sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Digam-me porque é que notícias destas não passam nos telejornais das Tv´s

Esta é a última história portuguesa que se tornou viral nas redes sociais.
A própria Polícia de Segurança Pública partilhou online, embora não identifique o autor do testemunho nem os agentes envolvidos neste caso dramático que está a comover Portugal.
psp
Em determinado momento durante a semana que está a terminar, foi a policia solicitada para um supermercado sito na cidade do Porto. Chegados ao dito supermercado, foram os elementos policiais informados pelo vigilante do estabelecimento que determinada pessoa tinha sido travada à saída na posse de artigos furtados.
Questionado sobre a tipologia dos artigos furtados, a gerente do supermercado e o vigilante referiram tratar-se de 4 iogurtes, 6 pães e 2 pacotes de leite. Os agentes, dirigiram-se então ao autor do ilícito e este, a chorar compulsivamente, lá foi dizendo que tanto ele como a esposa, estão desempregados, têm 2 crianças em casa e nem leite tinha para lhes dar. Este acto, visava apenas levar pão à boca dos seus filhos que ainda não tinham comido nada durante todo o dia.

De volta à gerente, esta, depois de passar os artigos pela caixa lá mostrou o talão, com um valor monetário pouco acima dos 4 euros.
Nesse momento, o agente, tirou dinheiro do bolso, perguntou se a casa aceitava o pagamento e após este ter sido efectuado ainda questionou se pretendiam procedimento criminal.
Uma vez que os artigos estavam pagos e nada mais restava a fazer, foi o autor do furto chamado à parte, onde lavado em lágrimas, ouviu o conselho de que pedir não é crime, pedir é ser humilde e que se for detido, com toda a certeza, não vai conseguir levar seja o que for para a boca dos filhos. Não volte a furtar mais nada pois para a próxima pode não ter a sorte que teve hoje. De seguida mandou-o embora com os iogurtes, o pão e o leite.
Existem Homens assim nestas fileiras que dia após dia, noite após noite presenciam homens, mulheres e crianças com fome, sem nada para comer, que o último recurso é pedir ou furtar.
Note-se que não estou a falar de criminosos, de delinquentes que passam os seus dias a mandriar, a viver à custa de RSI, estou a falar de pessoas de bem, que sempre trabalharam, sempre pagaram os seus impostos e que agora se vêem privados de tudo e incapazes sequer de alimentar os seus filhos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

MEDICINA NA ALDEIA

Um velho médico que sempre trabalhara no meio rural, achou que tinha chegado a hora de se aposentar após ter exercido Medicina por mais de 50 anos.
Encontrou um jovem médico para o seu lugar e sugeriu ao novo diplomado que o acompanhasse nas visitas domiciliárias para que as pessoas se habituassem a ele progressivamente.

Na primeira casa uma mulher queixou-se que lhe doía muito o estômago e o velho médico respondeu-lhe:
 
- Sabe, a causa provável é que você abusou das frutas frescas.  Porque não reduz a quantidade que consome?
 
Quando eles saíram da casa o jovem disse:
 
- O senhor nem sequer examinou aquela mulher, como conseguiu chegar ao diagnóstico assim tão rapidamente?
 
- Oh, nem valia a pena examiná-la...  Você notou que eu deixei cair o estetoscópio no chão?  Quando me baixei para o apanhar, notei que havia meia dúzia de cascas de manga um pouco verdes no balde do lixo.  É provável que isso lhe tenha causado as dores.  Na próxima visita você encarrega-se do exame.
 
- Hum...  Que esperteza!  Eu vou tentar empregar essa técnica.
 
Na casa seguinte, passam vários minutos a falar com uma mulher ainda jovem que se queixava de uma grande fadiga:
 
- Eu sinto-me completamente sem forças.
 
O jovem médico disse-lhe então:
 
- Você deu provavelmente muito de si para a Igreja.  Se reduzir essa actividade talvez recupere um pouco da sua energia.
 
Assim que deixaram aquela casa, o velho médico questionou o novato:
 
- O seu diagnóstico surpreendeu-me.  Como é que chegou à conclusão de que aquela mulher se dava de corpo e alma aos trabalhos religiosos?
 
