terça-feira, 31 de março de 2015

O epifenómeno paroquial de Canelas, Vila Nova de Gaia


As pessoas que me conhecem minimamente conhecerão, com certeza, a relutância com que eu me vejo a discorrer sobre o tema em epígrafe, já que se trata de matéria eclesiástica sensível por denotar o melindre do fenómeno eclesial, não confundível com os mecanismos de recrutamento político ou de provisão administrativa. Mas parece que tem de ser e, no dizer do povo, o que tem de ser tem muita força.

O caso da paróquia de São João Batista de Canelas, do concelho de Vila Nova de Gaia está ligado ao mecanismo de transferências de sacerdotes de e para paróquias e/ou outros serviços diocesanos – mecanismo em funcionamento regular, que não atinge necessariamente, em cada ano, todos os sacerdotes e/ou todas as paróquias. Segundo a determinação da Conferência Episcopal, os sacerdotes são colocados e nomeados normalmente por um sexénio (período de seis anos), sendo automaticamente renovada a nomeação por outro sexénio, se outra coisa não tiver sido determinada. Naturalmente que o bispo diocesano não fica inibido de proceder a nomeações por período de tempo de duração inferior.

Os critérios que presidem à nomeação, remoção ou transferência de párocos são habitualmente os seguintes: o bem da Igreja, o bem das comunidades ou setores em causa e o bem da pessoa a nomear, transferir ou remover.

Depois, o processo de provimento das paróquias não decorre usualmente pelo processo eleitoral como para o provimento dos órgãos do poder político (central, regional ou local), por duas ordens de razões: na sociedade civil, em princípio, quem está no gozo dos seus direitos cívicos e políticos pode eleger e ser eleito e esta é a fonte de legitimidade originária de poder político (em vigor com a entrada em funções), mesmo que o seu exercício possa ser entregue a titulares de cargos providos por nomeação (obviamente derivada de órgãos eleitos direta ou indiretamente); por outro lado, embora a paróquia e a freguesia possam coincidir territorialmente em população, são realidades diferentes, pois a gestão da freguesia consubstancia-se na tomada de decisões políticas e administrativas por órgãos representativos (assembleia e junta) e os seus fins são de ordem temporal, ao passo que a vida da paróquia se consubstancia no serviço desempenhado não em termos de representação, mas de participação e colaboração, tanto assim que na paróquia pululam os sistemas de coordenação e os grupos de serviços, a assembleia é constituída por todos os elementos da paróquia e os fins são marcadamente espirituais e apostólicos.

A freguesia é por definição constitucional, uma autarquia local e, como tal, é uma pessoa coletiva territorial dotada de órgãos representativos (assembleia e junta), visando a prossecução de interesses próprios da sua população (vd CRP art.os 235.º/2 e 244.º). Já a paróquia é, segundo o código de direito canónico (CIC ou CDC), uma comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura (cuidado) pastoral, sob a autoridade do bispo diocesano, está confiada ao pároco, como a seu pastor próprio (cf CIC can. 515 § 1). Ora, o coletivo é o somatório dos indivíduos; na comunidade cristã, em que subsiste a Igreja Corpo de Cristo (povo, mas povo de Deus; e povo de Deus não diz “não”), mais do que essa vertente, importa o liame comunitário forjado na mesma fé, norteado pela mesma esperança e animado pela mesma caridade.

Na paróquia, o responsável não é eleito, porque nem todos podem ser o pároco, mas unicamente aqueles que estejam constituídos na sagrada ordem do presbiterado (cf CIC can. 521 § 1). Além disso, todos conhecem a magreza de vocações sacerdotais, que impede que o pároco gira uma só paróquia, como seria desejável (1.ª parte do § 1 do can. 526), tendo que se socorrer o bispo do concedido na 2.ª parte do § 1 do can. 526, que estabelece: “pode ser confiada ao mesmo pároco a cura de várias paróquias vizinhas”.

E quem é e o que é o pároco? O pároco é o pastor próprio da paróquia (e não outro) da paróquia que lhe foi confiada e presta serviço à comunidade que lhe foi entregue, sob a autoridade do bispo diocesano, do qual foi chamado a partilhar o ministério de Cristo, para que, em favor da mesma comunidade, desempenhe ele o múnus de ensinar, santificar e governar, com a cooperação ainda de outros presbíteros ou diáconos com a ajuda dos fiéis leigos, nos termos do direito (cf can. 519). Para que alguém seja assumido como pároco, deve, além da ordenação presbiteral (sacerdotal), ser notável pela sã doutrina e probidade de costumes, zelo das almas, e dotado das outras virtudes, e gozar ainda daquelas qualidades que, pelo direito universal ou particular, se requerem para tomar a seu cuidado a paróquia de que se trata (cf can. 521 § 2).

Alguém do movimento Uma Comunidade Reage se deu ao cuidado de estudar estas questões jurídico-canónicas, assentes na doutrina conciliar, nomeadamente da Lumen Gentium, Constituição Dogmática sobre a Igreja, e no decreto Christus Dominus, sobre o Múnus Pastoral dos Bispos? Estará aqui em causa a luta pela salvação das almas, a lei suprema da Igreja?

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O Bispo do Porto, aconselhado por quem de direito, à semelhança dos procedimentos seguidos para com outros, convidou o pároco de Canelas para um outro serviço diocesano. Por dificuldades surgidas na gestão da transferência (não me importa saber se a culpa foi do reverendo padre ou de alguns dos paroquianos ou das duas partes), o prelado condescendeu em desanexar o processo de Canelas do conjunto dos demais e disponibilizou outras hipóteses de escolha de serviço ao sacerdote em causa. Entretanto, confiou a paroquialidade de Canelas a outro padre vizinho, nos termos canónicos (vd exposto supra). A população auto-organizou-se num movimento Uma Comunidade Reage e tentou bloquear a entrada em funções do novo pároco. E, a princípio, conseguiu tornar pública a imagem da alegada inanidade ou da minoração da ação do novo pastor. Os canais generalistas deram notável contributo à rebelião popular. A ação persiste já sem as pantalhas usuais, porque outras notícias ganharam maior vulto.

