a um maior espaço para “boas histórias”.
“Numa época em que se revela cada vez mais sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais, precisamos de sabedoria para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas”, escreve o Papa.
O texto tem como tema  "‘Para que possas contar e fixar na memória’. A vida faz-se história”, centrando-se no papel central que a “narração” tem na história do ser humano.
Francisco indica que as pessoas têm “necessidade” de se narrar a si próprias, uma narração ameaçada constantemente pelo mal. 
 Semana da Comunicação – Rádio Catedral FM RJ 106,7
As novas tecnologias - e não só - surgem como campo fértil para o surgir de teorias da conspiração, notícias falsas ou deturpadas, mentiras...
Não podemos acreditar numa notícia só porque ela surgiu numa das novas tecnologias. Precisamos de verificar as fontes e confrontá-la.
Em muitas formas de sensacionalismo subjaz a manipulação e a falsidade. Ora são exactamente as notícias sensacionais as que mais rapidamente são copiadas, passadas e voltadas a passar. Porquê? Porque as pessoas são más consumidoras de informação. Comem e calam, não questionam, não confrontam, não procuram as fontes.
E isto nem sequer é difícil, basta pedir ajuda ao google...
E depois este tipo de notícias é imparável. Continuam a circular algumas frases atribuídas ao Papa que são falsas e completamente fora do contexto. Apesar de imensas vezes desmentidas e de tudo ser explicado, continuam as circular...
Cuidado, pois!
Sejamos fim de estrada para a mentira, a falsidade, a deturpação, as teorias da conspiração. Sejamos pessoas de bom paladar intelectual, que não comem tudo o que lhe dão, porque não prescindem de usar o dom maior: a inteligência.


