quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Pardais de torre…


A agência Ecclesia, citando a Rádio Vaticano, em 25 de agosto fazia eco das palavras do representante diplomático da Santa Sé em Damasco, D. Mario Zenari, que lamentou o “esquecimento” da comunidade internacional perante a tragédia provocada pela guerra na Síria.

“Infelizmente, os holofotes sobre a Síria foram desligados, a Síria desapareceu do radar da comunidade internacional, já não é notícia” – desabafava o núncio apostólico na Síria aos microfones da rádio da Santa Sé.

Em consonância com os dados divulgados pela Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, a sublinhar que os mais de três anos de conflito naquele território provocaram 191 mil mortes, D. Mario Zenari declara que “todos os dias há uma média de 180 mortes, na Síria” – “número que não deveria deixar ninguém tranquilo”. Verifica, no entanto, com amargura, que infelizmente “a Síria caiu no esquecimento”.

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O caso faz-me lembrar este fenómeno observado popularmente: os pardais aninhados em torre de igreja, às primeiras vezes que ouvem o toque dos sinos, ficam cheios de temor e espanto e deitam a fugir; porém, com a habituação, os sinos bem podem soar e ressoar, que os pardais lá continuam no seu posto a gozar do conforto, segurança e índole altaneira da torre. Conseguiram sítio para abrigo, dificilmente o caçador os atinge e dali podem mirar melhor as oportunidades de apresamento de insetos e culturas na imensidão dos ares e na vastidão dos campos. Tanto assim que o povo sabe que o primeiro milho é dos pardais. Na torre, em que o toque de sino passa a funcionar como celestial música, nada os aflige, a não ser algum raio ou terramoto; no campo, a única forma de os afugentar parece que são os espantalhos, talvez por lhes lembrarem figurações humanas.

Alguns padres espirituais assemelham ao comportamento dos pardais de torre a reação dos cristãos à pregação: muito comovidos, a princípio, muito habituados, a seguir. Algo se diz dos “missionários”, os das missões populares em vilas e cidades de cristianismo morno: colhem de imediato os frutos dos primeiros fervores, a que muitas vezes pouco mais se segue de significativo. E os clérigos que, tal como as tropas de quadrícula que aguentam estoica e organizadamente a luta no terreno, por ali mourejam no quotidiano, epidermicamente sem resultados, sentem o seu labor subvalorizado, quando não totalmente ignorado. É assim a vida: uns semeiam, outros colhem.

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Votando aos esquecimentos da comunidade internacional, há que referir a multitude de casos olvidados. Quem se lembra da Somália, do Zaire, do Burundi, do Uganda, da Etiópia? Não se esqueceram já as tropelias da União Soviética e a crassa violação dos direitos humanos na China, a quem o Governo da República Portuguesa e o Governo de Sua Majestade Britânica, entregaram pacificamente os Estados de Macau e de Hong-Kong, respetivamente, não sem que previamente se tenha procedido a investimentos avultados em cada um desses Estados, aos quais as autoridades chinesas prometeram um estatuto político-administrativo especial, garantia ora olvidada?

Se não fora o Papa Francisco nos últimos dias, quem recordaria o sofrimento por que passam os cidadãos norte-coreanos, obrigados que são a bater palmas e a chorar? Ou quem lembra o Tibete, a vida degradada na Índia, o montão de refugiados e os emigrantes clandestinos (em vários lugares), a dizimação, em tempos, na Chechénia ou na Geórgia e a guerra do Kosovo?

Não está quase no arquivo da memória a primavera árabe com a destituição dos “poderes” na Tunísia, na Líbia e no Egito – sem solução aceitável?

