sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Quanto vale um bom vizinho?!...

"Um bom vizinho aumenta o valor da casa" – diz um ditado popular.
E isto pode ser confirmado por muito boa gente!
E às vezes basta ter uma boa palavra para desarmar o vizinho mais conflituoso. É o que se pode ver pelo episódio que me foi contado há tempos e que passo a relatar.
Um homem honesto e trabalhador, ao fim de muitos anos de trabalho duro, conseguiu comprar um pequeno campo nos arredores da cidade. Pensava entreter-se ali aos fins de semana com a mulher e os filhos a cultivar uma pequena horta.
Numa das primeiras vezes em que foi ao seu campo, viu parar um motorista que lhe perguntou:
– O senhor é que é agora o dono desta propriedade?
– Sou! - respondeu com alegria.
– Pois lamento dizer-lhe que você comprou com a sua propriedade uma questão judicial. O muro do seu terreno está dois metros dentro do meu.
E esclareceu: "Dentro de dias tomarei providências para que o muro volte ao seu lugar".
Sem perder a calma e sem se irritar, o dono do campo respondeu:
– Para mim, ter um bom vizinho é mais importante do que dois metros de terreno.
O motorista, surpreendido com a resposta, respondeu:
– Para mim também um bom vizinho é mais importante do que dois metros de terreno.
E saiu do carro, abraçou calorosamente o dono do campo e acrescentou:
– Já vejo que vou ter um bom vizinho. E o muro ficará no lugar onde está!
Fonte: aqui

terça-feira, 11 de agosto de 2015

43.ª Semana Nacional das Migrações


Está a decorrer, desde 9 a 16 de agosto, a Semana Nacional das Migrações 2015, em que a Igreja Católica convida “a colocar os migrantes e refugiados no coração da Igreja”, através de “gestos concretos”. Em mensagem oportunamente divulgada, a OCPM (Obra Católica Portuguesa das Migrações) salienta a condição da Igreja como uma porta “aberta ao mundo” e “por isso sem fronteiras”.

Sob o tema “Igreja sem Fronteiras: somos um só corpo”, a 43.ª Semana Nacional das Migrações estimula toda a Igreja Católica a “mergulhar nas suas raízes” do Evangelho e da História da Salvação e a “redescobrir” uma “identidade cristã” que tem de estar impregnada pelo exemplo de Jesus.

Uma vez que o corpo eclesial é “composto por diversos membros”, unidos “num só”, é vital que os cristãos consigam, seguindo as pegadas de Cristo, isto é, como Cristo fez, olhar para “o rosto dos migrantes e refugiados”, para os que hoje buscam fora do seu país alternativas ao desemprego, à pobreza e à guerra, e ter para com estas pessoas uma atitude de abertura e “fraternidade”.

Num tempo em que os portugueses tiveram de sofrer coletivamente na carne o êxodo numeroso de muitos concidadãos para fora do seu lar e país, a maior parte por deparar com circunstâncias adversas à consecução e/ou manutenção do emprego (embora alguns, acusando tudo e todos, tenham espreitado a ingrata oportunidade de sair do país, que lhes forneceu quase gratuitamente os saberes) e viram também o abandono dos imigrantes que ajudavam o país a afirmar-se como comunidade solidária – há que refletir a sério em que medida falhou o projeto coletivo de desenvolvimento e de esperança num futuro de fraternidade.

Perante os fenómenos indicados e face à necessidade de fornecer acolhimento fraterno aos que se viram desalojados do seu território e seus lares e despojados dos seus haveres e – sentindo o peso dos sacrifícios que o desmando económico-financeiro e o desgoverno político de quem tinha obrigação de zelar pela boa gestão da coisa pública – tem de erigir-se a oportunidade de colocar de lado “medos, egoísmos, invejas e indiferenças”, aspetos que muitas vezes “encerram as pessoas no seu bem-estar” e as “isolam do convívio com aqueles que parecem diferentes”.

A este respeito, a OCPM, enquanto organização católica integrada na CEPSMH (Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana) sublinha que “a Igreja na sua solicitude maternal não faz aceção de pessoas”, mas, antes, “acolhe, cuida, reconhece, valoriza, promove o encontro e o diálogo entre pessoas, culturas e religiões…, porque é perita em humanidade”.

No texto do seu comunicado, a OCPM fala ainda numa “Igreja peregrina também através dos seus filhos que partem pelo mundo, numa aventura profética de denúncia de injustiças, conflitos, corrupções” e que “recorda a centralidade da dignidade da pessoa humana e do destino universal dos bens da terra”, sendo necessário, neste campo, seguir “desafiando governantes, nações e instituições a percorrer os caminhos do diálogo e cooperação, da injustiça e solidariedade”.

Também a OCPM recorda que “a comunidade cristã não só é chamada à conversão pessoal e comunitária, como também é enviada ao mundo para estar e ser luz, sal, fermento, a fim de transformar relações pessoais, familiares, institucionais, sociais”.

