sábado, 30 de maio de 2020
sexta-feira, 29 de maio de 2020
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Carícias de Deus
1. Em 24 de maio, celebra-se, na liturgia
católica, a festa da Ascensão de Jesus ao Céu. Evidentemente, quando se fala em
ascensão, não se está a fazer descrições geográficas; trata-se tão-só de tentar
expressar simbolicamente que Jesus entrou na plenitude da Vida que é Deus.
Antes da despedida, prometeu aos discípulos o Espírito
Santo, o Espírito de Deus, que é Amor, aquela luz e força que ilumina,
vivifica, dá ânimo, consolação, confiança, coragem. E disse-lhes, segundo os
Actos dos Apóstolos, de São Lucas: "Sereis minhas testemunhas em
Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo."
Desapareceu da sua vista e "como estavam com os olhos fixos no céu, para
onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que
lhes disseram: "Porque estais assim a olhar para o céu?" E
observou-lhes que agora a sua missão era partir, para cumprir a missão que
Jesus lhes entregara.
Esta é a missão da Igreja. Sim, olhar para o Céu,
anunciar o sentido da vida, o Sentido último da existência humana, que não
caminha para o nada, mas para a plenitude da Vida em Deus. A missão da Igreja,
essencial, é ser a multinacional do sentido de todos os sentidos, do Sentido
último. Ao mesmo tempo, e por isso mesmo, não pode ficar parada a olhar para o
Céu. Não pode abandonar o mundo, a Terra, criação de Deus. É aqui que vivemos e
a missão da Igreja é continuar o projecto de Jesus, concretizá-lo, aqui, porque
queremos, como é desígnio de Jesus, viver num mundo que é de todos e que deve
ser para todos, na justiça, na igualdade radical, na dignidade livre e na
liberdade digna, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar a sua
dignidade humana e divina.
A missão da Igreja tem esta dupla vertente: olhar, na
Terra, para o Céu. A igreja de Marco de Canavezes, de Siza Vieira, di-lo como
só um artista o sabe dizer. Tem uma porta com 10 metros de altura e, quando se
sai da celebração, ela abre-se e continuamos com os pés assentes na Terra, mas,
diante de nós, abre-se o Céu.
2. Durante muito
tempo, impôs-se uma espiritualidade de fuga do mundo, desprezo e abandono do
mundo, esquecendo que ele é, repito, criação de Deus e é nele que é preciso
encontrar Deus, uns com os outros. Mas também é preciso transformar o mundo.
Porque o mundo, no Evangelho, aparece num duplo sentido: por um lado, no
sentido positivo, ele é criação de Deus; por outro, no sentido negativo, ele
pode ser lugar da tentação, pode ser sujo. Por isso, há o contraponto entre
cosmos, que significa, em grego, belo (donde vem cosmética?), e caos, o seu
contrário: a desordem; e mundo (limpo, belo, universo), que tem o seu oposto em
i-mundo. Não é necessário limpar o mundo, também o mundo humano, das suas
imundícies? A vida humana e, consequentemente, a vida cristã também, são e
estão, portanto, continuamente em tensão.
Também a Igreja enquanto organização necessita de
limpeza. Morreu, em Tóquio, na passada Quinta-Feira, dia 20 de Maio, o Padre
Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas. Num texto emocionado, José
M. Castillo, revela como no seu último encontro, em Roma, poucos dias antes de
se saber da renúncia ao papado de Bento XVI, quando se estavam a despedir, ele
lhe disse algo que o marcou profundamente: "Reza, reza muito pela Igreja.
Porque para pior do que está agora não creio que possa cair". E aí está
Francisco a dar uma viragem à Igreja, apesar de todas as resistências. E o
problema são mesmo as resistências. Numa entrevista recente, o conhecido
vaticanista Marco Politi, afirmou: "Não são uma minoria. 30% do clero, dos
bispos e dos leigos mais comprometidos no mundo estão contra Francisco. Há uma
parte da Igreja que não está de acordo com Francisco e que está já a tratar de
influenciar o próximo conclave. Nunca houve tantos ataques contra um
Papa."
Com
a presente pandemia, tomámos consciência de muitas realidades de que andávamos
muito afastados. Uma delas é que precisamos de atender à natureza, aos
ecossistemas, à biodiversidade, à "ecologia integral" de que fala
Francisco, precisamos de viver com mais moderação, e a Igreja, concretamente,
uma vez que tem de dar o exemplo, não pode continuar no luxo ou a utilizar símbolos,
mesmo na liturgia, que não são senão sinais de poder e ostentação. Impõe-se
viver com simplicidade, segundo o estilo de Jesus. Nesse sentido e para dar um
exemplo apenas, a irmã Mercedes Loring, de 95 anos, religiosa da Assunção,
sugeriu: "Seria possível pedir ao Papa que acabe com as mitras dos bispos,
inúteis, e que dão a impressão de "alta categoria"? Fico mal
humorada, quando vejo uma cerimónia religiosa, sobretudo a Eucaristia, e o
bispo com mitra. Ou quando vejo um grupo de bispos, todos com as suas mitras!
Não consigo imaginar Jesus com essas pretensões."
Já depois de este pedido se ter tornado viral, a irmã Mercedes Loring,
que dedicou a sua vida à promoção dos pobres, voltou à carga, em diálogo com
José Manuel Vidal, director de Religión Digital: "As mitras episcopais
sempre me pareceram ridículas. Agora, com o confinamento, participei em muitas
Missas pela internet, algumas presididas por bispos, todos eles com a mitra. E
o antigo mal-estar voltou. Aquele tira e põe da mitra parece-me ridículo."
