sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Nuno Álvares Pereira

Nuno Álvares Pereira nasceu a 24 de Junho de 1360. Aos treze anos entra no séquito do Rei Dom Fernando, sendo, pouco depois, armado cavaleiro. Em 1376, a 15 de Agosto, por obediência ao pai e embora contrariado – pois o exalta já o sonho de imitar o exemplo de Galaaz e fazer voto de castidade – casa com D. Leonor de Alvim, rica dama de Entre-Douro-e-Minho.
Dos três filhos do seu matrimónio, dois faleceram ainda crianças, ficando apenas uma filha, Beatriz, que veio a casar com o filho do rei D. João I, D. Afonso, primeiro duque de Bragança.
Quando, a 22 de Outubro de 1383, faleceu o rei D. Fernando I, não deixou filhos varões, mas apenas uma filha casada com o rei de Castela, que pretendeu apoderar-se da coroa de Portugal. Opôs-se-lhe D. João, Mestre de Avis, irmão de D. Fernando, com o apoio de D. Nuno Alvares Pereira. Este, nomeado Condestável, conduziu o exército português a várias vitórias contra os castelhanos, até à vitória final, em Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385.
As hostilidades contra os castelhanos ainda prosseguiram algum tempo e o Condestável deu sempre testemunhos constantes da agudeza do seu génio militar e da rijeza do seu braço.
Entretanto finda a guerra com os castelhanos e tendo morrido a sua esposa, D. Nuno distribui grande parte dos bens pelos seus companheiros, antigos combatentes, e faz-se carmelita, com o nome de frei Nuno de Santa Maria. A sua humildade e grande fé granjearam-lhe fama de santidade. Logo após a sua morte, no dia 1 de Abril de 1431, Frei Nuno começou a ser chamado "santo" pelo povo. Beatificado por Bento XV, só em 2009 foi canonizado pelo Papa Bento XVI.
Fonte: aqui

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dividir o que não deve ser dividido?