Aludindo ao apelo do Papa no sentido da solidariedade por palavras e gestos portadores da proximidade eficaz junto dos irmãos, a Obra Católica Portuguesa das Migrações pretende que os cristãos promovam “gestos concretos” de atenção a todos os migrantes, que passem “pela oração, pelas ações de sensibilização/formação, pelas ocasiões de encontro/convívio e gestos solidários que possam surgir em cada diocese, paróquia e missão católica”.

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É inegável o interesse deste instrumento prático de doutrina e ação em que é explanado o essencial do ser e da missão da Igreja encarnada num mundo de sofrimento e mudança profunda – a unidade do corpo na diversidade de membros, a imersão no Cristo do Evangelho, a senda da oração como fator de união ao Pai e suporte do apostolado, a atenção próxima e eficaz ao outro, a edificação da comunidade, mesmo sobre os escombros humanos plantados pelo desastre, desmando, egoísmo hostilidade e indiferença de tantos e tantas.

Neste sentido, a 43.ª Semana Nacional das Migrações culmina na habitual peregrinação dos migrantes ao Santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 de agosto – a peregrinação internacional de agosto, com o tema próprio “Formamos um só corpo” (Ef 4,4) que, este ano, é presidida por Dom Manuel das Silva Rodrigues Linda, bispo das Forças Armadas e de Segurança e vogal da CEPSMH – evento que estará em destaque na emissão do Programa ECCLESIA, na RTP2, com reportagens para acompanhar entre os dias 13 e 18 de agosto.

No términus da Semana Nacional das Migrações 2015, a 16 de agosto, as dioceses e paróquias portuguesas estão convocadas para uma “jornada de solidariedade” a favor dos migrantes e refugiados. Nessa data, todas as eucaristias serão celebradas em “ação de graças” por toda a proteção de Deus aos seus filhos e de prece pelo êxito do trabalho pastoral que a Igreja desenvolve em favor dos migrantes e refugiados. E os ofertórios desse dia reverterão para a missão da pastoral da mobilidade humana da Igreja Católica em Portugal.

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Sobre a peregrinação internacional de agosto e tendo em conta a temática da 43.ª Semana Nacional das Migrações, o Bispo das Forças Armadas e Segurança de Portugal teceu algumas considerações em entrevista a Leopoldina Simões, do Centro de Comunicação Social do Santuário de Fátima.

As suas declarações gravitam em torno do eloquente mote temático Os migrantes devem tornar-se evangelizadores de uma Europa que carece da luz da fé”.

É usual as diferentes realidades que caraterizam a migração serem evidenciadas nestas peregrinações de migrantes, seja pela elevada presença de comunidades e famílias migrantes em demanda do santuário, seja pela consonância com as preocupações da Igreja relevadas na Semana Nacional das Migrações.

Assim, Dom Manuel Linda antecipa as principais ideias-chave que deixará aos peregrinos: “que a Igreja é, por natureza, migrante” e que “a Europa estaria a lutar contra a história se construísse muros de qualquer espécie para barrar a entrada de emigrantes”.

O bispo vogal da CEPSMH apoia-se no exemplo de Abraão e no fenómeno da difusão do cristianismo após o martírio de Estevão devido, precisamente, às migrações dos cristãos por motivos de segurança”, para comprovar a natureza migrante da Igreja. E assegura que também hoje os migrantes “têm de sair das suas legítimas preocupações económicas e tornarem-se evangelizadores de uma Europa que carece da luz da fé”.

Verificando que a sociedade e a Igreja da Europa se deparam com a intempestiva chegada de muitos migrantes, em grande número em situações de extrema gravidade humana e social, este bispo adverte que o projeto de Deus deve estar acima de todos os interesses. E explicita:

“Quanto ao acolhimento dos migrantes na Europa, embora com critérios de racionalidade, é preciso lembrarmo-nos de que Deus criou o mundo, como casa comum de todos os homens, e nós criamos as nações, enquanto linhas imaginárias de fronteiras, mas o projeto de Deus tem de se sobrepor aos regionalismos humanos”.

Quanto à oração e seu enquadramento na peregrinação internacional aniversária, o bispo antecipa a principal intenção da oração que pretende promover e fazer em Fátima: “rezar por todos os pobres do mundo que arriscam tudo para atingirem uma existência minimamente humana” e, de “uma forma especial, pelos africanos que intentam chegar à Europa através do Mediterrâneo e os do Médio Oriente que fogem às guerras fratricidas”. E a quem menospreza o valor da oração, D. Manuel Linda esclarece que a oração pela paz “não é para mover ou demover o mundo ou os que mandam nele: é para que Deus lhes humanize o coração, para que sejam menos selvagens, é para se tornarem mais pessoas”. 

Depois lembra que a oração intensa e solidária corresponde ao cumprimento de muitos pedidos de Nossa Senhora: Rezai, rezai muito. E sublinha que, por estas palavras ou outras semelhantes, “o apelo à oração percorre todas as aparições de Fátima”.

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Finalmente, a entrevistadora não desperdiçou o ensejo que teve de lhe suscitar declarações e solicitou-lhe um balanço sobre o trabalho desenvolvido no Ordinariato Castrense, diocese que se apresenta como aquela que, em Portugal, detém a missão de estar “ao serviço daqueles que vivem das armas mas que anseiam a paz do Senhor” – num momento em que Dom Manuel está a governar a diocese há sensivelmente um ano e meio.

