domingo, 29 de novembro de 2015

Abertura antecipada da Porta Santa


Decididamente o Papa Francisco está apostado no testemunho e no apostolado da misericórdia. Além de o tema da misericórdia e da ternura de Deus ser recorrente nas suas intervenções, o Papa lançou a Igreja no Jubileu Extraordinário da Misericórdia, a que acoplou a iniciativa de espalhar pelo mundo os missionários da misericórdia e deu à XXXI Jornada Mundial da Juventude (JMJ) o tema da misericórdia em torno da V bem-aventurança do Sermão da Montanha: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7).

Na sua prévia mensagem por vídeo à viagem apostólica ao Quénia, Uganda e República Centro-Africana, o Papa diz aos quenianos e ugandeses que vai até ao meio deles como “ministro do Evangelho para proclamar o amor de Jesus Cristo e a sua mensagem de reconciliação, perdão e paz”. Este amor de Cristo é misericórdia expressa na mensagem de reconciliação e perdão rumo à paz, dom de Deus e produto do esforço dos homens.

Mais adiante, afirma o seu objetivo de “confirmar a comunidade católica no seu culto a Deus e no seu testemunho do Evangelho”. Ora, sem o testemunho claro e empenhado dos crentes, a misericórdia de Deus ficaria obnubilada e o mundo, não a conhecendo, não tiraria qualquer benefício dela. É certo que Deus pode mudar, por Si próprio, o coração dos homens, contudo, o tornar necessária a mediação de homens junto dos homens e junto de Deus é uma outra forma de expressão da misericórdia divina.

Entretanto, o testemunho da misericórdia não se circunscreve a uma exposição de motivos da fé, por maior que seja o pode da palavra, ou a um exemplo de vida bondosa e orante, por mais necessário que seja para a edificação da Igreja. Implica necessariamente o ensino teórico-prático da “dignidade de cada homem e de cada mulher” e a exigência de abertura do nosso “coração aos outros, especialmente aos pobres e necessitados”.

Depois, o Bispo de Roma, na sua primeira visita a terras de África pretende “oferecer uma palavra de encorajamento” ao diálogo ecuménico e inter-religioso, convicto de que “vivemos uma época em que os fiéis das religiões e as pessoas de boa vontade em toda a parte são chamados a promover a compreensão e o respeito recíprocos e a ajudar-se uns aos outros como membros da nossa única família humana”. Ou seja, na firme crença de que todos somos filhos do único Deus misericordioso, Francisco prega a fraternidade universal e quer que todos embarquem nesta onda da ternura de Deus, o Pai comum. E, na esteira da paternidade divina, o paizinho da Igreja (papa, papá ou papai), tal como acaricia uma criança, também quer puxar pela juventude em qualquer lugar por onde passe – também no Quénia e Uganda – porque os jovens “são o vosso maior recurso e a nossa esperança mais promissora para um futuro de solidariedade, paz e progresso”. É a abertura do coração e do olhar a todos com a caridade evangélica e a justiça bíblica, como resposta à dicotomia aspiração-conflituosidade do mundo, sem discriminar ninguém, mas a começar pelos que mais precisam.

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Em mensagem similar, o Papa, apresentando-se como “mensageiro da paz, dirige-se aos habitantes da República Centro-Africana. E o seu propósito é também o testemunho explícito da misericórdia. Verificando a continuada e nefasta situação de “violência e insegurança” por que vem passando o país, causando “inúmeras vítimas inocentes”, tem em vista levar, “em nome de Jesus, o alívio da consolação e da esperança” e “contribuir, de um modo ou de outro, para curar as vossas feridas e abrir um futuro mais sereno para a África Central e para todos os seus habitantes”. Como os profetas, os evangelistas e os apóstolos, no meio da miséria, da fome, da guerra e da iniquidade puderam anunciar a esperança e a salvação, também Francisco no meio dos povos, que reconhece como de Deus e seus, conforta, testemunha e faz esperar. 

A seguir, revela ao povo centro-africano o tema da sua viagem: passemos para a outra margem (Mc 4,35). A simbólica do Evangelho de passar de uma para a outra margem do lago sugere o convite, o apelo a deixar a situação de insegurança e de violência, que, no caso vertente, não são provocadas pelos elementos tempestuosos da natureza, como em Marcos ou hoje em muitas partes do Globo, mas pela ambição desmedida de riqueza e poder de alguns e pela impaciência de uns e submissão de outros. Porém, o Senhor que acalma o mar tem capacidade para, longe de anular a liberdade e a vontade dos homens, encorajar a mudança e a conversão.

Assim, Francisco apela às “comunidades cristãs” para que olhem “em frente com decisão” e a “cada um” para que renove “a sua relação com Deus e com os irmãos para edificar um mundo mais justo e fraterno”. Ao mesmo tempo, reitera o propósito de “fomentar o diálogo inter-religioso para encorajar a convivência pacífica” no país, afirmando “que isto é possível, em razão da fraternidade universal face à filiação comum em relação ao mesmo Deus.

E, para selar simbolicamente este apelo e testemunhar eloquentemente esta possibilidade de abertura ao “perdão genuíno”, à atitude de “dar” e “receber” e à “renovação no amor”, o Papa anunciou que iria abrir, por antecipação, em Bangui, o Ano Jubilar da Misericórdia, que vai ser inaugurado para toda a Igreja a 8 de dezembro.