Acrescentou: "Se pudesse realizar o sonho de ver o Papa, dir-lhe-ia que
acabasse com a mitra para ele e também para os bispos."
É claro que Francisco não vai satisfazer o pedido da irmã Mercedes,
pois não pode arranjar mais um problema, ele que já tem tantos. Há pouco tempo,
encontrou o Padre Ángel, um exemplo notabilíssimo de cuidador atento e
eficiente dos mais pobres e frágeis. O Papa perguntou-lhe: "Como estás,
Ángel?" Resposta: "Vou indo, com os meus problemas." "E
tu?" Francisco: "Os meus problemas? Nem te falo...".
De qualquer forma, fica aí o eco do pedido da irmã Mercedes, com 95 anos. Para exemplo, um extracto de um poema do célebre bispo-poeta Pedro Casaldáliga, também ele nonagenário (92 anos): "A tua MITRA será um chapéu de palha sertanejo./ O teu BÁCULO será a verdade do Evangelho/ e a confiança do teu povo em ti./ O teu ANEL será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador/ e a fidelidade ao povo desta terra./ Não terás outro ESCUDO/ para lá da Esperança/ e da liberdade dos filhos de Deus."
De qualquer forma, fica aí o eco do pedido da irmã Mercedes, com 95 anos. Para exemplo, um extracto de um poema do célebre bispo-poeta Pedro Casaldáliga, também ele nonagenário (92 anos): "A tua MITRA será um chapéu de palha sertanejo./ O teu BÁCULO será a verdade do Evangelho/ e a confiança do teu povo em ti./ O teu ANEL será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador/ e a fidelidade ao povo desta terra./ Não terás outro ESCUDO/ para lá da Esperança/ e da liberdade dos filhos de Deus."
3. Há
muito pouco tempo, telefonei ao bispo de Bragança-Miranda, José Cordeiro. Para
lhe manifestar a minha total simpatia. Porque vi no JN uma reportagem da
jornalista Glória Lopes sobre ele, vestido normalmente e, como se impõe, com a
máscara, a distribuir nas ruas alimentos e remédios a quem necessita. Leva
também, e talvez seja por vezes o mais importante e necessário, palavras de
conforto, "uma carícia de Deus", como ele diz, neste tempo de
pandemia, quando as pessoas se sentem mais sós e tristes. Fá-lo duas vezes por
semana, indo ao encontro não só de pessoas mais velhas, mas também de migrantes
e alunos estrangeiros do Instituto Politécnico de Bragança. "Eu senti o
dever de acompanhar o trabalho da Cáritas Diocesana como um sinal em toda a
Diocese, pois não posso acompanhar todas as instituições. Esta crise sanitária
transformou-se rapidamente numa crise económica e social", sublinhando que
"não se trata de caridadezinha, mas de um amor em saída (aqui, lembro que
Francisco não se cansa de repetir que quer "uma Igreja em saída"),
para sermos solidários e de ir para o terreno "para estar junto das
pessoas e dizer-lhes que não podemos ter medo".
Estou convencido de que o bispo de Bragança não é caso único. Mas é um
excelente exemplo da Igreja em saída, que olha para o Céu, com os pés assentes
na Terra, distribuindo "carícias de Deus". Para que se concretize um
mundo melhor.
Anselmo Borges, aqui
sábado, 23 de maio de 2020
"‘Para que possas contar e fixar na memória’. A vida faz-se história”,
A mensagem do Papa para esta celebração alerta para
as narrativas “falsas” e “devastadoras” que marcam a comunicação atual,
apelando a um maior espaço para “boas histórias”.
“Numa época em que se revela cada vez mais
sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais, precisamos de
sabedoria para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas”, escreve
o Papa.
O texto tem como tema "‘Para que possas contar e fixar na memória’. A vida faz-se história”,
centrando-se no papel central que a “narração” tem na história do ser humano.
Francisco indica que as pessoas têm “necessidade”
de se narrar a si próprias, uma narração ameaçada constantemente pelo mal.

As novas tecnologias - e não só - surgem como campo
fértil para o surgir de teorias da conspiração, notícias falsas ou deturpadas,
mentiras...
Não podemos acreditar numa notícia só porque ela
surgiu numa das novas tecnologias. Precisamos de verificar as fontes e confrontá-la.
Em muitas formas de sensacionalismo subjaz a
manipulação e a falsidade. Ora são exactamente as notícias sensacionais as que
mais rapidamente são copiadas, passadas e voltadas a passar. Porquê? Porque as
pessoas são más consumidoras de informação. Comem e calam, não questionam, não
confrontam, não procuram as fontes.
E isto nem sequer é difícil, basta pedir ajuda ao
google...
E depois este tipo de notícias é imparável. Continuam a circular algumas
frases atribuídas ao Papa que são falsas e completamente fora do contexto.
Apesar de imensas vezes desmentidas e de tudo ser explicado, continuam as
circular...
Cuidado, pois!
Sejamos fim de estrada para a mentira, a falsidade, a deturpação, as
teorias da conspiração. Sejamos pessoas de bom paladar intelectual, que
não comem tudo o que lhe dão, porque não prescindem de usar o dom maior: a
inteligência.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
João Paulo II: no centenário do nascimento

1.Celebra-se em 18 de Maio, o centenário do nascimento de Karol Wojtyla, que havia de ser Papa, com o nome de João Paulo II.
