segunda-feira, 30 de junho de 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A propósito das pífias declarações de Cristiano Ronaldo


Uma das particularidades comunicacionais deste campeonato mundial do mundo de 2014, organizado pelo Brasil, conta-se, a par da entrada das equipas em campo com um número de criancinhas equivalente ao dos membros da cada equipa, a série de conferências de imprensa geridas por diferentes jogadores em regime de sucessividade. Isto sem impedir que hic et nunc seja dada a palavra a técnicos e jogadores em outras ocasiões. Tal é o poder irresistível da Comunicação Social para aliciar personalidades, dar uma ajudinha à sua promoção pública e satisfazer o seu ego pessoal e profissional.

Todavia, sem negar ou desvalorizar o direito de alguém pegar num microfone, no quadro da inquestionável liberdade de pensamento e de expressão, é de reconhecer que algumas pessoas não dispõem da noção do justo equilíbrio quando são chamadas a gerir as vicissitudes da capacidade técnica própria e dos seus semelhantes e ultrapassam facilmente as marcas.

Tal parece ser o caso das declarações prestadas por Cristiano Ronaldo após o fim da partida futebolística com os EUA, que terminou empatada a duas bolas. O capitão da equipa de Paulo Bento falou à imprensa, mostrando-se conformado com as duas más prestações na prova mundial em solo brasileiro, que tem dispensado a melhor simpatia aso portugueses. O capitão da seleção nacional remeteu o favoritismo do sucesso, que alegadamente nunca estivera do lado português, para outras seleções congéneres e confessou que nunca acreditara no triunfo da equipa das quinas.

“Temos que ser humildes e saber a capacidade que temos. Neste momento, há melhores seleções e melhores jogadores que os nossos. Somos uma equipa média, se calhar, sim. Seria mentir se dissesse que éramos uma seleção de topo”. – Declarou o famoso jogador do Real Madrid.

Escuda-se ele e seus admiradores na justificação de que falara a título pessoal. Todavia, é muito difícil admitir que passe para a opinião pública a ideia de que é possível tomar, numa circunstância como esta, uma declaração de caráter meramente pessoal. Ninguém olha para o considerado melhor jogador do mundo como se tivesse despido a farda de líder da seleção de Portugal neste campeonato mundial, para classificar, a título meramente pessoal, de equipa média um grupo que ultrapassou os escolhos que encontrou para entrar no competitivo areópago mundial.

De facto, temos que ser humildes e reconhecer a capacidade que temos e valorizar a capacidade dos outros. Porém, não se afigura legítimo partir para um empreendimento desta envergadura sem fé nas capacidades médias de si próprio, de cada companheiro e da equipa, sobretudo se a sua coordenação depende do declarante. O próprio selecionador deu a mão à equipa e concretamente a Ronaldo, sempre manifestando a capacidade da equipa, a necessidade de trabalho e imputando a responsabilidade da primeira derrota à equipa na sua globalidade e não especialmente a Ronaldo.

Também é certo que no âmbito do futebol não é provável que haja milagres. Todavia, é interessante e pertinente atentar nas palavras do Padre Vítor Melícias, que afirma que até os milagres bíblicos operados por Cristo implicavam a fé. Ora, nestes termos, a primeira condição para haver milagre disponível para Portugal nesta competição mundial é que eles (jogadores e técnicos) acreditem, tenham fé desportiva.

Ora, Cristiano reconheceu que não visualizava Portugal como campeão do mundo: “Portugal nunca foi favorito, nunca pensei que poderia ser campeão do Mundo, sinceramente. Aliás, basta ver a qualificação e a necessidades dos jogos com a Suécia, foi difícil desde o princípio”. – Justificou.

Embora o homem não possa dispensar-se de dizer toda a verdade e só a verdade, é desejável que o líder saiba gerir os momentos e as doses da revelação da mesma. Cristiano deveria, do meu ponto de vista, ter atentado na gravidade da situação com que se depara a equipa nacional, à qual, no quadro da responsabilidade de solidariedade e de liderança que detém para com ela, deveria uma palavra de conforto e de estímulo para os dias que se avizinham.

Com efeito, a seleção das quinas está com pé e meio fora do Mundial, depois de uma estrondosa derrota com a poderosa Alemanha e um empate comprometedor diante dos estranhos Estados Unidos da América, no ambiente desagradavelmente quente e húmido de Manaus. 

De calculadora ou de tablet nas mãos, como avisam os observadores, os portugueses voltam a fazer mirabolantes contas, procurando uma combinação milagrosa que lhes dê a passagem à fase seguinte. Para tal, torna-se imperioso vencer a seleção do Gana, condição essencial para se pensar em resolver com o favor da sorte aquilo que não se soube até agora determinar exclusivamente dentro das quatro linhas.

Assim, que ânimo pode o capitão Ronaldo imprimir às suas “tropas” depois de ter badalado Urbi et Orbi o seu ceticismo sobre as capacidades de Portugal e de ter oferecido ao mundo as afirmações de sua descrença ab initio, embora com o presunçoso remendo de que poderia ter ficado pelas vitórias em campeonatos disputados pelo seu clube, mas afiançando untuosamente que estava ali para ajudar, para colaborar, para fazer o seu melhor. Era o que faltava estar ali para complicar ou para se exibir!

Valha-nos a declaração equilibradamente crente do declarante que lhe sucedeu na Comunicação Social, jogador menos visível, mas seguramente mais contido e, esse sim, mais humilde.

De resto, é necessário declarar que aqueles que não têm jeito para gerir negócios públicos frente à comunicação social, como o atual governo e os tugas da bola, não devem privilegiar o uso indiscriminado dos briefings com jornalistas e fotógrafos. Como também é de recordar que quem só sabe de futebol nem de futebol sabe. Ou seja, beber o chá do equilíbrio e resistir à tentação do deslumbramento perante os fãs, aplicar-se acurada e insistentemente nos objetivos e tarefas próprios da atividade, oportuna e inoportunamente, com saber, entrega e atualização devem ser as marcas fundamentais do profissional e do líder.

Se calhar, é de exigir ao futebolista o saber académico, o saber desportivo, o saber profissional num quadro de segura deontologia e humana solidariedade. Que pena o desporto ter-se transformado no negócio dos grandes, na guerra dos interesses, na fonte de dinheiro fácil, no esquema do vale tudo”, no vedetismo da áurea mediania!

2014.06.24

Louro de Carvalho

 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

CAPAS DE ENCOMENDA EM NOITE DE S.JOÃO :-))

O que eu me ri com este texto! Há pessoas que têm uma habilidade nata para criar histórias... E bem escritas.
Parabéns ao autor.
Transcrevo como partilha com os leitores.



Pinto da Costa encontrou-se com José Manuel Ribeiro (director Ojogo) e Manuel Tavares (director do JN e ex-Ojogo) na noite de S.João e estavam felizes da vida...

- Está a correr bem, não está este Mundial? A Colômbia a ganhar e Portugal a perder e até o Irão do meu afilhado Carlos Queiroz a surpreender...há coisa melhor? Então ainda não há capas a cascar no homem para ir embora? Temos que colocar lá um mais manobrável...- disse o Pinto da Costa numa grande gargalhada.

- Mas ó presidente...ainda falta uma jornada...-disseram o dupond et dupont.

- Por isso mesmo...ainda fazem um milagre...e ninguém os cala...temos que atacar agora...

- Mas ó presidente...também atacou quando parecia que já não nos apurávamos e depois engolimos em seco...

- Tá bém...mas alguém acredita que vão recuperar 5 golos? Nem a minha Colômbia conseguia esse feito...e têm mais jogadores do Porto do que esse gajo que passa a vida a responder-me à letra..

- Sim, presidente...mas quem queria que ele levasse do FC Porto, se a grande maioria são estrangeiros?

- Ó pá...o Quaresma...e o...o...o... estou muito cansado da memória...ainda para mais com tantas marteladas que já levei na cabeça nesta noite...

- Mas o sr. presidente até deu a entender aquando a contratação do Quaresma que foi mais uma escolha técnica do que vontade sua?