Com efeito, a 29 de novembro, início do novo ano litúrgico e I Domingo do Advento, que significa o começo da caminhada de Deus ao encontro misericordioso com os homens por meio de Jesus Cristo, o romano Pontífice, no início da celebração eucarística na catedral de Bangui, depois do Ato Penitencial, procederá ao rito da Abertura da Porta da Misericórdia, rezando:

Senhor Deus, Pai de misericórdia, Vós concedeis à vossa Igreja este tempo de penitência e de perdão para que ela tenha a alegria de se renovar interiormente por obra do Espírito Santo e andar cada vez mais fielmente nos vossos caminhos, permanecendo no meio do mundo como sinal de salvação e de redenção; dignai-vos responder às nossas súplicas, abri-nos completamente a porta da vossa misericórdia, para se nos abrirem um dia as portas da vossa morada no céu, onde está Jesus, o primeiro da estirpe dos homens que nos precederam, para podermos todos em conjunto cantar-vos eternamente. Por Cristo Nosso Senhor. Ámen.

 

Depois, aproxima-se da Porta da Misericórdia e, enquanto bate à porta, estabelece diálogo orante:

Abri-me as portas da Justiça                              

R/ E entrarei e darei graças ao Senhor.

Esta é porta do senhor,

R/ Que entrem os justos

Eu entro na vossa casa, Senhor

R/ Voltado para o vosso templo, eu me prostrarei.

A seguir, o Santo Padre apoiado na Porta da Misericórdia reza em silêncio, após o que entra seguido pelos demais.

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Embora pudesse ter maior impacto a abertura oficial do Ano Santo este rito de misericórdia desenvolvido num dos países de África esperançosa para o futuro da Igreja e da Humanidade, porém, de momento, uma das periferias existenciais, todavia este gesto simbólico de Francisco não deixa de ter um enorme significado. Prega-se e reza-se a misericórdia onde é necessário, independentemente do lugar ou do momento, sendo apenas necessário que os homens sintam que precisam dela e acreditem nela. E as ações eclesiais valem por si mesmas quer sejam lançadas em Roma e a partir de Roma quer em e a partir de qualquer outra parte do mundo. Não estamos perante um fenómeno de descentralização ou desconcentração política ou económica, mas do pulsar da Igreja sob o impulso do Espírito com Pedro e com os demais membros da família universal.

Pelos vistos, Francisco deseja que em todo o mundo – e não só em Roma – se abram as portas santas da misericórdia. Ele próprio pensa passar pela Porta da Misericórdia por ocasião da Jornada Mundial da Juventude 2016. Com efeito, segundo informação do cardeal Stanislaw Rylko, será instalada a simbólica Porta Santa no Campus Misericordiae, onde decorrerá a vigília e a missa de encerramento da JMJ – ambas sob a presidência do Papa.

O purpurado afirmou que o Santo Padre, seguido de alguns jovens, passará pela Porta Santa logo no início da vigília de oração, a 30 de julho. E, no dia 31, último domingo de julho após a celebração da eucaristia, “entregará a cinco casais de jovens, vindos dos cinco continentes, lâmpadas acesas, símbolo do fogo que trouxe a misericórdia de Cristo, além de enviar os jovens de todo o mundo como testemunhas e missionários da Divina Misericórdia”.

É de recordar que a JMJ Cracóvia 2016 decorrerá em pleno Jubileu Extraordinário, sendo que os temas de ambos os eventos se interpenetram, segundo o cardeal, “de modo muito oportuno”. Tanto assim é que, tornando-se a JMJ de 2016 um verdadeiro Jubileu dos jovens a nível mundial, o seu epicentro espiritual será o Santuário da Divina Misericórdia e de Santa Faustina Kowalska – conhecida como a ‘Apóstola da Misericórdia’ – inaugurado em 2002 pelo insigne promotor deste intenso testemunho orante e missionário: São João Paulo II, o Papa polaco.

Os participantes na JMJ de Cracóvia poderão visitar aquele santuário e integrar-se no desenvolvimento de um programa especial, que inclui a meditação das parábolas do Evangelho da Misericórdia Divina (sobretudo o cap. 15 de Lucas) e do Rosário da Divina Misericórdia, podendo, no final, passar pela Porta Santa do Jubileu e ganhar a indulgência jubilar. Para o efeito, será instalado, neste lugar, o grande “Centro da Misericórdia”, que disponibilizará muitos confessionários para que os jovens se aproximem do Sacramento da Reconciliação.

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O Papa Francisco prega incessantemente a misericórdia, mas não se refugia nela como que num cantinho abrigado. Ao invés, segue Urbi et Orbi as consequências desta bem-aventurança: desde logo, a limpidez de coração para olhar para o homem e para o mundo; depois e ao mesmo tempo, a construção da paz, para podemos ser chamados filhos de Deus e, como corolário imperativo, a luta oportuna e importuna pela justiça (cf Mt 5,8-10; Lc 6,20-26).