A este propósito, o bispo começou por referir que “seria presunçoso dizer que já se transformou tudo, até porque o objetivo da Igreja, nas suas estruturas, é sempre o mesmo: que sejamos mais santos, isto é, mais amigos de Deus e dos outros irmãos; e esta tarefa nunca está suficientemente cumprida”.

Depois, avaliou o saldo como “imensamente positivo” e “de forte amizade e aceitação do bispo; da revalorização da figura dos capelães, pois cada vez me pedem mais… e eu cada vez tenho menos...; e de escuta da palavra do bispo”.

Releva os aspetos positivos em outras áreas, nomeadamente, a “credibilização do dado da fé no meio militar ou nas Forças de Segurança e o sentido de proximidade da Igreja a setores muitas vezes desprezados pela sociedade”.

Enfim, a avaliação que faz é extremamente positiva, quer sob o ponto de vista humano, pelo carinho que lhe dedicam, quer sob o ponto de vista da fé, pela assistência espiritual, que efetivamente se está a prestar.

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Só me resta fazer votos pelo bom êxito da Semana Nacional das Migrações, da peregrinação internacional dos migrantes e do trabalho pastoral deste grande bispo (de vida interior, aguda consciência crítica e audácia pastoral)!

2015.08.10 – Louro de Carvalho

domingo, 9 de agosto de 2015

Chantagem e difamação

“Experto crede roberto” é uma expressão latina cuja origem é desconhecida. Pensa-se que terá a sua origem num provérbio latino, que é citado na “Eneida” de Virgílio: “Experto credite” (lib. XI, versi 283-285). Que significa: “Acreditai no experiente”, a que a Idade Média terá acrescentado o Roberto, talvez para rimar.

No caso de Canelas, V. N. de Gaia, se a experiência é muito discutível, a credibilidade do padre Roberto Carlos foi posta em causa ao não se comprovarem as acusações que lançou contra o Padre Abel Maia.

E é estranho que, mesmo assim, Miguel Rangel, o líder do movimento que apoia a permanência do anterior pároco, continue a defender e a tentar tapar o sol com a peneira. Chega mesmo a afirmar que ele nem sequer fez chantagem! Aqui, sim, aplica-se outro provérbio em bom português: “Pior que ser cego é não querer ver”. Ou, como diria Nelson Rodrigues, o brasileiro do óbvio ululante: “O pior cego é o míope”.

No dicionário da Porto Editora pode ler-se que chantagem é “obter uma situação vantajosa sob a ameaça de revelações comprometedoras, reais ou fictícias”. Não foi isso que o Roberto fez em relação ao bispo do Porto? Não ameaçou ele revelar um comportamento grave de um sacerdote caso fosse removido de Canelas?

Teve azar, porque o bispo do Porto não se deixou chantagear. Em vez de aceder às suas pretensões e tentar abafar o caso, mandou a denúncia para o Ministério Público, que não comprovou as acusações e arquivou o processo.

O Padre Abel Maia pondera agora avançar com um processo contra Roberto Carlos por difamação. Tem todo o direito a fazê-lo, embora haja danos que nunca poderão ser ressarcidos, nomeadamente a perturbação provocada à comunidade de Fafe, que se viu privada do seu legítimo pastor, que, segundo consta, muito estimava e deverá continuar a estimar.

Não sei se juridicamente isso é possível, mas tanto a arquidiocese de Braga como a paróquia de Fafe deveriam poder exigir perante a justiça uma indemnização pelos danos causados na vida da comunidade, fruto das afirmações que vieram a ser declaradas infundadas.

Seria bom que os apoiantes de Roberto Carlos repensassem o seu apoio incondicional e cego a quem parece não o merecer. E, já agora, que não deixassem que as paixões lhes turvem as vistas.

Fernando Calado Rodrigues (Texto publicado no Correio da Manhã de 31/07/2015), visto aqui

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A importância de se chamar Cecil

Cecil era um leão que vivia numa área protegida no Zimbabué. Os seus passos eram seguidos por investigadores de Oxford, era um animal considerado sociável e particularmente fotogénico – as suas fotografias pela internet são mais que muitas. Era um leão conhecido na região, e no mundo, de uma grande beleza, e do qual gostavam todos quantos o conheciam.


Na passada semana, numa caçada, Cecil acabou decapitado e sem pele. O seu perpetrador, Walter Palmer, cidadão norte-americano, médico dentista, pelos vistos, caminha para o mesmo destino.
Para além das ameaças de morte, do Pólo Norte ao Pólo Sul, manifestações de revolta, insultos e pedidos de extradição, a administração de Obama decidiu também abrir um inquérito ao que terá ocorrido, a fim de se apurarem as devidas responsabilidades, e de que a punição seja exemplar.

Palmas.