- Eu apliquei a mesma técnica que o senhor me indicou: deixei cair o meu estetoscópio e quando me baixei para o apanhar, vi o padre debaixo da cama!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A marcha da III Guerra Mundial?!


Está na ordem do dia a discussão sobre a guerra nas suas diversas vertentes: a militar, a informativa, a política e a económica. Pode dizer-se que não há verdadeira guerra que se circunscreva ao aspeto puramente militar. As motivações são habitualmente de outra ordem. É a delimitação territorial, a preocupação hegemónica, a religião ou os grandes negócios como o petróleo. Fala-se mesmo nos alvores da III Guerra Mundial.

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Na semana passada, celebrou-se em Minsk, na Ucrânia, um acordo de cessar-fogo entre as forças em conflito político e armado no país – guerra interna acicatada e apoiada de fora.

Em entrevista publicada, a 16 de fevereiro, no diário alemão Neuen Westfalische, de que o DN português se fez eco, o romancista alemão Günter Grass, de 87 anos, mostra-se cético em relação ao acordo, dizendo ter “sérias dúvidas” de que este possa levar a uma paz duradoura: “Não creio que vá levar a uma paz duradoura porque tenho a impressão de que nem a Ucrânia nem a Rússia têm o controlo pleno sobre as tropas que combatem” – constata com razão.

Este famoso prémio Nobel da Literatura refere que, às vezes, ultimamente se fala recorrente e insistentemente do perigo de acontecer uma guerra mundial e se questiona mesmo se a III Guerra Mundial não terá começado há muito, mas de forma distinta dos conflitos do século XX.

Na sua opinião, as formas de combate mudaram desde 1945, sendo a Internet atualmente um dos meios usados, pois “permite o bloqueio de sistemas completos”, que levam a guerras económicas. E, paralelamente a tudo isto ocorreram e ocorrem “conflitos bélicos como os que observamos na Ucrânia, Síria e outros países”.

Grass lamentou que na Europa não haja atualmente um grupo de líderes com capacidade suficiente para assegurar a paz no Continente, comparativamente àquele tempo em que “tínhamos Olof Plame na Suécia, Willy Brandt na Alemanha e Bruno Kreisky na Áustria, três políticos europeus que agiam como verdadeiros homens de Estado. Hoje faltam-nos políticos com esse calibre”.

O escritor criticou ainda a chanceler Angela Merkel por ignorar as iniciativas políticas de jovens escritores e não responder ao manifesto, dirigido a ela, sobre a espionagem dos Estados Unidos na Alemanha: “É um escândalo que a senhora Merkel não tenha dado uma resposta” – lamenta.  

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Por seu turno, o Papa Francisco já enunciou, pelo menos duas vezes, o espectro da marcha da III Guerra Mundial aos pedaços ou em fragmentos.

Após a sua visita de cinco dias à Coreia do Sul, o Papa fez, na viagem de regresso ao Vaticano, a 18 de agosto de 2014, as mais duras críticas aos confrontos mundiais, dizendo que “vivemos a Terceira Guerra Mundial, mas em fragmentos”.

Acentuando que as guerras regionais estão a atingir “um nível de crueldade espantoso”, Francisco defendeu a licitude de se “interromper uma agressão”, mas sem varrer tudo: “Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo ‘parar’, porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra” – afirmou comentando os ataques norte-americanos ao Iraque com o objetivo de destruir rebeldes jihadistas do Estado Islâmico (EI), que acabava de declarar a criação de um califado e começara a perseguir civis e cristãos.

Mais afirmou, referindo-se aos conflitos simultâneos que atingem o mundo – como as crises na Síria, no Iraque, na península coreana, no continente africano na Faixa de Gaza – que “a tortura se tornou quase um meio ordinário. Esses são os frutos da guerra. Estamos em guerra”.

Também a 13 de setembro de 2014, o Papa reafirmou, no cemitério militar de Fogliano Redipuglia, no norte de Itália, que se pode falar de uma terceira Guerra Mundial na atualidade, que se desenvolve “por partes” entre “crimes, massacres e destruições”. E apelou à paz para travar a “loucura bélica”.