Francisco não se cingiu à leitura dos livros teológicos, mas passou ao múnus de pastor. E foi, não na leitura dos escritos de Rousseau ou de Marx e fãs, mas no Evangelho, lido e meditado, no âmbito de todo o contexto bíblico e a olhar o mundo de opressão e repressão, que aprendeu a força da razão dos pobres, dos explorados, dos enjeitados. E aí ganhou ânimo para clamar:

Levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima (Lc 21,28)!

2015.11.28 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Luigi Negri, obispo italiano: "Francisco debe tener el mismo final que el otro Papa"

Resistências às reformas do Papa Francisco. Já não se manifestam em surdina.
Há muitos hierarcas incomodados com o Papa Francisco e as suas reformas. Em Itália e por todo o mundo.


Veja aqui

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um embuste em três temas


Um embuste em três temas

 

Muitas coisas se poderiam dizer de um Governo liderado por Passos de que Portas é ou era o arcediago. No entanto, nesta fase de despedida, tem de se pôr a nu o embuste construído pela governança – amargamente denominada socialdemocrata e democrata-cristã – em torno de três temas cujo denominador comum era a alegada preservação dos interesses contribuintes.

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O primeiro tema suficientemente modulado pela cantoria pré-eleitoral foi o da reposição da sobretaxa cobrada aos contribuintes em sede de IRS. Antes das eleições de 4 de outubro, a liquidação e cobrança de receitas fiscais e o crescimento da economia puseram os canais informativos do Estado, nomeadamente os respeitantes à política fiscal, a prometer, no momento do acerto de contas, uma devolução de 35% da sobretaxa que no exercício de 2015 vem sendo cobrada aos contribuintes.

Entretanto, passado o ato eleitoral, cujos resultados não agradaram aos cantores do festival nacional do quadriénio, que decorreu sob a batuta dos eurocratas qual virga amaciadora dos cabelos das unidades governativas da lusa nação, as coisas mudaram.

Quando o adversário n.º 1 do Governo de legislatura (com mais uns meses) e do Governo derrotado no Parlamento evidenciou o fosso em que estavam a cair as contas públicas, recebeu o título honorífico de alarmista. E confesso que fiquei preocupado quando ouvi o Presidente da República a clamar que a situação financeira do país era muito diferente da do ano de 2011, já que dispomos de uma boa almofada financeira – os cofres estão cheios (de títulos de dívida?!). É que a experiência recente mostra que, se o Presidente fala de conforto financeiro, deve ser entendido ao contrário. Quem não se lembra da boa situação do BES, tão boa que era seguro investir em ações do banco, que agora é bom ou mau (nem sei…).

Entretanto, as contas pós-eleitorais tardaram, mas vieram destapar o embuste: a percentagem da sobretaxa a devolver é 0%. Gostei da sinceridade e da verdade pré-eleitoral da dupla Passos-Portas, de tão boa qualidade em 2015 como em 2011. Só tenho pena da Senhora Assunção Cristas, que se terá inspirado em Jesus Cristo para lidar com gente tão pouco recomendável.

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Em segundo lugar, temos o caso do Novo Banco. Foi constituído, na segunda metade do festival quadrienal, pelo Fundo de Resolução, que evitou a nacionalização do BES, sem que o Governo fosse tido e achado, unicamente sob a égide do Banco de Portugal, que se limitou a cumprir a lei (que o Governo fez em fim de semana…).

Foi dito e redito que os contribuintes não seriam penalizados. Depois, admitiu-se a possibilidade de haver algum prejuízo por via indireta, já que o Fundo era constituído por dinheiro de bancos, incluindo a grande fatia do banco público, a CGD, e do empréstimo concedido pelo Estado a partir do bolo que a troica reservou para a banca.

Ora, o Banco não foi vendido. Está a ser sujeito a reestruturação, com encerramento de balcões e despedimento de funcionários, com as ditas indemnizações. Agora, depois das eleições, caiu o pano da comédia e o banco, que, em virtude dos testes de stresse (em que alegadamente passou), precisa de uma capitalização calculada em mil e quatrocentos milhões de euros. Os bancos não querem (ou não podem) pagar. Quem paga? O Zé contribuinte, que – Abrenuntio! – estava seguro ao abrigo de qualquer invasão das carteiras.

Permitia-me concluir com as rezas com que rematei o item anterior. Boa gente! No entanto, espero pela organização do peditório alvitrado por Passos no Estádio Municipal de Braga a favor dos lesados do BES/GES, de que prometeu ser o primeiro subscritor. Quem promete deve!

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Por fim, só mais um tema para a sossega: a venda da TAP. O Estado não podia continuar com a TAP: estava em crise e a Comissão Europeia não deixava o Estado injetar dinheiro na empresa. A privatização era a única forma de salvar a TAP e defender os interesses estratégicos do país.

Como todos sabem, a primeira tentativa de venda de 61% do capital abortou, alegadamente porque o único concorrente não apresentou as garantias então consideradas necessárias.

O segundo processo de privatização logrou chegar ao fim, apesar da contestação geral. Entretanto, a Comissão Europeia, que tinha feito saber que a questão da impossibilidade de injeção de capital na empresa não era um dado absoluto, ao ser questionada sobre as exigências europeias quanto ao controlo da TAP, respondeu que o problema não era de considerar em virtude de o volume de faturação não atingir os mínimos europeus. Assim, o governo, cuja ilegitimidade para o caso não resulta de ser governo de gestão, mas governo liminarmente rejeitado no Parlamento, decidiu aprovar a minuta do acordo. E o acordo foi assinado.