Pela mesma altura foi divulgado um vídeo que mostra a directora da Planned Parenthood, uma associação americana que promove e colabora na prática de abortos nos Estados Unidos da América, a vender órgãos de bebés em troca de somas avultadas de dinheiro e outros gozos materiais, tais como, por exemplo, um Lamborghini. 

A seguir ao vídeo, outro, e outro.... Tráfico de órgãos de bebés. Bebés que são mortos e desmembrados. A troco de dinheiro, muito dinheiro. Sob a máscara de “saúde sexual e reprodutiva”. Seguido do choque inicial, que levou a que muitas empresas, como a Coca-Cola, Xerox ou a Ford, se desvinculassem da Planned Parenthood, a reacção do Partido do mesmo Obama: outro inquérito. Mas desta feita não para apurar responsabilidades, não para punir exemplarmente, mas para silenciar, para compactuar, para fingir que este horror não existe. Um inquérito para averiguar, pasme-se, a legalidade das imagens obtidas. 

E agora, o silêncio.

O sepulcral silêncio dos media, das televisões, das rádios, das redes sociais. O silêncio que esconde o sangue dos inocentes. Onde estão as manifestações, as petições à Casa Branca, o choro, a indignação, a revolta, a vontade de fazer desaparecer esta gente da face da Terra? Onde estão os corações inflamados de justiça e de compaixão? A coragem de fazer frente, de proteger quem não pode ser protegido, de gritar por quem não consegue falar, de garantir a liberdade e defender a dignidade de quem tem a mesma Natureza? Onde está a identidade, a consciência de cada um?


Para onde caminhas tu, ó Homem, para onde caminhamos nós, nesta selva em que um rugido de um leão é mais importante que um choro silenciado de uma criança?
Catarina Nicolau Campos, senzapagare, 2015.08.02,  aqui


Nunca o insulto na praça pública foi solução


Vem a asserção enunciada em epígrafe a propósito do minicaixilho que vem na primeira página do semanário Expresso, do passado dia 1 de agosto, sob o título aspado “Bispo do Porto é uma marioneta”, que remete para uma entrevista com o padre Roberto Carlos na página 24.

Ao referido sacerdote cabe todo o direito de não gostar do Bispo do Porto. Porém, o dever de solidariedade sacerdotal obrigava-o a não desobedecer, pelo menos reiterada e ostensivamente, dando cobertura – ativa ou não, voluntária ou não – às enormidades antissociais e antieclesiais que um significativo setor populacional de Canelas, alegadamente assumindo-se como paróquia, vem pondo em prática com os perversos efeitos quer de nível vertical quer de nível horizontal. E, sobretudo, na relação interpessoal (pior ainda, na relação eclesial hierárquica), o insulto não tem lugar. Admito que em privado – por carta, telefonema ou em conversa face a face – um interlocutor ultrapasse as marcas da compostura, devendo, logo a seguir, se for o caso, emitir o seu pedido de desculpa. Todavia, usar as pantalhas de um jornal para leitores que nada têm a ver com o assunto, a não ser no que atinge o direito à informação, para no meio do arrazoado inconsistente insultar o interlocutor com quem subsiste um conflito na relação hierárquica, ultrapassa as fronteiras do bom senso, desdiz da caridade eclesial no caso e configura uma forma soez de dizer que se pretende servir o Povo de Deus.

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Já que acusei o toque da inconsistência discursiva, vamos por partes e talvez cheguemos à supina inconsistência atitudinal e comportamental.

O bispo do Porto, uns meses depois da sua tomada de posse da cátedra diocesana e entrada solene na Sé episcopal, procedeu a um conjunto de nomeações por decreto, em cujo preâmbulo apresenta a conveniente justificação pastoral.

Como determina do Código de Direito Canónico (CIC), no seu cânone 523, “sem prejuízo do prescrito no cân. 682 §1, compete ao bispo diocesano a provisão do ofício de pároco e, por livre colação, a não ser que alguém possua o direito de apresentação ou de eleição”.  Por seu turno, o §1 do cân. 682 prescreve que, “se se tratar de conferir a um religioso algum ofício eclesiástico na diocese, quem o nomeia é o bispo diocesano, sob a apresentação ou ao menos com o assentimento do Superior competente”.

Dado que nem o sacerdote em causa nem o sucessor estavam vinculados ao instituto a que chegaram a pertencer, não se colocava o prescrito no cân. 682 §1. Por outro lado, a paróquia em causa não dispõe histórica e subsistentemente de entidade com direito a apresentação ou a eleição do pároco. Por isso, a provisão de pároco compete ao bispo diocesano.

É óbvio que o bispo diocesano, no governo pastoral da diocese, deve ouvir as entidades e as estruturas previstas no CIC, designadamente vigários gerais e/ou episcopais, o cabido (se existir), o colégio dos consultores, o conselho de presbíteros, o conselho pastoral, o conselho económico e social e os serviços da cúria, consoante as matérias em causa, bem como os demais serviços que pelo bem da diocese houver por bem criar. Ademais, o cân. 384 recomenda que “o bispo diocesano acompanhe com solicitude os presbíteros, os quais ouça como colaboradores e conselheiros…”. Penso que, nestas matérias o bispo do Porto não apresenta défice.