segunda-feira, 18 de maio de 2020

João Paulo II: no centenário do nascimento


1.Celebra-se em 18 de Maio, o centenário do nascimento de Karol Wojtyla, que havia de ser Papa, com o nome de João Paulo II.
Fica aí um breve apontamento sobre essa figura marcante do século XX. Não é, de facto, possível escrever a história do século XX ignorando João Paulo II, que não foi apenas uma figura marcante, mas determinante, do século passado. Apresento alguns acontecimentos, um pouco à maneira de flashes, referentes concretamente ao seu pontificado, um dos mais longos da História: mais de 26 anos, de 18 de Outubro de 1978 a 2 de Abril de 2005.
João Paulo II foi um dos líderes mais influentes do seu tempo. Era um homem de convicções, corajoso, profundamente crente no Evangelho e no Deus de Jesus. Foi com ele e as suas viagens por mais de cem países que a Igreja católica tomou real consciência de ser uma Igreja mundial. Foi decisivo para o fim do comunismo no seu país natal, a Polónia, e para a queda do Muro de Berlim. Afirmou e reafirmou os Direitos Humanos. Escreveu notáveis encíclicas sobre ética social e concretamente sobre os direitos dos trabalhadores (Laborem exercens e Centesimus annus) e, se não me engano, foi o primeiro Papa a utilizar a palavra ecologia em todo o seu significado de defesa do meio ambiente. Perdoou àquele que o quis assassinar e visitou-o na cadeia. Reuniu em Assis os representantes das religiões mundiais para a oração, criando o que ficou conhecido como "o espírito de Assis", no sentido da compreensão entre as várias religiões a favor da paz. Fez o possível para evitar a invasão do Iraque, um erro histórico brutal cujos efeitos ainda hoje o mundo está a pagar. Foi um lutador incansável pelo que considerava a sua missão: precisamente a defesa da paz, que o levou a viajar pelo mundo todo como seu mensageiro. Era humilde: ele que chegara a Papa, jovem e atleta, não teve vergonha em envelhecer sem ocultar ao mundo a sua decadência física.
Foi um dos homens mais populares do seu tempo. O mundo agradeceu-lhe, despedindo-se dele com milhões de pessoas no funeral, que teve também o maior número de representações diplomáticas de sempre. E o povo gritou que queria vê-lo rapidamente canonizado: "Santo subito!"
2. Mas João Paulo II era um homem do seu tempo e tem de ser situado nesse tempo e no seu contexto histórico. Ele vinha do Leste, com uma Igreja perseguida, e ele próprio tinha uma certa visão da Igreja, mais hierárquico-autoritária do que propriamente participativa, sinodal, em comunhão. E vivia-se então na Igreja uma forte tensão entre os chamados progressistas e os conservadores, dentro da necessidade de um novo rumo para uma Igreja conciliar, em ligação com o espírito do Concílio Vaticano II.
Neste contexto, viveu grandes contradições. Por exemplo, pediu perdão pelas culpas da Igreja ao longo da História ao mesmo tempo que continuou a condenar um grande número de teólogos (mais de 100). Defendeu os Direitos Humanos para o mundo ao mesmo tempo que reprimiu quem dissentia das suas concepções doutrinais, teológicas ou relacionadas com a organização da Igreja. Pôs travão a horizontes abertos pelo Concílio Vaticano II e concretizou esse propósito com a nomeação de bispos da sua linha conservadora no mundo inteiro. Limitou o diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs. Opôs-se tenazmente a uma reflexão sobre a obrigatoriedade da lei do celibato para os padres. Recusou terminantemente debater de modo sério o lugar da mulher na Igreja, pretendendo inclusivamente invocar a infalibilidade, para pôr termo definitivo ao debate teológico sobre a possibilidade da ordenação de mulheres.
Sobretudo, João Paulo II deixou uma herança dramática por causa do modo como terá lidado com os abusos de menores por parte do clero e com a figura perversa do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. Neste sentido se pronunciou também, numa entrevista recente ao "Der Sonntag", o actual cardeal de Viena, Christoph Schönborn, para quem João Paulo II é certamente "um dos grandes Papas", mas "ficou arrasado com o tema dos abusos, foi uma das suas debilidades... Esperávamos que João Paulo II encontrasse uma palavra de consolação e compaixão para os afectados, para os que tinham sofrido... Essa palavra não veio", concretamente na sua viagem à Áustria em 1998. Do ponto de vista teológico e pastoral, Karl Rahner, um dos teólogos do Concílio Vaticano II e talvez o maior teólogo católico do século XX, morreu com a tristeza do que antevia como a caminhada da Igreja para um "inverno".
3. Permita-se-me uma nota pessoal. Uma vez, foi-me dada a possibilidade de encontrar pessoalmente o Papa João Paulo II nos seus aposentos privados, no Vaticano. Era a primeira vez que estava com um Papa. Apertei-lhe respeitosamente a mão e disse no meu mais íntimo: "É apenas um homem".
João Paulo II era apenas um homem. Com imensa grandeza, mas com grandes debilidades também. O que é facto é que o sucessor, que tinha sido no seu pontificado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI, encontrou a Igreja numa situação tal que não teve forças para continuar à sua frente e tomou aquele gesto histórico de resignar. Foi então que foi eleito o Papa Francisco, uma bênção para a Igreja e para o mundo.
Anselmo Borges, aqui

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Servir a dois senhores?

Políticos que aceitam subordinar-se aos mais perversos interesses económicos abastardam a nossa democracia.