A reiteração das suas afirmações sobre a Guerra ocorreu naquele lugar aonde o Papa Francisco se deslocou na manhã do predito dia para recordar os mortos da Primeira Guerra Mundial, quando se cumpriam 100 anos desde o seu início. Estavam presentes milhares de pessoas, com destaque para os cardeais de Viena, Christoph Schönborn, e de Zagreb, Josip Bozanic, e bispos da Eslovénia, Áustria, Hungria e Croácia.

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Uma leitura retrospetiva de recortes de imprensa levou-me ao site de um blogue “ordem natural” – http://ordem-natural.blogspot.pt/2012/06/3-guerra-ja-comecou.html, acedido hoje, 18 de fevereiro. De lá retiro algumas informações preciosas que parecem dar razão quer a Günter Grass quer ao Papa Francisco e que amalgamo com achegas minhas e a minha visão das coisas.

Lendo o panorama político do dealbar do século XX, é de reconhecer que factos muito importantes que indiciavam a situação da iminência de guerra “já agiam por baixo das relações diplomáticas. O crime de assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, perpetrado a 28 de junho de 1914, alegadamente atribuído a um elemento integrante da sociedade secreta Mão Negra, foi a gota de água para a eclosão do primeiro conflito “de proporções globais de toda História”, mas não o seu único fator determinante.

Situação semelhante se verifica aquando da Segunda Grande Guerra. A invasão da Polónia foi o facto detonador, mas o ambiente estava já criado por muitos fatores de que se destacam o antissemitismo hitleriano e o seu pangermanismo, a emergência dos sistemas totalitários – bolchevismo, nazismo, fascismo e imperialismo – e vários tipos de nacionalismo, além das não ultrapassadas sequelas da grande repressão.

Daí se infere que um conflito armado resulta de um complexo caótico de situações a ele conducentes, entre os quais emerge um facto que se torna pretexto de eclosão visível da guerra.

O mencionado bloguista faz o levantamento de hodiernas situações análogas às existentes nos alvores do século XX, salpicadas de factos “que de uma forma ou de outra colaboraram decisivamente para a eclosão da guerra: corrida armamentista; disputas de hegemonia política; e alianças frágeis – a que podemos acrescentar, nos dias de hoje, a emergência de manifestações organizadas de nacionalismos, xenofobias, extremismos (à esquerda e à direita) e populismos, o imperialismo do poder financeiro, a fragilidade desigual dos blocos geopolíticos (o peso relativo da China, a fragilidade da União Europeia, a falência da política e da estratégia militar norte-americana), o fosso cada vez mais profundo entre ricos e pobres e o descrédito generalizado da política – que se afasta dos cidadãos e se deixa manobrar pelos poderes económico e financeiro, que, no seu furor autofágico e heterofágico, não se importam de tudo desmantelar.

Olhando para o início deste Século XXI, é insofismável que os três fatores acima evidenciados pelo bloguista “se repetem pelo menos desde 2001” e também “é possível perceber alguns outros, frequentemente mais perniciosos e influentes”, bem como outros “cujos efeitos podemos apenas imaginar, já que são inéditos na História”: o potencial atómico do Irão; a guerra civil na Síria; a falência da economia mundial; a crise do dólar e do euro; a revolução islâmica, com a instituição do Estado Islâmico; o terrorismo que pode surpreender a todo o momento; o falhanço das revoltas contra as ditaduras dos países árabes da África a norte e a nordeste ou contra a ditadura iraquiana; a alastrante perseguição aos cristãos e, mesmo, a judeus e a muçulmanos; a dureza e a instabilidade na Coreia do Norte; a formação de um eixo totalitário na América Latina; a aproximação Russo-Chinesa; e, em resultado da crise dos países da Europa do sul, nomeadamente da Grécia, o possível desmantelamento da União Europeia. Há já quem fale na vertebração de três eixos: Atenas-Moscovo; Berlim-Paris; Londres-Madrid-Roma.

Para uma perceção mais clara e global da real situação geopolítica atual, devemos tomar em consideração que, além dos problemas pretensamente insolúveis que envolvem religião, política, comércio, cultura e outros elementos que separam os povos, “existem também aqueles cujos interesses estão diretamente ligados aos meios ou resultados necessários ou previstos para uma guerra”.  