Fica aí um breve apontamento sobre essa figura marcante do século XX. Não é, de facto, possível escrever a história do século XX ignorando João Paulo II, que não foi apenas uma figura marcante, mas determinante, do século passado. Apresento alguns acontecimentos, um pouco à maneira de flashes, referentes concretamente ao seu pontificado, um dos mais longos da História: mais de 26 anos, de 18 de Outubro de 1978 a 2 de Abril de 2005.
João Paulo II foi um dos líderes mais influentes do seu tempo. Era um homem de convicções, corajoso, profundamente crente no Evangelho e no Deus de Jesus. Foi com ele e as suas viagens por mais de cem países que a Igreja católica tomou real consciência de ser uma Igreja mundial. Foi decisivo para o fim do comunismo no seu país natal, a Polónia, e para a queda do Muro de Berlim. Afirmou e reafirmou os Direitos Humanos. Escreveu notáveis encíclicas sobre ética social e concretamente sobre os direitos dos trabalhadores (Laborem exercens e Centesimus annus) e, se não me engano, foi o primeiro Papa a utilizar a palavra ecologia em todo o seu significado de defesa do meio ambiente. Perdoou àquele que o quis assassinar e visitou-o na cadeia. Reuniu em Assis os representantes das religiões mundiais para a oração, criando o que ficou conhecido como "o espírito de Assis", no sentido da compreensão entre as várias religiões a favor da paz. Fez o possível para evitar a invasão do Iraque, um erro histórico brutal cujos efeitos ainda hoje o mundo está a pagar. Foi um lutador incansável pelo que considerava a sua missão: precisamente a defesa da paz, que o levou a viajar pelo mundo todo como seu mensageiro. Era humilde: ele que chegara a Papa, jovem e atleta, não teve vergonha em envelhecer sem ocultar ao mundo a sua decadência física.
Foi um dos homens mais populares do seu tempo. O mundo agradeceu-lhe, despedindo-se dele com milhões de pessoas no funeral, que teve também o maior número de representações diplomáticas de sempre. E o povo gritou que queria vê-lo rapidamente canonizado: "Santo subito!"
2. Mas João Paulo II era um homem do seu tempo e tem de ser situado nesse tempo e no seu contexto histórico. Ele vinha do Leste, com uma Igreja perseguida, e ele próprio tinha uma certa visão da Igreja, mais hierárquico-autoritária do que propriamente participativa, sinodal, em comunhão. E vivia-se então na Igreja uma forte tensão entre os chamados progressistas e os conservadores, dentro da necessidade de um novo rumo para uma Igreja conciliar, em ligação com o espírito do Concílio Vaticano II.
Neste contexto, viveu grandes contradições. Por exemplo, pediu perdão pelas culpas da Igreja ao longo da História ao mesmo tempo que continuou a condenar um grande número de teólogos (mais de 100). Defendeu os Direitos Humanos para o mundo ao mesmo tempo que reprimiu quem dissentia das suas concepções doutrinais, teológicas ou relacionadas com a organização da Igreja. Pôs travão a horizontes abertos pelo Concílio Vaticano II e concretizou esse propósito com a nomeação de bispos da sua linha conservadora no mundo inteiro. Limitou o diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs. Opôs-se tenazmente a uma reflexão sobre a obrigatoriedade da lei do celibato para os padres. Recusou terminantemente debater de modo sério o lugar da mulher na Igreja, pretendendo inclusivamente invocar a infalibilidade, para pôr termo definitivo ao debate teológico sobre a possibilidade da ordenação de mulheres.
Sobretudo, João Paulo II deixou uma herança dramática por causa do modo como terá lidado com os abusos de menores por parte do clero e com a figura perversa do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. Neste sentido se pronunciou também, numa entrevista recente ao "Der Sonntag", o actual cardeal de Viena, Christoph Schönborn, para quem João Paulo II é certamente "um dos grandes Papas", mas "ficou arrasado com o tema dos abusos, foi uma das suas debilidades... Esperávamos que João Paulo II encontrasse uma palavra de consolação e compaixão para os afectados, para os que tinham sofrido... Essa palavra não veio", concretamente na sua viagem à Áustria em 1998. Do ponto de vista teológico e pastoral, Karl Rahner, um dos teólogos do Concílio Vaticano II e talvez o maior teólogo católico do século XX, morreu com a tristeza do que antevia como a caminhada da Igreja para um "inverno".
3. Permita-se-me uma nota pessoal. Uma vez, foi-me dada a possibilidade de encontrar pessoalmente o Papa João Paulo II nos seus aposentos privados, no Vaticano. Era a primeira vez que estava com um Papa. Apertei-lhe respeitosamente a mão e disse no meu mais íntimo: "É apenas um homem".
João Paulo II era apenas um homem. Com imensa grandeza, mas com grandes debilidades também. O que é facto é que o sucessor, que tinha sido no seu pontificado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI, encontrou a Igreja numa situação tal que não teve forças para continuar à sua frente e tomou aquele gesto histórico de resignar. Foi então que foi eleito o Papa Francisco, uma bênção para a Igreja e para o mundo.
Anselmo Borges, aqui
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Servir a dois senhores?
Políticos que aceitam subordinar-se aos mais perversos interesses económicos abastardam a nossa democracia.


Os políticos portugueses mais
influentes, “os senadores”, detentores do enorme poder que lhes confere uma
longa carreira na política – que deveriam capitalizar a sua experiência ao
serviço do País – colocam-se, por regra, ao serviço dos maiores grupos económicos.