- Ó pá, agora estás a armar-te em Paulo Bento, é? Não faça perguntas difíceis...faz o que eu te digo...

- Mas não acha que depois de uma época em que teve dois treinadores e ficou em 3º lugar, acusar os outros de incompetência é um bocado...digamos inapropriado ?

- Ó pá...vós quereis levar?... Aonde está o guarda Abel, (...)? 

- Desculpe, desculpe...sr. Presidente...

- Façam lá as capas e falem menos...


- Ó Manuel, temos que telefonar ao Octávio Ribeiro do Correio da Manhã a perguntar como se fazem capas e polémicas inventadas. - Disse o Dupond mais novo...:-)

- É isso mesmo...tenho lido nas férias e são excelentes em ficção...

- Pronto, sr. Presidente... amanhã...teremos aqui capas à maneira e se for preciso insistimos nos dias a seguir...pois desta não se salvam...ai que saudades que temos dos Queiroz, dos Oliveiras e até dos Humbertos...
Fonte: aqui

segunda-feira, 23 de junho de 2014

NAS ASAS DO SONHO


Nas asas do sonho partem os migrantes,

aos milhares e milhões põem-se em marcha;

das terras do desemprego e da fome

rumam em direção às terras do trabalho e do pão;

rompem leis, fronteiras e obstáculos,

fortes e frágeis na luta pela vida.

 

Mas a cada esquina tropeçam e caem

com os mil rostos e mil ciladas da morte:

morte filha do tráfico e da violência,

que cedo ceifa a flor da juventude;

morte filha do trabalho explorado e escravo,

que cansa antes do amanhecer e encurva antes dos trinta;

morte indefesa e inocente, filha da indiferença,

que se alimenta de vidas não nascidas;

morte em meio às tempestades da travessia,

que no mar ou no deserto frustra o sonho;

morte filha da pobreza e da inanição,

que a conta-gotas mata os desenraizados;

morte da fauna e da flora, grito da terra devastada,

a bio em suas distintas formas ameaçada.

 

Morte nas ruas, cotidiana, quase “cultural”,

sangue quente na telinha e nas páginas do jornal;

morte do planeta, destruição do meio ambiente,

água e ar, rios e florestas, animais e gente!

morte espetáculo, na cidade e no campo, banal;

espalha silêncio e medo, como coisa natural.

 

Teimosos, voltam a erguer-se o sonho e o migrante;

nas asas do vento, vencem ambos o caminho;

o sonho se faz raiz, se faz broto e se faz tronco,

se faz árvore, se faz flor e se faz fruto;

no chão de uma nova pátria planta raízes,

que hão de forjar uma cidadania sem fronteiras,

onde acima da raça, língua ou cultura, está a vida.

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves

sábado, 21 de junho de 2014

As cerejas


Estes frutos contêm 0,6% de proteínas, 15% de amidos e açúcares, 0,5% de sais minerais (potássio, sódio, fósforo, magnésio, ferro e principalmente cálcio), e vitaminas A, B1, B2, C. As cerejas mais negras, normalmente as mais doces, contêm mais ferro, potássio e magnésio do que as variedades mais claras. Porém, todas as variedades contêm vitamina C e flavonóides, uma substância com poder antioxidante, o que significa que as cerejas ajudam a combater o envelhecimento e a fortalecer o sistema imunitário.
Estas frutas deliciosas são altamente purificadoras dos humores, desinfectam o intestino e mineralizam o sangue. 

para combater a prisão de ventre, estimular a digestão e as funções do pâncreas, além de terem propriedades diuréticas. O seu sumo ajuda a diminuir a febre.
Muito aconselháveis a doentes que sofram de uricemia (estado mórbido provocado pela acumulação de ácido úrico no sangue), artrite e gota, pois são excelentes neutralizantes do ácido úrico, uma vez que contêm ácido salicílico.
Óptimas para o crescimento das crianças, devido à quantidade de sais minerais e ao alto teor de vitaminas que estimulam todos os processos de desenvolvimento e crescimento.
Fonte: aqui

sexta-feira, 20 de junho de 2014

NEM SEMPRE O GRUPO POTENCIA O MELHOR


Viver é dificil. E conviver também não está nada fácil.
A convivência tanto amplia o melhor como é capaz de exponenciar o pior de cada um.
Em grupo, com efeito, há uma tendência para fazer ressaltar o pior.
A responsabilidade é menos visível. O anonimato é mais acentuado.
Tudo se dilui no colectivo. O próprio de cada um como que se dissolve.
As pessoas têm dificuldade em demarcar-se do grupo, em discordar das maiorias.
Surgiu agora um estudo (talvez polémico, talvez pertinente) que evoca medições da actividade cerebral quando as pessoas estão em grupo.
Esse contacto com os outros como que as leva a perder o contacto com a moral que perfilham e com os princípios que dizem defender.
O mais provável é que, nesse caso, fazem coisas que estão contra os seus valores.
Se não há coragem para ser diferente junto dos outros, que ao menos haja prudência em seleccionar os grupos.
Sei que não é linear. A pressão é muito grande.
O presente será dos que vão com todos. Mas o futuro pertencerá, sem dúvida, aos que assumirem inteiramente o que são: diante de alguns, diante de todos.
Resistir é o primeiro passo para vencer!
Fonte: aqui

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O TOMBO DA VELHINHA NÃO FOI GRAVE...

A velhinha, ao atravessar a rua, caiu... e caiu sentada.
Uma deputada que por ali passava, viu e apressou-se a ajudá-la a levantar-se.
Ajudou-a a atravessar a rua. Uma vez do outro lado ela pergunta:...
- Então? Reconheceu-me?
Sou a Deputada Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da Republica.
Espero que nas próximas eleições a senhora vote em mim...!
E a velhinha responde, com um sorriso matreiro:
Sabe.......................
EU BATI COM O RABO! NÃO BATI COM A CABEÇA ....!

Ora repete lá!...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Made in Portugal

O ZÉ, depois de dormir numa almofada de algodão (Made in Egipt), começou o dia bem cedo, acordado pelo despertador (Made in Japan) às 7 da manhã.

Depois de um banho com sabonete (Made in France) e enquanto o café (importado da Colômbia) estava a fazer na máquina (Made in Chech Republic), barbeou-se com a máquina eléctrica (Made in China).

Vestiu uma camisa (Made in Sri Lanka), jeans de marca (Made in Singapure) e um relógio de bolso (Made in Swiss).


Depois de preparar as torradas de trigo (produced in USA) na sua torradeira (Made in Germany) e enquanto tomava o café numa chávena (Made in Spain), pegou na máquina de calcular (Made in Korea) para ver quanto é que poderia gastar nesse dia e consultou a Internet no seu computador (Made in Thailand) para ver as previsões meteorológicas.



Depois de ouvir as notícias pela rádio (Made in India), ainda bebeu um sumo de laranja (produced in Israel), entrou no carro Saab (Made in Sweden) e continuou à procura de emprego.



Ao fim de mais um dia frustrante, com muitos contactos feitos através do seu telemóvel (Made in Finland) e, após comer uma pizza (Made in Italy), o António decidiu relaxar por uns instantes.



Calçou as suas sandálias (Made in Brazil), sentou-se num sofá (Made in Denmark), serviu-se de um copo de vinho (produced in Chile), ligou a TV (Made in Indonésia) e pôs-se a pensar porque é que não conseguia encontrar um emprego em
PORTUGAL...
 
 
Este mail deve ser enviado aos consumidores portugueses. 
 
 
O Ministério da Economia de Espanha estima que se cada espanhol consumir 150 ? de  produtos nacionais, por ano, a economia cresce acima de todas as estimativas e, ainda por cima, cria postos de trabalho.
(Recebido por email)

Sophia de Mello Breyner Andresen


 – In memoriam –
 
Como se pode ler no JN on line, de 17 de junho, inserida no “Porto de Encontro”, ciclo de conversas com escritores que a Porto Editora vem promovendo, haverá no próximo dia 25 de junho pelas 21 horas e 30 minutos, na Casa da Música, na cidade do Porto, uma sessão de homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen. O evento enquadra-se nas comemorações do décimo aniversário da morte da autora e poeta (Sophia preferia a designação de poeta à de poetisa), que ocorrerá a 2 de julho – data em que serão festivamente trasladados os seus restos mortais para o Panteão Nacional.