Recordo-me de que a Indonésia submeteu ao seu regime ditatorial o Estado de Timor Lorosae, sem reação internacional significativa, desde 1975 até 1991, ano do massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Dili. Foi preciso o Dr. Mário Soares, então Presidente da República, ter visto o espetáculo pela televisão e ouvir os timorenses a rezar em Português para Durão Barroso e Ana Gomes tocarem as campainhas do alerta internacional, o qual, depois de alastrado e consolidado, pouco a pouco levou Ali Alatas a promover e a aceitar iniciativas conducentes à independência (e mediaram mais de 10 anos). Ainda me lembro do compungente discurso de Mário Soares em 13 de maio de 1991, a solicitar a intercessão de João Paulo II por Timor, aquando da sua despedida de Portugal, no âmbito de uma sua vista pastoral ao país. Custou, mas hoje Timor Lorosae é uma grande e florescente nação!

Ainda dobram mediocremente os sinos pelo Afeganistão, fortemente pelo Iraque e pela Terra Santa, pouco pela Guiné Equatorial. Esquece-se a Guiné-Bissau, a continuidade da revolução cubana… Poucos acreditam na instalação e prosseguimento da III Guerra Mundial, por capítulos ou por episódios (aos pedaços), mas a produzir cada vez mais vítimas e vítimas que nada têm a ver com a guerra e com expedientes inéditos até há pouco anos – o avião-bomba, o carro-bomba, o homem-bomba (Alguns destes são portugueses!).

Oxalá não seja necessário que surja uma hecatombe humana ou natural para que estes internacionais pardais ou outros pássaros de torre acordem nos termos dramaticamente cantados no poema de Thiago Petrucelli, de 3 de janeiro de 2014, que se deixa à reflexão espiritual e à fruição literária.

Nós somos como pássaros.
Estamos empoleirados no topo de uma torre
Que é a nossa família, amigos.
Nosso emprego.
Nossa cidade, nossas ideias.
Nossa segurança, conforto
Esperanças
Nosso Deus.
Mas um dia, inadvertidamente,
A vida vem com raios de uma tempestade
Que bloco a bloco
Põem nossa torre abaixo.
Nós, pássaros empoleirados no topo da antiga torre,
Nesse momento de queda livre
Tentamos nos agarrar ao que restou,
Voltar ao que era antes
Mas tudo desaba ao nosso toque,
Não há mais ninho para voltar.
E nesse cair vertiginoso
Analisamos nossas opções
E ao ver o chão se aproximando com velocidade
Percebemos que na verdade não há opção
Senão abrir as asas,
E voar.

 

2014.08.26

Louro de Carvalho

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

"DR. FIGO"

De regresso da praia, passámos por um simpático vendedor de figos e outros produtos da terra. Ao pararmos para observar a exposição, aproxima-se um casal espanhol que pergunta ao simpático vendedor "o que era aquilo". O homem dos bigodes responde que eram alfarrobas e de imediato explica os seus benefícios para a saúde.. "Basta tomar uma vez".
Foi quanto bastou para fazermos um romance durante todas as férias. Por tudo e por nada, apontava-se o "Dr. Figo" como solução para todos os problemas de saúde, reais ou imaginários.
Imaginarão quantas gargalhadas soltámos à custa do enredo criado à volta da simpática personagem!
Ao fim do dia, passou a ser quase obrigatório para alguns de nós passar por aquele "consultório ao ar livre"! E quando o homem não estava? Imaginarão também o rol de explicações que fabricávamos para justificar a ausência e consequentes gargalhadas soltas...


CONSULTÓRIO AO AR LIVRE "DR. FIGO"
A servir, sempre a servir
e o dinheiro lhe mungir


Nesta clínica, raramente é preciso repetir a toma do medicamento. Normalmente uma vez basta, mas há exceções...