É de calcular que as estruturas competentes tinham de ter feito o trabalho de casa, uma vez que a diocese corria o risco de no mês de julho de 2014 perfazer um ano de vacatura da sede episcopal, cabendo então ao administrador diocesano “nomear párocos”, como determina o n.º 2.º do cân. 525: “Enquanto a sé se encontrar vaga ou impedida, pertence ao administrador diocesano ou outrem que interinamente governe a diocese (…) nomear párocos, se já houver decorrido um ano desde que a sé se encontra vaga ou impedida”.

Será que o bispo diocesano, porque ouve as diversas entidades e estruturas como previsto no CIC, aceita globalmente o trabalho preparatório e acompanha os seus presbíteros, merece o título de marioneta? E o que merecerá o presbítero que desobedece ostensivamente, aceita ou promove atos de insubordinação manifestações desordeiras, celebra missas à revelia com ex-paroquianos, acompanha com eles o exercício da via-sacra e mesmo preside uma peregrinação a Fátima? Se calhar aplica-se o aforismo: só fala quem tem que se lhe diga.

Se o bispo não ouvisse ninguém decidisse tudo por si só, como é que seria apelidado. O facto de o superior hierárquico não concordar com o seu cooperador não quer dizer que não o tenha ouvido ou que não tenha o estilo de ouvir. Já em tempos idos eu criticava aqueles que propunham uma obediência acrítica ao bispo quando ele determinava coisas por eles sugeridas e barafustavam quando o seu bispo não dizia com eles.

Sem me colocar agora na discussão sobre o ser e missão da Igreja, quero deixar vincada a ideia de que dizer pura e simplesmente que a igreja não é democrática não faz sentido. Revela apenas que se terá um conceito único de democracia. É óbvio que a democracia política ao nível do Estado postula a eleição, porque se parte do princípio de que todo e qualquer cidadão no gozo dos seus direitos civis e políticos tem a capacidade eleitoral ativa e é capaz de ser eleito (capacidade eleitoral passiva). Não se exigem especiais capacidades para o desempenho da maior parte dos cargos públicos e, caso o seu desempenho se torne complexo, vem o auxílio dos círculos técnicos. Em Igreja, a capacitação para o exercício de alguns cargos – os fundamentais – é ontológica e não de raiz meramente eletiva. Assim, o múnus diaconal, presbiteral e episcopal exige, além da preparação doutrinal, a sagrada ordenação. Assim, o topo da governação da paróquia postula o múnus presbiteral e o da diocese postula o múnus episcopal; e o acompanhamento diaconal do bispo e da comunidade exige a ordem de diácono.

De resto, os demais cargos podem surgir por via eletiva ou por nomeação, bem como os órgãos colegiais, que se regem pelos respetivos estatutos. Mais: os elementos do conselho presbiteral são por norma eleitos (cf cân. 498).

Também nos Estados democráticos, embora o órgão legislativo seja resultante da eleição direta dos cidadãos eleitores (ditada tantas vezes pelos aparelhos partidários e pelos negócios de lugares elegíveis), o Governo não o é (é nomeado pelo Chefe do Estado, tendo em conta os resultados eleitorais), o Chefe do Estado pode não o ser (pode ser um monarca ou um eleito pelo parlamento ou por um colégio eleitoral específico) e os juízes também não o são. É que a democracia não se esgota na eleição. Também a servem as nomeações em conformidade com as leis, os concursos públicos, os concursos limitados, a participação em debates, a escrita, o exercício do direito de reunião, associação e manifestação, o voluntariado, etc.

Ora, se na democracia sublinharmos a dimensão participativa, talvez a Igreja seja mais democrática do que alguns a pintam. Porém, é conveniente salientar como nota típica da caminhada em Igreja a marca sinodal, ou seja, os crentes dispõem da sua disponibilidade pessoal e de alguns dos seus bens e voluntariamente aceitam discutir, rezar e trabalhar em conjunto, puxando uns pelos outros, mas respeitando o ritmo de cada um – no respeito, na exigência, na solidariedade.

Acentua-se a cada passo a índole hierárquica da Igreja. Porque não, desde que que não se anule a sua dimensão de povo e povo de Deus? Porém, se olharmos para a sociedade política, a hierarquia está mais do que presente em tudo: na escola, na empresa, na unidade de saúde, no clube, na sociedade comercial, no governo, na administração pública, nos tribunais, na organização militar, no protocolo do Estado, etc.

E note-se que a democracia não pode ser um fim em si mesmo. É um sistema (o menos mau de todos), um meio para atingir um grande objetivo: a satisfação do bem comum. Também o objetivo primordial em Igreja é a salus animarum.

***

Voltando ao caso do Expresso, como é que o sacerdote em causa se dá ao desporto de se armar em ministro de justiça em Igreja ou presidente do supremo tribunal de justiça eclesiástico, quando desobedeceu, insulta, faz trabalho subterrâneo (que recorrentemente vem à tona) com ex-paroquianos – missas privadas ou oficiosas (recorde-se que a missa é por natureza ato de culto público), vias-sacras, colaboração com a associação local UCR, vigílias, petições, cordões humanos, homenagens, recolha de assinaturas, megajantares? Mas nega que seja endeusado, fazendo-se fotografar, no entanto, frente à Sé Catedral do Porto. Quererá ser convidado para presidir ao tribunal da Assinatura Apostólica em Roma para tudo julgar em nome do Papa?