O referido tributo materializa-se com uma conversa em que participarão Maria Andresen, Miguel Sousa Tavares, Teresa Andresen, Carlos Mendes de Sousa, Rui Moreira e Luís Miguel Cintra. Em articulação com o aludido colóquio, estão previstas atuações artísticas diversas, designadamente exibição do Balleteatro Escola Profissional, leitura de poemas por Luís Miguel Cintra, Luísa Cruz, Dora Rodrigues e João Paulo Sousa, e interpretação ao piano de alguns dos compositores favoritos de Sophia, no encerramento da sessão, por António Victorino de Almeida.

A edição deste notável evento do “Porto de Encontro” dedicada a Sophia marca o final da terceira temporada deste ciclo. Desde novembro de 2011 foram já destacadas obras de quase 30 autores, entre os quais Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe, Manuel António Pina, Gonçalo M. Tavares, Miguel Miranda e Dulce Maria.

***

Sophia de Mello Breyner Andresen, a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, o Prémio Camões, em 1999, nasceu na cidade do Porto, a invicta, a 6 de novembro de 1919, e faleceu na cidade de Lisboa, a capital, a 2 de julho de 2004. Uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX e que transpôs a fronteira para o século XXI, a Sophia, de origem dinamarquesa pelo lado paterno, era filha de João Henrique Andresen e de Maria Amélia de Mello Breyner.

Jan Heinrich Andresen, seu bisavô, desembarcado num determinado dia no Porto, nunca mais abandonou a região e o filho João Henrique (avô da escritora) comprou, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, transformada mais tarde no “Jardim Botânico do Porto”. Por seu turno, a mãe, Maria Amélia de Mello Breyner, era filha do conde de Mafra, médico e amigo do rei Dom Carlos, e neta do conde Henrique de Burnay, um dos homens mais ricos da época.

Nada e criada na velha aristocracia, foi educada no quadro dos valores tradicionais da moral cristã e veio, por consequência, a ser dirigente de movimentos universitários católicos quando frequentava Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no lapso de tempo de 1936 a 1939, curso que não chegou a concluir. Foi colaboradora da revista Cadernos de Poesia, onde travou conhecimento e construiu amizade com autores influentes e reconhecidos, como: Ruy Cinatti e Jorge de Sena. Com o tempo tornou-se uma das figuras mais representativas do grupo sociopolítico de tendência política liberal, denunciando o regime salazarista e os seus sequazes, embora do lado do apoio ao movimento monárquico. Neste contexto de contestação ao regime monolítico e opressor do Estado Novo, a sua “Cantata da Paz” ganhou foros de cidadania e identificava, qual lema de atuação, o grupo dos catódicos progressistas. E muitos em muitos lugares entoaram e reentoaram o estribilho “Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!”

Em 1946, casou com o jornalista, advogado e político Francisco Sousa Tavares, que chegou a ser Ministro da Qualidade de Vida, e foi mãe de cinco filhos: uma professora no âmbito das Letras, um jornalista e escritor em ascensão, um pintor e ceramista e uma terapeuta ocupacional (que ficou com o nome da mãe). Terão sido estes membros da sua considerável prole quem a levou a escrever contos para a infância e para a adolescência.

Marcou a sua vida a viva memória, sobretudo de índole visual, das casas e seus equipamentos, que guarda desde a infância e juventude e que tenta presentificar na vida e na obra.

Para lá da literatura infanto-juvenil, a que já se fez referência, Sophia Andresen, que foi deputada à Assembleia Constituinte, distingue-se pela poesia, a que ela atribui o múnus de valor transformador fundamental e a que se habituou logo em criança quando a sua ama Laura lhe ensinou “A Nau Catrineta”. A sua produção corresponde a ciclos específicos, com a culminação da atividade da escrita durante a noite, porque, segundo confessa, precisa “daquela concentração especial que se vai criando pela noite fora.” (cf Entrevista a Eduardo do Prado Coelho, in ICALP REVISTA, n.º 6, 1986, 60-62). Sublinha a vivência noturna em vários poemas como: “Noite”, “O luar”, “O jardim e a noite”, “Noite de Abril”, “Ó noite”… Para ela, a poesia acontece, não se encomenda. Chega a afirmar que pensava que “os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.” (Sophia de Mello Breyner, in rev. Crítica, 1972).

***

Elencam-se, a seguir, alguns dos tópicos mais relevantes da sua produção literária, que não esgotam, de modo algum, o que poderia dizer-se da poetisa escritora.

Constituem-se como espaço virtual de referência para a autora a infância e a juventude em belos poemas, como: “O jardim e a casa” e “Casa Branca”, em Poesia, 1944; e “Casa”, em Geografia, 1967.

Também a sua obra literária fica profundamente marcada pelo assíduo contacto com a natureza. É a natureza o cenário de liberdade, beleza, perfeição e mistério, largamente referenciado na sua obra, quer pelas alusões à terra (árvores, pássaros, luar…), quer pelas referências ao mar (praia, conchas, ondas…). Não há de ser estranho o facto da sua comunhão com o mar e os pinheiros de então na praia da Granja, onde o pai alocou uma casa de férias e veraneio. Assim, no quadro da natureza, o mar é assumido como um dos conceitos-chave na criação literária de Sophia: “Desde a orla do mar/ Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim” (SMB Andersen, in “Dual”). A força inspiradora do mar – com a sua beleza, a sua serenidade, os seus mitos e, ainda, como símbolo da dinâmica da vida – emerge nitidamente em poemas, como: “Homens à beira-mar” ou “Mulheres à beira-mar”; “Mar” em Poesia, 1944; “Inicial” em Dual, 1972; “Praia” em No Tempo dividido; e “Açores” em O Nome das Coisas, 1977.

Um outro elemento estruturante da literatura andresiana é a cidade, que se espraia à vontade em peças literárias, como: “Há Cidades Acesas”, em Poesia, 1944; “Cidade” em Livro Sexto, 1962; e “Fúrias”, em Ilhas, 1989. A cidade, de que a poetisa tem funda  alargada experiência, apresenta-se aqui como um espaço negativo, conotado com o mundo frio, artificial, hostil e desumanizado, ao invés do espaço idílico, edénico e seguro da natureza.

Não pode, no entanto, ser olvidada a componente clássica da obra de Sophia. Uma notável admiradora do classicismo no século XX não poderia furtar-se à sua influência e deixar de lhe prestar o tributo devido. Assim, nos seus poemas, aparecem recorrentemente palavras grafadas à antiga, como Eurydice, Delphos, Amphora (a modo de quem não se submete à ortografia de 1911 nem à de 1945); e são temas abordados a arte e tradição próprias da civilização grega. Vejam-se, a este respeito, espécimes, como: “Soneto de Eurydice”, em No Tempo Dividido, 1954; “Ressurgiremos”, em Livro Sexto, 1962; “Crepúsculo dos Deuses”, em Geografia, 1967; “Os Gregos”, em Dual, 1972; e “O Rei de Ítaca” e “Exílio”, em O Nome das Coisas, 1977.

Porém, o tópico eminentemente distintivo da produção de Sophia é o tempo: o dividido e o absoluto, em flagrante contraste e até oposição. O primeiro é tempo da solidão, medo e mentira, ao passo que o tempo absoluto é eterno – unindo a vida, é o tempo dos valores éticos e morais. Vejam-se, a título de exemplo, os poemas: “O Tempo Dividido”, em No Tempo Dividido, 1954; e “Este é o Tempo”, em Mar Novo, 1958. De acordo com Eduardo Prado Coelho (cf “Sophia, a Lírica e a Lógica” in Colóquio, n.º 57, 1981), “o tempo dividido é o tempo do exílio da casa, associado com a cidade, porque a cidade é também feita pelo torcer de tempo, pela degradação”.