Não se estranha, por legítima e expectável, a decisão do Presidente da República de, ouvidos os partidos com assento parlamentar, indigitar, “como Primeiro-Ministro, o Dr. Pedro Passos Coelho, líder do maior partido da coligação que venceu as eleições do passado dia 4 de outubro”. Porém, Cavaco Silva não se limitou a uma justificação fundamentada na sua responsabilidade constitucional plasmada no n.º 1 do artigo 187.º da CRP, que estabelece: “O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais”. Foi muito mais longe dividindo até o que não devia ser dividido neste momento, ao menos por si.
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Tem razão quando afirma que Portugal “necessita de uma solução governativa que assegure a estabilidade política”. Concede-se que tenha razão também ao referir “essa solução governativa deve dar garantias firmes de que respeitará os compromissos internacionais historicamente assumidos pelo Estado português e as grandes opções estratégicas adotadas desde a instauração do regime democrático”. Não obstante, não é líquido que o Presidente possa garantir Urbi et Orbi que as ditas “grandes opções estratégicas “foram sufragadas pela esmagadora maioria dos cidadãos nas eleições de dia 4 de outubro”. Esta asserção corresponde a uma das leituras possíveis, mas que não cabe ao Presidente impor.
Depois, Cavaco Silva, enquanto garante da “unidade do Estado” (vd CRP, art.º 120.º) divide os partidos políticos entre bons e maus – ou seja, os “que apoiam e se reveem no projeto da União Europeia e da Zona Euro” (até agora tidos como os do arco da governabilidade) e os que “defendem a revogação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental, da União Bancária e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como o desmantelamento da União Económica e Monetária e a saída de Portugal do Euro, para além da dissolução da NATO, organização de que Portugal é membro fundador”. Os primeiros servem para governar; os segundos são de protesto e parecem servir unicamente para enfeitar a Assembleia da República. Esquece que os governos provisórios eram constituídos por elementos quase na totalidade conotados com o PCP e nunca estiveram em causa os compromissos internacionais de fundo.
Por outro lado, Cavaco Silva faz mais duas acusações: houve partido ou partidos do arco da governabilidade cujo programa eleitoral está a ser renegado; e os partidos da coligação que ganhou as eleições também não foram suficientemente hábeis para que “os contactos efetuados entre os partidos políticos” produzissem “os resultados necessários para alcançar uma solução governativa estável e duradoura”.
Ademais, o Presidente da República (presidente de todos os portugueses), enquanto garante do “regular funcionamento das instituições democráticas” (ib et ib), não pode diabolizar alguns partidos por serem antieuropeístas e, portanto, prescindíveis: “em 40 anos de democracia, nunca os governos de Portugal dependeram do apoio de forças políticas antieuropeístas” (disse).
Perante esta situação – “tanto mais singular quanto as orientações políticas e os programas eleitorais desses partidos (os do arco da governabilidade) não se mostram incompatíveis, sendo, pelo contrário, praticamente convergentes quanto aos objetivos estratégicos de Portugal” – o Presidente lamenta “profundamente que, num tempo em que importa consolidar a trajetória de crescimento e criação de emprego e em que o diálogo e o compromisso são mais necessários do que nunca, interesses conjunturais se tenham sobreposto à salvaguarda do superior interesse nacional”. E confessa com espanto:
“É tanto mais incompreensível que as forças partidárias europeístas não tenham chegado a um entendimento quando, num passado recente, votaram conjuntamente, na Assembleia da República, a aprovação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental e do Mecanismo Europeu de Estabilidade, enquanto os demais partidos votaram sempre contra” – divisão em absoluto, parlamentarmente comprovada (digo eu).
Quanto aos partidos envolvidos na solução – PSD e CDS – fazendo de conta que não estão incluídos no objeto do lamento do supremo timoneiro, saudaram a decisão presidencial e a sua alocução. O partido autoexcluído da solução governativa criticou o Presidente e parece ter colhido do seu discurso o adequado estimulante à coesão de que precisava neste momento crucial para a vida socialista. Os governoexcluídos reafirmaram o seu envolvimento estratégico em torno do PS para a formação de um governo estável e duradouro.
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Cavaco Silva deixou cair anteriores pressupostos, como a exigência de um governo apoiado por clara maioria parlamentar e o erro de ter empossado um governo minoritário, bem como a diferença entre outros momentos pós-eleitorais e o presente. E, com estoica resignação e alguma ironia, declarou:
Tive presente que, nos 40 anos de democracia portuguesa, a responsabilidade de formar Governo foi sempre atribuída a quem ganhou as eleições.
Assim ocorreu em todos os atos eleitorais em que a força política vencedora não obteve a maioria dos deputados à Assembleia da República, como aconteceu nas eleições legislativas de 2009, em que o Partido Socialista foi o partido mais votado, elegendo apenas 97 deputados, não tendo as demais forças políticas inviabilizado a sua entrada em funções.
Porém, o próprio Presidente se achou dividido: fez a firme apologia da União Europeia como “opção estratégica do País” e “essencial para a consolidação do regime democrático português”, bem como do relevo da “observância dos compromissos assumidos no quadro da Zona Euro” (“fora da União Europeia e do Euro o futuro de Portugal seria catastrófico”); mas receia “muito uma quebra de confiança das instituições internacionais, nossas credoras, dos investidores e dos mercados financeiros externos”. Estranho medo e estranho aviso!
Como é? Se entende que a decisão pró-governativa que tomou foi a melhor, não se percebe porque receia, a não ser que Portugal nos últimos anos não tenha sido tão bom aluno da UE e do EURO como nos apregoaram ou tenha anulado o resultado das aulas recebidas nos meses do período eleitoral.
Talvez, contrariamente ao que assegura Cavaco Silva, seja este um bom momento para “alterar radicalmente os fundamentos do nosso regime democrático”, se efetivamente os partidos ditos não europeístas passarem a ser coerentes com a ação que desenvolvem no quadro do Parlamento Europeu. Os partidos não são imutáveis e fixistas. Veja-se a origem do PS ou onde para a socialdemocracia do PSD e a democracia cristã do CDS.
Quanto à vontade democrática expressa nas urnas, pergunto-me quem assegurará de ciência certa qual foi ela, dado que os números permitem uma boa poligrafia de leituras.
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É certo que ao Presidente da República cabe, “de forma inteiramente livre, fazer um juízo sobre as diversas soluções políticas com vista à nomeação do Primeiro-Ministro”. Porém, o Presidente não pode alijar a responsabilidade para outrem assim sem mais. A liberdade de juízo implica uma ética de responsabilidade além da ética da convicção, aliás como Cavaco Silva referiu quando se sentiu na obrigação ética de promulgar uma lei sobre um tema fraturante como o do casamento das pessoas do mesmo sexo (fê-lo invocando, em detrimento da ética da convicção, precisamente a ética de responsabilidade). Agora, parece ter preferido a ética da convicção passando, no quadro da ética da responsabilidade, para os partidos políticos a responsabilidade pelas consequências de uma eventual rejeição do programa de governo, nomeadamente os que não são do arco da governabilidade, pois referiu: 
“Se o Governo formado pela coligação vencedora pode não assegurar inteiramente a estabilidade política de que o País precisa, considero serem muito mais graves as consequências financeiras, económicas e sociais de uma alternativa claramente inconsistente sugerida por outras forças políticas. Aliás, é significativo que não tenham sido apresentadas, por essas forças políticas, garantias de uma solução alternativa estável, duradoura e credível”.
Insistindo na descrença na esquerda e na regra que sempre vigorou de que “quem ganha as eleições é convidado a formar Governo pelo Presidente da República”, referiu que “a última palavra cabe à Assembleia da República ou, mais precisamente, aos Deputados à Assembleia da República”. E aqui o Presidente faz mais uma divisão, ao dividir a Assembleia da República em AR má e AR boa ou responsabilizando por eventual rejeição do programa do governo a apresentar pelo Primeiro-Ministro os deputados que votarem a respetiva moção. Por outro lado, em vez da cooperação institucional e da interdependência entre os diversos órgãos de soberania, o garante da unidade do estado e do funcionamento das instituições democráticas, preferiu a separação dos poderes e dos atores, lavando as mãos: “como Presidente da República assumo as minhas responsabilidades constitucionais; compete agora aos Deputados assumir as suas”.
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É caso para perguntar: Qual foi a parte do Presidente que indigitou Passos Coelho, a direita ou a esquerda? Qual foi aquela que criticou o PS e anatematizou o PCP e o BE, a da política europeia ou a da ética republicana? Qual é aquela que confessou medo da reação dos credores e dos mercados, a do estadista ou a do antigo líder do PSD? Qual é a que os portugueses devem levar a sério na sua alocução, a do discurso protegido constitucionalmente ou a da ironia, do medo, da crispação (estranhada pelo presidente da CIP), da acusação ora despiciente ora intimidadora?
Poderemos escrutinar as leis que nos regem apontando o dedo não exatamente à Assembleia da República, mas unicamente aos deputados que as aprovaram, louvando-os, se elas nos agradam, e proferindo doestos contra eles, se efetivamente elas nos molestam? Poderá o mesmo dizer-se das deliberações dos outros órgãos de soberania – governo e tribunais coletivos?
Não é verdade que as deliberações de qualquer órgão colegial são tomadas à pluralidade dos votos por unanimidade ou por maioria e, no caso da Assembleia da República, umas leis são aprovadas por maioria absoluta dos deputados presentes (desde que haja quórum), outras por maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções e outras por maioria de dois terços desde que superior à maioria dos deputados em efetividade de funções?
Um órgão de soberania não pode nunca jamais em tempo algum deixar de ser tomado na sua totalidade.
Por fim, não pode o Presidente apelar à consciência dos deputados sabendo da premência da disciplina partidária em temas estruturantes. Divisão em soberania, não, Excelência de unidade!
2015.10.22 – Louro de Carvalho

COMO SAIR DESTE IMPASSE?