Os políticos portugueses mais influentes, “os senadores”, detentores do enorme poder que lhes confere uma longa carreira na política – que deveriam capitalizar a sua experiência ao serviço do País – colocam-se, por regra, ao serviço dos maiores grupos económicos. Usam a sua posição de influência para obter contratos e benesses do Estado a favor dos poderosos empresários a cujos interesses estão vinculados. Os empresários premeiam-nos com tenças milionárias. Como resultado destas cumplicidades, o tráfico de influências é omnipresente na vida política e mediática.
Por norma, os maiores grupos empresariais contratam os políticos mais influentes. Os exemplos são inúmeros. Os órgãos de administração da EDP integram desde os socialistas Luís Amado, Augusto Mateus e Seixas da Costa aos social-democratas Eduardo Catroga ou Braga de Macedo, passando pela centrista Celeste Cardona. Na Galp, têm assento no Conselho de Administração Adolfo Mesquita Nunes (dirigente do CDS) ou Luís Todo-Bom (ministro sombra do PSD), entre outros. Se percorrermos os órgãos sociais do grupo Mota Engil, encontramos, na sua composição, os socialistas Jorge Coelho e Seixas da Costa, o ex-ministro do PSD Valente de Oliveira, os centristas Paulo Portas e Lobo Xavier. Este último integra também os órgãos sociais da NOS, conjuntamente com Paulo Mota Pinto, a figura cimeira do PSD, enquanto presidente do Congresso. Mas Lobo Xavier não fica por aqui, é ainda vice-presidente do BPI e, como tal, representa em Portugal os interesses dos espanhóis do CaixaBank. Na administração da ANA Aeroportos tem assento o ex-ministro social-democrata José Luís Arnaut ou o todo-poderoso Luís Patrão, gestor das finanças do Partido Socialista. Estes representam em Portugal os interesses dum grupo estrangeiro, a Vinci, esta também acionista da concessionária da Ponte Vasco da Gama, a Lusoponte, por sua vez presidida por um ex-ministro do PSD, Joaquim Ferreira do Amaral – curiosamente o que, enquanto ministro, mandou construir a ponte. Os exemplos são infindáveis.
Com este tipo de composição, as reuniões dos conselhos de administração das maiores empresas mais parecem cimeiras partidárias. Na sua dupla função de agentes políticos e gestores de empresas, estes actores incorporam em si mesmos um permanente conflito de interesses entre as funções públicas – que exercem, exerceram ou virão a exercer – e a fidelidade que devem a quem lhes garante salários milionários. Haverá situações em que certamente o interesse público é pura e simplesmente ignorado, porque ninguém consegue servir (bem) a dois senhores. Quando Seixas da Costa, nomeado pelo Governo para o Conselho Geral da pública RTP, transporta consigo os interesses do grupo Jerónimo Martins/Unilever, que é o maior anunciante em Portugal, um dos maiores clientes da RTP, em caso de diferendo, que interesses defenderá Seixas da Costa? Quando, em nome do Grupo Vinci/ANA, Luís Patrão reúne com algum ministro ou autarca socialista, está numa posição de superioridade de facto, pois provavelmente terá sido Patrão o financiador da campanha eleitoral do seu interlocutor. Quando Lobo Xavier, enquanto conselheiro de Estado, influencia o Presidente, fá-lo incorporando os interesses estrangeiros dos espanhóis do CaixaBank.
Estes agentes do tráfico de influências defendem os seus patrões também no espaço mediático, sem sequer declararem os interesses que os movem. Quando Paulo Portas comenta política internacional na TVI nunca podemos adivinhar se diz o que pensa ou o que interessa ao Grupo Mota Engil, onde tem responsabilidades… na área internacional. Quando Marques Mendes, na SIC, elogia a Caixa Geral de Depósitos, os telespectadores ignoram que este comentador integra os órgãos de gestão da… mesma Caixa. E, quando assistem ao programa “Circulatura do Quadrado”, na TVI, e veem Lobo Xavier e Jorge Coelho, os telespectadores não sabem que, horas antes, os dois comentadores terão partilhado a sala de reuniões da administração da Mota-Engil.
Políticos que aceitam subordinar-se aos mais perversos interesses económicos abastardam a nossa democracia. Ao serviço de grupos económicos portugueses, manipulam os organismos de Estado e transfiguram a nossa democracia num regime feudal, cujos suseranos são os seus patrões. E, ainda pior, quando ao serviço de grupos estrangeiros, são cúmplices na colonização de alguns sectores, representando o triste papel histórico, outrora assumido pelo Conde Andeiro – o de traidores.
Paulo de Morais, aqui

segunda-feira, 11 de maio de 2020

A nova conspiração de Viganò contra o Papa Francisco, com o pretexto da pandemia

Um apelo que diz que, afinal, “crescem as dúvidas, levantadas por diversas partes, sobre a efectiva contagiosidade, perigosidade e resistência” do novo coronavírus. Um cardeal que diz que assina e depois volta atrás. Um arcebispo que acusa o cardeal de mentir. Os sectores anti-Francisco voltam à carga, mas mostram divisões e mentiras internas. E o teólogo italiano Andrea Grillo diz que tudo isto é da ordem do insulto, da calúnia, da difamação e da fraude, e deve ser censurado publicamente.