O novel sacerdote conseguiu, entretanto, organizar os serviços paroquiais de estrutura e de dinamização. Os bloqueadores são cada vez menos numerosos, mas mantêm a sua força. É normal que a organização do compasso pascal tenha borregado, já que os novos colaboradores da paróquia, por mais ousados que sejam, não queiram expor-se a insultos, como já tem acontecido. Com efeito, as autoridades policiais têm conseguido manter a ordem de modo a que os ofícios pastorais sejam satisfeitos e o pároco se desloque em segurança, embora não tenham inibido – e bem – as pessoas de se manifestarem. Porém, a segurança em todo o perímetro paroquial e por todo um dia não seria fácil de assegurar. Ademais, o serviço do compasso, por conveniente que seja, não configura um serviço inerente à essencialidade da vivência eclesial.

Entendo que ao padre que tinha anteriormente a cura da paróquia tivesse custado a decisão episcopal, bem como a alguns paroquianos, já que as afeições que se criam naturalmente não se desfazem com facilidade. Todavia, parece-me que a persistência na rebeldia do ex-pároco e do grupo de cristãos de Canelas configuram teimosia claramente contrastante com o bom senso, ganham o perfil de desobediência eclesial, ferindo o ser, o devir e a missão da Igreja e soam a escândalo. Seria menos mau se enveredassem provisoriamente pela cura do tempo, por exemplo, ficando em casa ou frequentado a missa noutro lugar.

Não, um ostensivo jantar com anterior pároco, que poderia tolerar-se como despedida e sinal de simpatia e reconhecimento, a que se segue via-sacra reiteradamente presidida pelo ex-pároco, uma peregrinação a Fátima com o mesmo sacerdote, vigília junto ao Paço Episcopal entrada na Sé, atos de vandalismo, insultos – são epifenómenos que significam vedetismo, falta de senso, falta de comunhão em Igreja, mau serviço à causa de Cristo, falta de respeito a pessoas.

Depois, incoerência: o pároco atual não foi eleito, o povo não foi ouvido para a sua nomeação. E o padre anterior tinha sido? O bispo do Porto veio sem ninguém o chamar, queixam-se alguns dos cristãos de Canelas. E o Papa Francisco foi eleito por sufrágio universal e direto? A que títulos lhe mandaram uma carta, quando a competência do Papa (não falo aqui da jurisdição) não chega a estas paróquias? Querem um padre imposto por Roma? Se calhar, eu também queria que o Papa fizesse o que eu mandasse…

Mas a comunicação Social é clara:

Depois de nove meses de luta contra a saída do padre Roberto de Sousa da paróquia de Canelas, em Vila Nova de Gaia, o movimento ‘Uma Comunidade Reage’ resolveu enviar uma carta ao papa Francisco. No interior do envelope seguiram as razões que levaram o pároco a abandonar a freguesia, uma petição com 5700 assinaturas e as inúmeras notícias que saíram na comunicação social. “Esperemos que o papa apele à sensibilização e nos dê razão”, explicou Miguel Rangel, representante do movimento. À porta do posto dos CTT, concentraram-se dezenas de pessoas que aplaudiram o momento da entrega (vd CM de 28/3).

É nítida a ostentação do movimento, não?

A Igreja de Canelas foi vandalizada na madrugada de ontem (dia 29). As fechaduras de dois portões foram seladas com uma massa que, quando seca, solidifica e assemelha-se a cimento. A GNR foi alertada às primeiras horas da manhã pelo sacristão. Vários militares conseguiram remover o material do portão principal, mas o secundário – o único que permite o acesso a pessoas com mobilidade reduzida – continuava, ontem à tarde, com a fechadura inutilizável. O movimento, que pede o regresso do padre Roberto à paróquia, rejeita qualquer envolvimento no caso, numa altura em que os cónegos do Porto pedem ‘bom senso’(vd CM de 30/3).

“Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele” – diz o nosso povo.

Depois, o pároco anterior perdeu o senso ao aproveitar a ocasião para denunciar atividades presuntivamente pecaminosas doutro sacerdote que vive noutra diocese, alegadamente praticadas num passado um tanto longínquo e que trabalhava algures ainda noutra diocese (ambas as dioceses diferentes da do Porto). Tal oportunismo parece dar a entender que o padre terá perdido as demais qualidades exigidas canonicamente para a assunção da paroquialidade.

Cabe ainda a obrigação de, embora confessando a legitimidade cidadã da constituição de associações a quem quer que seja, denunciar a insensatez da transformação do movimento Uma Comunidade Reage numa associação, dados os fins enunciados, em que se destaca a promoção do regresso do “ex-pároco”, que alguma linguagem não cuidada designa por “ex-padre”.

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As reações dos “pares” eclesiásticos são as normais em casos como este, que ultrapassa as marcas. Em terras de outras dioceses e com outros sacerdotes, a paróquia já tinha ficado ao abandono, o que também não parece desejável. Não se vai à missa em razão do padre, mas em razão de Cristo na pessoa de Quem o padre preside às celebrações.

O Núncio Apostólico pediu aos paroquianos de Canelas, descontentes com a substituição do padre, que retomem o diálogo com o bispo do Porto, adiantou à Lusa, em comunicado, o movimento “Uma Comunidade Reage!”. Segundo a nota, Mons. Rino Passigato aconselhou a população, que domingo após domingo se concentra à porta da igreja em protesto, obrigando o novo pároco a sair escoltado pela GNR, a encontrar com o bispo Dom António Francisco, “com realismo e bom senso”, uma solução “permanente, aceitável e viável” para Canelas. Resta saber se os descontentes permitem as condições para diálogo!

Por seu turno, em declarações recentes à agência Lusa, o secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disse que o seu conselho permanente manifesta “toda a confiança” nas decisões do bispo do Porto sobre a situação na freguesia de Canelas. O padre Manuel Barbosa frisou que o conselho permanente da CEP, reunido na terça-feira passada em Fátima, manifestou “apoio, comunhão e profunda solidariedade” para com o bispo do Porto, na decisão de substituir o pároco de Canelas, contestada pela população.

Ademais, também o Conselho de Presbíteros da Diocese do Porto emitira oportunamente um comunicado, lido em todas as igrejas da diocese em missa dominical, de “apoio, comunhão e profunda solidariedade” para com o seu bispo.