Usam a sua posição de influência para obter contratos e benesses do Estado a
favor dos poderosos empresários a cujos interesses estão vinculados. Os
empresários premeiam-nos com tenças milionárias. Como resultado destas
cumplicidades, o tráfico de influências é omnipresente na
vida política e mediática.
Por norma, os maiores grupos
empresariais contratam os políticos mais influentes. Os exemplos são inúmeros.
Os órgãos de administração da EDP integram desde os socialistas Luís Amado,
Augusto Mateus e Seixas da Costa aos social-democratas Eduardo Catroga ou Braga
de Macedo, passando pela centrista Celeste Cardona. Na Galp, têm assento no
Conselho de Administração Adolfo Mesquita Nunes (dirigente do CDS) ou Luís
Todo-Bom (ministro sombra do PSD), entre outros. Se percorrermos os órgãos
sociais do grupo Mota Engil, encontramos, na sua composição, os socialistas
Jorge Coelho e Seixas da Costa, o ex-ministro do PSD Valente de Oliveira, os
centristas Paulo Portas e Lobo Xavier. Este último integra também os órgãos
sociais da NOS, conjuntamente com Paulo Mota Pinto, a figura cimeira do PSD,
enquanto presidente do Congresso. Mas Lobo Xavier não fica por aqui, é ainda
vice-presidente do BPI e, como tal, representa em Portugal os interesses dos
espanhóis do CaixaBank. Na administração da ANA Aeroportos tem assento o
ex-ministro social-democrata José Luís Arnaut ou o todo-poderoso Luís Patrão,
gestor das finanças do Partido Socialista. Estes representam em Portugal os
interesses dum grupo estrangeiro, a Vinci, esta também acionista da
concessionária da Ponte Vasco da Gama, a Lusoponte, por sua vez presidida por
um ex-ministro do PSD, Joaquim Ferreira do Amaral – curiosamente o que,
enquanto ministro, mandou construir a ponte. Os exemplos são infindáveis.
Com este tipo de composição, as reuniões
dos conselhos de administração das maiores empresas mais parecem cimeiras
partidárias. Na sua dupla função de agentes políticos e gestores de empresas,
estes actores incorporam em si mesmos um permanente conflito de interesses
entre as funções públicas – que exercem, exerceram ou virão a exercer – e a
fidelidade que devem a quem lhes garante salários milionários. Haverá situações
em que certamente o interesse público é pura e simplesmente ignorado, porque
ninguém consegue servir (bem) a dois senhores. Quando Seixas da Costa, nomeado
pelo Governo para o Conselho Geral da pública RTP, transporta consigo os
interesses do grupo Jerónimo Martins/Unilever, que é o maior anunciante em
Portugal, um dos maiores clientes da RTP, em caso de diferendo, que interesses
defenderá Seixas da Costa? Quando, em nome do Grupo Vinci/ANA, Luís Patrão
reúne com algum ministro ou autarca socialista, está numa posição de
superioridade de facto, pois provavelmente terá sido Patrão o financiador da
campanha eleitoral do seu interlocutor. Quando Lobo Xavier, enquanto
conselheiro de Estado, influencia o Presidente, fá-lo incorporando os
interesses estrangeiros dos espanhóis do CaixaBank.
Estes agentes do tráfico de influências
defendem os seus patrões também no espaço mediático, sem sequer declararem os
interesses que os movem. Quando Paulo Portas comenta política internacional na
TVI nunca podemos adivinhar se diz o que pensa ou o que interessa ao Grupo Mota
Engil, onde tem responsabilidades… na área internacional. Quando Marques
Mendes, na SIC, elogia a Caixa Geral de Depósitos, os telespectadores ignoram
que este comentador integra os órgãos de gestão da… mesma Caixa. E, quando
assistem ao programa “Circulatura do Quadrado”, na TVI, e veem Lobo Xavier e
Jorge Coelho, os telespectadores não sabem que, horas antes, os dois
comentadores terão partilhado a sala de reuniões da administração da
Mota-Engil.
Políticos que aceitam subordinar-se aos
mais perversos interesses económicos abastardam a nossa democracia. Ao serviço
de grupos económicos portugueses, manipulam os organismos de Estado e
transfiguram a nossa democracia num regime feudal, cujos suseranos são os seus
patrões. E, ainda pior, quando ao serviço de grupos estrangeiros, são cúmplices
na colonização de alguns sectores, representando o triste papel histórico,
outrora assumido pelo Conde Andeiro – o de traidores.
Paulo de Morais, aqui
segunda-feira, 11 de maio de 2020
A nova conspiração de Viganò contra o Papa Francisco, com o pretexto da pandemia
Um apelo que diz que, afinal, “crescem as dúvidas, levantadas por diversas partes, sobre a efectiva contagiosidade, perigosidade e resistência” do novo coronavírus. Um cardeal que diz que assina e depois volta atrás. Um arcebispo que acusa o cardeal de mentir. Os sectores anti-Francisco voltam à carga, mas mostram divisões e mentiras internas. E o teólogo italiano Andrea Grillo diz que tudo isto é da ordem do insulto, da calúnia, da difamação e da fraude, e deve ser censurado publicamente.

"Na Igreja há liberdade de expressão, mas na Igreja não há liberdade de insulto, não há liberdade de calúnia, não há liberdade de difamação, não há liberdade de fraude.”
Vale a pena ler o texto todo. AQUI
"Na Igreja há liberdade de expressão, mas na Igreja não há liberdade de insulto, não há liberdade de calúnia, não há liberdade de difamação, não há liberdade de fraude.”