1. Uma mesma frase pode ter mais do que uma interpretação.
O artigo 187 da Constituição diz que «o Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais».
2. A discussão centra-se no sentido que deve ser dado a «tendo em conta os resultados eleitorais».
Quem conclui que o primeiro-ministro deve ser a pessoa indicada por quem ficou em primeiro lugar nas eleições sente que está certo.
Mas quem deduz que o primeiro-ministro deve ser a pessoa indicada pela maioria gerada pelas mesmas eleições também sente que não está errado.
3. Nenhuma dificuldade existe quando o vencedor é apoiado por uma maioria de deputados.
O problema é quando a força mais votada não detém maioria.
4. Nesse caso, a quem entregar a governação?
Quando uma maioria de oposição não actua em bloco, acaba por haver sempre quem (geralmente pela abstenção) viabilize o governo. E se a maioria rejeitar o governo?
5. Olhemos para o que se está a passar entre nós.
O Presidente interpreta a Constituição de uma maneira e a maioria do Parlamento parece interpretar a mesma Constituição de outra maneira.
6. Assim sendo, o governo indicado pelo Presidente arrisca-se a não ser aprovado pela maioria do Parlamento.
E um governo apoiado pela maioria do Parlamento arrisca-se a não ser aprovado pelo Presidente.
7. Como sair deste impasse?
Ainda acredito que o bom senso impere e que o bem do país desbloqueie o que, a esta hora, ameaça permanecer bloqueado.
8. Pelo tom dos discursos, não é de crer que haja grandes aproximações.
Cada um deve assumir a sua responsabilidade perante o povo. Mas receio que o «preço» de tudo isto venha a ser pago pelo mesmo povo.
9. O povo escolheu os seus representantes também para que eles dialoguem entre si.
E se experimentassem indicar um primeiro-ministro que pudesse ser aceite por todas as forças do Parlamento?
10. Lembrei-me, por exemplo, do Dr. Guilherme de Oliveira Martins.
É sério e tem boa aceitação em campos diferentes do espectro partidário.
11. É só uma sugestão, que sei antecipadamente não ter qualquer acolhimento.
Limito-me, por isso, a pedir que não prolonguem mais esta indefinição. Alguém sairá vencedor disto se o país vier a perder com tudo isto?
Fonte: aqui

sábado, 24 de outubro de 2015

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Adversários ou inimigos?

Uma das qualidades essenciais em política sob uma democracia é conhecer a diferença entre um inimigo e um adversário. Um adversário quer derrotar-te. Um inimigo quer destruir-te. Se tratares os teus opositores como inimigos, conduzirás a política como se fosse uma guerra e todos os meios são permitidos. Se olhares para o teu oponente como um adversário, nem todos os meios são permitidos: porque esperarás poder tornar um adversário de hoje num amigo ou aliado amanhã.
Michael Ignatieff
intelectual e político canadiano (1947 - …)
(citado por José Manuel Fernandes, Macroscópio, 2015.10.21)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Atenções centradas nos bispos alemães

Para surpresa de muitos, os bispos alemães no sínodo apresentaram uma proposta unânime que poderá permitir a algumas pessoas em uniões irregulares ter acesso aos sacramentos. A surpresa está mais na unanimidade do que na proposta.
 
Cardeal Marx, um dos protagonistas alemães do Sínodo dos Bispos. Foto Twiter

A conferência de imprensa diária do sínodo dos bispos sobre a família foi dominada, esta quarta-feira, pelo cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal alemã e visto como um dos maiores defensores da mudança da prática da Igreja em relação a questões como o acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares.
O tema tem sido alvo de grande polémica e discussão. Do outro lado da barricada, o cardeal George Pell, da Austrália, deu uma entrevista em que criticou os defensores da mudança, dizendo que representam a “teologia kasperiana”, devido ao cardeal Walter Kasper, também alemão, que foi o primeiro a propor, o ano passado, uma “via penitencial” ao fim do qual algumas pessoas nesta situação poderiam ser readmitidas aos sacramentos.
Pell contrapôs esta “teologia kasperiana” à “ratzingeriana”, numa alusão ao Papa Bento XVI que enquanto Papa sempre defendeu a prática actual da Igreja. Mas a comparação não caiu bem entre os bispos alemães, afirmou Marx.
“Ficámos mal impressionados com a entrevista do cardeal Pell quando ele se referiu às duas correntes de teologia – a kasperiana e a ratzingeriana – como batalha final entre dois grupos. Essa linguagem não é aceitável nem útil para se falar dos padres sinodais. No sínodo não fazemos batalhas. Não se trata de Ratzinger contra Kasper”, afirmou.
O grupo trabalho de língua alemã, no sínodo, tem sido observado muito de perto, uma vez que é composto pelos cardeais Marx, Kasper, Christoph Schönborn – de Viena – e ainda o cardeal Gerhard Muller, prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, e que tem sido visto como um defensor acérrimo da prática actual. Os relatórios do grupo alemão mostram que foi neste que as discussões assumiram uma maior profundidade teológica.
Contudo, na conferência de imprensa, o cardeal Marx realçou que a proposta final do grupo alemão para esta questão foi aprovado por unanimidade. “A maioria das pessoas concorda com o essencial da questão doutrinária da Igreja e no que diz respeito à questão dos divorciados recasados claramente toda a gente abordou o assunto e nós fizemos uma proposta no grupo alemão que foi aprovado por unanimidade, sem qualquer voto contra. Isto é muito importante, na minha opinião, por isso espero que este sínodo não seja um sínodo de portas fechadas, mas de portas abertas, para o povo.”
A chave para lidar com este problema, defende o grupo alemão, é dar atenção pastoral a cada caso, permitindo que a pessoa em causa chegue a uma conclusão com a ajuda de um assistente espiritual.
“Temos de olhar para as diferentes situações – como diz na 'Familiaris Consortio' –, discernir as coisas e a situação e também, como diz São Tomás, olhar para a situação especial e para a pessoa especial no seu contexto. E isto não é possível numa comissão. É o desafio normal da pastoral acompanhar uma pessoa de forma espiritual e deve ser feito por um sacerdote.”
“Damos também alguns critérios. Por exemplo, a pessoa deve ver o que fez no primeiro casamento, qual é a minha relação com a família do meu ex-marido ou mulher, e com os filhos, as responsabilidades e a reputação na comunidade eclesiástica, e por aí fora. Isso são coisas que o foro interno clarificará, não são processos públicos, são caminhos espirituais e, aí sim, será possível determinar se e quando é possível uma reconciliação completa”, afirmou ainda.
Esta quarta-feira a comissão responsável pela redacção do documento final esteve a trabalhar e o produto desse esforço será submetido à discussão em plenário na quinta-feira. Sexta e sábado serão dedicados a emendar esse primeiro esboço e a versão final será submetida a votação no domingo, parágrafo a parágrafo.
Fonte: aqui

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A crise da carência de Deus na base de todas as crises


Decorreu em 12 e 13 de Outubro de 2015, em Fátima, a peregrinação aniversária internacional de outubro sob a presidência do cardeal italiano Dom Giovanni Battista Re, Prefeito Emérito da Congregação para os Bispos e Presidente Emérito da Pontifícia Comissão para a América Latina. As celebrações observaram o programa das peregrinações aniversárias de maio a outubro e desenrolaram-se em torno do tema “Vigiai e Orai” (Mt 26,41).