O senhor Bispo do Porto não merecia ter este escolho logo no início do seu pontificado diocesano na grande e vetusta diocese portuense, a qual não se confina a Canelas, na sua dimensão e profundidade cristãs! Quem tiver a maior responsabilidade, que não se esconda e faça com nobreza o necessário mea culpa. 

É caso para dizer: Deus nos dê juízo, que idade já nós temos!

2015.03.30 – Louro de carvalho

Beba leite, pela sua saúde: Ou talvez não

O leite faz bem aos adultos? Há cada vez mais estudos científicos que apontam para o sentido inverso. Os especialistas estão divididos perante os sinais de que o cálcio é ‘desviado’ dos ossos para ‘tapar’ a acidez do estômago que é provocada pelo consumo em excesso de leite.
Beba leite, pela sua saúde. A expressão serviu, durante anos, para incentivar ao consumo de um alimento considerado fundamental para uma boa saúde. Mas será que o leite faz assim tão bem a um adulto?
Numa entrevista à Lusa, o nutricionista Nuno Velho Cabral desmitificou alguns dos mitos e referiu que a comunidade científica está cada vez mais dividida quanto aos verdadeiros efeitos do consumo de leite.
“Contrariamente ao que foi apregoado durante muitos anos, as evidências científicas têm vindo a confirmar que, realmente, também existem malefícios associados à ingestão de leite”, adiantou o nutricionista.
Em causa está o consumo de leite por adultos, que deve ser moderado, dadas as novas “evidências” que apontam para os “malefícios” que surgem associados a problemas de saúde, como doenças coronárias.
“O leite era visto como um alimento algo completo, fonte de proteína, de algumas vitaminas e de cálcio”, recordou Nuno Velho Cabral, “mas hoje existem muitos outros alimentos com teor de cálcio igualmente elevado como os brócolos, as ameixas, espinafres cozidos ou a sardinha”.
Como todos os alimentos, o leite deve ser consumido com moderação, até porque não há vantagens associadas ao fim do consumo de leite por adultos.
Um copo de leite por dia não traz “malefícios”, acrescentou o nutricionista, mas quando tomado em excesso pode provocar acidez no estômago.
“Ao contrário do que durante anos e anos se tem vindo a dizer, que o leite é muito rico em cálcio e previne a osteoporose, o que se sabe hoje em dia é que o nosso corpo tem uma necessidade extrema de deslocar parte do cálcio que já existe nos nossos ossos para ir neutralizar a acidez do estômago provocada por este alimento”, explicou Nuno Velho Cabral.
De acordo com o especialista, as novas gerações estão mais aptas a procurar informação e conselhos sobre a alimentação, levando a que o leite esteja progressivamente a ser substituído por outros alimentos.
Surgem assim as novas modas, como as sementes de chia (o elemento com maior teor de cálcio de que há conhecimento), que podem ser introduzidas em sopas e saladas ou consumidas com iogurte.
“Neste momento, as pessoas cada vez mais procuraram outras opções, incluindo substituir leite por outras bebidas de arroz ou amêndoa, ou ainda à base de soja”, insistiu o nutricionista: “Sem sombra de dúvida que pode-se fazer uma alimentação equilibrada sem prejudicar a nossa saúde não bebendo leite”.

leite


Fonte: aqui
  

segunda-feira, 30 de março de 2015

MERCEDES

Passageiro engatatão, para a hospedeira:
- Qual é o seu nome?
- Mercedes, senhor....
- Que nome bonito!
Alguma relação com o Mercedes-Benz?
- O mesmo preço!!!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Acidente intencional ou do mistério à revelação


O Airbus A320 da Germanwings, companhia low-cast detida pela Lufthansa, caiu no maciço Trois-Evêchés (Três Bispos), um dos maciços dos Alpes Franceses, depois de ter levantado voo – o voo GWI925 – às 10 horas da manhã (hora local) do dia 24 de março, em Barcelona rumo a Dusseldorf, onde devia aterrar duas horas depois.

É este o mais grave acidente aéreo desde há quarenta e um anos, em 1974, quando um avião da Turkish Airlines se despenhou após a descolagem, em Paris, originando a morte de 346 pessoas.

Os maciços da região do chocante acidente aéreo têm picos que podem atingir os 3000 metros de altura. No entanto, a queda do avião é considerada misteriosa, já que nada parecia ter falhado e até as condições atmosféricas eram calmas – sem nuvens, sem turbulência e com o vento a soprar de fraco a moderado. Por outro lado, os residentes naquela região de Dignes-Les-Bains dizem que, na zona onde o avião caiu, não há nada, a não ser montanhas e neve. No entanto, o avião despenhou-se numa zona de acesso dificílimo.

O avião seguia com 150 pessoas a bordo, 144 passageiros e 6 tripulantes. A viagem, que deveria ter a duração de duas horas, viu-se reduzida para os 50 minutos. Depois de ter atingido os 35 mil pés de altitude (ou seja, 10668 metros), o aparelho iniciou uma descida acentuada que durou 8 minutos (uma média de mais de 1,33 Km por minuto). O último contacto com a torre de controlo acontecera quando a aeronave ainda estava 6 mil pés (1800 metros).

A maior parte das vítimas tinha a nacionalidade alemã, 67, das quais 16 eram estudantes que regressavam de um intercâmbio escolar; 51 eram espanhóis; e os outros eram turcos, franceses e de outras nacionalidades (em número não especificado). Há quem diga que as vítimas são de 18 nacionalidades diferentes.

Naquele lugar de dificílimo acesso, sem estradas, a que se acede unicamente por helicóptero, os destroços da máquina acidentada estão espalhados por uma área de quase quatro hectares. As operações de resgate mobilizaram 300 bombeiros e 400 polícias e militares. Só no final da tarde do dia seguinte ao da tragédia é que as autoridades começaram a retirar, por helicóptero, os cadáveres das primeiras vítimas do avião da Germanwings, não se sabendo quanto tempo demorará a remoção dos cadáveres e dos destroços.

As famílias das vítimas acorreram a Seyne-les-Alpes, o sítio aonde lhes foi possível aceder. Aí, a Lufthansa criou uma câmara ardente provisória para começar a acolher os cadáveres, tendo também disponibilizado dois aviões para o transporte das famílias (cerca de 400 familiares) a partir da Espanha e da Alemanha. Porém, um grupo de 14 familiares, que não quiseram viajar de avião, foi de autocarro a partir de Llinars del Valles, Espanha.