+++

De modo geral, o universo temático da escritora, que é muito vasto, pode ser condensado nos seguintes itens: a tomada de consciência do tempo em que vivemos; a busca da justiça, do equilíbrio, da harmonia e a exigência do moral; a memória da infância e da juventude; um idealismo e individualismo de nível psicológico; o tema da casa; o amor; a natureza e, em especial o mar, como espaço referencial e eufórico para qualquer ser humano; a vida, em oposição à morte; os valores da antiguidade clássica, designadamente o naturalismo helénico (o culto da natureza, o nu humano…), que devem inspirar as atitudes do presente e do futuro; o humanismo cristão, com muito do seu altruísmo e filantropia; a separação; a crença em valores messiânicos, incluindo o sebastianismo à maneira de Vieira e de Pessoa; e, sobretudo o poeta como pastor do absoluto e a poesia como fator e fautor de transformação da sociedade.

A temática elencada é bem servida por um estilo e uma linguagem em que se distinguem como principais marcas: o valor sacral da palavra, a expressão precisa e vigorosa, o apelo constante ao visualismo clarificador, a riqueza dos símbolos, a audácia das alegorias,  o calor das sinestesias e o ritmo evocador de uma dimensão celebrativa e ritual. É clara a relação profunda da palavra com a ideia e com o sentimento, bem como com a realidade das coisas, mesmo quando lhe atribui caráter simbólico. É nítida a sintonia luminosa entre o mundo interior do intelecto e o mundo exterior da realidade e da palavra proferida ou confiada ao papel, qual secretário de confidências ou porta-voz de mensagens a propalar Urbi et Orbi, em devido tempo.

Como coroa dos prémios e condecorações com que foi galardoada em vida, agora, a 2 de julho próximo, o seu corpo, que jaz no Cemitério de Carnide, irá para o Panteão Nacional, por decisão unânime da Assembleia da República de homenagear a poetisa com honras de Panteão.
2014.06.17
Louro de Carvalho

segunda-feira, 16 de junho de 2014

sábado, 14 de junho de 2014

'Selfie'

Foto: 'Selfie'

"Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais bonito do que eu"?

Uma moda ou a experiência do egocentrismo elevado a doença???

Há pessoas que se comprazem a fotografar-se a si mesmas. Mais, têm esse vício.
É a autocontemplação já em níveis patológicos, à mistura com um saloísmo travestido de modernidade.
Pessoas que se autofotografam a elas mesmas, a elas e seus namorados (as), a eles e seu grupo de amigos... Parece que o mundo tem a dimensão do seu umbigo. São os reizinhos (rainhazinhas) do mundo, o centro do universo...
Uma vez por outra, em circunstâncias especiais, até se percebe. Mas fazer disto um modo de vida como o facebook também o atesta, é realmente cultivar um egocentrismo doentio e inferiorizante.
Não há tempo para apresentar uma foto da natureza, de uma flor, de um velhinho simpático, de uma criança, de um monumento, de um pormenor histórico, de algo belo da vida, de um povo...
Tanta gente podre de si mesma, por isso incapaz de se abrir ao bom e ao belo do mundo que nos envolve...
"Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais bonita do que eu"?
Uma moda ou a experiência do egocentrismo elevado a doença???

 Há pessoas que se comprazem a fotografar-se a si mesmas. Mais, têm esse vício.
É a autocontemplação já em níveis patológicos, à mistura com um saloísmo travestido de modernidade.
Pessoas que se autofotografam a elas mesmas, a elas e seus namorados (as), a elas e seu grupo de amigos... Parece que o mundo tem a dimensão do seu umbigo. São os reizinhos (rainhazinhas) do mundo, o centro do universo...
Uma vez por outra, em circunstâncias especiais, até se percebe. Mas fazer disto um modo de vida como o facebook também o atesta, é realmente cultivar um egocentrismo doentio e inferiorizante.
Não há tempo para apresentar uma foto da natureza, de uma flor, de um velhinho simpático, de uma criança, de um monumento, de um pormenor histórico, de algo belo da vida, de um povo...
Tanta gente podre de si mesma, por isso incapaz de se abrir ao bom e ao belo do mundo que nos envolve...

Notícias de toda a parte

Medicamento português – A empresa de Coimbra Luzitin iniciou há 15 dias, no Porto, os ensaios clínicos exploratórios ao "primeiro medicamento oncológico português" a atingir esta fase, com o objectivo de que este seja uma alternativa à quimioterapia e à cirurgia.
A terapia fotodinâmica desenvolvida pela empresa de Coimbra consiste na "administração injectável de um fármaco. Espera-se 15 minutos e depois faz-se incidir um feixe de luz que incide apenas no local do tumor. Com a luz, o medicamento é activado e mata as células dos tumores, poupando-se todos os outros órgãos", explicou.
Calçado português – As exportações de sapatos e afins para fora da União Europeia mais do que duplicaram nos últimos quatro anos, com o peso das vendas para a China, EUA, Japão e Rússia a responderem, agora, por 13% do total exportado, contra apenas 8% em 2008.
Globalmente, as exportações portuguesas de calçado aumentaram mais de 40% em valor desde 2009, para os mais de 1700 milhões de euros de 2013 (a um ritmo médio anual de 10,2%, correspondente a mais 500 milhões de euros), enquanto em volume subiram de 63 para 74 milhões de pares.

Envelhecimento – Segundo o INE, os territórios com um índice de envelhecimento abaixo da média nacional (menos de 129 idosos por cada 100 jovens) localizam-se nas regiões autónomas dos Açores e Madeira, especialmente nos municípios da Ribeira Grande, Lagoa, Vila Franca do Campo e Ponta Delgada, nos Açores, e em Câmara de Lobos, Santa Cruz, Porto Santo e Machico, na Madeira.

Banco Alimentar recolhe mais de duas mil toneladasO Banco Alimentar contra a Fome recolheu mais de duas mil toneladas de alimentos, na campanha realizada, há dias, em cerca de duas mil superfícies comerciais.

Salário médio de Portugal é metade da média europeiaO salário médio líquido mensal dos portugueses em 2013 foi de 984 euros, cerca de metade da média europeia (1972 euros) e um dos mais baixos de toda a União Europeia.

Presidente condecora missionário comboniano na ColômbiaO presidente da República Portuguesa condecorou o irmão José Manuel Duarte, missionário comboniano na Colômbia, com o grau de comendador da Ordem do Mérito. O religioso de 48 anos, natural da Lourinhã, é Missionário Comboniano desde 1995; fez a sua formação em Bogotá, na Colômbia, entre 1995 e 1998. Depois de trabalhar cinco anos em Portugal, voltou à Colômbia em 2002.

Esperança média de vida em Portugal continua aumentarA esperança média de vida à nascença e aos 65 anos voltou a aumentar na população de Portugal, fixando-se nos 80 anos e nos 18, 97 anos, respectivamente, no triénio 2011-2013, segundo o INE.

Rei de Espanha abdicaD. Juan Carlos disse, no passado, dia 2 de Junho, que abdicava do cargo de rei de Espanha a favor de uma nova geração "que reclama papel de protagonista" e que é capaz de enfrentar "com determinação" as mudanças e reformas que a actual conjunctura "exige".

Tribunal chumba três normas do orçamento de Estado – O Tribunal Constitucional chumbou três normas do Orçamento de Estado para 2014. São elas os cortes salariais na função pública, os cortes nas pensões de sobrevivência e a redução dos subsídios de desemprego e doença.
Fonte: aqui

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Relevância do protocolo do Estado


O Estado dispõe de um conjunto de normas que regulam as cerimónias inerentes a atos dos órgãos de soberania ou as ações respeitantes à organização de eventos em que os órgãos do Estado são protagonistas ou em que a sua presença é considerada relevante. O mesmo se diga dos atos de representação do Estado na relação com outros Estados. Tal panóplia de normas dá pela designação de protocolo do Estado.