Porém, o Estado, que se queria ver livre dos encargos com a empresa, assegurou a garantia do financiamento contraído junto da banca pelo consórcio comprador. Ou seja, os contribuintes, a quem foi prometido ficarem a salvo de encargos pagarão, se o não fizer o Barraqueiro e companheiro. Não é muito. São apenas 646,7 milhões de euros de uma dívida bancária, a que acrescem 120 milhões de euros solicitados pelo consórcio adquirente da empresa para financiamento corrente (ao todo, cerca de 770 milhões). Mas tinham-nos garantido que os milhões que aí vinham eram encaixe para o Estado e para capitalização da empresa. Até passaram nos canais de publicidade os irrecusáveis apelos a que se examinassem as novas dezenas de aeronaves por fora e por dentro, para se aferir do design e do conforto!

Este foi um embuste que resultou do conluio arquitetado entre o Governo e os privados. E o anedótico é que o Primeiro-Ministro clamava que a TAP passou de um dono que não cuidava dela para um novo dono que vai tratar dela em condições. É caso para nos interrogarmos por onde tem andado o Primeiro-Ministro e os seus sucessivos ministros da economia e dos transportes, ou o que tem andado a fazer o engenheiro Fernando Pinto, administrador-delegado.

Com razão António Costa acusou o Governo de “fingir” a privatização da TAP e de favorecer os privados, ao garantir que o Estado assume o risco da dívida da empresa, ficando toda a oportunidade do lado de lá.

Também o Expresso, do dia 21, referia que o risco de a dívida da TAP não ser paga aos bancos ficou do lado do Estado, com as instituições bancárias a ficarem com o poder de renacionalizar a transportadora aérea. Aduzindo o teor do documento que originou o acordo entre os bancos e a Parpública (holding do Estado detentora da totalidade do capital da TAP) e, sob despacho do Governo, que dá garantias às instituições bancárias, o Expresso considera que, “em caso de incumprimento ou desequilíbrio financeiro, os bancos têm o direito de obrigar a Parpública” à recompra da TAP.

Para quê mais palavras? Caiu a máscara. Não é preciso muito para ser melhor.

2015.11.22 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Eles têm apenas 15, 17, 22, 25, 32 anos… Mas decidem entrar no Estado Islâmico. Porquê?