***

Não são ainda conhecidas em pormenor as causas da trágica ocorrência. No entanto, da meia dúzia de hipóteses de causas, parecem os dados estarem a apontar para a nefasta “intervenção humana”.

O maior mistério que envolve o acidente é o facto de ele ter ocorrido na fase de cruzeiro do voo, em que ocorrem menos de um entre 10 casos de acidentes aéreos. As hipóteses que habitualmente se colocam em circunstâncias destas são despressurização da cabine, falha nos motores, anomalia climática, falha mecânica ou eletrónica, falha humana e intervenção humana.

A despressurização da cabine consiste na súbita perda de pressão a bordo ou num incêndio na cabine da pilotagem – o que inibiria a comunicação com os controladores de voo. Porém, um incidente deste tipo não explica a razão de o avião ter iniciado uma descida quando voava a uma altitude de 11.582 metros. Casos anteriores ficaram marcados pelo facto de a aeronave em causa simplesmente voar em linha reta até cair por falta de combustível.

Uma falha nos motores, como um apagão nas duas turbinas do Airbus, podia explicar a perda de altitude, mas a queda seria menos abrupta, nunca em apenas 8 minutos e daria azo a que os pilotos pudessem contactar os controladores para eventual desvio de outras aeronaves, bem como lhes permitiria o desvio para local onde fosse viável um pouso forçado.

Anomalia climática é hipótese praticamente descartada, pelas razões acima enunciadas.

A falha mecânica ou eletrónica é sempre uma hipótese a considerar, sobretudo se tivermos em conta o funcionamento por computorização e, em especial, de noite e/ou em caso de mau tempo. Mas o avião da Germanwings voava de dia, o que, a ter sucedido, teria dado aos pilotos melhores condições de orientação. Além disso, embora o treinamento de pilotos estabeleça que o controlo da aeronave tem prioridade sobre comunicação, um problema do género teria sido facilmente reportado aos aerocontroladores.

Uma falha humana, a não ser que os pilotos tivessem perdido o controlo total do aparelho ou se tivessem equivocado com possíveis problemas eletrónicos, possibilitaria uma tentativa controlada de redução da altitude e a informação ao controlo de voo.

E a intervenção humana, ou seja, a interferência indevida de alguém na pilotagem do A320 nunca podia ser descartada.

Ora, as autoridades envolvidas na investigação do acidente em causa afirmaram não suspeitarem de qualquer tipo de incidente como ato de terrorismo ou tentativa de sequestro, caso em que poderiam ter sido avisadas, via rádio ou por código, as competentes autoridades. Afastaram mesmo a hipótese de ter sucedido uma explosão do aparelho no ar, dado que destroços tão pequenos não são caraterísticos de avião que tenha rebentado no ar.

Com o aparecimento de uma das caixas negras da aeronave todas as hipóteses de causa do despenhamento foram arredadas, se bem que não em definitivo, com exceção da última, a intervenção humana indevida, pelos vistos, não de agentes externos à pilotagem.

Os diversos órgãos de comunicação social de hoje, dia 26, enunciaram explicitamente que o ato de despenhamento fora provocado deliberadamente pelo copiloto na ausência do comandante do cockpit, confirmando a informação avançada pelo New York Times, que tem como fonte um militar, um dos investigadores. Segundo este, começa por se ouvir uma conversa “normal, branda”, entre os dois pilotos, poucos minutos após a descolagem do aeroporto de Barcelona. Depois, um dos pilotos abandonou a cabine, sem que se conheça o motivo, e não conseguiu reentrar. O piloto, do exterior, começou por bater à porta de forma suave, mas, como não obteve resposta, bateu com mais força e tentou mesmo derrubar a porta, sem o conseguir. Há quem avance a hipótese de o piloto “fechado no exterior do cockpit”, ter tentado o derrube utilizando uma machada.

O copiloto, por sua vez, encerrado dentro do cockpit, parece ter deliberado o propósito de pulverizar a aeronave, pelo que deve ter travado o sistema de abertura da porta pelo sistema de código a partir do exterior da cabine e ter-se-feito surdo (não tinha morrido no ar) aos rogos do piloto.

Quem conhecia o copiloto aponta-lhe problemas e situações temporárias de depressão, tendo inclusivamente sucedido que terá sido forçado a interrupção de uma ação de formação por via do seu estado depressivo. Por outro lado, informação de última hora afiança que o copiloto Andreas Lubitz escondera da sua entidade patronal a situação de baixa médica, tendo as autoridades encontrado o documento médico rasgado.

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Após os acontecimentos do 11 de setembro de 2001, as companhias de navegação aérea passaram a utilizar obrigatoriamente o sistema de blindagem da porta de acesso ao cockpit a partir do exterior e consequente condicionamento de acesso, para prevenir ações de terrorismo ou de sequestro. A pilotagem comunica com a restante tripulação e com os passageiros através de intercomunicador. Para entrar no cockpit, é preciso ter autorização expressa da pilotagem no momento ou digitar o código de acesso (a mesma coisa não acontece para sair). Porém, neste caso, a abertura da porta só funciona se o sistema não se encontrar imobilizado a partir do interior.


Também a maior parte das companhias de aeronavegação impõe que nunca estejam menos de duas pessoas dentro do cockpit. Se alguma delas tiver de sair, deverá ser solicitada a presença de outra pessoa, mesmo que não seja especialista, para que possa acorrer a eventual emergência pessoal do “timoneiro”.


***


O que se passou levanta algumas dúvidas quanto a procedimentos e segurança, de índole económica e psicossocial.

Desde já, as companhias de aeronavegação devem libertar o trabalho dos seus profissionais das dívidas pela formação fornecida. Quem quer ter quadros ministra-lhes obrigatoriamente formação gratuita e exigente e não os coloca duradouramente a descontar um bolo considerável do vencimento por dívidas de formação à Companhia. Depois, devem cuidar de vencimento, horário de trabalho e outras condições laborais que respeitem a dignidade humana, profissional e social, sobretudo sem pressões abusivas. Depois, há que motivar os profissionais que a empresa formou para que não procurem outras empresas que ofereçam melhores condições – o que não se consegue pressionando, proibindo ou criando desconforto, mas fazendo uma liderança de comunicação, diálogo e cooperação.