Depois, como arma de arremesso atira extemporaneamente para o bispo com um caso de alegado abuso sexual de menor de outro colega em tempos em que ambos os colegas eram da mesma congregação religiosa, um colega que não exerce na diocese em causa. Pelos visto, usou este expediente para se defender de supostos boatos a seu respeito. E, contra o ordenamento jurídico vigente, desvaloriza o seu arquivamento pelas entidades responsáveis pela investigação judiciária, alegando que a prescrição do crime não invalida a veracidade dos factos, mas esquece um pormenor significativo, não ter havido indícios nem queixas.

E não poupa ninguém: do alto do seu “justo e inquestionável saber” também o seu sucessor não é uma pessoa idónea neste processo. Juro que eu também não o sou!

Enfim, como é que se pode queixar de perseguição, silenciamento, compra, coação, se foi ele quem efetivamente se pôs de fora? Quer que os outros padres lhe façam a corte se não se reconhecem nas suas atitudes e se, melhor ou menos bem, tentam cumprir como sabem e podem a sua missão?

Posto isto, só é de esperar que o Senhor Bispo do Porto, embora se preocupe com todas as comunidades, com todas as paróquias e com todas as pessoas, não se desgaste demasiado com este caso, nem tenha de tomar qualquer medida que signifique censura, interdito ou coisa parecida. Que na sua paciência deixe definhar o caso.

Todavia, é necessária a solidariedade fraterna em torno do bispo do Porto e dos sacerdotes que arcam com as responsabilidades pastorais na paróquia em causa.

Por mim, a expressão de simpatia, amizade e a solidariedade possível. Deus nos dê lucidez e bom senso a todos!

2015.08.02 – Louro de Carvalho

sábado, 1 de agosto de 2015

Casamento do super-agente Jorge Mendes leva milhões a Serralves


É a “boda do ano” e vai deixar o Porto em alvoroço neste domingo, 2 de Agosto. Jorge Mendes, o “super-agente” do futebol, casa-se com a companheira de há uma década numa cerimónia que fecha Serralves ao público para acolher alguns dos homens mais ricos do mundo e ainda Cristiano Ronaldo.

Jorge Mendes, o empresário de futebol que tem estado envolvido em algumas das transferências mais caras do futebol mundial, como foi o caso da saída de Cristiano Ronaldo do Manchester United para o Real Madrid, oficializa a união civil de 10 anos com Sandra Mendes, a mãe dos seus três filhos, numa cerimónia religiosa na Igreja São João Baptista, na Foz, num verdadeiro acontecimento “faraónico”, destaca o Expresso.

Tudo isto porque o evento vai reunir no Porto figuras como Roman Abramovich, o magnata russo dono do Chelsea, Qatar Nasser Al-Khelaifi, o multimilionário do Qatar que é dono do Paris Saint-Germain, e Peter Lim, o empresário endinheirado de Singapura que é accionista maioritário do Valência e que comprou recentemente os direitos de imagem de Cristiano Ronaldo.

Além destes, estarão presentes ainda Florentino Pérez, o presidente do Real Madrid, Juan Laporta, ex-presidente do Barcelona, José Mourinho, o treinador do Chelsea e um dos mais bem pagos do mundo, Pinto da Costa, presidente do FC Porto, Jorge Jesus, treinador do Sporting, além de jogadores como Pepe e Fábio Coentrão, do Real Madrid.

E, claro está, o melhor do mundo Cristiano Ronaldo, que terá dado a Jorge Mendes como prenda de casamento uma ilha grega.

Correio da Manhã revela que a “boda do ano” vai custar 500 mil euros - “peanuts” para uma figura como Jorge Mendes, que tem uma fortuna estimada em 500 milhões de euros.

Feitas as contas, a Fundação de Serralves, que vai estar fechada ao público para acolher o copo de água da cerimónia, terá nos seus jardins convidados que valem mais de 13,5 mil milhões de euros, ou seja, quase 10% do PIB português, refere a TSF.

Muitos milhões passam assim por Serralves neste domingo e os noivos já anunciaram que vão doar os presentes que receberem em dinheiro a Instituições de Solidariedade Social.

Além do casamento, onde o padrinho do noivo será Peter Lim e não Cristiano Ronaldo, como se anunciou, será ainda celebrado o baptizado do filho mais novo do casal, Jorge Júnior, de 2 anos. Cristiano Ronaldo será o padrinho de baptismo do menino.
Fonte: aqui

Crer em Deus numa cultura secularizada


Está a decorrer, no Seminário Diocesano de Leiria, de 30 de julho a 2 de agosto, o Encontro de Reflexão Teológica 2015 (ERT 2015) organizado pelo movimento católico de profissionais “Metanoia” em torno do tema Crer em Deus numa cultura secularizada.