E o protocolo, cujo chefe máximo é o Chefe de Estado, dispõe de organizador ou supervisor a quem habitualmente nos referimos como chefe de protocolo. Por outro lado, há que ter em conta que o protocolo abrange áreas diversas, como, entre outras: a colocação de bandeiras, de acordo com a sua precedência em termos da relevância absoluta ou relativa no âmbito do Estado e dos Estados (Quem não se recorda do veto presidencial de Mário Soares a um estatuto autonómico por causa da questão das bandeiras?); a precedência dos diversos detentores de cargos públicos no Estado; as formas de tratamento; a organização da(s) mesa(s) em banquetes ou em sessões solenes; a sequência de cerimónias oficiais e a forma de as conduzir; o dever e direito de presidência; a regulação do uso da palavra; a própria postura das personalidades do Estado; e a maneira de receber e acomodar os convidados. Todos recordam o caso de um Secretário de Estado, da área da educação, que não sabia dirigir-se ao Parlamento e teve de ser ensinado pelo Presidente de então, Dr. Jaime Gama.

Sói dizer-se – e bem – que o protocolo visa dois objetivos: evitar situações conflituosas entre órgãos do Estado e/ou seus titulares; conferir dignidade aos atos de Estado e fazer passar para a opinião pública a imagem dessa dignidade; e, em alguns casos facilitar a prestação de segurança às entidades.

Tendo em conta as suas finalidades e a plurimidade de regras que enformam o protocolo, é fácil de compreender que só um detentor de cargo público carismático, a quem se reconheça essa autoridade, é que tem a capacidade de eventualmente quebrar o protocolo. Recordo, a título de exemplo, João Paulo II e Mário Soares. Dá-me a impressão de que Jorge Sampaio o quebrou algumas vezes, mas com sucesso discutível; e João XXIII, com as suas quebras de regras, deixava a segurança vaticana em transe.

Em Portugal, normalmente o protocolo é observado com suficiência. No entanto, surgem casos excecionais bem esquisitos. Lembro-me de assistir a uma sessão em que o Presidente da celebração do evento leu, por si próprio, a lista dos premiados num determinado concurso de tipo comercial. Tive ocasião de lançar um olhar crítico à forma como decorreu o ato da condecoração de Cristiano Ronaldo pelo Presidente Cavaco Silva. E não gosto das sessões de audiência em tribunal em que o juiz se senta e, só depois, autoriza que os outros se sentem, como não gosto dos raspanetes que o juiz dá a advogados, testemunhas e público; como não gosto de dístico que em estabelecimento público e/ou comercial apele diretamente à “boa educação” dos clientes. Aí, o Estado (e os tribunais são órgãos de soberania, portanto, órgãos do Estado, ao passo que as autarquias têm órgãos de Estado, que não de soberania), poderia aprender com a Liturgia da Igreja Católica, que em celebrações solenes, reserva o papel do Presidente da assembleia para as funções estritamente presidenciais e confia as outras ao diácono, ao mestre-de-cerimónias ou ao condutor da assembleia, conforme os casos.

***

É à luz da filosofia que enforma o protocolo do Estado que me permito opinar sobre o que se passou na cerimónia militar no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas, no passado 10 de junho, na cidade da Guarda.

O Presidente da República estava a discursar perante os militares formados em parada e perante os circunstantes civis, na qualidade de comandante supremo das forças armadas, com a tribuna de honra como pano fundo. E, num dado momento da sua alocução apresentou sinais de desmaio, no que foi prontamente auxiliado. Passados uns vinte e cinco minutos, regressou ao sítio do discurso (um ambão móvel, a que alguns chamam púlpito) e retomou o discurso, pelos vistos, no sítio onde o mesmo ficara interrompido.

Sobre o que foi bem, já o referi, faltando sublinhar a natural aflição da consorte e a rapidez e eficácia do socorro.

Porém, há aspetos protocolares que não correram bem – e os operadores do Estado têm a obrigação de não entrarem em pânico em circunstâncias públicas adversas e de prestarem a informação possível, de imediato e a cada passo de evolução da situação.

Do meu ponto de vista, uma figura pública, não de topo, mas da organização deveria aos microfones dar pública informação da ocorrência, apelando à serenidade de todos os circunstantes (da parada, da assistência e da tribuna), induzindo a deslocação até junto do sinistrado somente dos elementos necessários. Não havia necessidade de intimidar os repórteres, embora devesse ser-lhes solicitada a desocupação do espaço que lhes estava reservado, se tal fosse mesmo indispensável (Entendo que tal não fosse discernível no momento, mas qualquer descortesia deveria ser pretexto para ulterior pedido de desculpas).

Pareceu-me deselegante, tarde e desabridamente, uma alta patente militar aproximar-se do microfone, invocar a sua qualidade de CEMGFA (Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas) para informar que o Presidente sofrera uma ligeira indisposição, mas iria regressar dentro de pouco tempo. Apesar de se tratar de uma cerimónia militar, convém referir que as comemorações têm um responsável nomeado por quem de direito e o evento tem um anfitrião. E o Presidente dispõe de um chefe da Casa Civil, de um chefe da Casa Militar, de um ajudante de campo e de um oficial às ordens. Nada justificava, pois, que fosse o CEMGFA a dirigir a palavra aos circunstantes, o qual somente emite ordens para o interior das forças armadas, a menos que tivesse sido decretado o estado de emergência ou o estado de sítio, tivesse sido feita pelo Conselho de Ministros requisição militar de algum setor da população ativa ou tivesse sido proclamada a lei marcial. Ora, nada disto se passou nem havia motivo para isso.

Por outro lado, se uma informação útil e possível fosse sendo gerida e prestada aos microfones, por respeito àquela massa de povo fardada ou à paisana e ao próprio Presidente, talvez não tivesse sido necessária aquela intempestiva solicitação de respeito por Portugal e pelas forças armadas. Provavelmente, os manifestantes (de manifestação cuja legitimidade não discuto, mas entendo ser impertinente e ineficaz em momentos solenes com este) ter-se-iam atempadamente apercebido da situação e, como não são malfeitores nem sádicos, saberiam progressivamente ganhar a compostura adequada. É óbvio que, ante um remoque conotado com acusação de perturbação e falta de respeito, que os manifestantes tenham alegando a sobreposição do direito de manifestação a outras circunstâncias, sobretudo quando os manifestantes emergem de grupos profissionais a quem tudo se tem tirado, sem o mínimo de respeito por sua dignidade e seus direitos adquiridos.

A respeito do respeito, quero declarar que o respeito não se decreta; ele impõe-se por si mesmo. O bom demagogo (ou seja o bom líder – guia, condutor, chefe – de massas, de povo / grego: demos, povo + ago, conduzo) não pede respeito, sabe suscitá-lo; não se deixa levar por impulso de momento, conhece a psicologia dos interlocutores, dos grupos e das multidões. Nem as altas patentes militares hoje têm autoridade para dar lições de respeito a outrem, quando não têm força para exigir que o Estado (governo e parlamento) respeite os cidadãos em geral e os militares, em particular.

Por contrate com o que pude observar a 10 de junho, não resisto a mencionar casos de boa condução de massas e de razoável gestão do momento:

Dias antes da peregrinação aniversária internacional do 13 de outubro de 1974 a Fátima, em resposta a rumores, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves declarou que a religião e a política são duas realidades sociais diferentes, pelo que os crentes podiam ir a Fátima com todo o à vontade, que as forças armadas garantiriam a segurança de todos os peregrinos. E efetivamente a 12 e 13 havia muita gente no recinto e imediações e muitos militares por ali dispersos, aparentemente sem qualquer enquadramento formal. No entanto, no momento da comunhão da celebração eucarística e respetiva pausa de silêncio, que precede a bênção dos doentes e a procissão do “adeus”, uns helicópteros e aviões sobrevoaram a multidão e adejavam por sobre o recinto, notando-se aqui e ali algum esgar de espanto. O sacerdote encarregado da locução dirigiu-se suavemente aos peregrinos a instigá-los à calma porque a segurança de todos estava assegurada e aquela movimentação aérea tinha a função de verificar a segurança global e constituía uma forma de homenagem aos peregrinos, que são povo e povo de Deus.