Por outro lado, é necessário que se estabeleça a obrigação de sujeição dos profissionais a testes periódicos de caráter físico, psicológico e de saúde, não deixados à mercê do trabalhador, que obviamente tem a natural tendência para não expor as suas limitações e debilidades, mesmo ocasionais.

Ademais, torna-se imperioso cuidar da manutenção dos equipamentos, aparelhos e peças, fazendo as inspeções e revisões periódicas e eventuais e procedendo às necessárias e atempadas substituições de peças, equipamentos e unidades de frota, bem como cumprir e fazer cumprir todas e cada uma das diretivas, normas e recomendações internacionais, sobretudo no que diz respeito à segurança. Não vale a desculpa por greves, intempéries, tempos de folga, etc. O gestor deve ter em conta todas as vicissitudes por que pode passar  a sua empresa e dotá-la dos necessários recursos humanos, técnicos, logísticos e financeiros.

Finalmente, penso que a verdade da investigação não se torna incompatível com a gestão da informação. Ainda a investigação é a procissão que nem sequer saiu do adro, ainda não tinha aparecido a segunda caixa negra, mas já se punha nas parangonas da comunicação social Urbi et Orbi que o acidente foi deliberadamente provocado por um copiloto que sofria de depressão.

Mais. Já um grupo considerável de familiares das vítimas tinha descartado a hipótese de viajar de avião e optado por transporte de autocarro e viemos a saber que o Airbus 320 tinha 25 anos de operação (Que a idade não tem peso significativo!) ou que os pilotos só são obrigados aos testes psicológicos aquando da admissão e que, noutras circunstâncias, só têm acesso a eles quanto os próprios profissionais tomam a iniciativa. Será que eles, perante a pressão laboral e perante a catalogação social de quem se candidata a estes testes, estarão dispostos sua sponte a expor suas eventuais limitações e debilidades?

Depois, todas as empresas (Mesmo as low cost, que fazem milagres – sabe Deus!), em caso de acidente, procederam às inspeções e revisões regulares e periódicas, não se vendo motivo para proceder a inspeções ou revisões eventuais, e o material era relativamente recente. Não sei se eu estaria à vontade a montar um burro de 25 anos, porque, a meu ver a idade pesa, mesmo a do material!

Diga-se, de resto, a verdade toda sem reservas, mas sem precipitações, sobretudo quando estiver em causa um juízo sobre a responsabilidade de pessoas e um eventual estado de choque das populações.

2015.03.27 – Louro de Carvalho

O Papa fala na exclusão das crianças

Na audiência geral do dia 18 de Março, o Papa Francisco denunciou as sociedades actuais que "não deixam nascer" as crianças, numa condenação implícita do aborto e do controlo de natalidade.

"As crianças são um dom para a humanidade, mas são também as grandes excluídas, por vezes nem as deixam nascer", afirmou, no início de uma catequese dedicada à família.
Numa menção às suas viagens à Ásia, nomeadamente às Filipinas em janeiro, Francisco denunciou também a situação das crianças que sobrevivem "em condições indignas".
"Da maneira como são tratadas as crianças, podemos analisar uma sociedade, não apenas moralmente, mas também sociologicamente", declarou.
Com este critério, "é possível analisar se uma sociedade é livre ou escrava de interesses internacionais", afirmou o Papa, perante 16 mil fiéis reunidos na praça de São Pedro, numa aparente referência aos interesses de grandes sociedades privadas ocidentais alegadamente na origem de campanhas de controlo da natalidade e aborto nos países em desenvolvimento.
O Papa elogiou a franqueza das crianças: "As crianças (...) ainda não aprenderam a ciência da falsidade que nós, adultos, conhecemos. Eles podem ensinar-nos a chorar, a rir, a deixar sorrisos artificiais".
Mesmo se as crianças "trazem vida, alegria e esperança", podem "causar, às vezes, problemas imensos e muitas preocupações", reconheceu. "Mas mais vale uma sociedade com estes problemas, que uma sociedade cinzenta e triste", acrescentou, referindo-se às sociedades ocidentais onde o número de crianças por mulher é cada vez mais baixo.
Fonte: aqui

quarta-feira, 18 de março de 2015

Reações ao Dia do Pai


- Dia do Pai!? Não alinho nessas tretas. Dia do Pai são os 365 dias do ano. Não se é pai apenas neste dia. Que interessa tanta coisa neste dia se depois o pai é esquecido?


- Dia do Pai? Não me diz nada. O meu pai abandonou-nos quando eu era pequenino e nunca mais se lembrou de mim. Quero que ele vá para o Inferno...


- O meu pai quer lá saber de mim! A família verdadeira dele são o trabalho e os amigos. A família serve-lhe como pensão onde muitas vezes vai dormir...


- O meu pai? Trocou a minha mãe por uma estrangeira toda pintalgada. Não esqueço.


- O meu pai? Faz da família um quartel onde ele é o general. Tudo tem que rodar à sua volta. A minha mãe e nós temos que rodar de acordo com os seus humores, disposições e interesses. Somos apenas peças do seu xadrez.


- O meu pai? Sim, é um porreiraço. Porta-se como um dos filhos. Mas quando se trata de coisas sérias, empurra tudo para a minha mãe. Eu preciso de um pai que seja pai e não de um porreiraço. Desses tenho aos montes na escola...


- O meu pai? Dá conselhos e aponta caminhos. Só que a vida dele é exatamente o contrário daquilo que aconselha. Não lhe reconheço autoridade.


- O meu pai? É o egoísmo em pessoa. Logo que tenha para si, para os seus copos e para ir ao futebol, bem se interessa ele com as necessidades dos filhos!...


- O meu pai? Como posso sentir simpatia por ele se é violento para com a minha mãe? As palavras como espadas; as ameaças como furacões; o vozear como trovão; o olhar de desprezo; o rosto como ameaça...


- O meu pai? Não me fale nesse homem! Bateu na minha mãe e em nós porque chegou a casa ébrio ou com desconfianças tolas.