"Na Igreja há liberdade de expressão, mas na Igreja não há liberdade de insulto, não há liberdade de calúnia, não há liberdade de difamação, não há liberdade de fraude.”
Vale a pena ler o texto todo. AQUI

domingo, 3 de maio de 2020

Humilhação

Em momentos difíceis, como são estes, o governo tem de ter muito respeito pela ordem constitucional e pela liberdade, para garantir que saímos dos confinamentos livres e no país livre que queremos ser

A liberdade não é apenas uma palavra ou um belo slogan para gritar em «manif’s» e cantigas de ocasião. A liberdade é o bem mais precioso das nossas vidas e deve ser tratada com todo o cuidado, por quem governa ou legisla, e defendida sempre e em todas as condições por todos nós.
Vivemos tempos difíceis, em que a liberdade nos foi tirada em nome do bem comum e da prudência, perante uma doença desconhecida e, em muitos casos, demasiados até, letal. Nestes tristes dias, ultrapassámos os mil mortos em Portugal, cerca de 10 por 100.000 habitantes.
Podemos dizer que os portugueses aceitaram as brutais medidas impostas pelo estado de emergência, que obrigaram os profissionais da saúde a um esforço heroico e ao grande sacrifício de não puderem conviver com as suas famílias, por medo do contágio.  Muitos cidadãos puseram em risco o seu trabalho, a sua sobrevivência e quase tudo o que a vida tem de melhor. Confinaram a sua liberdade e os seus direitos fundamentais, ficando em casa, usando máscara, gel e tudo o mais que lhes foi pedido.
Os portugueses foram exemplares na prudência para garantir a sua saúde e a dos outros. Viveram como puderam um mês e meio, em casa, fechados.
Nesta situação, os órgãos de poder político, mesmo nos países democráticos, assumem um poder desmesurado, fora do quadro constitucional e legal normal. Assumem essas prerrogativas especiais, previstas na Constituição e na lei, e os cidadãos aceitam, porque sabem que é, em princípio, para o seu bem e para o bem comum. É, porém, sabido que nestas difíceis e perigosas situações – é exatamente por serem excecionais que são aceites pelos cidadãos -, que a tentação do abuso de poder é maior e uma realidade inquestionável o perigo para a liberdade.
Assim foi agora e assim será sempre. Não é, pois, demais alertar para o abuso do poder e o desrespeito pelos direitos dos cidadãos. Estar atentos a essa tentação é uma obrigação de cidadania.
A decisão do governo de António Costa de apenas permitir Missas a partir de dia 31 de maio é, em si mesmo, um atentado à liberdade religiosa. Atentado gravíssimo, porque arbitrário e desrespeitoso. Senão vejamos: que lógica tem abrir lojas de rua, cabeleireiros, cafés e restaurantes, poder regressar ao trabalho de transportes públicos, permitir manifestações e festejos, e tudo o mais que se lê na calendarização e só permitir a celebração de Missas públicas [privadas podem-se celebrar, e têm-se celebrado, sem povo], juntamente com o futebol, a 31 de Maio?! Que chamar a tais decisões senão atentado à liberdade?! Que lógica tem permitir que venham camionetas e se juntem na Alameda 600 manifestantes, num cenário pré-definido, e não permitir 600 crentes no Santuário de Fátima, no dia 13 de maio, nas mesmíssimas condições?
Face a uma decisão análoga de Emanuel Macron, sobre as Missas em França, os bispos, através de um comunicado da Conferência Episcopal, reagiram chamando-lhe «histórica humilhação da Igreja francesa». Em Itália, o primeiro-ministro Giuseppe Conte já tinha feito o mesmo.
Agora, junta-se-lhes António Costa.
Humilhação é uma palavra forte, sem dúvida. Mas que dizer de um governo que permite que se vá a lojas com 400 metros quadrados, a restaurantes, cafés e pastelarias, palácios e galerias de arte e, pasme-se, repartições de finanças, mas impeça-se a ida às igrejas, mesquitas e sinagogas?