Também, aquando da primeira visita de João Paulo II a Portugal e ao Santuário de Fátima, em 1982, na vigília do dia 12, o Papa aproximava-se da escadaria que dá para o altar exterior em frente da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, no quadro da procissão de velas; e um padre (John Krohn, integrista) aproximou-se e tentou desferir um golpe de sabre baioneta, que ainda terá atingido a figura papal. É claro que a maior parte dos peregrinos não se apercebeu do facto. No entanto, o sacerdote locutor de serviço, sabendo que os telespectadores estavam na posse das imagens e que uma boa parte da multidão notou movimentação estranha numa zona do recinto, foi informando que parecia ter surgido um sacerdote que pretendia falar ao Santo Padre, a quem este lançou um gesto de bênção.

Pelos exemplos, sou dado a concluir que em circunstâncias excecionais que envolvem multidões, alguém com capacidade de condução de massas (não do topo da estrutura que pontifique no evento) deve dirigir a palavra à multidão, dizendo o que pode ser dito, sem faltar à verdade, mesmo que não a saiba na totalidade ou não a possa revelar como tal.

Nestas circunstâncias é urgente evitar qualquer situação de pânico ou mesmo de insegurança coletiva. Mas falta tantas vezes aquele senso que não se aprende (porque não se quer) na academia, na universidade ou no instituto politécnico. Ademais, não basta a eleição ou a nomeação para um cargo; é necessário saber ocupá-lo. E isso aprende-se com o estudo e com a vida. E não podemos ter medo das palavras: é preciso cultivar a liderança de grupos e de massas; é preciso cuidar da sã demagogia (no seu sentido originário); é preciso articular liberdade e segurança, respeito e empatia, firmeza e cortesia rumo à plenitude democrática.

2014.06.11

Louro de Carvalho

terça-feira, 10 de junho de 2014

Em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a Palavra a Camões


Luís de Camões apresenta como prémio para o heroísmo dos melhores dos portugueses a “ínsula divina” preparada pela deusa Vénus, amiga dos portugueses, com o trabalho e a disponibilidade das ninfas suas colaboradoras. Nesse cenário paradisíaco – marcado pela abundância das árvores de fruto e pelas árvores e arbustos de adorno, discrição e conforto, refrescado pela limpidez das águas irrigantes e dessedentantes, saciante pela diversidade e caráter suculento das iguarias (do banquete lautamente oferecido a homens, cansados, famintos e sedentos) e ardoroso com os jogos amorosos das ninfas, que no jogo sedutor da fuga e da aproximação – o poeta faz consistir simbolicamente a recompensa oferecida pelos deuses aos esforçados humanos, já que os poderes não os sabem recompensar (vd Os Lusíadas, X,145).

No dealbar do terceiro milénio, ninguém espera por um lugar de delícias como o descrito no canto IX da epopeia, que todos os estudiosos da obra de Camões entendem como simbólico, consentâneo com a estética renascentista. Mas hoje os seres humanos anelam o prémio do conhecimento oferecido a Vasco da Gama pela deusa Tétis no canto X: ciência do homem, ciência do mundo. As mulheres e os homens do “aqui e agora” pretendem a resposta interrogação do poeta no final do canto I:

Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indine o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno? (I,106).

E, se os viventes hodiernos não podem esperar por obterem aquela ilha, por mais que a demandem, já que as ninfas ou se extinguiram ou estão em vias de extinção, têm direito, ao menos, a uma vida de conforto, de sã convivência e de paz – que os tire da condição de bichos da terra tão pequenos e os fortaleça para enfrentarem a indignação de qualquer céu sereno ou as adversidades de “tanta tormenta e tanto dano” (…), “tanta guerra e tanto engano, tanta necessidade aborrecida” (I,106) – e serem tão grandes no mundo (“tamanhos”, vd infra) que se tornem famosos. As suas obras os precederão (Ap 14,13).

Para tanto, há que seguir as condições definidas pelo vate:

(…)
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.
 
E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente:
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.
 
Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não deem o dos pequenos,
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a lei dos imigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais e nenhum menos:
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.
 
 
E fareis claro o Rei que tanto amais,
Agora c’ os conselhos bem cuidados,
Agora co’ as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados.
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos
E nesta «Ilha de Vénus» recebidos.
 
(Os Lusíadas IX,92-95)

Ou seja: é fundamentalmente necessário despertar do sono do ócio, da situação de preguiça – a maior causa de escravidão do homem, uma vez que quem não se aplica, não estuda ou não trabalha fica dependente do que outrem lhe dê, e sujeita-se, na hora da verdade, a caprichos alheios.

Depois, é preciso frear duramente a “cobiça” e a “ambição”, que são frutos da intemperança e da inveja e constituem tentações em que muitos caem e recaem um pouco a esmo. E é de notar que estes denunciados vícios conduzem quem quer que tenha possibilidades à assunção teórico-prática da tirania, que o épico, agora satírico-crítico, denomina de “torpe e escuro vício”. Por outro lado, classifica a tirania de “infame e urgente”.

Sabendo todos como a tirania cria infâmia de desumanidade em quem a pratica, também sabemos como ela torna injustamente infames, por vilipendiados, os que são vítimas suas, sem face, sem alma, sem escrúpulos. Torna-se “urgente”, porque o tirano não dispõe de um mínimo de paciência para esperar pela consecução dos seus intentos ou pelo castigo aos “réprobos”, para suportar as contestações ou os motins. O tirano urge a repressão e aposta no figurino da unicidade de pensamento, da excelência da anuência e da uniformidade de ação. Ademais, cria a figura do intermediário que assume, sob a capa do cumprimento de ordens superiores, as malhas ditatoriais, a falta de escrúpulo, a postura da adulação, a desumanidade do trato, o policiamento intempestivo, a doutrina da inevitabilidade. 

Na certeza de que não há dinheiro nem honras que satisfaçam a cobiça, ambição e tirania, o vate julga – e bem – que é melhor merecer o dinheiro e as honras que possui-los sem os merecer. É a cultura do mérito que o épico no propõe em detrimento da cultura do ter.

Poderíamos ficar por aqui. No entanto, Camões parece vislumbrar a degradação do século presente, quando vitupera a falta de equidade legislativa ou a instabilidade jurídica: “dai na paz as leis iguais” (a proposta da equidade: o governante deve tratar igual o que é igual e desigual, pela positiva o que é diferente) – dita ele aos decisores – e acrescenta a exigência de “constantes”, de modo que a legislação não ande ao sabor do vento ou na resposta obtusa aos interesses privados. Lá vem, a esse respeito, a obrigação de não dar ao grande o que é do pequeno (o combate à exploração, à iniquidade). O pequeno também tem direitos: a ser, a estar, a ter.

Por outro lado, é preciso saber identificar o inimigo (hoje não será já o sarraceno ou a sua lei, mas outros como a mediocridade, o compadrio, a corrupção e a falta de ética pessoal, profissional, social e política) e utilizar as armas adequadas (“rutilantes”) e não ficar a esgrimir contra o vento. Só assim se engrandece um país e todos, na solidariedade construtiva e na coesão nacional, possuirão as merecidas riquezas e viverão uma vida genuinamente honrada.

Por fim, é de superior interesse substituir a adulação aos governantes (o rei) pelos “conselhos bem cuidados” e os brinquedos por “espadas” de eficácia. E, na certeza de que a ninguém se exige o impossível, é urgente recordar a todos que “quem quis sempre pôde”, ou, como diz o aforismo, “querer é poder”. E “quem quer sempre alcança” ou “alcança quem não cansa”.

Grande Camões, nosso Luís, volta, que não há quem cante como urge!