Esta foi a quinta vez que Sua Eminência esteve em Fátima, destacando-se a sua presença no Santuário por ocasião das duas últimas visitas do Papa João Paulo II, em 1991 e em 2000.

Dados do Santuário indicam que se inscreveram para a peregrinação 127 grupos de diversos países, sendo a maioria deles oriundos da Alemanha, Itália, Polónia, Espanha e Timor-Leste.

Já na manhã de 18 de setembro, a partir de Roma, o purpurado da Cúria Romana prestou declarações à Sala de Imprensa do Santuário de Fátima, mostrando-se “muito feliz” com a possibilidade de vir a Fátima presidir a esta peregrinação, a convite de Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, explicitando que regressava a este santuário com grande alegria e que seria um momento muito importante na sua vida este, o da sua 5.ª peregrinação à Cova da Iria.

Efetivamente, o purpurado, de 81 anos de idade, esteve em Fátima em dois momentos da sua vida “por devoção pessoal a Nossa Senhora de Fátima” e em outros dois momentos “importantes na história de Fátima e da Igreja”: por ocasião das duas últimas peregrinações do Papa João Paulo II a Fátima, no ano de 1991 (10.º aniversário do atentado contra o Papa na Praça de São Pedro) e no de 2000 (ano do jubileu do milénio e beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco).

A propósito da sua participação presidencial nesta peregrinação, referiu na ocasião, o que agora reiterou, que estaria em Fátima “como peregrino entre os peregrinos” e que trazia consigo duas intenções principais:

“Honrar e venerar Nossa Senhora, e pedir-lhe ajuda e proteção para mim e para a Igreja e também para as famílias, já que estaremos unidos a todos os participantes no Sínodo sobre a Família [Vaticano, de 4 a 25 de outubro de 2015]”.

Não havendo ainda tido, naquela data, a possibilidade de informar o Santo Padre Francisco de que viria a Fátima, o cardeal afirmou que “queria dizer-lho” e anunciou também que viria confiar “a Nossa Senhora de Fátima os bons resultados espirituais do Ano do Misericórdia [com início a 8 de dezembro de 2015], solenidade da Imaculada Conceição, que devem ser aquilo de que os acontecimentos de Fátima nos falam: necessidade de conversão, de oração e de misericórdia”, até porque “ainda que os acontecimentos de Fátima se situem numa época passada, valem para hoje e apontam para o futuro”.

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O Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, em conferência de imprensa, no dia 12, teceu considerações sobre o contexto sociopolítico em que se move o país, denominando-o de “momento crítico”, e aproveitou o areópago fatimita para apelar aos responsáveis políticos a “que manifestem uma profunda responsabilidade pelo bem comum”, colocando “os interesses do país acima dos interesses partidários”, para que se possa criar um clima de estabilidade e crescimento económico, “que promova a erradicação da pobreza e a criação de emprego”. Contudo, o prelado – também Vice-Presidente da Conferência episcopal e do seu Conselho Permanente – mostrou “esperança de que os nossos responsáveis encontrem o caminho mais justo para o país”.

Dom António Marto lembrou ainda a visita dos bispos portugueses Ad Limina Apostolorum, que ocorreu em setembro passado, sublinhando que o Papa reafirmara “a sua vontade de estar presente no Santuário” e que nos vários encontros foi sublinhada a importância de Fátima. Por outro lado, os temas do Santuário estiveram muito presentes naquela visita, incluindo os momentos de presença dos prelados na Congregação para as Causas dos Santos, que “manifestou interesse na canonização dos pastorinhos”. Em relação à possibilidade de a visita papal poder ser mais alargada ao país, o Bispo de Leiria-Fátima afirmou que “neste momento só está garantido que o Papa vem” ao Santuário.

Na predita conferência de imprensa, Dom António Marto aludiu à visita da Imagem Peregrina da Virgem Maria às dioceses portuguesas, relevando a receção de inúmeros relatos de “multidões congregadas em torno de Nossa Senhora”, e assegurou que esta visita tem tido frutos muito positivos no país, que vem celebrando o centenário das aparições.

Na convicção de que a observância da mensagem da Virgem é garantia espiritual da consecução da paz, o prelado fatimita proferiu uma especial saudação ao Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia, laureado com o Nobel da Paz, neste ano de 2015, confessando que recebeu a notícia “com grande satisfação”, acentuando a importância da sociedade civil para a construção da paz.

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Escutando e relendo as homilias do cardeal Re em Fátima, pode notar-se quão difícil se torna num mundo demasiado laicizado no pior dos sentidos a assunção generalizada do tema “Vigiai e orai”.

Na celebração eucarística da vigília da noite do dia 12, o presidente da assembleia litúrgica aproveitou a homilia para acentuar alguns “sinais preocupantes de futuro em risco”, dando exemplos das “várias crises atuais”. O Prefeito Emérito da Congregação para os Bispos relevou a magnitude da “crise económica e financeira que desde há vários anos pesa sobre as famílias”, aliada à crise moral e à crise social, que “comporta tantos problemas”, frisando que “na base destas crises está uma, que é a raiz de todas as outras: a carência de Deus”.