Jovens de todos os continentes  estão na mira dos recrutadores do terror
jovens jihad
Entre os inúmeros detalhes que deixam o mundo atônito diante da ofensiva do autoproclamado Estado Islâmico, uma realidade é particularmente perturbadora: a grande quantidade de monstros assassinos de pouco mais de 20 anos de idade.
NOS ATAQUES DA ÚLTIMA SEXTA-FEIRA 13, EM PARIS
Um dos terroristas que atacou a casa de shows Bataclan foi identificado por suas digitais. Omar Ismail Mostefai, 29 anos, francês de origem argelina, nasceu em Paris em 1985. Já tinha sido condenado 8 vezes por delitos “comuns” entre 2004 e 2010 (quando tinha entre 19 e 25 anos): dirigir sem permissão, insultos e agressões verbais, ligações não confirmadas com o tráfico de drogas. No entanto, nunca foi preso. Além disso, era conhecido das forças de segurança francesas porque tinha um histórico de envolvimento com radicais islâmicos.
Junto com o corpo de um dos autores do ataque ao Stade de France, foi encontrado um passaporte sírio pertencente a um homem nascido em 1990. Ele tinha, portanto, 25 anos.
NO ATAQUE CONTRA O CHARLIE HEBDO EM JANEIRO
Os irmãos Said e Cherif Kouachi, franceses de origem argelina, tinham respectivamente 34 e 32 anos quando cometeram a chacina, mas sua radicalização vinha de anos antes. Cherif tinha sido preso aos 22 anos, em 2005, quando estava prestes a partir para a Síria, a caminho do Iraque, onde pretendia atuar na “guerra santa”. Em 2008, voltou a ser preso por fazer parte de um grupo que recrutava jovens muçulmanos franceses para se juntarem à Al-Qaeda no Iraque.
Amedy Coulibaly, autor dos assassinatos de uma policial e de quatro civis em um supermercado kasher, na mesma semana de janeiro, tinha 32 anos, mas já aos 17 anos tinha sido condenado por roubo e tráfico de drogas. Na ocasião, foi diagnosticado como “de personalidade imatura e psicopata”.
Hayat Boumeddiene, 26 anos, esposa de Amedy Coulibaly e descrita como “armada e extremamente perigosa”, colaborou nos preparativos e fugiu para a Síria no dia seguinte ao ataque contra a revista Charlie Hebdo.
O JIHADISTA JOHN
O cidadão britânico Mohammed Emwazi, nascido no Kuwait, tinha 26 anos quando foi identificado como sendo o misterioso “Jihadista John”, o carrasco encapuzado que apareceu em pelo menos 7 vídeos de decapitações perpetradas pelo Estado Islâmico. No último dia 12 de novembro, ele foi supostamente morto por um ataque norte-americano em Raqqa, na Síria, país em que vivia desde 2012 (quando tinha 24 anos). Naquele ano, ele se uniu ao grupo fundamentalista islâmico Frente Nusra. Em 2014, juntou-se ao Estado Islâmico.
O “CLUBE DOS 27 ANOS”
A idade tão curta de tantos jovens transformados em monstros assassinos pode evocar outro chamativo grupo de jovens ligados a mortes trágicas: o chamado “Clube dos 27”, ou “Para Sempre 27”. Trata-se de astros do rock ou do blues que, em diferentes contextos e épocas, morreram aos 27 anos de idade, todos com personalidades polêmicas e biografias marcadas por excessos e indícios de falta de sentido na vida: Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse.
Embora não haja termo de comparação entre a trajetória tumultuada desses músicos e o execrável caminho trilhado pelos jihadistas, não deixa de ser chamativo aquilo que há de mais óbvio em comum entre eles: a “juventude desnorteada” e a visão de mundo marcada por excessos desestabilizadores: excesso de suposta “liberdade mundana”, no caso do “Clube dos 27”, e excesso de suposta “entrega religiosa”, no caso dos jihadistas. Por que faltou e continua faltando, em nossas sociedades “avançadas”, tanta orientação BÁSICA para os jovens no auge da vitalidade?
UM RECRUTAMENTO QUE NÃO TEM FRONTEIRAS
Cerca de 800 jovens britânicos e ao menos 1200 jovens franceses se juntaram aos combatentes do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Além deles, há outros milhares em processo de recrutamento ou já comprometidos com o grupo terrorista, porém como “membros adormecidos”, à espera de ordens para partir ou participar de ataques em seus próprios países. Nem todos caem na armadilha, como é o caso deste adolescente britânico. Mas o número dos que caem é alarmante.
Particularmente chocante é o caso das jovens meninas e moças, muitas delas com apenas 15 ou 16 anos de idade e quase todas com no máximo 22, que fugiram de casa, no Reino Unido, para se juntar ao Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Uma delas, Khadijah Dare, se converteu ao islã aos 18 anos e, em 2012, partiu para a Síria com os dois filhos pequenos e lá se casou com um guerrilheiro de origem sueca. Ganhou fama mundial em 2014 ao publicar no Twitter seu desejo de “ser a primeira ocidental [do Estado Islâmico] a matar um americano ou britânico”. Também publicou fotos de um dos filhos manejando uma metralhadora. Hoje com 22 anos, Dare é recrutadora do Estado Islâmico via internet e um dos principais alvos da inteligência britânica.
As estratégias para atrair jovens jihadistas acontecem em muitos países de todos os continentes, com ênfase na Europa. Além da França e do Reino Unido, a Bélgica está entre os maiores “celeiros” de extremistas recrutados.
DO BRASIL PARA A “GUERRA SANTA”
Foi da Bélgica que, em 2012, o jovem Brian Rodrigues, de 19 anos, partiu para a Síria e se alistou no exército do terror. Ele é filho da brasileira Rosana Rodrigues, que vive na Bélgica há 25 anos. O que ela contou em entrevista à rede Globo sobre o filho é estremecedor:
“Ele era muito católico e, na maioria das fotos que ele tem no Brasil e aqui na Bélgica ou na Espanha, na Turquia, onde ele esteve, ele sempre usava um crucifixo”.
O que aconteceu então? Aos 17 anos, Brian sofreu a maior decepção da sua vida e o fim do seu maior sonho: ele queria ser jogador de futebol, mas foi dispensado e entrou em depressão. Foi naquele momento que os extremistas se aproximaram dele. Brian encontrou “apoio”, palavras de “fé” e “compreensão”. Passou a frequentar uma mesquita que, segundo a imprensa belga, era um covil de extremistas de vários países. Em menos de dois anos, Brian se tornou um deles.
O BRASIL JÁ ESTÁ NO RADAR DOS RECRUTADORES
Não é preciso que os jovens brasileiros vivam em países europeus para se tornarem alvos das investidas dos recrutadores jihadistas. O governo do país já detectou ações de recrutamento do Estado Islâmico aqui mesmo, como informa esta matéria do jornal O Estado de São Paulo.
O QUE LEVA UM JOVEM A SE TORNAR TERRORISTA?
Neste artigo da Aleteia, há uma interessante tentativa de explicação. E um alerta: “A maioria dos ‘especialistas’ no assunto entendeu tudo errado até agora”.
Fonte: aqui


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Estado Islâmico muda estratégia militar?

Para responder a esta pertinente questão, colocada nalguns órgãos de comunicação social nos últimos dias, parece conveniente começar por perceber o que é e como atua o autoproclamado Estado Islâmico (EI), ou Daesh.

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O que é e como atua o Estado Islâmico?

Trata-se duma força armada jiadista que ganhou relevância com a entrada na guerra civil da Síria. Da designação inicial de ISIS ou ISIL, passou a denominar-se de “Estado Islâmico” a 29 de junho de 2014, após a nomeação de Abu Bakr al-Baghdadi como seu califa. O também designado Daesh (designação que rejeita) visa impor a sua autoridade político-religiosa sobre os muçulmanos de todo o mundo e tomar a região do Leste (Israel, Líbano, Síria, Iraque e Jordânia).