1. Sofre de desarranjo intestinal? - Come alfarrobas. Uma vez basta...
2. Sofre de prisão de ventre? - Coma de uma só vez 2 dúzias de figos quentes, de preferência brancos.
3. Sofre de 'mau olhado' de alguém? - Atire-lhe com uma dúzias de figos bem maduros, alternando com meia dúzia de tomates bem maduros. Aqui convém repetir a dose caso persistam os sintomas...
3. Sofre de falta de coceira? - Use papel higiénico biológico "folhas de figueira". Repita a ação até ganhar o hábito de se coçar...
4. Sente-se atormentado pelas almas do outro mundo? - Use defumadoiros à base de peles de figos secas em noite do dia 13. Pode misturar-lhes um pouco de enxofre. Repita a ação até as almas atormentantes se enjoarem e partirem...
5. Sente-se traído pelo seu cônjuge? - Uma só doze de chá de pé de figo misturado com veneno de cascavel.
6. Quer livrar-se de pessoas chatas? - Ofereça-lhes uma boa melancia, seguida de 2 litros de bom vinho...


Mas se o consultório do "Dr. Figo" não estiver aberto? Não desista, volte até o encontrar, pois ele pode...
- estar a ser vítima do seu próprio veneno;
- andar a procurar os melhores produtos para o servir melhor;
- estar a tratar as folhas de figueira para aumentar o seu efeito;
- estar numa cama do hospital, vítima da fúria dos seus cientes por ineficácia da receita;
- estar a responder perante a Ordem dos Médicos por exercício de medicina ilegal;
- estar em serviço ao domicílio...

sábado, 16 de agosto de 2014

Espinha de peixe na garganta


Decorria o almoço. Um espinha de peixe entala-se na garganta. A aflição da pessoa põe os amigos em alvoroço. Aplicam-se as medidas tradicionais. Beber muitos líquidos, engolir miolo de pão, provocar o vómito. Nada resulta e a aflição cresce. Há que seguir para o hospital de Portimão.
Realizada a inscrição, o doente é chamado para triagem. Feitas umas perguntas, o queixoso recebe uma fita amarela, sendo avisado que, provavelmente, teria que voltar no dia seguinte dada a ausência do respetivo especialista.
Três horas depois, é chamado. O clínico que o recebe, após rápida averiguação, afirma que só no dia seguinte, pois é assunto de especialista que naquela tarde não estava no hospital. Entretanto um simpático médico mais velho intervém e tanta resolver a situação, com os meios disponíveis. O queixoso é depois convidado a ir comer uma sandes e beber um refrigerante. "Passe por cá depois", acrescenta o clínico. O caso mantém-se e ao doente é sugerido que volte no dia seguinte quando estará um gastroenterologia, pois, na sua opinião, o caso é mais para um gastroenterologista do que para um  otorrinolaringologista dado que a espinha estava muito profunda. Em alternativa, dado o incómodo para o doente, é sugerido um hospital privado que ficava relativamente perto, onde existiriam especialistas. Carro à estrada e toca para lá. Só que especialistas não estavam de serviço.
O queixoso é então conduzido para casa e, por insistência dos amigos, dadas as dificuldades notórias que patenteava, é levado agora para o Hospital de Faro para onde, entretanto se telefonara para ver se havia especialista.
Inscrição e triagem onde recebe a fita verde. O profissional que faz a triagem revela uma postura que não é correta num bom profissional no modo de atender, na atenção prestada, na maneira como fala com o doente e acompanhante. Ainda não eram 22 horas!
Só às 5 da manhã o doente é chamado para a consulta. Perante o sofrimento do doente e a angústia dos seus acompanhantes, até os próprios funcionários estavam indignidades com a demora no atendimento.
A médica que atende afirma que o assunto é só do foro do otorrinolaringologista o qual só estará de serviço a partir das 8 horas. Outro médico que consultava ao lado, inquirido pela colega, confirma que o caso é mesmo de otorrinolaringologista.  O doente é então aconselhado a recolher a um espaço onde outros doentes aguardavam.
As pessoas que acompanhavam o queixoso recolheram ao seu carro para uns instantes de algum descanso. O queixoso é autorizado a acompanhá-los.
Pouco passava das 8 horas, quando uma funcionária vem buscar o doente, conduzindo-o ao consultório do otorrinolaringologista. É de imediato chamado. O jovem especialista avisa que a intervenção pode demorar. Felizmente nem demorou assim tanto. E o queixoso, 19 horas depois, viu-se livre de tão desagradável intrusa.