Por outro lado, a indústria das armas, dos medicamentos, dos meios informáticos, das comunicações, das energias e dos combustíveis, além de outros, “obtém lucros fabulosos com revoluções, guerras, revoltas e conflitos armados de maneira geral”. E os céticos devem ficar persuadidos de que “a História já provou que, mesmo numa guerra mundial, sempre é possível a alguns alcançar lucros mágicos e abrigar-se em segurança enquanto muitos morrem em vão”.

Sendo certo e claro que o ambiente é propício e sabendo que interesses diabólicos estão a agir como nunca, nomeadamente através da espionagem, sobretudo a materializada em escutas de líderes de países soberanos, mesmo de grandes potências, e subsequente revelação ufanosamente exposta, “as chances de que os desdobramentos futuros levem o mundo a uma guerra são enormes”. Por isso, os amigos da paz não podem dormir nem desarmar.

Em suma, a III Guerra Mundial pode já ter efetivamente começado, faltando somente um facto agudo, aquele que possa ficar para a História como responsável pela eclosão do conflito.

Face à atual situação efervescente, o bloguista pergunta-se: O Irão usará sua bomba? Israel vai atacar preventivamente o Irão? A Síria vai tornar-se uma Líbia bem armada? Teremos (mais) algum assassinato? Surgirá um novo eixo geopolítico?

E conclui que “qualquer um destes factos pode se desdobrar e envolver muitas nações”, sendo possível “saber como começa uma guerra, mas nunca se sabe(ndo) como ela termina”.

***

Terão razão o Papa e Günter Grass? Não deverão os dirigentes das nações e dos blocos geopolíticos ler os sinais dos tempos?

2015.02.18
Louro de Carvalho

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

133 milhões de pobres na União Europeia!

A confederação europeia da Cáritas apresentou hoje em Roma o terceiro relatório sobre a crise, no qual denuncia a existência de 133 milhões de pobres na União Europeia e o aumento das desigualdades sociais.
Cáritas Europa
O documento adianta que a situação se agravou com a crise financeira e as políticas de austeridade, analisando em particular os seus impactos na Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, Roménia e Chipre.
A organização católica sustenta que a resposta a crise acabou por “transferir dinheiro dos pobres para os ricos”, pedindo novas políticas sociais para inverter o atual rumo da União Europeia.
Walter Nanni, responsável da Cáritas italiana, disse em conferência de imprensa que os objetivos assumidos na chamada ‘Estratégia de Lisboa’, que visavam uma diminuição dos pobres até 2020, estão longe de ser concretizados.
“Os pobres deveriam ser 96,4 milhões até 2020, isto é, menos 20 milhões, mas pelo contrário estão a aumentar. É preciso questionar se o medicamento utilizado para curar a despesa pública não matou o paciente”, declarou, durante a apresentação do relatório 2015 da Cáritas Europa, ‘A pobreza e as desigualdades em ascensão: sistemas sociais justos são necessários como solução’.
Este é um estudo sobre as consequências da crise europeia e da intervenção da ‘troika’ nas populações dos países da União Europeia mais afetados pela crise económica, apresentando os “impactos humanos da crise e das políticas de austeridade”.
Os dados mostram que um “número crescente de pessoas lutam contra a pobreza e as desigualdades” e que a crise “tem afetado o acesso aos serviços sociais e de saúde”, prejudicando “a difícil situação das crianças e suas famílias”.
Segundo a Cáritas, a pobreza infantil afeta 28% dos menores da União Europeia, há 24 milhões de desempregados e 9,9 milhões de pessoas vivem em situação de “privação material grave”.
Em Portugal, a «Semana Cáritas» 2015 (1 a 8 de março) vai ter entre as suas principais preocupações as carências alimentares das crianças, jovens e adultos sem esquecer a “explosiva” questão da habitação.
Tem sido muito sofrimento para as nossas famílias, em termos de austeridade, que se podia ter evitado em termos de intensidade se as opções políticas tivessem sido outras”, disse à Agência ECCLESIA Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa.
Face ao número de pessoas que têm vindo a perder a sua casa, a organização católica vai reunir-se com Governo para pedir “urgentemente” uma medida de corresponsabilidade entre “bancos, Estado e sociedade civil”.
“Nós defendemos que haja um fiador moral, alguém que consiga manter uma distância esclarecida pudesse dizer ao banco e ao Estado que as pessoas não pagam porque efetivamente perderam os recursos que dispunham”, esclarece o presidente da Cáritas Portuguesa.
O presidente da Cáritas apela aos portugueses que sejam generosos nas “dádivas financeiras” e embora reconheça que existem pessoas que já não são capazes de “dar mais” porque têm sido “muito solicitadas”.
Fonte: aqui