- O meu pai? Mas a família dele são as mulheres nuas que guarda no computador e as meninas do clube noturno que frequenta...


- O meu pai? Tão exigente para connosco, suas filhas, quando nós sabemos que ele tem uma amante secreta...


- O meu pai? Não tem tempo para nós. Depois do trabalho, o tempo ocupa-o no café, no desporto, na basta vida social. A nós só exige que o não chateemos...


- O meu pai? Gostava tanto que fosse o namorado da minha mãe! Nunca o vi da um beijo ou fazer uma carícia à sua esposa!


- O meu pai? Mas a família dele são a empresa e o partido. Nós só servimos para que toda a gente veja que ele está socialmente integrado...

segunda-feira, 16 de março de 2015

Notícias de toda a parte

Barrigas de aluguerA Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia (COMECE) criticou no Parlamento Europeu, o recurso à "maternidade de substituição", vulgarmente conhecido como "barriga de aluguer". Os bispos europeus alertam para a instrumentalização da mãe de substituição (frequentemente envolvida em situações de pobreza involuntária ou de tráfico impiedoso) e trata o bebé como um objecto".
Cáritas regista novos casos de pobrezaA Cáritas Portuguesa registou no ano passado, 21.549 novos casos de pobreza, um aumento de 15,4% face a 2013. No total, a Cáritas apoiou no ano passado 160.608 pessoas carenciadas, o que representou uma média de 440 por mês, adiantam os dados do Núcleo de Observação Social, um instrumento que permite à instituição conhecer o número de atendimentos que as 20 cáritas diocesanas prestam às comunidades.
SíriaO autoproclamado Estado Islâmico tem feito uma perseguição sem precedentes aos cristãos sírios. Não há uma semana em que não haja cristãos raptados e assassinados pelos jihadistas. A comunidade cristã no Médio Oriente está ainda chocada com o recente assassinato de 21 cristãos coptas, que foram degolados, na Líbia, por forças jihadistas filiadas no "Estado Islâmico". O Papa está a seguir com atenção a situação dos cristãos sequestrados e dos que foram obrigados a deixar as suas casas na Síria…
Diferenças de salários – Os dados, relativos a 2013 revelam que a diferença salarial entre homens e mulheres, na União Europeia, desceu ligeiramente desde 2008, de 17,3% para 16%. Em Portugal, a diferença salarial fica abaixo da média europeia, nos 13%, mas tem-se agravado nos últimos cinco anos, já que em 2008 era de 9,3%.
A pessoa mais velha do mundo, Misao Okawa, mãe de três filhos, avó de quatro e bisavó de seis, completou 117 anos, no passado dia 5 de Março..
Okawa é japonesa e "está em boa forma", disse à AFP um responsável pelo lar onde vive.
A japonesa celebrou o aniversário junto da família, incluindo o filho mais velho Hiroshi, de 92 anos, e um bisneto de dois anos.

A ADSE acabou 2014 com um saldo positivo de 201 milhões de euros, à custa dos descontos dos beneficiários. O Governo já subiu estes descontos 133%, mas só 2322 titulares da ADSE a trocaram, desde 2012, por seguros.
Médicos O Governo quer dar aos médicos um incentivo de mil euros mensais para que se fixem nas zonas do interior do país, onde há falta de profissionais de saúde. A este incentivo extra salário, que vai ter a duração de cinco anos, somam-se ainda compensações para despesas de deslocação e de transporte e outros benefícios, como mais dois dias de férias por ano, a garantia na transferência de escola para os filhos e facilidades na colocação de emprego para o cônjuge. Nenhum outro sector da Função Pública tem este tipo de incentivos.
Hemodiálise em casa – Anya Pogharian, uma jovem canadiana de 17 anos, desenvolveu uma máquina de baixo custo que permite fazer hemodiálise em casa. Esta custa apenas 500 dólares (cerca de 440 euros), um valor muito abaixo dos aparelhos convencionais, que custam, em média, 30 mil dólares (cerca de 27 mil euros).
O protótipo, desenvolvido no âmbito de um projecto do liceu, foi inspirado nos aparelhos de hemodiálise convencionais, que a jovem teve a oportunidade de conhecer de perto quando fez voluntariado num hospital da região.

Fonte: aqui

sábado, 14 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

"Yo tengo la sensación que mi Pontificado va a ser breve. Cuatro o cinco años"




Uma entrevista do Papa à  periodista e escritora mexicana Valentina Alazraki.
A não perder.
Aqui

domingo, 8 de março de 2015

Notícias de toda a parte

Europa está cada vez mais pobre A confederação europeia da Cáritas denunciou a existência de 133 milhões de pobres na União Europeia e o aumento das desigualdades sociais. Esta denúncia parte de um relatório sobre a crise apresentado recentemente em Roma que regista o agravamento da situação com a crise financeira e as políticas de austeridade, sobretudo nalguns países como Portugal, Itália, Espanha, Grécia, Irlanda, Roménia e Chipre.

Síria Membros do grupo terrorista auto-denominado Estado Islâmico (EI) raptaram no dia 23 de Fevereiro todos os homens de várias aldeias cristãs, nos arredores da vila de Tell Tamer. As aldeias foram atacadas de madrugada. Todos os homens capazes, cerca de 200, foram reunidos e levados para um monte próximo, onde estão a ser mantidos como reféns. As aldeias integram o grupo étnico dos assírios, a que pertence a esmagadora maioria dos cristãos da Síria e do Iraque.
Águas de Portugal A Águas de Portugal alertou para a existência de contactos fraudulentos em nome da empresa em que falsos funcionários tentam agendar visitas a domicílios para depois vender produtos. Quando as visitas se concretizam, terminam com a tentativa de venda de aparelhos para colocar nas torneiras, como filtros...
Menos funcionários públicos – Durante o ano de 2014 saíram da Função Pública 18.474 trabalhadores, o que representa uma quebra de 2,7% em relação ao ano anterior, divulgou hoje a Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP). Segundo a Síntese Estatística do Emprego Público (SIEP), divulgada pela DGAEP, a 31 de Dezembro de 2014, o emprego na administração pública situava-se em 655 620 postos de trabalho, o que significa uma quebra global de 2,7 % em termos homólogos e de 9,8 % face a 31 de Dezembro de 2011 – menos 71 365 postos de trabalho.
A isenção das taxas moderadoras vai ser alargada a todos os menores de 18 anos, revelou Luís Marques Guedes, ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares. Até à data a isenção só era aplicada a pessoas com menos de 12 anos.
Com esta alteração, adiantou Luís Marques Guedes, "seis milhões de portugueses ficam isentos de taxas moderadoras no Sistema Nacional de Saúde (SNS)". Abandono escolar – A percentagem de indivíduos dos 18 aos 24 anos sem o secundário completo baixou 5,6 pontos percentuais em três anos. O abandono escolar precoce - indicador que mede a percentagem de pessoas entre os 18 e os 24 anos que não concluíram pelo menos o ensino secundário e não estão a frequentar qualquer ensino formal - baixou para os 17,4% em 2014, indicam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Estes números tornam real a ambição de Portugal alcançar as metas comunitárias para 2020.
Bengala electrónica – A Universidade de Aveiro criou uma bengala para invisuais, que através de ultrassons detecta buracos e desníveis no solo. O projecto foi desenvolvido no Departamento de Electrónica, Telecomunicações e Informática, em resposta ao desafio, lançado pela Associação Promotora do Ensino de Cegos.
Fonte: aqui