A escolha do tema parte dos seguintes pressupostos, como se pode ler no folheto/programa:

Crer em Deus não é necessário para se ser feliz. Crer em Deus tampouco é indispensável para ter valores importantes na vida ou para ter sentido para a vida. Todos convivemos ou conhecemos pessoas que comprovam estas afirmações. Contudo, acreditar no Deus de Jesus e no seu Evangelho podem constituir o maior tesouro na vida.

Daí, do tesouro que encerra a fé em Jesus Cristo, as questões que motivam a reflexão:

E, nesse caso, porque não partilhá-lo? Porque não testemunhar de um Deus verdadeiramente apetecível?

O tema central deste ERT, cujo desenvolvimento teológico ficou ao encargo do perito dominicano frei José Nunes, explicita-se através dos seguintes subtemas, correspondentes a outras tantas conferências: 1. Deus – um rival do Homem (?); 2. Deus criador – a criação como um dom; 3. Deus salvador-libertador: “não tenhais medo”; e 4. Deus da alegria.

As primeiras três das conferências foram proferidas no dia 31 (hoje), seguindo-se o trabalho de grupos, sob guião apropriado, e o plenário de partilha; e a quarta sê-lo-á dia 1 (amanhã), a que se seguirá a síntese do ERT.

Para lá do tema central acima enunciado, vários intervenientes apresentaram reflexão oportuna sobre várias experiências pastorais, na rubrica “painel de experiências”, do dia 30. Assim, o padre Idalino Simões falou sobre “A experiência pastoral na periferia das grandes cidades”; Paula Cristina Santos abordou o tema “Pelos caminhos de Santiago”; e António Marujo apresentou o tema “Escutar a Cidade, em preparação para o Sínodo de Lisboa”.

Durante o ERT 2014, os participantes organizaram um cartaz com “a indicação de um conjunto de iniciativas” onde os presentes tinham “uma participação ativa, designadas “Pequenos Milagres”, cujas iniciativas, este ano, foram revisitadas, de modo que se fique a saber o que realmente aconteceu durante o ano, neste âmbito, e se possam acrescentar outras experiências. Para esta revisitação serviu a rubrica do dia 30 “Pequenos Milagres”.

Além da conferência prevista, o dia 1 de agosto ficará marcado pelo “Passeio e visita ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota”, durante a manhã, bem como pela “Celebração Eucarística”, pelas 18,15 horas, e “Festa”, pelas 21 horas. Por seu turno, um concerto marcará a manhã do dia 2 de agosto, logo a seguir ao debate sobre “Que desafios a partir deste ERT?”.

Cada um dos outros dias contempla um momento forte de oração em comum, sendo que o último dia prevê um “Mosaico/Oração dos fiéis”.

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O que é o grupo “Metanoia”?

Para melhor compreensão deste movimento católico de profissionais, seu perfil e suas atividades, talvez não seja despiciendo um pequeno excursus etimológico e bíblico.

“Metanoia” é a transcrição do nome grego “μετάνοια”, que significa “mudança de sentimentos”, “arrependimento”. Depois, na literatura eclesiástica, passou a ter o significado específico de “penitência” (arrependimento com as obras consonantes com o arrependimento – conversão). Como é óbvio, “μετάνοια” relaciona-se com o verbo “μετανοέω”, que significa “mudar de parecer”, “arrepender-se”.

Porém, não parece que esta mudança seja automática ou instintiva. Veja-se que na formação de “μετανοέω” entra o verbo “νοέω”, com o significados de “pensar”, “cair na conta”, “ver”, “meditar”, “ser prudente”, “projetar”, “olhar para o futuro”. Ora, todos estes sentidos apontam para uma operação que é produzida na mente (na ideia, no intelecto), que mobiliza a consciência e a vontade, que possibilita a clarividência e que faz avançar para o futuro (sem receio, embora com algumas cautelas). Por outro lado, na formação de “μετανοέω” entra o prefixo “μετά”, a indicar, na derivação de palavras, a ideia de “comunidade”, “participação”, “entre”, “sucessão de tempo”, “a seguir”, “durante”.

O prefixo “μετά” resulta da forma igual com a função de advérbio (a significar “no meio”, “entre”; com ideia de lugar – “por detrás”, “a seguir”; com a ideia de tempo – “a seguir”; “detrás de outro, seguindo-o”) e de preposição (com genitivo, “em meio de”, “em companhia de”, “de acordo com”; com dativo, “em meio de”, “com”, “para”; com acusativo, “depois de”, “a seguir”, “entre”, “para”; com a ideia de tempo, “durante”).

Nos textos bíblicos do Novo Testamento, o apelo ao arrependimento/penitência/conversão é lancinante da parte de Cristo como condição da aceitação do Reino de Deus, que está próximo (vd Mt 4,17 e Mc 1,15) e constitui a predisposição para a fé no Evangelho. A forma verbal utilizada é “μετανοϊτε”, presente do optativo da voz ativa na 2.ª pessoa do plural do verbo “μετανοέω”. É a formulação do brado/apelo que exprime um vivo desejo do pregador, que se deve entender como uma viva recomendação, quase ordem, pois exprime a condição sine qua non da aceitação do Reino de Deus ou Reino dos Céus.