O cardeal sublinha o tema fundamental da vida do homem: o amor de Deus por nós, ao ponto de vir habitar em cada homem e em cada mulher, fazendo de cada um de nós “o seu templo”. E salientou o facto de Cristo haver derrubado os objetos de venda no Templo de Jerusalém e expulsado os vendilhões (cf Jo 2,14-17), para nos interrogar sobre que lugar o templo humano de Deus ainda tem lugar para Deus, quando andamos assolados pelo bem-estar material e pelo culto dos ídolos mundanos. Tinha já, por certo, em mente a denúncia, que fez no dia seguinte, do regime antiteísta da URSS e similares, que durou mais de 70 anos, e o nazi-fascista dito cristão, de mais de 12 anos, os quais perseguiram, atropelaram mortal e cruelmente e eliminaram milhões e milhões de cristãos, judeus e elementos de outras religiões ou simples seres que ousavam ser pessoas com vez e voz. E poderia ter aludido aos milhares e milhões de perseguidos, presos, torturados e mortos por obra e graça das autoproclamadas democracias ocidentais que alimentaram as duas guerras mundiais e vários conflitos regionais, impuseram e sustentaram ditaduras na América Latina e tentaram impor democracias em vários países de África e de Ásia à imagem das democracias ocidentais – representativas e parlamentares ou presidenciais.

Depois, embora conceda que o homem e mulher podem conseguir muito conhecimento sem Deus, contudo, para o cardeal Re é certo que “sem Deus, o homem e a mulher deixam de ter princípios que iluminem o caminho da vida”, e “quando Deus perde o lugar central que Lhe compete, também o homem perde o seu lugar”, porque “longe de Deus, o ser humano perde-se, ficando à mercê de egoísmos pessoais e interesses de grupo”, não havendo recursos técnicos  e tecnológicos que lhe valham em satisfação plena das suas ânsias e justas aspirações.

E, falando de Fátima como espaço em que brilha no rosto de Maria a luz de Deus, o celebrante presidente da assembleia sagrada evocou a homilia da beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta, a 13 de maio de 2000, momento em que João Paulo II, embora tenha dito que a gente não pode dizer como é Deus, assegurou que Deus é uma luz “que arde, mas não queima” e “quantos acolhem esta presença [de Deus] tornam-se morada e, consequentemente, “sarça-ardente do Altíssimo” (cf Ex 3,2; Jo,14,23).

Na manhã do dia 13, o mesmo eminente purpurado valorizou, na sua homilia da missa do encerramento da peregrinação, a importância da fé. Na sua perspetiva, a fé é algo essencial que não pode ser marginalizado ou tido como algo irrelevante “porque muda radicalmente a maneira de pensar e agir”. Não se trata de uma questão importante apenas para a salvação eterna, é também algo essencial para “uma vida serena nesta terra” e, a meu ver, trampolim para a confiança no próximo e para a capacitação para a comunidade solidária.

É assim que se compreende que o cardeal italiano tenha professado desassombradamente que “a maior desgraça que nos pode acontecer é precisamente a perda de fé”, dado que ela enforma a vida dos crentes e enriquece a existência humana em todas as dimensões.

Porém, na contemporaneidade, a fé enfrenta o desafio dos estilos de vida e das correntes de pensamento, por vezes, agressivas, ridicularizantes e discriminatórias. Não obstante, “em Maria, temos um apoio da Nossa Fé”, já que Ela disponibilizou, pela fé confiante, a sua vida (inteligência, vontade, ações e sofrimentos) para o projeto de Deus em ordem à salvação do mundo. E a sua bem-aventurança resulta do facto de ter acreditado em tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor (cf Lc 1,45) e, consequentemente, ter estado colaborante desde a anunciação do anjo até ao Calvário, onde permaneceu de pé junto à Cruz (cf Lc 1,38; Jo 19,25-27). Por isso, Ela cumpre a missão de, em razão da sua íntima proximidade de Deus, de interceder por nós, e de, em razão da sua natureza humana – carne da nossa carne – visitar de muitos modos, em diversos lugares e tempos, os homens e suplicar “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Por isso, a literatura mariana a denomina de “Omnipotência Suplicante”.

Finalmente, urge reter que o cardeal  Prefeito Emérito considera que as aparições de Fátima transmitem uma mensagem inegável de santidade e um convite à mudança radical de vida. 

Ora, para que os obstáculos à fé sejam vencidos e a carência de Deus se transforme em sede de superação das demais crises, é imperioso que muitas e muitos se encarreguem de orar e vigiar para que a fé levede toda a humanidade com a proposta do Evangelho.

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Cumpre ainda evocar o testemunho do reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, como exemplo de que uma laicidade mal perspetivada pode ser má conselheira para o homem e para a sociedade, sobretudo no atinente à economia pelo lado do turismo e da cultura.

Efetivamente o reitor afirmou que “o poder político continua a envergonhar-se de Fátima” e considerou “muito insuficiente” a aposta na promoção externa do principal local de peregrinação do país. Mais referiu que “o Santuário de Fátima cresceu com ofertas dos peregrinos e não com apoios do governo e, nesse sentido, manteve sempre uma distância e uma independência em relação ao poder político”. Esta posição nem significa “uma indiferença” nem a ausência de “expectativas em relação àquilo que deveria ser o olhar do poder político para a importância de Fátima hoje em dia”.

Reconhece, no entanto, o relevo que atualmente o Turismo de Portugal vai procurando dar ao turismo religioso e, mais concretamente, o Turismo Centro de Portugal em relação ao fenómeno de Fátima. Todavia, isso não obsta a que se considere “muito insuficiente” a aposta na divulgação externa de Fátima e que isso depende sobretudo do “poder político”. E, na ótica do reitor, “o poder político português continua a envergonhar-se de Fátima e isso é embaraçoso”.

Julga esse fenómeno “embaraçoso porque Fátima é um dos grandes destinos turísticos portugueses, é um dos grandes cartões de visita e a verdade é que o poder político continua a envergonhar-se de Fátima e a querer calar esse fenómeno que é inegável”.

O padre Carlos Cabecinhas fez votos para que “haja, de facto, uma aposta sincera, real, verdadeira naquilo que é a potencialidade de Fátima”, mas frisou não se pretender que o Estado perca a sua laicidade, mas que reconheça a existência de todo o valor dum “turismo religioso que se dirige a Fátima e que deve ser assumido pelo poder político como não tem sido até agora”.