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ir a Roma e ver os sem-abrigo

É ditado popular que nem todos cumprem: ir a Roma e ver o Papa. Mas é impossível não ver os sem-abrigo, nos quais quase tropeçamos nas arcadas de edifícios do Vaticano e da Cidade Eterna. São muitos, tapados por cobertores, que escondem o rosto e a miséria. De dia, vê-se que esses muitos são também imigrantes que procuraram na Europa a vida que a guerra, a fome e a pobreza lhes roubaram nos seus países de origem.
Estamos no país de Lampedusa, a ilha-cemitério de imigrantes que arriscam a travessia do Mediterrâneo, onde o Papa chegou primeiro do que qualquer responsável europeu. Estamos na cidade onde Francisco resolveu instalar duches nas colunatas vaticanas para que os sem-teto de Roma possam tomar banho. Parece pouco, é pouco: uma pequena gota de água que se gasta na dignificação de homens e mulheres que vivem nas ruas. Mas é um gesto que dignifica mais do que muitas políticas desta Europa-fortaleza. Que tem em conta homens e mulheres, que não se perde em números, não atira só esses números para a mesa em qualquer debate político, para justificar as opções de governos que preferem os mercados às pessoas.
É um gesto de um homem que já na sua Buenos Aires natal ia ao encontro dos pobres, dos que estão na margem, dos que se escondem debaixo de cobertores. E que em Roma já repetiu este gesto. É esse também o discurso que Francisco quer recentrar na prática de uma Igreja - que tem na opção preferencial pelos pobres a chave do seu magistério - ao pedir aos cardeais que abandonem os seus paços e se deixem inquietar pelos marginalizados. Entre estes, o Papa recordou os desempregados. Muitos deles, por essa Europa fora, dormem na próxima noite ao relento e ao frio. Sem emprego, caíram nas ruas. Com troikas, desesperam na pobreza. Talvez os governantes europeus devessem vir mais a Roma, mas não para ver o Papa.
MIGUEL MARUJO, in DN, hoje

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A ladeira

Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.
Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.
Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem… A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.
Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.
Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.
Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraíram. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.
A discussão continuou e continuou. À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.
O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão, que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.
Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.
A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.
Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.
O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.
A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.
José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001
adaptado

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Osoro escribe a los curas de Madrid y les pide “nueve o diez nombres” de sacerdotes o religiosos para la Curia



El arzobispo de Madrid, Carlos Osoro, parece decidido a acometer una reforma en profundidad de la diócesis de Madrid. Y quiere contar con la opinión de todos, especialmente de sacerdotes y religiosos. "Quiero pediros ayuda: que me informarais en una carta los nombres de nueve o diez sacerdotes o religiosos que cada uno de vosotros, en conciencia, consideráis que podría dársele un cargo de gobierno pastoral", asegura Osoro en una carta dirigida a todos los presbíteros de Madrid y fechada el 28 de enero.
Fonte: aqui

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Notícias de toda a parte

A taxa de desemprego estimada para dezembro foi de 13,4%, menos 0,1 pontos percentuais do que o estimado para o mês anterior, divulgou h´a dias o Instituto Nacional de Estatística (INE).
De acordo com as estimativas do INE, há 689,6 mil pessoas desempregadas, o que representa uma diminuição de 0,7% face a novembro de 2014 (menos 4,8 mil). A população a trabalhar, por outro lado, foi estimada em 4 441,5 mil pessoas, aumentando 0,1% (mais 6,4 mil) face ao mês anterior.


O futuro da Grécia e dos 322 mil milhões de euros que recebeu em empréstimos por parte de outros países europeus está na ordem do dia. O Jornal de Negócios conversou com um economista da Bloomberg que garantiu que, caso o novo Executivo grego decida não pagar o que deve, tal representaria para Portugal uma perda de 5,5 mil milhões de euros.