Também João Batista, o precursor, lança o mesmo brado/apelo ao arrependimento como predisposição para a purificação dos pecados. A forma verbal é a mesma (vd Mt 3,2).

Após a ressurreição e ascensão do Senhor, reforçada pelo Espírito Santo do Pentecostes, Pedro dirige aos circunstantes o mesmo brado/apelo, mas agora a forma verbal utilizada é outra, “μετανοήσατε”, no aoristo do imperativo na 2.ª pessoa do plural do mesmo verbo “μετανοέω” (vd At 2,38; 3,19).

O aoristo, no grego, indicava uma ação verbal ou um acontecimento, sem definir absolutamente o seu tempo de duração, ou sem definir com precisão o tempo em que a ação ocorreu ou havia de ter ocorrido. Ao invés, no grego do Novo Testamento, o aoristo tem como efeito reverter a um momento, ou seja, considera a ação como num curto instante: representa um momento de entrada ou de término ou, então, faz o enfoque numa ação completa de algo que tenha ocorrido simples e isoladamente, sem distinguir passos ou detalhes do progresso da ação.

No caso vertente, o arrependimento refere-se a ações pecaminosas do passado e, se elas voltarem a ocorrer, o mesmo arrependimento se impõe com mais força. O arrependimento, seguido da fé no Reino, abre a porta do futuro irreversível. E esse futuro não pode esperar mais.

É óbvio que muitos textos bíblicos fazem eco ora do brado/apelo ao arrependimento (cf 1Rs 8,47; Ez 18,30-31; Mt 21,29-32; Mc 1,4; 6,12; Lc 1,16; 13,5; 15,7.10; 24,47; At 17,30), ora da atitude sincera de arrependimento assumido (Mt 12,41; 21,29-32; Jb 42,6; Lc 15,17-20; At 11,18) ou da sua obstinada rejeição (cf Mt 11,20; Lc 16,19-31).

Por tudo isto, se vê como o arrependimento é uma atitude provocada pela pregação do Reino, predispõe para a fé na Boa Nova. Impõe-se contra o tempo e exige a mudança das mentalidades, do coração, das atitudes e dos comportamentos de cada um no contexto comunitário. Implica, pois, um novo rumo, configura uma nova vida. A conversão não se fica pelas aparências; tem de ser real, fruto da pregação dos conteúdos da fé e da lúcida e voluntariosa reflexão pessoal coadjuvada pela comunidade e sua força. Porém, sendo real, tem de frutificar também no exterior, no ambiente; tem de ter consequências. Recordemos que o prefixo “μετά” configura a ação no espaço em que se vive e no tempo em que temos mesmo de agir sem demoras e sem precipitações.

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Sendo assim, o movimento “Metanoia” assume-se como espaço e tempo de encontro, acolhendo pessoas, crentes ou não, nas mais variadas circunstâncias de vida. O encontro acontece a partir daquilo o que cada um vive, experiencializa e transporta, procurando não separar interioridade e exterioridade, reflexão e vivência, princípios e ação, espiritualidade e cidadania, opções pessoais e futuro das nossas sociedades.

O movimento propõe-se “construir comunidade entre pessoas com condições pessoais, profissionais e percursos de vida diversos, para quem o encontro e a celebração da fé em Jesus Cristo são indissociáveis da abertura aos outros, num processo nunca acabado de conversão pessoal” (cf site do movimento), com recurso “a formas organizativas” que se querem “leves e flexíveis, baseadas nos princípios da participação democrática, da corresponsabilidade, do voluntariado e da assunção coletiva dos encargos”.

Configura outrossim:

. Um espaço de descoberta e vivência da fé que dá sentido ao vivido, que integra e inclui a partir do essencial – Jesus, que nos seus gestos e palavras sempre amou e incitou ao amor.
. Uma experiência de Igreja construída na fragilidade e que bebe da sabedoria de tantos homens e mulheres que viveram e vivem a experiência de Deus e dão sentido à Paixão de Jesus.
. Um espaço de liberdade, corresponsabilidade, reflexão e partilha de vida, de conversão e aprendizagem com os outros.

 

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É claro que o mecanismo vital de reflexão/ação/reflexão de um movimento de Igreja que respeite e assuma a secularidade e se movimente evangelicamente no seu contexto constitui uma mais-valia inquestionável para realização do ser e da missão da Igreja no mundo encarado de modo holístico e na dinâmica do enriquecimento setorial. Sobre a aridez da secularidade autónoma (e, mesmo, da laicidade positiva), sobre a fluidez das ideologias e sobre o manto esfarrapado das desigualdades ou das desequilibradas assimetrias, é preciso estabelecer as necessárias pontes para que o homem do século XXI seja feliz e, nessa felicidade, veja em Deus e no outro homem os aliados mais vizinhos e mais solidários – o que se conseguirá se se apostar na construção de autênticas comunidades.

2015.07.31 – Louro de Carvalho