Sobre as suas preocupações em torno da fé, que enforma as comemorações do centenário dos acontecimentos da Cova da Iria, o reitor realçou que o próximo ano é já de celebração:

“Em 2016, estaremos já, plenamente, a celebrar o centenário das aparições do Anjo, que prepararam as aparições de Nossa Senhora”.

Depois, afirmou que o programa do templo para o próximo ano “ajudará os peregrinos a concentrarem-se nesta dimensão religiosa”, e que o santuário vai apresentar, também, propostas a nível cultural.

Quanto a prendas que o santuário mais deseje para 2017, o reitor apontou que para maio desse ano há já uma “prenda prometida”, a visita do papa Francisco. Porém, frisou que “um santuário vive da presença de peregrinos, peregrinos muito conhecidos como o papa Francisco ou peregrinos anónimos”. No entanto, não deixou de referir que “a grande prenda para o Santuário de Fátima, em centenário ou noutro momento, será sempre a visita e a presença de peregrinos”, que é a “razão de ser de um santuário”. (vd DN, de 13 de maio).

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E a vigilância e a oração frutificarão em mais fé, que debelará as demais crises e levará a ultrapassá-las com fé, lucidez e vontade!

2015.10.13 – Louro de Carvalho

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A vertente religiosa e mariana da poesia de Bocage


 

No rescaldo da peregrinação internacional de outubro a Fátima e no decurso das celebrações do 250.º aniversário do nascimento de Bocage, oferece-se-me o ensejo de apresentar uma faceta menos conhecida da poesia do poeta sadino – a sua vertente devocional e, sobretudo, mariana.

Em termos formais, mantém-se integral a estética neoclássica e, em termos das ideias e do sentimentalismo, sobressai a estética pré-romântica, do lado da exacerbação do ego pessoal e do lado da exaltação do cristianismo na esteira de François-René de Chateaubriand. E importa que se deixe de enclausurar exclusivamente o poeta de Setúbal nas malhas do anedotário ou da vida dissoluta e revoltosa.

Bocage, não obstante a vida libertina em que se afundou ao longo dos anos, como ele próprio confessa – “eu aos céus ultrajei” (…); “Outro Aretino fui!... A santidade Manchei!..” – nunca se afastou da matriz cristã de fé e de vida. Ele mesmo, dirigindo-se a Deus num soneto, o confessa:

“Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.”


Superada, entretanto, a exacerbação egotista e o “desatino das paixões”, na fase final da sua breve vida – faleceu com a idade de 40 anos – operou-se nele a muito marcada metanoia, voltando a uma vivência cristã entusiasta. O momento de total arrependimento e de propósito firme de emenda surge em termos testamentários no seguinte soneto, de que já se respigaram acima segmentos discursivos: 

Já Bocage não sou, à cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento.
Eu aos céus ultrajei, o meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
 
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa, tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
 
 
Eu me arrependo: a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade
Que atrás do som fantástico corria:
 
Outro Aretino fui!... A santidade manchei!...
Oh, se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
 

É daquela fase de vida uma boa vintena de poemas que fazem dele um poeta de notável religiosidade. A maior parte são sonetos, mas há também pelo menos quatro odes em honra de Nossa Senhora, além de uma tradução. Longe de poderem ser considerados qualitativamente inferiores à sua restante produção poética, os poemas de teor religioso ora fazem afirmações de ordem teológica geral ora refletem a própria vivência pessoal da fé. Os sonetos, mais próximos desta segunda orientação, serão porventura mais interessantes pela original atualidade dos temas versados. Vejam-se alguns títulos: 

A existência de Deus provada pelas obras da criação, Contradições do ateísmo, Hino a Deus, Confiança na misericórdia divina, O retrato de Deus desfigurado por ministros embusteiros, Tentativa de suicídio combatida pelas lembranças da Eternidade, Vendo-se exposto a tribulações imerecidas, Afetos dum coração contrito, Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada, Ditado entre as agonias do seu trânsito final, Invocando o amparo de Maria Santíssima, A Paixão de Jesus Cristo, etc.

A noção de Deus não é, no poeta, muitas vezes tão evangélica como era de supor. Porém, não podemos olvidar que o poeta teve uma educação neoclássica, em que a estética pagã integrava o cânone literário e era mais aparentada com a ideia veterotestamentária da divindade. Não obstante, parece que o ideário do poeta ainda supera o da pregação comum do seu tempo. Assim, no Hino a Deus, nota-se bem o amor e o temor do crente pelo seu Deus, mas não a essência amorosa de Deus. É mais o Deus dos filósofos – um Ente, Grão Ser ou uma espécie de Júpiter – ou o típico Deus veterotestamentário que aparece por entre trovões e coriscos:

Pela voz do trovão corisco intenso
Clama que à Natureza impera um Ente,
Que cinge do áureo dia o véu ridente,
Que veste da atra noite o manto denso.

Pasmar na imensidade é crer o Imenso;
Tudo em nós o requer, O adora, O sente;
Provam-Te olhos, ouvidos, peito e mente?
Númen, eu ouço, eu olho, eu sinto, eu penso!

 
Tua ideia, ó Grão-Ser, ó Ser divino,
Me é vida, se me dão mortal desmaio
Males que sofro e males que imagino:

Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.

Todavia, esta noção de Deus marca vincadamente a diferença em relação à perspetiva cristã de Deus espelhada nos poemas O retrato de Deus desfigurado por ministros embusteiros ou Confiança na misericórdia divina, em que o nosso poeta rejeita o Deus distante das pessoas, o só todo-poderoso, de quem se ignore a dimensão paternal, como alguns dos oradores sagrados.

Veja-se o segundo dos mencionados poemas:

Lá quando a Tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a Natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada:

Às vezes em seus desgostos desmandada,
Nos excessos desliza-se a fraqueza;
Fingem-Te então com ímpeto e braveza
Erguendo contra nós a dextra armada.

 
Ó almas sem acordo e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!... Profanai-O,
Dando-Lhe condição tirana e dura!

Trovejai, que eu não tremo e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.