As potências ocidentais têm como “organização terrorista” o EI que presentemente controla grande parte dos territórios da Síria e do Iraque e cujos corifeus, ao apoderarem-se duma localidade, penduram a bandeira negra no topo do prédio mais elevado e não hesitam em destruir todo o património que não condiga com as suas posições religiosas, por mais ancestral e valioso que seja.

Esta força armada, a par de órgãos, estruturas e funções próprias de Estado (ministérios, erário, impostos, escolha de moeda, exército…), tem caraterísticas de não Estado, atuando em rede, vivendo em semiclandestinidade e utilizando sobretudo as redes sociais. Sabe-se onde atuou, mas não se sabe onde vai ou pretende atuar. Recruta os seus agentes nos territórios onde atua e naqueles aonde pensa estender a sua atuação, ali fazendo residir alguns dos seus elementos. Apesar de os seus objetivos serem publicamente enunciados de forma genérica, as suas ações de guerra não são declaradas previamente, mas reivindicadas a posteriori. Sendo inicialmente o EI financiado por milionários árabes, atualmente autofinancia-se através dos lucros do petróleo e do gás (provenientes das áreas conquistadas), dos impostos e do dinheiro proveniente dos raptos de cidadãos ocidentais. Os resgates de raptados são pagos ou pelas respetivas famílias ou, de modo oficioso, por alguns governos. Por outro lado, ofensivas como a do Iraque têm sido bastante lucrativas para o EI, já que acede ao controlo dos dinheiros depositados em bancos de localidades invadidas, o que possibilita a compra de armamento cada vez mais sofisticado.

Dos elementos recrutados em diversos países, o maior número é proveniente de França, vindo logo a seguir o Reino Unido. Depois, Bélgica, Alemanha, Holanda, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca, Suécia, Canadá, Áustria, Itália, Noruega, Finlândia e Portugal são os principais países de origem dos guerrilheiros ocidentais. Mas há também russos e albaneses. O resto do contingente é liderado pelos árabes, tunisinos e marroquinos, embora também tenham provindo alguns da Austrália e da China. Muitos jovens radicais no EI são filhos de famílias de classe média sem problemas sociais ou financeiros, com estudos superiores e sem problemas com a Justiça. Porém, a maioria vive em conflito constante entre os valores ocidentais, que rejeitam, e os dogmas extremistas do Islão, que são aliciantes. Por isso, viajam de avião até à Turquia ou Bulgária, donde seguem de automóvel ou a pé até um país só conhecido por notícias televisivas.

A sua atuação tem dado azo a centenas de denúncias de violação dos direitos humanos, que visam os guerrilheiros do EI, de que ressaltam como mais comuns: a decapitação de soldados e civis e a violação e exploração sexual de mulheres. Os habitantes em zonas por eles tomadas que se recusem a viver sob as suas leis sofrem torturas, mutilações e mesmo a condenação à morte. Os seus agentes são especialmente violentos contra xiitas, yazidis e cristãos. Segundo as estatísticas mais brandas, só em 2014 mataram mais de 20 mil pessoas.

As atrocidades relatadas pelas vítimas incluem amputações e execuções na praça pública aos que desobedecem à sharia ou violações de mulheres das minorias étnicas que resistem às ordens dos soldados (mujahedines) sob o comando de Abu Bakr al-Baghdadi. Muitos têm pouco mais de 20 anos, mas são já veteranos de guerra no Iraque, com largo currículo de sequestros, torturas e homicídios. A escalada de violência atinge níveis inéditos. Há execuções, em simultâneo, de centenas de pessoas e foram descobertas valas comuns cheias de corpos de homens de tribos que o EI tinha ocupado, tendo as vítimas sido mortas com tiros a curta distância. Numa delas, os jiadistas tinham intimado os homens a deixarem as suas aldeias e seguirem para outro local, prometendo-lhes mentirosamente uma passagem segura. Todos foram raptados e mortos.

Para adensar o clima de medo e terror, uma das táticas usadas é a de postar na internet dezenas de vídeos de decapitações infligidas aos soldados inimigos e reféns ocidentais. Usam o Youtube, o Facebook ou o Twitter como fonte de propaganda e angariação de pessoas e fundos. Nas redes sociais, partilham imagens de cabeças dos inimigos que servem de bola em partidas de futebol. “Quem não obedece morre” é o lema importado das guerras medievais. Alguns portugueses entraram neste jogo e não se coíbem de fazer ‘likes’ ou de partilhar fotos e vídeos.

A poderosa complexidade e eficácia da máquina de propaganda do EI diferem radicalmente da do amadorismo dos vídeos da Al-Qaeda da década de 90. A esmagadora maioria dos seus vídeos é produzida e difundida pelo Al Hayat Media Center, criado no verão de 2014 pelo Al-Itisam Establishment for Media Production, o gabinete oficial de propaganda dos jiadistas. Nos produtos de recrutamento mais recentes, foram produzidos vídeos, panfletos e até uma revista em inglês. Os analistas consideram unanimemente que por trás desta máquina bem oleada há vários especialistas em comunicação e com currículos nas áreas de vídeo, jornalismo ou webdesign. Nas imagens das decapitações de soldados sírios e de reféns ocidentais é visível alguma da estética mais moderna made in MTV: slow motions, bandas sonoras dramáticas e todo o tipo de pós-produções, incluindo o som de batimentos cardíacos e respirações ofegantes sobre as imagens da carnificina.