Humilhação é uma palavra dura e revela firmeza. Mas, que outra usar, para classificar uma decisão que impede a liberdade de culto e trata os crentes como perigosos desrespeitadores do bem comum, tão irresponsáveis que não se lhes permite ir às igrejas, com regras e condições idênticas às dos frequentadores das lojas ou dos transportes públicos (distância social, máscaras, gel, etc)? A decisão do Governo pressupõe que os crentes não vão respeitar as normas cívicas e vão pôr em perigo a sociedade, contaminando-se a eles e aos outros. Que estranho preconceito contra os crentes…
Essa é, em minha opinião, tão-só uma razão aparente para este estranho calendário: resulta da tentação de abusar do poder e é uma demonstração de força desnecessária, que é sempre exercida pelos fracos. Mas é uma decisão que faz perigar a liberdade. A liberdade, sublinho. O abuso de poder foi sempre uma tentação dos governantes e marcou, com tristes páginas, a história da Europa no século passado. Da Europa continental. É sabido que todos os regimes totalitários começam por pôr em causa a liberdade religiosa (esse ópio do povo), porque é a mais frágil, muitas vezes levada em vasos de barro, que facilmente se partem. Ainda é assim, infelizmente nos nossos dias, em regimes como o chinês, onde o exercício do direito ao culto e a definição das suas condições é competência do Partido Comunista chinês.
Acho que ninguém contesta que em Portugal, nestes dias, a liberdade religiosa tenha sido limitada dentro dos parâmetros do estado de emergência e não cabe de imediato discutir se houve abusos desnecessários ou se se restringiu a liberdade dentro de condições aceitáveis. Não o discuto agora, até porque é certamente cedo para conclusões definitivas. Mas é incontestável que os crentes portugueses respeitaram as regras definidas, incluindo as mais dolorosas de cumprir, como as reguladoras da assistência de familiares aos funerais, proibição de visitas a lares e hospitais, etc. Adiaram-se casamentos, batizados e fecharam-se as igrejas e os templos. Os crentes respeitaram, mesmo exemplarmente, as decisões do poder político e, por isso, nem a Páscoa, a mais importante festividade cristã, celebraram.
É necessário, porém, e perante as recentes decisões discriminatórias, lembrar ao poder político que a liberdade religiosa, como escreveu George Weigel, «não é algo “conferido” pelo governo (…) A liberdade religiosa é um direito humano fundamental reconhecido como um direito civil (…). Os governos não “são proprietários” da liberdade religiosa, nem a regulam por prazer ou capricho».
Os governos têm a obrigação de proteger a liberdade religiosa, como um direito inalienável das pessoas e de regular o seu exercício, em prol do bem comum. Eles farão esse regulamento adequadamente, se mantiverem em mente os limites do seu poder e resistirem à tentação de imaginar que «conferem» a liberdade religiosa às pessoas.  Não devem, nem podem.
Em momentos particularmente difíceis, como os que vivemos, o governo tem de ter muito cuidado com o respeito pelos direitos dos cidadãos. Respeito pela ordem constitucional e pela liberdade, para garantir que saímos dos confinamentos livres e num país livre que queremos continuar a ser.
Estas decisões, se em vez de estarem baseadas no respeito pela liberdade e pelo quadro constitucional existente, decorrem de decisões numa base ideológica e não no bom senso, corre-se o risco de abrir feridas desnecessárias, numa sociedade já de si magoada pelo vírus, pela doença e pela morte de perto de mil cidadãos.
Permitir que as igrejas abram as portas aos fiéis e só se possam celebrar missas comunitárias apenas a 31 de maio é um atentado inequívoco a um direito da pessoa, e à sua dignidade, e um atropelo arbitrário da liberdade.
Lamento que o governo, sem razão ou justificação de ordem sanitária ou de saúde pública, tenha aproveitado esta pandemia para colocar a liberdade religiosa em causa e fazer uma abusiva demonstração do seu poder.
Convém lembrar que, sempre que em Portugal os governantes o fizeram, a «coisa» não correu muito bem.
Bom Dia da Mãe.
Zita Seabra, aqui