Carne picada 26 talhos de Lisboa, Setúbal e Porto foram chumbados numa avaliação feita por esta associação de defesa dos consumidores. Nesse estudo, a DECO registou má conservação, higiene e temperatura inadequada na venda da carne de vaca picada a granel. Foram detectados em 23 talhos a aplicação de sulfitos, aditivos proibidos por lei.

Emigrantes – O incentivo ao regresso a Portugal de emigrantes e de lusodescendentes poderá ajudar o país a reverter o seu défice demográfico, segundo um plano do Governo.

Descoberta – Um grupo internacional de astrofísicos, coordenado pelo jovem investigador português Tiago Campante, na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, descobriu um sistema solar com cinco planetas idênticos à Terra.

Grécia – A Igreja Católica reagiu com cautela à eleição do novo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. D. Fragiskos Papamanolis, presidente da Conferência Episcopal grega, afirmou que o novo primeir-ministro não apresentou um programa claro, apenas "muitas promessas e palavras bonitas", que "um povo desiludido com a política depressa seguiu".

Honduras – Mais de três mil crianças encontram-se a mendigar nas principais cidades das Honduras. Crianças entre os dois e os cinco anos, sujos e desnutridos são colocadas nas ruas para suscitarem a compaixão dos passantes. Outras são alugadas por cinco euros a pessoas sem escrúpulos que chegam ao ponto de as drogarem.

A taxa de desemprego estimada para dezembro foi de 13,4%, menos 0,1 pontos percentuais do que o estimado para o mês anterior, divulgou h´a dias o Instituto Nacional de Estatística (INE).
De acordo com as estimativas do INE, há 689,6 mil pessoas desempregadas, o que representa uma diminuição de 0,7% face a novembro de 2014 (menos 4,8 mil). A população a trabalhar, por outro lado, foi estimada em 4 441,5 mil pessoas, aumentando 0,1% (mais 6,4 mil) face ao mês anterior.
Fonte: aqui

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Job, o crente honesto e livre

O Livro de Job (Antigo Testamento) é um clássico da literatura universal. Além de uma extraordinária beleza literária, este livro apresenta uma bem elaborada reflexão sobre algumas das grandes questões que o homem de todos os tempos coloca a si próprio: qual o sentido da vida? Qual a situação do homem diante de Deus? Qual o papel de Deus na vida e nos dramas do homem? Qual o sentido do sofrimento?
Job, o herói desta história, é apresentado como um homem piedoso, bom, generoso e cheio de “temor de Deus”. Possuía muitos bens e uma família numerosa… Mas, repentinamente, viu-se privado de todos os seus bens, perdeu a família e foi atingido por uma grave doença.
Ao longo do livro de Job, multiplicam-se os desabafos magoados de um homem a quem o sofrimento tornou duro, exigente, amargo, agressivo, inconformado, revoltado até. No entanto, Deus nunca condena o seu amigo Job pela violência das suas palavras e das suas exigências… Deus sabe que as vicissitudes da vida podem levar o homem ao desespero; por isso, entende o seu drama e não leva demasiado a sério as suas expressões menos próprias e menos respeitosas.
Job é, também, o crente honesto e livre, que não aceita certas imagens pré-fabricadas de Deus, apresentadas pelos profissionais do sagrado. Recusa-se a acreditar num Deus construído à imagem dos esquemas mentais do homem, que funciona de acordo com a lógica humana da recompensa e do castigo, que Se limita a fazer a contabilidade do bem e do mal do homem e a responder com a mesma lógica. Com coragem, correndo o risco de não ser compreendido, Job recusa esse Deus e parte à procura do verdadeiro rosto de Deus – esse rosto que não se descobre nos livros ou nas discussões teológicas abstractas, mas apenas no encontro “face a face”, na aventura da procura arriscada, na novidade infinita do mistério.
É esse mesmo percurso que Job, o protótipo do verdadeiro crente, nos convida a percorrer.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Uma delícia ...

Anita, de sete anos, regressa a casa vinda da escola.
Tinha tido a primeira aula de educação sexual.
 
A mãe, muito interessada pergunta:
- Como é que correu?
- Quase morri de vergonha! - respondeu a pequena Anita.
- Porquê? - perguntou a mãe.
 