Lá vem a sua veia pré-romântica a colocar a sua vivência da relação com Deus em confronto com o pensamento teológico dominante, o que é um louvável atrevimento, mesmo se às vezes produzido em termos menos aceitáveis, resultantes do seu pendor de polemista. Esta dimensão mais católica descobre-se sobretudo nos poemas dedicados a Nossa Senhora e em A Paixão de Jesus Cristo:

O Filho do Grão-Rei, que a monarquia
Tem lá nos Céus, e que de Si procede,
Hoje, mudo e submisso, à fúria cede
De um povo, que foi Seu, que à morte O guia.

De trevas, de pavor se veste o dia,
Inchado, o mar o seu limite excede,
Convulsa a terra, por mil bocas pede
Vingança de tão nova tirania.
 
Sacrílego mortal, que espanto ordenas,
Que ignoto horror, que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu Juiz!... Teu Deus condenas!

Ah, castigai, Senhor, o mundo ingrato:
Caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas,
Também eu morra, que também vos mato.

***

E já parecia que estava esquecido o título deste arrazoado reflexivo, mas é de sublinhar que o mistério mariológico não se entende separado do Deus que endereçou à menina de Nazaré o convite para se envolver no projeto salvífico da humanidade tornando-a mãe do Filho de Deus, para O acompanhar desde Nazaré/Belém até Jerusalém, no Calvário, onde à sombra da Cruz foi entregue como mãe dos discípulos e, neles, como mãe de todos os homens. E é do Filho de Deus e de Deus – Grão-Rei, Grão-Ser, o Ente, o Imenso, o Pai, o Amor – que Ela é serva, testemunha e porta-voz. Todavia, os poemas dedicados expressamente à Virgem Mãe merecem destaque especial.

Neles, a imaginação de Elmano Sadino (o seu pseudónimo de árcade) comprazia-se em realidades apocalípticas, de grande impacto. Por isso, os poemas dedicados a Nossa Senhora eram-lhe particularmente queridos, pois gosta de A apresentar como a vencedora de Satã, num cenário algo dantesco. Por exemplo, o “tartáreo monstro” vencido, que no soneto Invocando o amparo da Virgem Santíssima aparece no terceiro verso, surge sempre nas três odes À Puríssima Conceição de Nossa Senhora, À Santíssima Virgem a Senhora da Encarnação e À Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Diga-se, em abono da verdade, que nos poemas em honra da Virgem Maria, nunca fica colocada de lado a prerrogativa da sua conceição imaculada.

Assim, à Virgem Imaculada, o nosso vate setecentista dedica três odes. São composições que, no conjunto da obra de Bocage, nos dão o tom exato em que a imaginação poética de Bocage converge com a verdade mais simples e profunda da sua alma e da sua psicologia. Como era previsível, o privilégio de Maria facilmente se amolda ao mecanismo do complexo de Jonas, já que supõe um abismo de pecado e um monstro infernal, sobrepujados pela aparição da Mulher coroada de brilhantes estrelas, na sua trindade de caraterísticas – “mãe, filha e esposa”, respetivamente do Filho, do Pai e do Espírito – liada na unidade de “mais que tudo amada”.

Nas odes à Imaculada e na ode à Senhora da Encarnação, fica bem patente o tremendismo do poeta perante as seduções e insídias do mundo, os instintos individuais exacerbados, a revolta dos elementos da Natureza e os caprichos da fortuna. Mas ressalta a esperança de que a sua prece seja tida em conta graças à Mãe de misericórdia e ao Deus, que é trono da mesma misericórdia.

Comecemos pela leitura do soneto Invocando o amparo de Maria Santíssima:

Tu, por Deus entre todas escolhida,
Virgem das virgens; Tu, que do assanhado
Tartáreo monstro com Teu pé sagrado
Esmagaste a cabeça entumecida;

Doce abrigo, santíssima guarida
De quem Te busca em lágrimas banhado,
Corrente com que as nódoas do pecado
Lava uma alma que geme arrependida;
 
Virgem, de estrelas nítidas c’roada,
Do Espírito, do Pai, do Filho Eterno,
Mãe, Filha, Esposa e, mais que tudo, amada:

Valha-me o teu poder e amor materno;
Guia este cego, arranca-me da estrada
Que vai parar ao tenebroso inferno!

 

Aqui, o seu habitual imaginário hiperbólico quase se anula, numa atitude de simplicidade filial. Manifesta-se, neste soneto, bem mais sentido que as aludidas odes, a sua fé e devoção a Maria, recorrendo ao seu “amor materno” para que o arrancasse do caminho que o poderia arrastar “ao tenebroso inferno”; a tensão existente entre a fé católica e o ideal racionalista, então em voga; e sobretudo o conflito entre a vida boémia que levava e o ideal moral que existia na sua consciência. Trata-se de um texto bem expressivo da sua cultura católica em que se destaca a importância da Mãe de Deus na vida dos cristãos e dos homens em geral.

Fica bem realçada a oposição entre Deus e o diabo, entre a Virgem e o “tartáreo monstro”, a qual, com seu pé virginal, lhe esmagou “a cabeça entumecida”. Apesar da menção do monstro infernal, o que sobressai é a Virgem como doce refúgio ou abrigo e guarida santíssima para este Jonas arrependido de não ter cumprido a sua missão, ora banhado em lágrimas, órfão de mãe terrena, que fora atraído pelos abismos de amargura.

Evidencia-se a fé no mistério da Santíssima Trindade, com o qual relaciona a Virgem como Mãe, Filha e Esposa, relação para que utiliza uma figura de retórica tão do agrado dos poetas barrocos – o quiasmo – que consiste num cruzamento de vocábulos (atente-se no 1.º terceto).

A terminologia do soneto integra-se perfeitamente num mundo semântico de Elmano relacionado com o “locus horrendus”, conceito dominante nos literatos do Romantismo, nomeadamente com os termos “inferno”, “tartáreo”, “tenebroso”; e ainda com o do amparo maternal onde os mortais encontram descanso, como os bebés nos seios das suas mães: “doce abrigo”, “santíssima guarida”, “amor materno”.

Nas odes, o esquema psicológico tremendista acima aludido repete-se no texto poético desenvolvido em oitavas heroicas, fazendo lembrar a celebração da subida do “balão aerostático” do capitão Lunardi, a 24 de agosto de 1794: sobre a vertigem da queda e da atração do abismo, surge a vitória da luz e das alturas (vd João Mendes, Literatura Portuguesa II, Ed. Verbo).