segunda-feira, 2 de março de 2015

SOMOS UM PAIS DE PRÍNCIPES

 - António Lobo Antunes
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“Recordo um alentejano da raia, velho duns oitenta e tal anos, com que me cruzei algumas vezes na sala de espera do IPO. Aparecia sempre de fato, o mesmo fato, de colarinho apertado sem gravata. Quando era chamado, avançava cheio de dignidade, como um príncipe e lhe digo que nunca vi gravata mais bonita do que aquela que ele não trazia. Sabe, somos um país de príncipes.”
 
Cito de memória este pequeno excerto de entrevista ao António Lobo Antunes que ouvi há dias na TSF. Impressionou-me este seu olhar sobre um país que tendemos a desprezar. Imagino esse velho alentejano, mãos grossas, pele tisnada, cabeça erguida, com a suave altivez que só o orgulho numa vida honrada de trabalho consegue dar. Imagino-o, na sua aldeia, ao fim da tarde, sentado à soleira da porta, olhando um bando de crianças imaginárias brincando no largo da Igreja. Há muito que cada uma dessas crianças partiu sem deixar substitutos e esvaziando de morte a vida dos que ficaram. Também ele, noutros tempos, pensou em partir. Não que não amasse o seu Alentejo, mas para fugir a uma vida de corpos dobrados ao sol que pouco mais dava que o suficiente para uma refeição digna. Mas vieram os filhos.
 
O primeiro, estava ele em Angola, uma terra grande e vermelha como o seu Alentejo, depois os outros três. Ainda se lembra de Angola com uma pontinha de saudade. Não da guerra, que não deixa saudades a ninguém, nem da camaradagem que para ele se ficou no barco de regresso, mas da imensidão duma terra que prometia futuro. Um futuro adiado percebeu depois. Com os filhos, vem uma responsabilidade que condiciona a aventura. Por isso ficou, a tempo de lhe ver entrar aldeia adentro ex-camaradas de armas anunciando um mundo novo, sem patrões nem trabalho de sol a sol, que “a terra é de quem a trabalha!” Ainda alvitrou questionar quem lhe pagaria o salário para sustentar os quatro gaiatos que tinha em casa quando deixasse de haver patrões, mas já baloiçavam no ar foices e forquilhas para ir “tomar o que é nosso”.
 
Tivera dose de guerra suficiente para saber que a violência só serve para agudizar o ódio, que é o que fica quando regressa a normalidade. Por isso não embarcou “nos amanhãs que cantam”, mas foi levado por eles. Como prometido, desapareceram os patrões de Lisboa (não que aparecessem muito), para aparecerem outros que conhecia bem. Eram vizinhos de toda a vida e, aos Domingos, costumavam jogar com ele à sueca no Central. Eram patrões em nome de todos, mas eram patrões. Já não curvavam os corpos sobre as searas, nem jogavam à sueca aos Domingos, nem se juntavam ao fim da tarde para chorar em cante as cores do seu Alentejo. Agora eram políticos e as terras eram unidades de produção e o Largo da Igreja era Praça 25 de Abril. Tudo mudara menos o seu salário que antes, mesmo com dificuldade, lhe dava para amealhar algum e agora desaparecia ainda a semana não terminara.
 
Quando os campos deixaram de produzir, por incúria, por incompetência, por ignorância de quem mandava em nome de todos, regressou a miséria e a desesperança de que se lembrava da meninice. Voltou a sonhar em partir. Ficou, pelo menos uma parte dele, porque os filhos, os quatro, partiram em busca dum sonho que já fora seu e que lhes entregara como que em herança. Pouco depois, regressaram os antigos patrões e voltou a acreditar que os campos se encheriam de espigas doiradas a balouçar ao sol quente de Agosto. Mas agora quem mandava eram os filhos dos patrões, que falavam dos subsídios que vinham da Europa para não semear. Achava estranho. Para ele a Europa era a Suíça, onde trabalhava o seu mais velho ou a Alemanha onde estava a menina dos seus olhos com o marido que dava no duro na construção. Por isso, não percebia porque é que essa Europa que precisava do trabalho dos seus gaiatos queria pagar para nós, por cá, não trabalharmos? Mas assim era e os campos continuavam abandonados, vazios de dar dó. A não ser junto à raia, numas propriedades compradas por uns espanhóis que tinham plantado oliveiras que, ouvira dizer, já estavam grandes e carregadinhas. Talvez houvesse trabalho para a apanha.
 
Depois viera o euro e, com ele, as estradas e o Alqueva. Um mar de água como nunca vira, para regar os campos e encher do verde da esperança o seu Alentejo. Falava-se de turismo, de magotes de gente para ver este mar de água, mas regadio nem um. Tanta água, tanto dinheiro, tanto trabalho para nada. Agora era a crise. Ouvia na televisão que devíamos muito dinheiro à Europa, tanto que ele nem conseguia imaginar quanto fosse. Só podia ser daquele que os filhos dos patrões receberam para não semear, ou do que gastaram para fazer o Alqueva e as estradas novas que estavam por todo o Alentejo. Só podia, porque ele não devia dinheiro nenhum à Europa. Nem à Europa, nem a ninguém. Sempre tinha vivido com o pouco que ganhava com o seu trabalho e se hoje tinha algum de lado era porque a sua senhora era poupada e nunca esbanjara e os filhos, graças a Deus todos bem, lhe mandavam algum, todos os anos.
 