Vale a pena ler o texto todo. AQUI
sábado, 9 de maio de 2020
domingo, 3 de maio de 2020
Humilhação
Em momentos difíceis, como são estes, o governo tem de ter muito respeito pela ordem constitucional e pela liberdade, para garantir que saímos dos confinamentos livres e no país livre que queremos ser


A liberdade não é apenas uma palavra ou um belo slogan para
gritar em «manif’s» e cantigas de ocasião. A liberdade é o bem mais precioso
das nossas vidas e deve ser tratada com todo o cuidado, por quem governa ou
legisla, e defendida sempre e em todas as condições por todos nós.
Vivemos tempos difíceis, em
que a liberdade nos foi tirada em nome do bem comum e da prudência, perante uma
doença desconhecida e, em muitos casos, demasiados até, letal. Nestes tristes
dias, ultrapassámos os mil mortos em Portugal, cerca de 10 por 100.000
habitantes.
Podemos dizer que os
portugueses aceitaram as brutais medidas impostas pelo estado de emergência,
que obrigaram os profissionais da saúde a um esforço heroico e ao grande
sacrifício de não puderem conviver com as suas famílias, por medo do
contágio. Muitos cidadãos puseram em risco o seu trabalho, a sua
sobrevivência e quase tudo o que a vida tem de melhor. Confinaram a sua
liberdade e os seus direitos fundamentais, ficando em casa, usando máscara, gel
e tudo o mais que lhes foi pedido.
Os portugueses foram
exemplares na prudência para garantir a sua saúde e a dos outros. Viveram como
puderam um mês e meio, em casa, fechados.
Nesta situação, os órgãos de
poder político, mesmo nos países democráticos, assumem um poder desmesurado,
fora do quadro constitucional e legal normal. Assumem essas prerrogativas
especiais, previstas na Constituição e na lei, e os cidadãos aceitam, porque
sabem que é, em princípio, para o seu bem e para o bem comum. É, porém, sabido
que nestas difíceis e perigosas situações – é exatamente por serem excecionais
que são aceites pelos cidadãos -, que a tentação do abuso de poder é maior e
uma realidade inquestionável o perigo para a liberdade.
Assim foi agora e assim será
sempre. Não é, pois, demais alertar para o abuso do poder e o desrespeito pelos
direitos dos cidadãos. Estar atentos a essa tentação é uma obrigação de
cidadania.
A decisão do governo de
António Costa de apenas permitir Missas a partir de dia 31 de maio é, em si
mesmo, um atentado à liberdade religiosa. Atentado gravíssimo, porque
arbitrário e desrespeitoso. Senão vejamos: que lógica tem abrir lojas de
rua, cabeleireiros, cafés e restaurantes, poder regressar ao trabalho de
transportes públicos, permitir manifestações e festejos, e tudo o mais que se
lê na calendarização e só permitir a celebração de Missas públicas [privadas
podem-se celebrar, e têm-se celebrado, sem povo], juntamente com o futebol, a
31 de Maio?! Que chamar a tais decisões senão atentado à liberdade?! Que lógica
tem permitir que venham camionetas e se juntem na Alameda 600 manifestantes,
num cenário pré-definido, e não permitir 600 crentes no Santuário de Fátima, no
dia 13 de maio, nas mesmíssimas condições?
Face a uma decisão análoga de Emanuel Macron, sobre as Missas em França, os
bispos, através de um comunicado da Conferência Episcopal, reagiram
chamando-lhe «histórica humilhação da Igreja francesa». Em Itália, o
primeiro-ministro Giuseppe Conte já tinha feito o mesmo.
Agora, junta-se-lhes António
Costa.
Humilhação é uma palavra
forte, sem dúvida. Mas que dizer de um governo que permite que se vá a lojas
com 400 metros quadrados, a restaurantes, cafés e pastelarias, palácios e
galerias de arte e, pasme-se, repartições de finanças, mas impeça-se a ida às
igrejas, mesquitas e sinagogas?
Humilhação é uma palavra dura
e revela firmeza. Mas, que outra usar, para classificar uma decisão que impede
a liberdade de culto e trata os crentes como perigosos desrespeitadores do bem
comum, tão irresponsáveis que não se lhes permite ir às igrejas, com regras e
condições idênticas às dos frequentadores das lojas ou dos transportes públicos
(distância social, máscaras, gel, etc)? A decisão do Governo pressupõe que os
crentes não vão respeitar as normas cívicas e vão pôr em perigo a sociedade,
contaminando-se a eles e aos outros. Que estranho preconceito contra os
crentes…
Essa é, em minha opinião,
tão-só uma razão aparente para este estranho calendário: resulta da tentação de
abusar do poder e é uma demonstração de força desnecessária, que é sempre
exercida pelos fracos. Mas é uma decisão que faz perigar a liberdade. A
liberdade, sublinho. O abuso de poder foi sempre uma tentação dos governantes e
marcou, com tristes páginas, a história da Europa no século passado. Da Europa
continental. É sabido que todos os regimes totalitários começam por pôr em
causa a liberdade religiosa (esse ópio do povo), porque é a mais frágil, muitas
vezes levada em vasos de barro, que facilmente se partem. Ainda é assim,
infelizmente nos nossos dias, em regimes como o chinês, onde o exercício do
direito ao culto e a definição das suas condições é competência do Partido
Comunista chinês.