Anita respondeu:
- O Zézinho, o menino com o cabelo ruivo, disse que foi a cegonha que o trouxe.
- O Marco, da livraria, disse que veio de Paris.
- A Cristina, a vizinha do lado, disse que foi comprada num orfanato e o Tó disse que foi comprado no hospital.
- O Paulinho disse que nasceu de uma proveta
- O André disse que nasceu de uma barriga de aluguer.
 
A mãe de Anita respondeu quase sorrindo:
- Mas isso não é motivo para te sentires envergonhada...
- Não, já sei, mas não me atrevi a dizer-lhes que como nós somos pobres, tiveste que ser tu e o pai a fazer-me...!!!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Eu coelha me confesso

Foi preciso o Papa falar de coelhos para que todos percebessem que estavam errados... Bastou uma frase e um estilo diferenteEsta crónica está atrasada uma semana: esta semana já ninguém fala de revoluções na Igreja motivadas pelas declarações do Papa nas Filipinas. Mas a culpa não é minha, o concerto da Violetta foi a semana passada e não controlei o impulso de escrever sobre o fenómeno. Posto isto, passemos ao Papa. Disse o Papa: "Alguns pensam, e desculpem o termo, que para sermos bons católicos temos de ser como coelhos. Mas não." Esta declaração, e a utilização desta linguagem, foi notícia em todo o mundo. E foi notícia por duas razões: a primeira, porque ninguém sabia que a Igreja considera irrelevante o número de filhos das suas ovelhas e que a quantidade não diz nada sobre a qualidade de um católico; a segunda razão, porque se adivinhou que vinha daí uma viragem dos princípios e que agora, com o Papa Francisco, os preservativos passariam a ser distribuídos nas igrejas. Mas nada como esperar uma semana para se perceber que afinal as notícias é que são a verdadeira notícia.

Quanto à primeira razão, a história dos coelhos, o que o Papa Francisco fez, falando a propósito de uma filipina que vai a caminho da oitava cesariana pondo em risco a sua vida, foi dizer o óbvio. Ter filhos não é sinónimo de nada espiritualmente relevante e muitas vezes é até sinónimo de irresponsabilidade. Considerar isto uma novidade doutrinária revela que os preceitos e preconceitos que existem nos católicos e sobre os católicos são muitos e alguns deles estão mesmo cristalizados.

É claro para toda a gente que me conhece minimamente que eu não tenho nada de Madre Teresa de Calcutá, apesar de ter seis filhos, e quem me conhece melhor sabe perfeitamente que os meus seis filhos, em vez de me levarem à santidade, levam-me mesmo a pecar várias vezes ao dia em pensamentos, actos e omissões (basta passarem em minha casa num fim de tarde ou no fim de umas férias para o confirmarem). Graças a Deus que tenho a noção de que Deus não me tem em melhor consideração do que a uma mãe de um só filho. Mas é verdade que nem toda a gente pensa assim. Muitos não-católicos acham que os católicos que controlam a natalidade são hipócritas e os aqueles que têm muitos filhos beatos; já os católicos acham que vivem em pecado por não terem os filhos que "Deus quiser" e consideram os pais de famílias numerosas verdadeiros modelos de virtude.

Foi preciso o Papa falar de coelhos para que todos percebessem que estavam errados. Não foi preciso rever o catecismo ou publicar novas encíclicas, bastou uma frase e um estilo diferente.

A segunda razão que fez com que esta frase fosse notícia foi considerar que a Igreja estava a revogar toda a sua doutrina sobre a contracepção. Rapidamente se percebeu que não. E percebeu-se ainda que, não sendo incoerente a frase do Papa com a posição da Igreja face a este tema polémico, quer dizer que as razões que levam a Igreja a não incentivar, aceitar ou defender os métodos contraceptivos nada tem a ver com o número de filhos mas sim com a questão da conduta e vivência sexual defendida pelas várias encíclicas.

Nada de novo. A única novidade é o estilo que vai desvendando coisas antigas. E é aqui que o papa Francisco está a fazer a grande revolução: traduzir a Igreja e revelar a sua essência. Explicar que a Igreja não julga, apenas acolhe, e que não existem categorias de católicos, de crentes ou de não crentes: somos todos pecadores e somos todos boa gente. Se se quiser fazer uma tabela, o número de filhos não é certamente uma variável a ter em conta.
Inês Teotónio Pereira, ionline, 2015.01.31