Ele não devia nada à Europa, a não ser o facto de ter recebido de braços abertos o seu mais velho e a sua menina, que em boa hora tinham deixado este pedaço de terra ao abandono, sem esperança, nem futuro.Não queria saber de dívida nenhuma, mas a verdade é que à conta dela, tinham fechado o centro de saúde, onde ia com regularidade, mais para ouvir e ser ouvido, do que para se queixar das maleitas que a vida lhe ensinara a guardar para si. Por isso, quando as forças foram desaparecendo e o tisnado do sol se transformou num amarelo pálido, vestiu o seu fato de Domingo e foi ao hospital a Évora, a mando da mulher, saber o que se passava. Estava muito mal. Se tivesse vindo mais cedo… Assim, tinha de ir a Lisboa fazer uns tratamentos todas as semanas. Eram tratamentos difíceis, que o iam deitar muito a baixo, mas que, se tudo corresse bem, o deixariam bom, porque nestas idades a doença avançava mais lentamente e por isso tudo haveria de correr bem, dissera-lhe uma doutora simpática e bonita, que mal falava português. Para ele não havia tratamentos difíceis. Difícil tinha sido toda a sua vida. Por isso, todas as segundas de manhã, vestia o seu fato de Domingo e esperava pacientemente a chegada da ambulância que o levaria até Lisboa, ao IPO.
 
Nunca tinha ido a Lisboa, nem mesmo quando os seus dois do meio tinham partido para a América, nem nunca tinha andado nessas estradas novas e largas que atravessam o seu Alentejo. O que transportarão por estas estradas se já nada se produz? Da primeira vez ia um bocadinho a medo, que não é vergonha nenhuma, nestas coisas da saúde, mas lá no IPO eram todos tão simpáticos. Até havia uma enfermeira que lhe costumava dizer que se ele fosse mais novo, ai, ai. Sabia que era a brincar, mas sabia-lhe bem. A verdade é que a doutora que mal falava português tinha razão e o tratamento era difícil. Agoniava-o e deixava-o sem forças, mas isso guardava para si e nem lá em casa, à sua senhora, deixava transparecer o quanto lhe custava, embora lhe visse a tristeza no olhar, sempre que os grãos de que tanto gostava ficavam no prato que carinhosamente lhe preparara. Neste último tratamento, ouvira qualquer coisa sobre uns cortes na saúde à conta da tal dívida que nunca mais se resolvia. Rezava a Deus para que a Europa cortasse nos alquevas, nas estradas, nos comboios que estavam sempre em greves, ou na Câmara, que ainda ontem ouvira que ia gastar milhões num museu qualquer, porque não sabia como ia ser se a ambulância deixasse de ir busca-lo às segundas, ou se o tratamento acabasse de repente. Mas acreditava que a Europa, que tinha recebido tão bem o seu mais velho e a menina dos seus olhos, não havia de lhe falhar agora, que ele sentia que estava quase a vencer a doença, como sempre vencera todas as adversidades que lhe tinham aparecido ao longo da vida.
 
Não sei se este velho alentejano que imagino, continua a acordar de noite às segundas-feiras, a vestir o seu fato domingueiro, a apertar o colarinho sem gravata e a aguardar pacientemente a ambulância que o levará ao IPO, a Lisboa, para o tratamento violento que o pode salvar. Não sei se ainda há ambulâncias que façam este transporte gratuito, ou dinheiro no IPO para pagar os medicamentos de que necessita. O que sei é que durante os últimos 30 anos tudo se tem feito para que não haja. Os senhores que acordam de manhã, às segundas-feiras, vestem um dos seus muitos fatos, apertam o colarinho e colocam uma das suas variadas gravatas, empenharam-se durante anos em destruir o sector produtivo, primeiro em nome do socialismo, depois em nome da Europa, ao mesmo tempo que esbanjavam os nossos fracos recursos em empresas que só continuam nacionalizadas porque são autênticos antros de compadrio e corrupção; criaram um Estado pantacruélico que vive do esmagamento fiscal de quem trabalha; permitiram o desvio de milhões de euros de dinheiros europeus levado a cabo por autênticas redes criminosas de suposta formação profissional geridas pelas clientelas partidárias; promoveram o endividamento das autarquias, transformando-as em pequenos estados, onde o rigor, a seriedade e a transparência são mera utopia; destruíram a justiça, onde só se investiga prendendo o suspeito ou fazendo escutas, transformando o mais inalienável dos direitos – o da inocência até prova em contrário – em mera retórica; alienaram o futuro da segurança social em nome da equidade e da solidariedade, trazendo para o sistema quem para ele nunca contribui e permitindo toda a espécie de falcatruas e vigarices; incentivaram a fraude por via da completa ausência de regulação e promoveram a existência de verdadeiros monopólios em sectores essenciais como a energia. Durante trinta anos, foi um fartar vilanagem sem consequências, porque esta gente que esteve no poder não nos governou, governou-se, fazendo tábua rasa dos mais elementares princípios de gestão em prol do bem comum.
 
Por isso, hoje, não existe dinheiro para o essencial, as funções soberanas do Estado, a saúde e educação. Por isso, talvez deixe de haver dinheiro para trazer os doentes ao IPO ou para os medicamentos que os podem curar.
Por isso, não sei se este velho alentejano que imagino, continua a acordar de noite às segundas-feiras, a vestir o seu fato domingueiro, a apertar o colarinho sem gravata e a aguardar pacientemente a ambulância que o levará ao IPO, a Lisboa, para o tratamento violento que o pode salvar. Só sei que se tal acontecer, sempre que ouvir o seu nome a ser chamado, levantar-se-à e caminhará de fato domingueiro, colarinho apertado, cheio de dignidade, como um príncipe.
Apesar dos nossos governantes, “somos um país de príncipes”. [João Almeida Moreira]