Acho que ninguém contesta que
em Portugal, nestes dias, a liberdade religiosa tenha sido limitada dentro dos
parâmetros do estado de emergência e não cabe de imediato discutir se houve
abusos desnecessários ou se se restringiu a liberdade dentro de condições
aceitáveis. Não o discuto agora, até porque é certamente cedo para conclusões
definitivas. Mas é incontestável que os crentes portugueses respeitaram as
regras definidas, incluindo as mais dolorosas de cumprir, como as reguladoras
da assistência de familiares aos funerais, proibição de visitas a lares e
hospitais, etc. Adiaram-se casamentos, batizados e fecharam-se as igrejas e os
templos. Os crentes respeitaram, mesmo exemplarmente, as decisões do poder
político e, por isso, nem a Páscoa, a mais importante festividade cristã,
celebraram.
É necessário, porém, e
perante as recentes decisões discriminatórias, lembrar ao poder político que a
liberdade religiosa, como escreveu George Weigel, «não é algo “conferido” pelo
governo (…) A liberdade religiosa é um direito humano fundamental
reconhecido como um direito civil (…). Os governos não “são proprietários”
da liberdade religiosa, nem a regulam por prazer ou capricho».
Os governos têm a obrigação
de proteger a liberdade religiosa, como um direito inalienável das pessoas e de
regular o seu exercício, em prol do bem comum. Eles farão esse regulamento
adequadamente, se mantiverem em mente os limites do seu poder e resistirem à
tentação de imaginar que «conferem» a liberdade religiosa às pessoas. Não
devem, nem podem.
Em momentos particularmente
difíceis, como os que vivemos, o governo tem de ter muito cuidado com o
respeito pelos direitos dos cidadãos. Respeito pela ordem constitucional e pela
liberdade, para garantir que saímos dos confinamentos livres e num país livre
que queremos continuar a ser.
Estas decisões, se em vez de
estarem baseadas no respeito pela liberdade e pelo quadro constitucional
existente, decorrem de decisões numa base ideológica e não no bom senso,
corre-se o risco de abrir feridas desnecessárias, numa sociedade já de si
magoada pelo vírus, pela doença e pela morte de perto de mil cidadãos.
Permitir que as igrejas abram as
portas aos fiéis e só se possam celebrar missas comunitárias apenas a 31 de
maio é um atentado inequívoco a um direito da pessoa, e à sua dignidade, e um
atropelo arbitrário da liberdade.
Lamento que o governo, sem
razão ou justificação de ordem sanitária ou de saúde pública, tenha aproveitado
esta pandemia para colocar a liberdade religiosa em causa e fazer uma abusiva
demonstração do seu poder.
Convém lembrar que, sempre
que em Portugal os governantes o fizeram, a «coisa» não correu muito bem.
Bom Dia da Mãe.
Zita Seabra, aqui
quinta-feira, 30 de abril de 2020
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Em tempo de confinamento, sorrir faz bem

Ela estava em Aveiro, mas deu-se conta que se esquecera
de algo importante para o seu trabalho. Então resolveu dar uma fugida a casa,
em Coimbra, após o jantar. Ao entrar em casa, viu a empregada, só de avental,
no colo do marido. Ficou possessa, fora de si, incontrolável. Deu meia volta,
foi à cozinha, trouxe a tábua de partir a carne, atirou-te à pífia, colocou-a
de rabo ao ar, empurrou a cabeça dela contra o sofá e … aí vai disto! As
pauladas caíam no rabo como faíscas, a um velocidade supersónica. O marido
ainda tentou dizer qualquer coisa, estilo: “Ana, já chega”, mas ainda a frase
não fora dita, já lhe tinha caído uma tabuada no corpo, e só ouviu
“aiiiiiiiiiiii”. A pobre nem piar podia, quase asfixiada contra o sofá. E as
tabuadas no rabo aumentavam de intensidade. Mais uma vez o marido tenta
refrear-lhe os ânimos: “Ana…”, nem pôde dizer o resto da frase, uma tabuada
cai-lhe no pêlo e o grito aumenta “aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”. O rabo da
lambisgoia estava mais preto do que o lenço preto de uma viúva da serra. Mas
estava possuída e, sem saber donde vinham as forças, as estoiradas continuavam
freneticamente. Mais uma vez ele tenta falar-lhe “A….”, só a primeira sílaba do
seu nome, porque outra tabuada, descomunalmente puxada, o atinge em cheio, e,
segurando o joelho com as mãos, manclita aos ais pela sala fora…
Aproveitando um momento de ligeira
folga, a lambisgoia escapa-se, mais veloz do que lebre, abre a porta, azanga
escadas, bate com força a porta da rua. O Xico, meio salamurdo, diz: “Perdoa-me
Ana, não foi nada de especial…. Eu faço tudo o que achares.” “Ai fazes tudo?,
então vem cá”. Abriu as portas da varanda da sala, ele entrou para a varanda e ela,
rapidamente, fechou a porta, as persianas e trancou-as. “Ficas aí 24 horas. E
não há mé nem meio mé.” O pobre nem podia falar alto para não chamar a atenção
dos vizinhos… Foi para a cama com sabor agridoce. Fizera justiça! Adormeceu. Às
tantas, foi acordada pelo suar constante da campainha da porta. Foi ver o que
era aquela aflição e atendeu. Era a pífia a suplicar que lhe enviasses pela
janela as suas roupas, que estava a amanhecer e queria pisgar-se. Além disso,
já lhe doíam as pernas de estar de pé, pois sentar-se não podia porque tinha o
cagairo em brasa. Pôs à pressa as luvas de limpar a casa, com as pontas dos
dedos agarrou as roupas dela e aí vão janela abaixo. Da varanda chegava o pio
fino do Xico, pedindo compaixão. Nem ligou. Fechou as portas todas e toca para
a cama…
terça-feira, 28 de abril de 2020
sábado, 25 de abril de 2020
Curado da COVID-19, o idoso chora ao sair do hospital...