Só nos primeiros 10 meses de 2014, foram detidas, no Reino Unido, 218 pessoas ligadas a atos terroristas. Foram condenadas 16 depois do regresso da Síria. E a polícia britânica contabilizava 66 jovens dados como desaparecidos pelas famílias por terem viajado para a Síria a juntarem-se ao EI. Crê-se que entrem todas as semanas cerca de 50 pessoas em programas de combate à radicalização.

Também o gabinete do secretário-geral do SIRP (Sistema de Informações da República Portuguesa) confirmou, em abril de 2014, a referenciação de alguns cidadãos nacionais que integram esses grupos de combatentes”, apoiantes da causa na Síria. Alguns detinham um estatuto de residência temporária noutros países europeus, embora apresentem conexões familiares e sociais ao território nacional. Em setembro, fonte próxima das nossas ‘secretas’ revelou que dois radicais estiveram de novo em Portugal. Não foram presos nem impedidos de viajar para a Síria ou para o Iraque. Ao invés do que acontece noutros países, a lei de Portugal não permite a apreensão de passaportes nem proíbe o regresso dos jiadistas ao EI.

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O que está a mudar?

Ao perder posições na Síria e no Iraque, bem como ao perceber as dificuldades em financiamento, o califado estará agora apostado em atacar o ocidente. Os seus ataques mais recentes – não só os do dia 13 em Paris, mas também o do dia 12 no Líbano e a queda de um Airbus russo no Egito em outubro, sem esquecer os ataques de junho na Tunísia – dão a entender que o EI está a alterar a sua estratégia, como assegura o Wall Street Journal. O Estado Islâmico não se concentra apenas na edificação dum califado no Iraque e na Síria, mas está apostado, mais do que nunca, no ataque (militar, mas não só) ao ocidente ou a países, ainda que não ocidentais, que com ele se relacionem.

Há mais uma outra razão que explica esta mudança de estratégia e que está relacionada com a dificuldade de financiamento: na ausência de financiamento do EI para pagar aos combatentes, há deserções; e não havendo dinheiro, não há com o que combater, pois o armamento e as munições de guerra vão-se esgotando aos poucos. Tal situação de deserção a acompanhar a falta de financiamento verificou-se com as mais recentes derrotas do autoproclamado Estado Islâmico: na Síria, quando as forças leais ao regime de Assad quebraram o cerco do EI à base aérea de Kweiras, no noroeste do país; e no Iraque, quando as forças curdas retomaram o controlo da cidade de Sinjar, que o EI havia conquistado justamente há um ano.

Portanto, os ataques em Paris foram os mais recentes de uma horda de terror fora dos conhecidos territórios do autoproclamado EI. Em todos os atentados, o EI, mais cedo ou mais tarde, acaba por assumir a responsabilidade dos mesmos. Foi o que sucedeu no dia 13, quando em comunicado afirmava que os ataques tinham sido perpetrados por “oito irmãos que carregavam cintos de explosivos e armas, e que atingiram o coração da capital francesa”, justificando os factos como sendo de retaliação pela recente intervenção área francesa que “atacou os muçulmanos do califado”. O presidente francês, François Hollande, no dia 14, não só confirmou o número de bombistas suicidas e atiradores que o EI avançou, como acrescentou que os ataques foram “organizados e planeados desde fora.”

Todavia, o comunicado do EI contém uma informação que suscita dúvidas sobre se o ataque fora isolado (ainda que com relação ao califado sírio-iraquiano) ou concertado e planeado há meses. O comunicado menciona ataques a três bairros parisienses: 10.º, 11.º e 18.º. E a verdade é que não houve nenhum atentado perpetrado no 18.º, o que levou peritos em contraterrorismo a crer que ou esse ataque, tal como os outros dois, fora planeado a partir do califado, mas terá falhado, ou o EI assumiu os atentados como tendo sido planeados por si, mas estes tiveram origem em células do grupo terrorista, não tendo sido planeados pelos seus líderes. Terá sido o assumir de responsabilidades a posteriori, mas com um erro à mistura. Não obstante, uma coisa se pode inferir: o EI, cada vez mais encurralado nos territórios que controla, virou a ocidente.

É certo que o ataque de Beirut, segundo um outro comunicado do EI a reivindicá-lo, não foi tanto um ataque ao ocidente, mas está relacionado com os combates na Síria, pois o alvo principal era o Hezbollah, a organização política e paramilitar xiita, sediada no Líbano, que participou na guerra civil síria aliada ao governo de Bashar al-Assad. E o ataque de 31 de outubro, que derrubou – devido à explosão de uma bomba a bordo – uma aeronave russa na Península do Sinai, no Egito, também reivindicado pelo EI, surgiu numa altura em que a aviação russa vinha bombardeando dia após dia posições do EI nas regiões de Alepo e Hama, a norte da Síria. Se bem que o ramo egípcio do EI nunca realizara um ataque do género, menos ainda tendo a Rússia como alvo, este constitui uma forma de resposta aos ataques que visavam o enfraquecimento do EI na região e a abertura da via a uma ofensiva militar em larga escala das forças de Bashar al-Assad, secundada por milhares de militares do Irão.  