quinta-feira, 30 de abril de 2020

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Em tempo de confinamento, sorrir faz bem


Ela estava  em Aveiro, mas deu-se conta que se esquecera de algo importante para o seu trabalho. Então resolveu dar uma fugida a casa, em Coimbra, após o jantar. Ao entrar em casa, viu a empregada, só de avental, no colo do marido. Ficou possessa, fora de si, incontrolável. Deu meia volta, foi à cozinha, trouxe a tábua de partir a carne, atirou-te à pífia, colocou-a de rabo ao ar, empurrou a cabeça dela contra o sofá e … aí vai disto! As pauladas caíam no rabo como faíscas, a um velocidade supersónica. O marido ainda tentou dizer qualquer coisa, estilo: “Ana, já chega”, mas ainda a frase não fora dita, já lhe tinha caído uma tabuada no corpo, e só ouviu “aiiiiiiiiiiii”. A pobre nem piar podia, quase asfixiada contra o sofá. E as tabuadas no rabo aumentavam de intensidade. Mais uma vez o marido tenta refrear-lhe os ânimos: “Ana…”, nem pôde dizer o resto da frase, uma tabuada cai-lhe no pêlo e o grito aumenta “aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”. O rabo da lambisgoia estava mais preto do que o lenço preto de uma viúva da serra. Mas estava possuída e, sem saber donde vinham as forças, as estoiradas continuavam freneticamente. Mais uma vez ele tenta falar-lhe “A….”, só a primeira sílaba do seu nome, porque outra tabuada, descomunalmente puxada, o atinge em cheio, e, segurando o joelho com as mãos, manclita aos ais pela sala fora…
Aproveitando um momento de ligeira folga, a lambisgoia escapa-se, mais veloz do que lebre, abre a porta, azanga escadas, bate com força a porta da rua. O Xico, meio salamurdo, diz: “Perdoa-me Ana, não foi nada de especial…. Eu faço tudo o que achares.” “Ai fazes tudo?, então vem cá”. Abriu as portas da varanda da sala, ele entrou para a varanda e ela, rapidamente, fechou a porta, as persianas e trancou-as. “Ficas aí 24 horas. E não há mé nem meio mé.” O pobre nem podia falar alto para não chamar a atenção dos vizinhos… Foi para a cama com sabor agridoce. Fizera justiça! Adormeceu. Às tantas, foi acordada pelo suar constante da campainha da porta. Foi ver o que era aquela aflição e atendeu. Era a pífia a suplicar que lhe enviasses pela janela as suas roupas, que estava a amanhecer e queria pisgar-se. Além disso, já lhe doíam as pernas de estar de pé, pois sentar-se não podia porque tinha o cagairo em brasa. Pôs à pressa as luvas de limpar a casa, com as pontas dos dedos agarrou as roupas dela e aí vão janela abaixo. Da varanda chegava o pio fino do Xico, pedindo compaixão. Nem ligou. Fechou as portas todas e toca para a cama…

sábado, 25 de abril de 2020

Curado da COVID-19, o idoso chora ao sair do hospital...

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Depois de recuperar deste maldito vírus, um homem de 93 anos na América, ao sair do hospital, foi convidado a pagar o preço da utilização do ventilador a 500 euros por dia.
O idoso chorou.
O médico aconselhou-o a não chorar por causa da conta. O que o idoso disse seguidamente comoveu todos os médicos.
Não choro pelo dinheiro que tenho que pagar. Posso pagar tudo isso, choro porque respiro o ar de Deus há 93 anos, mas nunca paguei por isso. São necessários 500 euros para usar o ventilador no hospital por um dia. O doutor sabe o quanto devo a Deus?
Nunca agradeci a Deus por isso.
As palavras do idoso merecem a nossa reflexão.
Quando respiramos livremente sem dor ou doença, ninguém leva o ar a sério. Somente quando chegamos ao hospital, podemos saber que mesmo respirar oxigénio com um ventilador custa dinheiro!
Graças a Deus pelo tempo que passamos a vida inteira, porque pudemos respirar livremente.
Pensa nisto e valoriza o ar que respiras...

terça-feira, 21 de abril de 2020

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Funerais e luto em tempos de COVID-19