Depois de recuperar deste maldito vírus, um homem de 93 anos na América, ao sair do hospital, foi convidado a pagar o preço da utilização do ventilador a 500 euros por dia.
O idoso chorou.
O médico aconselhou-o a não chorar por causa da conta. O que o idoso disse seguidamente comoveu todos os médicos.
Não choro pelo dinheiro que tenho que pagar. Posso pagar tudo isso, choro porque respiro o ar de Deus há 93 anos, mas nunca paguei por isso. São necessários 500 euros para usar o ventilador no hospital por um dia. O doutor sabe o quanto devo a Deus?
Nunca agradeci a Deus por isso.
As palavras do idoso merecem a nossa reflexão.
Quando respiramos livremente sem dor ou doença, ninguém leva o ar a sério. Somente quando chegamos ao hospital, podemos saber que mesmo respirar oxigénio com um ventilador custa dinheiro!
Graças a Deus pelo tempo que passamos a vida inteira, porque pudemos respirar livremente.
O idoso chorou.
O médico aconselhou-o a não chorar por causa da conta. O que o idoso disse seguidamente comoveu todos os médicos.
Não choro pelo dinheiro que tenho que pagar. Posso pagar tudo isso, choro porque respiro o ar de Deus há 93 anos, mas nunca paguei por isso. São necessários 500 euros para usar o ventilador no hospital por um dia. O doutor sabe o quanto devo a Deus?
Nunca agradeci a Deus por isso.
As palavras do idoso merecem a nossa reflexão.
Quando respiramos livremente sem dor ou doença, ninguém leva o ar a sério. Somente quando chegamos ao hospital, podemos saber que mesmo respirar oxigénio com um ventilador custa dinheiro!
Graças a Deus pelo tempo que passamos a vida inteira, porque pudemos respirar livremente.
Pensa nisto e valoriza o ar que respiras...
terça-feira, 21 de abril de 2020
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Funerais e luto em tempos de COVID-19

O luto na era Covid não é só o luto pelos que nos morrem. É o luto pelas palavras que não dissemos, pela última imagem que não tivemos, pela homenagem que não fizemos, pelos abraços que não pudemos. Porque o distanciamento social se impõe até na hora da morte. É um luto que são vários. E que se negligenciado nos pode ficar perigosamente colado à pele.
Acompanhe aqui a reporagem
quinta-feira, 16 de abril de 2020
De jovem ateu a Bispo
Nasceu e cresceu durante a ditadura feroz e implacável em relação aos crentes, numa país em enorme estado de pobreza. Os pais, neste contexto, seguiram a ateísmo oficial que lhe transmitiram. Apenas a sua avó, analfabeta mas de espírito livre, ia recitando umas orações rimadas que é uma forma de fixação.
Adolescente, emigra numa barcaça do perigo, fugindo da pobreza, à procura de um futuro com esperança.
No país de acolhimento aprende uma profissão e exerce-a. Vem a encontrar um grupo de jovens católicos e encontra uma família e um espaço. Descobre Jesus Cristo, sente-se seduzido por Ele, pede o Batismo e, mais tarde, entra no seminário.
Foi enviado como sacerdote para o seu país natal onde foi pároco. Recentemente o Papa Francisco nomeou-o Bispo.
Veja aqui
segunda-feira, 13 de abril de 2020
sábado, 11 de abril de 2020
terça-feira, 7 de abril de 2020
Semana Santa Ressurrecional
O sentimento quase universal da contingência humana, associado à pandemia, insere-se bem na vivência da Semana Santa; e tanto mais quanto a pandemia se reflete na quase paralisação da economia e no agravamento da situação social, particularmente sob a forma de empobrecimento e desigualdades sociais. Estas desigualdades, que sempre existiram, revestem agora a forma de contraste enorme entre as condições de subsistência dos vários estratos sociais.
Vive-se, em cada momento, o risco do contágio e da morte, a par do agravamento da situação social; e, ao mesmo tempo, também se vivem, ressurrecionalmente, as pequenas-grandes vitórias da ajuda mútua, da prestação de cuidados, das curas ou expectativas de evoluções favoráveis, da abertura de perspectivas para um futuro mais fraterno que o passado…
No fundo, cada “estação” desta “via sacra” é, simultaneamente, morte e ressurreição: morte, nas vivências negativas, incluindo as inúmeras mortes biológicas; e ressurreição, nas vivências positivas, incluindo as curas de pessoas infetadas. Nada repugna incluir nesta ressurreição – bem pelo contrário – a fé na vida eterna, articulada com a eternidade da vida; se a vida eterna aponta para a vida depois da morte, a eternidade da vida aponta para todo o mistério de cada vida humana, em comunhão com todas as outras, independentemente de estarmos vivos ou mortos no sentido mais corrente.
Procedem muito bem os cristãos ao viver a Semana Santa em comunhão com suas comunidades e com o Papa, recordando os acontecimentos de há dois mil anos; mas que isso não impeça a comunhão e vivência dos acontecimentos atuais… que, no fundo, partilham daqueles e são vividos em toda a parte.
Acácio Catarino, aqui
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Esse Deus não é o meu!