Veja-se como este dinamismo espiritual em confronto com um mundo hostil se evidencia na ode À Santíssima Virgem, a Senhora da Encarnação, em que sobressai a inefável ação divina:

Acatamento em si e audácia unindo,
Sobre o jus de imortal firmando os voos,
A impávida Razão, celeste eflúvio,
Se eleva, se arrebata.
Por entre imensa noite e dia imenso
(Mercê do condutor, da Fé, que a anima)
Sobe de céus em céus, alcança ao longe
O grão Princípio dos princípios todos.

Além do firmamento, além do espaço
Que, por lei suma, franqueara o seio
A mundos sem medida, a sóis sem conto,
Imóvel trono assoma:
De um lado e de outro lado é todo estrelas;
Vence ao diamante a consistência, o lume;
Absortos cortesãos o incensam curvos,
Tem por base e dossel a eternidade.

Luz, de reflexos três, inextinguível,
Luz, que existe de si, luz de que emanam
A natureza, a vida, o fado, a glória,
Dali reparte aos entes
Altas virtudes, sentimento augusto;
Aos entes, que na Terra extraviados,
Das rebeldes paixões entre o tumulto
Ao grito do remorso param, tremem.

Filho do Nada! Um Deus te vê, te escuta!
Seus olhos imortais do empíreo cume
(Aos teus imensidade, aos d'Ele um ponto)
Atentaram teus dias,
Teus dias cor da morte, ou cor do Inferno;
De alma em alma grassando a peste avita;
Hálito de serpente enorme, infesta,
Da primeva inocência a flor crestara:

Aos dois (como Ele) do Universo origem
Diz o Nume em si mesmo: — «O prazo é vindo;
Cumpra-se quanto em nós disposto havemos.»
Eis o Espírito excelso,
Radiosa emanação do Pai, do Filho,
Mística pomba de pureza etérea,
A Donzela Idumeia inclina os voos,
Pousa, bafeja, e diviniza o puro.
 
 
Tu, Verbo, sobrevéns; aérea flama
Com tanta rapidez não sulca o polo!
Eis alteado o grau da humanidade;
Eis fecunda uma virgem:
A redenção começa, o Deus é homem.
Da graça, da inocência, oh paz, oh risos,
Do Céu vos deslizais, volveis ao mundo!
Caí, torres de horror, troféus do Averno!

Que estrondo!... Que tropel!... Ao negro abismo
Que desesperação revolve o bojo!...
Para aqui, para ali por entre Fúrias
O sacrílego monstro,
O rábido Satã em vão blasfema.
Lá quer de novo arremeter ao mundo;
Mas vê rapidamente aferrolhado
O tartáreo portão com chave eterna.

Enquanto brama, arqueja, enquanto o fero
Morde, remorde as mãos, e a boca horrenda
(As espumas veneno, os olhos brasas)
Mulher divina exulta;
Celestial penhor, que os anjos cantam,
Que as estrelas, que o Sol, que os Céus adoram
Virgem submissa, mereceu na Terra
Circunscrever em Si do Empíreo a glória.

Salve, oh! salve, imortal, serena Diva,
Do nume oculto incombustível sarça,
Rosa de Jericó por Deus disposta!
Flor, ante quem se humilham
Os cedros de que o Líbano alardeia!
Ah, no teu grémio puro amima os votos
Aos mortais de que és Mãe: seu pranto enxugue,
Seus males abonance um teu sorriso!


Bocage, apesar de nascido no século do Iluminismo e de ser contemporâneo de Kant, tinha pouco de filósofo. Para afirmar a existência de Deus e os mistérios com ela conexos, não recorre a subtilezas filosóficas; é-lhe suficiente o bom senso transtemporal e que está no famoso versículo bíblico que declara que “os céus proclamam a glória de Deus” (cf Sl 19/18,2). Por outro lado, depois duma vida agitada e afogada no turbilhão das paixões, parece ansiar pelo sossego e tranquilidade de quem se há de sentir “como criança saciada ao colo da mãe” (cf Sl 131/130,2).

Uma especial atenção a este filão da sua poesia faz outra luz sobre o poema em que o poeta, que cortou com o passado libertino, declara que “viver não soube” mas que terá sabido morrer.

2015.10.14 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Amor de genro!


Uma petição ao Papa em favor da comunhão para os divorciados que voltaram a casar

   Uma petição assinada por vários teólogos espanhóis prestigiados pede ao Sínodo dos Bispos e ao Papa que os divorciados recasados possam ser aceites à comunhão, argumentando que, desse modo, a Igreja estará a ser fiel ao espírito do Evangelho. A petição, que pode ser lida aquiapresenta um conjunto de razões bíblicas e antropológicas, destinando-se a ser assinada por quem com ela concordar. 

No texto, agradece-se ao Papa os seus esforços “no meio de resistências tão cruéis, para dar à Igreja um rosto mais conforme com o Evangelho e com o que Jesus merece”, num caminho de uma “misericórdia exigente”.

O primeiro ponto da petição recorda:
Na Palestina do século I, as palavras de Jesus diziam directamente respeito ao marido que atraiçoa e abandona a sua mulher, porque gosta mais de outra ou por motivos deste género. Portanto, são em primeiro lugar uma defesa da mulher. Aí, sim, a frase do Mestre é sem apelo: “Não separe o homem o que Deus uniu”.
No tempo de Jesus, não se conhecia a situação de um casamento que (talvez por culpa dos dois ou por uma incompatibilidade de modos de ser, não descoberta antes), fracassa no seu projecto de casal. Dada a situação da mulher em relação ao marido, na Palestina do século I, essa hipótese era impensável. E aplicar as palavras de Jesus a uma situação desconhecida no seu tempo, quando o que há não é o abandono de uma parte, mas um fracasso dos dois, poderia equivaler a desfigurar essas palavras. Estaríamos assim a manipular Jesus no altar da própria segurança dogmática e a pôr a letra que mata acima do espírito que dá vida, contra o conselho de São Paulo.


O texto integral pode ser lido na ligação antes referida, onde também está disponível um campo para que cada pessoa possa assinar a petição, se assim o entender.
Fonte: aqui