O luto na era Covid não é só o luto pelos que nos morrem. É o luto pelas palavras que não dissemos, pela última imagem que não tivemos, pela homenagem que não fizemos, pelos abraços que não pudemos. Porque o distanciamento social se impõe até na hora da morte. É um luto que são vários. E que se negligenciado nos pode ficar perigosamente colado à pele.
Acompanhe aqui  a reporagem

quinta-feira, 16 de abril de 2020

De jovem ateu a Bispo


Nasceu e cresceu durante a  ditadura feroz e implacável em relação aos crentes, numa país  em enorme estado de pobreza. Os pais, neste contexto, seguiram a ateísmo oficial que lhe transmitiram. Apenas a sua avó, analfabeta mas de espírito livre, ia recitando umas orações rimadas  que é uma forma de fixação.
Adolescente, emigra numa barcaça do perigo, fugindo da pobreza, à procura de um futuro com esperança.
No país de acolhimento aprende uma profissão e exerce-a. Vem a encontrar um grupo de jovens católicos e encontra uma família e um espaço. Descobre Jesus Cristo, sente-se seduzido por Ele, pede o Batismo e, mais tarde, entra no seminário.
Foi enviado como sacerdote para o seu país natal onde foi pároco. Recentemente o Papa Francisco nomeou-o Bispo.
Veja aqui

segunda-feira, 13 de abril de 2020

terça-feira, 7 de abril de 2020

Semana Santa Ressurrecional

O sentimento quase universal da contingência humana, associado à pandemia, insere-se bem na vivência da Semana Santa; e tanto mais quanto a pandemia se reflete na quase paralisação da economia e no agravamento da situação social, particularmente sob a forma de empobrecimento e desigualdades sociais. Estas desigualdades, que sempre existiram, revestem agora a forma de contraste enorme entre as condições de subsistência dos vários estratos sociais.
Vive-se, em cada momento, o risco do contágio e da morte, a par do agravamento da situação social; e, ao mesmo tempo, também se vivem, ressurrecionalmente, as pequenas-grandes vitórias da ajuda mútua, da prestação de cuidados, das curas ou expectativas de evoluções favoráveis, da abertura de perspectivas para um futuro mais fraterno que o passado…
No fundo, cada “estação” desta “via sacra” é, simultaneamente, morte e ressurreição: morte, nas vivências negativas, incluindo as inúmeras mortes biológicas; e ressurreição, nas vivências positivas, incluindo as curas de pessoas infetadas. Nada repugna incluir nesta ressurreição – bem pelo contrário – a fé na vida eterna, articulada com a eternidade da vida; se a vida eterna aponta para a vida depois da morte, a eternidade da vida aponta para todo o mistério de cada vida humana, em comunhão com todas as outras, independentemente de estarmos vivos ou mortos no sentido mais corrente.
Procedem muito bem os cristãos ao viver a Semana Santa em comunhão com suas comunidades e com o Papa, recordando os acontecimentos de há dois mil anos; mas que isso não impeça a comunhão e vivência dos acontecimentos atuais… que, no fundo, partilham daqueles e são vividos em toda a parte.
Acácio Catarino,  aqui

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Esse Deus não é o meu!