Os fundamentalismos alimentam-se do medo, do drama e da desgraça. Muitos deles sobrevivem ainda do Antigo Testamento, a fase infantil da revelação divina na perspectiva cristã.

Lê-se e custa a crer que pessoas ditas cristãs digam à boca cheia que a presente pandemia de covid-19 é um castigo de Deus porque no Carnaval do Rio uma escola de samba representou a figura de Jesus Cristo de forma, digamos, pouco ortodoxa, ou por acontecimentos semelhantes.
Essa gente vive fora de tempo, como se estivesse ainda no Antigo Testamento, no tempo em que, na percepção dos hebreus, a justiça divina tinha um carácter tipicamente retributivo. Uma das coisas que se pode apreender no conjunto dos textos do cânone bíblico é que a revelação divina é progressiva.
O pequeno povo do Antigo Israel estava mais centrado na sua luta pela sobrevivência, depois da experiência traumática da escravatura sofrida nos últimos tempos em terras do Egipto. Não tinham treino militar, nem armas, nem sequer um território próprio. Era um conjunto de tribos nómadas a viver numa terra de ninguém, o deserto do Sinai. O seu conceito da divindade era semelhante ao dos povos contemporâneos, com a excepção do monoteísmo. Sustentavam a ideia de um Deus étnico, por via do velho pacto estabelecido com o patriarca Abraão e revalidado em Isaque, Jacob e demais descendência. Tal como qualquer povo da época, Israel precisava de uma divindade protectora com a qual se identificasse, e cuja função primordial seria assegurar a sua sobrevivência como povo, e a prevalência sobre todos os inimigos e quaisquer ameaças, prevenindo assim o risco de extinção.
De acordo com a perspectiva bíblica, vivia-se então a idade infantil da revelação divina, isto é, o tempo em que aquele povo era tratado como uma criança a quem o pai impõe regras muito claras. Se obedecesse seria premiado, mas em caso de desobediência poderia esperar castigo. Quando a vida corria mal e começaram a sofrer derrotas e exílios, a justificação da desgraça sofrida apresentada pelos líderes e mais tarde pelos profetas hebreus, era sempre de que o Deus de Israel os tinha castigado duramente.
Só com a vinda do Messias, Deus se revela de forma completamente diferente. No início do seu ministério público, Jesus Cristo profere o célebre Sermão do Monte (Mateus, caps. 5-7), um discurso altamente subversivo, do ponto de vista social, cultural e religioso, uma vez que propunha valores diferentes e até opostos à prática religiosa judaica vigente, o que deixou a audiência desconcertada. Mas sobretudo Jesus de Nazaré vem a revelar o Pai como um Deus de proximidade e de intimidade, assim como o seu carácter e a sua essência fundamental, de que João Evangelista testifica: “Deus é amor” (I João 4:16).
Dizer que a presente pandemia é um castigo de Deus é uma enormidade sem nome. Afinal qual é o conceito de Deus que esta gente tem? Por que razão Deus castigaria tantos inocentes? Que raio de sentimento vingativo seria esse? Como diz Domingos Faria,“o vírus é completamente insensível ao carácter moral das pessoas”.
O Deus revelado em Jesus Cristo não é mesquinho nem reactivo, nem se deixa insultar por qualquer patetice humana. Os cristãos que difundem a imagem dum Deus mesquinho, afinal, não estarão a fazer mais do que os gregos e os romanos que inventaram deuses à sua própria imagem e semelhança, portadores dos vícios e fraquezas dos homens.
No fundo, estão ainda na mesma posição infantil dos discípulos, que tentaram que o Mestre enviasse fogo do céu para castigar uns quantos, só porque tinham o orgulho ferido, por terem sido rejeitados pelos samaritanos: “E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lucas 9:54). Mas o Mestre repreendeu-os de imediato: “Voltando-se, porém, repreendeu-os e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:55,56).
Como diz Jorge Pinheiro,“Deus não castiga – Deus corrige, ensina e disciplina. E que ninguém veja nesta afirmação um jogo semântico. Porque os actos de Deus – como pessoa que é – revelam a Sua natureza. E a natureza de Deus é sempre pedagógica. E a pedagogia não se realiza por castigos, mas por correcção, ensino e disciplina.” Haja alguém que diga a essa gente o mesmo que o Mestre Jesus.
Deus não precisa de pandemias para se fazer ouvir, nem de defensores (como pode a formiga defender o elefante?), que são tão pecadores como aqueles a quem apontam o dedo. A natureza do pecado é que será diferente. Precisam de se ver ao espelho, definitivamente.
José Brissos-Lino, aqui
segunda-feira, 30 de março de 2020
sábado, 28 de março de 2020
revolução viral ou então não
Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. E falam muito de solidariedades, atenções, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado. Que as pessoas estão mais atentas aos seus vizinhos. E até certo ponto, é verdade. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. E por aí fora e por aí adentro. Mas será assim? Será assim no final deste período de contingência? Ou não será apenas um conto de fadas porque agora ninguém quer ver filmes de terror?
Li, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! Ora digam-me lá se isto não nos faz pensar! Por isso não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros.
Deixem passar a pandemia e os meses ou anos que se lhe hão-de seguir, e veremos se não voltamos ao capitalismo destroçador, à economia que mata, à tecnocracia burguesa, ao individualismo antropocêntrico, às relações virtuais…
A revolução não está nas mãos do vírus, mas nas nossas mãos!
Fonte: aqui
sexta-feira, 27 de março de 2020
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