2014.06.10

Louro de Carvalho

 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Emoção e razão

Já se escreveu muito sobre este tema e muito continuará a escrever-se. É um campo infindável. Mas muito daquilo que se escreve é redundante, ou seja, diz-se o mesmo por outras palavras. 
Baralha-se e volta-se a dar. Muitas vezes de forma rebuscada, que as pessoas não percebem bem – deitando-se a imaginar o que lá não está.
António Damásio ocupou-se deste assunto, como se sabe, em O Erro de Descartes, que foi um grande sucesso de vendas. Aqui, o marketing teve um peso considerável, pois duvido que 50% das pessoas que compraram o livro o tenham lido. E, quanto a entendê-lo, a percentagem deve ainda baixar drasticamente.
A questão é sempre a mesma: no ser humano há uma parte de razão e uma parte de emoção. E o segredo de um bom equilíbrio é saber balanceá-las, doseá-las, de modo a que a emoção não abafe por completo a razão, atirando-nos para comportamentos irracionais. Mas também não é bom que a razão abafe por completo a emoção. 
Aquilo a que chamamos 'intuição' – e que algumas pessoas desvalorizam – não é mais do que uma combinação, uma mistura, de razão e emoção.
Certas hipóteses a que não lográmos chegar pela razão são atingíveis pela intuição.
Os indivíduos que na sua actividade fazem apelo exclusivo à razão normalmente não vão muito longe – porque não conseguem dar saltos no pensamento, colocar hipóteses que seria importante experimentar. Vão step by step, não arriscam, cada passo que dão é limitado pelo passo anterior. No fundo, são burocratas de espírito.
Um cientista dizia-me um dia: «Sabe, no meu trabalho a imaginação tem um papel muito importante. Embora eu trabalhe na área científica, há hipóteses que coloco e que depois vou experimentar. Mas, se não as tivesse colocado, nunca chegaria lá só através da dedução. E assim descobri coisas que investigadores que estudaram isto antes de mim, com acesso às mesmas fontes, não tinham conseguido ver».
Claro que o contrário também não é bom. Um indivíduo que despreze por completo a razão, e vá loucamente atrás de intuições infundadas, arrisca-se a estampar-se constantemente.
Na paixão, os seres humanos ficam totalmente cativos da emoção, não conseguindo racionalizar as situações. Ficam possuídos pela cegueira e por isso fazem tantos disparates: destroem vidas – a sua e as de outros –, cometem loucuras que chegam a levar ao crime. As paixões são emoções à solta, descontroladas.
Já nas actividades artísticas – pintura, escultura, literatura – é impossível criar sem fazer apelo à emoção. As emoções têm aqui um contributo decisivo. A arte funciona aos saltos, às vezes grandes saltos no escuro – e só através da emoção (ou da intuição) se pode chegar lá. 
Inversamente, a matemática vive exclusivamente da razão. Não há qualquer emoção nos cálculos matemáticos. 1+1=2, ponto final. 
Há nas nossas sociedades uma actividade que tem como única função absorver as emoções: refiro-me ao futebol – o 'desporto-rei'. E não falo como é óbvio dos atletas, cuja preparação é cada vez mais científica. Falo dos adeptos. Numa sociedade dominada pela racionalidade, o futebol é uma enorme válvula de escape.
A verdade é que, hoje em dia, nas suas vidas profissionais, a maioria das pessoas não tem espaço para as emoções. Os computadores, que são a grande (e praticamente única) ferramenta de trabalho de muita gente, fazem raciocínios puramente lógicos. As operações complexas que os computadores realizam são executadas através de combinações básicas.
Ora, nesta sociedade dominada pela lógica, pela frieza dos números, o ser humano encontra no futebol as emoções puras, irracionais, que mobilizam uma fé quase religiosa. 
No futebol, as pessoas gritam, barafustam, exaltam-se. Para um adepto ferrenho, todos os penaltis marcados a favor da sua equipa são bem assinalados e os marcados a favor dos adversários são sempre «roubados». 
No fim do jogo, a celebrar a vitória, estão lado a lado o pobre e o rico, o doutor e o analfabeto, o velho e o novo, o forte e o fraco – como ainda recentemente se viu nas celebrações do Benfica, no Marquês de Pombal, onde se misturava gente de todas as classes, idades e raças.
Perante o deus futebol, são todos iguais. E por isso o futebol é completamente democrático. A pertença a um clube aproxima o porteiro e o presidente da empresa. E as conversas de uns e de outros não se diferenciam muito: «Então, vamos ganhar hoje?». «Isto agora é sempre a bombar!». «É pena não jogar o fulano…». «Eles querem ver se entregam a taça aos outros antes de jogarem!». «Pois é… Uma roubalheira!».  
Julgo que o futebol significa, nos tempos actuais, a simulação das 'batalhas' do passado. As guerras, os conflitos, estão no ADN humano. E os jogos de futebol são 'dois exércitos' de cada lado, batendo-se rijamente. Não há mortos nem feridos, mas há vencedores e vencidos. Nas bancadas estão os dois 'povos' em guerra, com claques ruidosas, gritos e batuques – incitando à vez cada um dos exércitos. E, em certos momentos, envolvendo-se eles próprios na contenda, acabando tudo à batatada.
Julgo que este é o grande segredo do futebol, que faz dele uma invenção diabólica: simular uma batalha. No fim, os adeptos da equipa triunfante, embora não tenham jogado, acham que 'derrotaram' os da equipa vencida – que abandonam cabisbaixos o campo de batalha. «Ganhámos!», diz o adepto típico, atirando ofensas ao 'inimigo' para o humilhar.
O futebol é um vazadouro de emoções a todos os níveis.
Vemos professores catedráticos a discutir futebol nas TV's como crianças. É um pouco chocante. Mas o futebol é isso mesmo. Não é para tratar com punhos de renda. Não é para analisar com toda a lógica. Com isenção. Se o futebol não servir para dar largas às emoções, serve para quê? Para se ver friamente como um espectáculo, como se fosse ópera? 
Aquilo é uma batalha. Se no futebol nos tornarmos racionais, certinhos, lá se vai um escape. O futebol é guerra, luta, emoção, democracia, celebração colectiva, cânticos de incitamento, onde todos nós podemos soltar livremente sentimentos primários que normalmente reprimimos numa sociedade dominada pelo politicamente correcto, pelo 'parece mal', pelo 'vê lá não faças isso'.
Se no futebol quiserem acabar com as emoções, reprimir os sentimentos, onde poderemos dar largas sem freio a esse lado irracional e um tanto selvagem que nos habita?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Dia D


Passa, neste ano de 2014, o 70.º aniversário do designado por Dia D, que mais não é que o dos momentos do desembarque da Normandia no quadro da invasão e subsequente batalha nesta região francesa. Tratou-se de uma ação das tropas aliadas conhecida por Operação Overlod e Operação Neptuno, no penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, que visava libertar a França do domínio Nazi, que nela se exercia desde o ano de 1940. Esta megaoperação foi secundada pelas operações de engodo – sob os nomes de código: Operação Glimmer e Operação Tributável – para distrair as forças alemãs e as levar a deslocar-se para alhures.

A ação de desembarque teve o seu início na noite de 5 para 6 de junho: no Canal da Mancha movimentava-se uma vasta armada, constituída por 2727 navios mercantes, que levavam a reboque 2500 lanchas de desembarque, e 700 navios de guerra. Esta megaoperação decorreu em duas fases. A primeira, com a duração de 20 minutos, aconteceu quando faltavam cinco minutos para a meia-noite, com o começo da travessia por várias centenas de soldados de infantaria britânicos em planadores e consequente captura de duas pontes no flanco leste da zona de desembarque. A segunda começou ao alvorecer do dia 6 de junho, com a descida de 18000 paraquedistas britânicos e americanos. E às 6 horas e 30 minutos, desembarcavam a primeiras tropas – tropas americanas com tanques anfíbios, que desembarcaram debaixo de fogo. Menos de uma hora depois, desembarcaram tropas britânicas e canadianas. Apesar de Hitler haver ordenado a Rommel que empurrasse os neoinvasores “para dentro do mar” até à meia-noite, a essa hora já estariam em terra 155000 soldados aliados, a que se vieram juntar muitos elementos das forças militares da Resistência Francesa, que vinham sabotando pontes e linhas férreas.

As tropas desembarcadas distribuíram-se ao longo de um trecho de 80 quilómetros na costa normanda e organizaram-se em cinco setores: Utah, Omaha, Golg, Juno e Sword. Considerada a maior batalha anfíbia de todos os tempos, envolveu o desembarque de cerca de duas centenas de milhares de militares aliados e a cooperação das respetivas marinhas mercante e de guerra. O transporte de militares e material foi efetuado a partir do Reino Unido por inúmeros aviões e navios, e foram colocados ao serviço da estratégia definida desembarques de assalto, suporte aéreo, interdição naval do Canal Inglês e fogo naval e de apoio – uma retaguarda de milhares e milhares de homens e uma enorme multiplicidade de meios.