Os fundamentalismos alimentam-se do medo, do drama e da desgraça. Muitos deles sobrevivem ainda do Antigo Testamento, a fase infantil da revelação divina na perspectiva cristã.
IACS - Instituto Apologético Cristo Salva: ESPIRITISMO KARDECISTA ...
Lê-se e custa a crer que pessoas ditas cristãs digam à boca cheia que a presente pandemia de covid-19 é um castigo de Deus porque no Carnaval do Rio uma escola de samba representou a figura de Jesus Cristo de forma, digamos, pouco ortodoxa, ou por acontecimentos semelhantes.
Essa gente vive fora de tempo, como se estivesse ainda no Antigo Testamento, no tempo em que, na percepção dos hebreus, a justiça divina tinha um carácter tipicamente retributivo. Uma das coisas que se pode apreender no conjunto dos textos do cânone bíblico é que a revelação divina é progressiva.
O pequeno povo do Antigo Israel estava mais centrado na sua luta pela sobrevivência, depois da experiência traumática da escravatura sofrida nos últimos tempos em terras do Egipto. Não tinham treino militar, nem armas, nem sequer um território próprio. Era um conjunto de tribos nómadas a viver numa terra de ninguém, o deserto do Sinai. O seu conceito da divindade era semelhante ao dos povos contemporâneos, com a excepção do monoteísmo. Sustentavam a ideia de um Deus étnico, por via do velho pacto estabelecido com o patriarca Abraão e revalidado em Isaque, Jacob e demais descendência. Tal como qualquer povo da época, Israel precisava de uma divindade protectora com a qual se identificasse, e cuja função primordial seria assegurar a sua sobrevivência como povo, e a prevalência sobre todos os inimigos e quaisquer ameaças, prevenindo assim o risco de extinção.
De acordo com a perspectiva bíblica, vivia-se então a idade infantil da revelação divina, isto é, o tempo em que aquele povo era tratado como uma criança a quem o pai impõe regras muito claras. Se obedecesse seria premiado, mas em caso de desobediência poderia esperar castigo. Quando a vida corria mal e começaram a sofrer derrotas e exílios, a justificação da desgraça sofrida apresentada pelos líderes e mais tarde pelos profetas hebreus, era sempre de que o Deus de Israel os tinha castigado duramente.
Só com a vinda do Messias, Deus se revela de forma completamente diferente. No início do seu ministério público, Jesus Cristo profere o célebre Sermão do Monte (Mateus, caps. 5-7), um discurso altamente subversivo, do ponto de vista social, cultural e religioso, uma vez que propunha valores diferentes e até opostos à prática religiosa judaica vigente, o que deixou a audiência desconcertada. Mas sobretudo Jesus de Nazaré vem a revelar o Pai como um Deus de proximidade e de intimidade, assim como o seu carácter e a sua essência fundamental, de que João Evangelista testifica: “Deus é amor” (I João 4:16).
Dizer que a presente pandemia é um castigo de Deus é uma enormidade sem nome. Afinal qual é o conceito de Deus que esta gente tem? Por que razão Deus castigaria tantos inocentes? Que raio de sentimento vingativo seria esse? Como diz Domingos Faria,“o vírus é completamente insensível ao carácter moral das pessoas”.
O Deus revelado em Jesus Cristo não é mesquinho nem reactivo, nem se deixa insultar por qualquer patetice humana. Os cristãos que difundem a imagem dum Deus mesquinho, afinal, não estarão a fazer mais do que os gregos e os romanos que inventaram deuses à sua própria imagem e semelhança, portadores dos vícios e fraquezas dos homens.
No fundo, estão ainda na mesma posição infantil dos discípulos, que tentaram que o Mestre enviasse fogo do céu para castigar uns quantos, só porque tinham o orgulho ferido, por terem sido rejeitados pelos samaritanos: “E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lucas 9:54). Mas o Mestre repreendeu-os de imediato: “Voltando-se, porém, repreendeu-os e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:55,56).
Como diz Jorge Pinheiro,“Deus não castiga – Deus corrige, ensina e disciplina. E que ninguém veja nesta afirmação um jogo semântico. Porque os actos de Deus – como pessoa que é – revelam a Sua natureza. E a natureza de Deus é sempre pedagógica. E a pedagogia não se realiza por castigos, mas por correcção, ensino e disciplina.” Haja alguém que diga a essa gente o mesmo que o Mestre Jesus.
Deus não precisa de pandemias para se fazer ouvir, nem de defensores (como pode a formiga defender o elefante?), que são tão pecadores como aqueles a quem apontam o dedo. A natureza do pecado é que será diferente. Precisam de se ver ao espelho, definitivamente.
José Brissos-Lino,  aqui

sábado, 28 de março de 2020

revolução viral ou então não

Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. E falam muito de solidariedades, atenções, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado. Que as pessoas estão mais atentas aos seus vizinhos. E até certo ponto, é verdade. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. E por aí fora e por aí adentro. Mas será assim? Será assim no final deste período de contingência? Ou não será apenas um conto de fadas porque agora ninguém quer ver filmes de terror?
Li, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! Ora digam-me lá se isto não nos faz pensar! Por isso não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros. 
Deixem passar a pandemia e os meses ou anos que se lhe hão-de seguir, e veremos se não voltamos ao capitalismo destroçador, à economia que mata, à tecnocracia burguesa, ao individualismo antropocêntrico, às relações virtuais… 
A revolução não está nas mãos do vírus, mas nas nossas mãos! 
Fonte: aqui

You (will) never walk alone ... ((Tu nunca caminharás sozinho...)

A imagem pode conter: céu e ar livre

sexta-feira, 27 de março de 2020