E isto num país da União Europeia!
Mais de 19 horas para tirar uma espinha! Porque nos hospitais públicos daquela envergadura não havia especialistas!
Senhor Primeiro-Ministro e Senhor Ministro da Saúde, experimentem entrar nalguns hospitais públicos anonimamente quando tiverem um problema de saúde! Façam-no como fazem os cidadãos anónimos! Vejam o que acontece aos contribuintes! De certeza que se vão arrepender para sempre por o fazerem anonimamente!
Tanto o doente como seus acompanhantes nunca viram tanta gente a pedir o livro de reclamações como naquelas horas que passaram no Hospital de Faro!
Seria razoável que a voz dos contribuintes não caísse em saco roto por parte dos responsáveis.
Parece que os doentes que entram em certos hospitais públicos deixam de ser pessoas para serem apenas os fitados!!! E não aprece alguém a quem possam colocar a sua situação. Quem comanda é a maldita fita, sabe Deus os critérios da sua atribuição...
No caso do doente em causa, num hospital foi-lhe atribuída a amarela e no seguinte a verde, quando o problema era o mesmo, mas agravado.
Algo anda mal, muito mal na saúde. E com a saúde não se brinca, senhores governantes. Pode faltar dinheiro para dar em golpadas aos partidos políticos; pode faltar dinheiro para pagar ordenados e mordomias aos políticos, mas NUNCA pode faltar para a saúde!
Cesse a propaganda, encare-se a realidade. Veio na comunicação social que no Verão seria aumentado o contingente de profissionais da saúde no Algarve. Num dos hospitais onde o queixoso esteve, ouviu de um profissional que o número era o mesmo, quer no Inverno quer no Verão, quando o número de doentes aumentavam três, quatro vezes mais.
   
Só técnicos?
Num grande hospital encontra-se de tudo. Gente correta, bons técnicos, pessoas atenciosas e delicadas, pessoas mais grosseiras e indiferentes...
Ouve-se muitas vezes que as universidades formam bons técnicos, mas trabalham menos bens a parte humana dos técnicos. Um médico não pode ser apenas um técnico, um burocrata do saber médico, mas uma presença humana acolhedora, atenciosa e delicada, preocupada com o sentir do doente.
As faculdades de medicina, porque acolhem alunos com altíssimas notas, precisam de trabalhar sempre mais o aspeto humano dos seus formandos. Ser um bom técnico é indispensável; ser muito humano é imprescindível.

sábado, 2 de agosto de 2014

De novo as férias


Agosto costuma ser mês de férias para muita gente. Na linguagem comum, férias significa descanso, passeio, maior convívio com familiares e amigos, mudança de ares para praia ou campo.
Infelizmente, nem todos podem ter férias. Mas elas deviam ser um direito de todos os que durante o ano andam numa correria, para darem conta das suas obrigações.
Quando falamos em férias, falamos num tempo em que andamos livres de compromissos. Por isso, é inadequado ter horários rígidos. O período de férias tem de ser diferente da rotina de trabalho. Fuja do hábito de planear tarefas.
Para descansar a sério, temos de evitar um demasiado esforço físico, sobretudo se tivemos uma vida sedentária durante o ano. Pequenos exercícios e curtas caminhadas serão aconselhados, se não queremos arranjar problemas.
Viajar de carro pode ser importante para conhecer novas terras, mas não passe todas as férias a viajar. Reserve tempo para ler, dormir, passear a pé ou de bicicleta...
Faça o que gosta. Mas não se esqueça de Deus, da família e dos amigos.
Umas boas férias são aquelas que nos deixam preparados para retomar com optimismo a nossa profissão. E é isto que desejamos a todos os nossos leitores.
Fonte:aqui