Entre os mais de 150 mil soldados que chegaram por mar ou por ar às costas francesas a 6 de junho de 1944 (e cujo número foi aumentando em conformidade com a evolução da guerra), encontrava-se o paraquedista Ernest Stringer, ferido no joelho por tiros de metralhadora antes de chegar à Pegasus Bridge.

A batalha foi longa (O objetivo de libertação da França só foi conseguido em 25 de agosto!) e capitalizou, para os dois lados em beligerância, largos milhares de vítimas, a maior parte delas mortais, mas foi um dos fatores determinantes da inversão da sorte da Guerra, que até ali parecia estar a favor das forças do Eixo.

(cf Gilbert, M. História do Século XX –Ed D. Quixote, 2009; Carrel, P. Invasão 44- Editora Flamboyant, 1965)

***

Sete décadas depois, organizaram-se em França cerimónias de homenagem às vítimas dos bombardeamentos, atos de recolhimento nos cemitérios de todas as nações que perderam homens em solo francês e discurso de alguns dos líderes mundiais. As cerimónias dos 70 anos do desembarque na Normandia ficaram marcadas pela emoção em torno dos sobreviventes do Dia D, ali presentes.

À meia-noite de 5 para 6 de junho de 2014, os céus da Normandia foram iluminados por fogos-de-artifício, tal como os bombardeamentos aliados os iluminaram na noite de 5 para 6 de junho de 1944, iniciando a libertação da Europa do domínio nazi e, mais tarde, o fim da II Guerra Mundial. E os heróis do Dia D voltaram neste dia à Normandia de uniforme e medalhas ao peito, para as comemorações dos 70 anos do desembarque aliado na costa francesa.

O Presidente francês, François Hollande, recebeu um a um os representantes dos 19 países convidados para a cerimónia internacional organizada na praia de Ouistreham, a mais oriental de todas aquelas em que se deram as ações de desembarque.

Antes de um espetáculo de 45 minutos a evocar os acontecimentos do Dia D, Hollande homenageou as “testemunhas vivas do que aconteceu aqui em 1944” e evocou “todas as vítimas do nazismo”, inclusive “as vítimas alemãs”. “Obrigado, por terdes estado aqui no verão de 1944!”, disse Hollande aos milhares de antigos combatentes do Dia D presentes, alguns dos quais tinham sido cumprimentados por Barack Obama e pela Rainha Isabel II.

Estes dois Chefes de Estado tinham almoçado no castelo de Bénouville, símbolo da Resistência francesa contra os nazis, na companhia de outros seus homólogos – refeição que deu azo a vários encontros diplomáticos e ao esperado aperto de mão entre os presidentes russo, Vladimir Putin, e ucraniano, Petro Porochenko.

***

Coube efetivamente ao anfitrião a formulação das palavras de homenagem aos heróis e às vítimas dos dois lados (na Guerra todos perdem indubitavelmente), ditadas pelo sentido de justiça para com aqueles que derramaram o sangue por aquilo que entendiam ser causa justa, quiçá patriótica, mas também para avivar a memória dos circunstantes e do mundo inteiro. A História não pode ser apagada e os factos devem levar os homens à reflexão, ao menos para que tenham o juízo discernente que outrora não houve e enveredem por caminhos de coexistência e convivência como semelhantes e não como inimigos.

Entretanto, é de refletir nas palavras que a Comunicação Social respigou dos considerados (talvez mal) líderes do Mundo e da Europa, respetivamente Obama e Merkel.

Barack Obama, declarou que as praias da Normandia foram, em 1944, “a ponte para a democracia” e que a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial “proporcionou a segurança e o bem-estar” para o futuro.

A serem verdadeiras as suas palavras, ninguém poderia dizer que os países da Europa de Leste não viveram em democracia até 1991. Então, há que perguntar para que efeito se construiu o muro de Berlim, porque se limitavam as informações sobre o regime soviético ou como se justificam os tanques soviéticos na Hungria e na Checoslováquia? Depois, será de perguntar ao líder do mundo que raio de segurança é a americana, que tudo perscruta e induziu as ditaduras sul-americanas. Que segurança, que democracia? Como é que a dita ponte para a democracia não encontrou argumentos contra a perpetuação das ditaduras ibéricas? Mais: desgraçado de um mundo ou de um país, se para instaurar um regime democrático precisa de destruir milhares e milhares de vítimas!

Por seu turno, a chanceler alemã, Angela Merkel, ao evocar a questão da Ucrânia, escreveu no diário regional francês Ouest-France:

“As passadas semanas mostram-nos que os antigos e perigosos esquemas de pensamento não estão banidos dos livros de história. A paz e a liberdade podem ser postas em causa rapidamente, como demonstra o conflito na Ucrânia. É grande a preocupação de se ver novos fossos e linhas de partilha.”.

E adianta:

“Faço votos (...) de que asseguremos as nossas convicções e os nossos valores comuns. Pois estas convicções e estes valores unem-nos na Europa, são inconciliáveis com a guerra, a violência e os preconceitos. Possa o 6 de junho incentivar-nos a manter o nosso compromisso lado a lado pelo sucesso da Europa, uma Europa em que reina a primazia do direito e não a lei do mais forte.”.

É óbvio que a chanceler tem razão no seu reto discurso: a União Europeia, que visa a paz, assente no desenvolvimento e na solidariedade, com o rumo que está a percorrer, assombrada do perigo da eurodúvida ou da tentação antieuropeia (com movimentos crescentes de xenofobia e contra a circulação de pessoas, bens e trabalho), não constitui vacina válida contra conflitos e mesmo contra o espectro da guerra.

Porém, onde estava a Europa quando se cavaram novos fossos e se desenharam novas linhas de partilha? Em vez do apoio ao derrube de instituições democráticas, a Europa deveria ter oferecido a diplomacia, não? Em vez das sanções, não haveria que reforçar as negociações?

Por outro lado, os votos de Merkel por uma Europa em que reine “a primazia do direito e não a lei do mais forte”, tiremo-nos de distrações, cheiram a ironia, passados que estão três anos de exploração dos países do Sul em termos de austeridade sobre austeridade, a pagar o “erro” de terem seguido as linhas de orientação das entidades que deveriam estar a zelar o progresso da Europa, representadas por Merkel e Sarkozy.

Precisamos urgentemente da conversão de Merkel e de seus seguidores portugueses!

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Também, segundo a agência Ecclesia, o Papa Francisco assinalou, com uma mensagem, o 70.º aniversário do desembarque na Normandia, evocando todos os soldados que morreram em combate. Trata-se de um texto enviado através do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, ao arcebispo de Paris, cardeal Andrè Vingt-Trois, a D. Jean Claude Boulanger, bispo de Bayeus-Lisieux e a todas as pessoas que se reúnem para as comemorações deste evento que ocasionou a reviravolta no rumo da II Guerra Mundial.

O texto refere expressamente que “o Papa Francisco presta homenagem aos soldados que partiram das suas próprias terras para desembarcarem nas praias da Normandia, com o objetivo de lutar contra a barbárie nazi, libertando assim a França ocupada”. E não deixa de evocar os soldados alemães “envolvidos neste drama”, bem como “todas as vítimas desta guerra”.

Mas importa que se tirem consequências da memória da Guerra:

“É oportuno que as gerações do presente expressem o seu pleno reconhecimento a todos os que fizeram um sacrifício tão forte. É por meio da transmissão da memória e mediante a educação das novas gerações no respeito de todos os homens criados à imagem e semelhança de Deus, que é possível levar em consideração, na esperança, um futuro melhor”.

O Papa deixa dois importantes recados: “a exclusão de Deus da vida das pessoas e da sociedade provoca mortes e sofrimentos”; e “as nações europeias podem encontrar no Evangelho de Cristo, Príncipe da Paz, a raiz da sua história e a fonte de inspiração para estabelecer relações cada vez mais fraternas e solidárias”.

2014.06.06

Louro de Carvalho