No entanto, ainda que menos recentes, os atentados do EI no museu do Bardo, em Tunes, e em dois resorts na costa oriental tunisiana, frequentados sobretudo por turistas europeus, maioritariamente alemães e franceses, configuram sintomas consistentes da viragem do EI a ocidente. Por outro lado, o comunicado através do qual o EI reivindicava os atentados do passado dia 13 advertia que este ataque seria o primeiro de uma “tempestade” e um “aviso”.

Enfim, o EI atua através de ações planeadas no território onde domina efetivamente, através de ações planeadas e executadas por comandos seus que se deslocam em missão a lugares-alvo e através dos seus agentes em diáspora em países onde reina a convivência em liberdade – mas sempre em vista de objetivos centralmente definidos.

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Como responder?

José Milhazes, em seu artigo no Expresso on line, interroga-se: Será que o terrorismo vai vencer? E, depois, interpela as principais potências: Quantos atentados terão de acontecer ainda mais para que os Estados Unidos, União Europeia, Rússia, China, se juntem e tomem medidas concretas e coordenadas para pôr fim à maior praga do século XXI?


Refere o jornalista que perante as catástrofes terroristas, os dirigentes dizem que “é preciso renovar esforços”, “aumentar as medidas de segurança” e “impedir novos atentados”. Porém, passado pouco, a desgraça volta, uma vez que “não se resolve o problema de forma séria e profunda”.  Sugere Milhazes que, tratando-se de um problema global, “é necessário tomar medidas à escala global que tentem dar início à solução do problema”.

Não se trata, a meu ver, de não regressar ao estado de normalidade ou de diminuir as condições de liberdade de movimentos, bem como de vetar a vinda de refugiados ou de migrantes. Tudo isto seriam atitudes que o EI gostaria de ver da parte dos países atingidos, pois a sua intenção é provocar a instabilidade e daí auferir vantagens a vários níveis. Mas importa reforçar os meios de informação e de controlo sobre pessoas e objetos suspeitos, bem como clarificar o significado da abolição de “fronteiras”. Erradamente, alguns países aderentes ao Tratado de Schengen destruíram ou abandonaram os postos fronteiriços terrestres. Parece-me que a livre circulação de pessoas e bens não impediria o controlo de passagem, mas o levantamento de restrições de caráter pecuniário, logístico ou de autorização da parte das entidades policiais para entrar num país ou dele sair.

Em relação aos recentes atentados, é necessário passar à neutralização do EI através de vários canais, sendo o principal a criação de uma ampla coligação internacional que se incida a sério na solução dos problemas da Síria, Iraque e Médio Oriente em geral. E, se como quer Milhazes, o EI se assemelha, pelas suas ideias e ações, ao nazismo, impõe-se fazer hoje como fizeram, em 1941, Churchill, Roosevelt e Estaline, que “souberam pôr de parte as suas ambições políticas pessoais para enfrentar um adversário desumano perigoso”. Têm os serviços secretos dos vários países que se concentrar no combate ao terrorismo em vez de andarem a escutar os seus dirigentes e os alheios. Depois, além do oleamento das estruturas militares e securitárias, fundamentais para travar o alastramento do conflito, urge secar as fontes de financiamento dos grupos terroristas, designadamente fazer cessar a venda de armas e outros equipamentos bélicos ao EI, bem como barrar a compra ilegal de petróleo – isto por parte de privados e por parte dos países. Têm a ganância económica e a sede de poder deixar de cegar os dirigentes mundiais.

É ainda crucial que se eliminem as causas (ou que não se venham a repetir) que levaram ao aparecimento do EI e de outros grupos terroristas, sendo uma delas o multíplice apoio aos combates às diversas ditaduras sem analisar a índole dos grupos opositores a elas e sem medir as consequências. Por outro lado, já que não foi possível prever atempadamente a extensão da onda de refugiados, não se podem protelar as medidas de resposta à situação de crise e as medidas preventivas para evitar o crescimento do número de desenraizados.

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Também atribuir pura e simplesmente esta onda de barbárie à religião islâmica parece uma postura injusta. Alegam alguns que o Corão contém incitamento à violência e à intolerância. Poderiam de igual modo atentar no facto de a Bíblia, se interpretada sempre ao pé da letra, poder servir, como já serviu ao longo da História, de legitimação a grandes enormidades.

A questão é passível de resolução com base na reinterpretação de textos que foram escritos há já muitos séculos e em consonância com as vicissitudes de contexto, devendo centrar-se a atenção no essencial. Neste aspeto, o cristianismo hoje propõe a interpretação do Antigo Testamento à luz da novidade da pregação de Jesus Cristo e da pregação apostólica e patrística.

Finalmente, é preciso sublinhar que os recentes atentados não resultam de qualquer humorismo irreverente como os do Charlie Hebdo. E, se a liberdade de expressão tem de se autolimitar pelo respeito pelas pessoas e por suas crenças, também não me parece justo pretender “não permitir que os imãs muçulmanos radicais tenham a possibilidade de pregar, com todas as condições e conforto, ideias odiosas nas mesquitas de Paris, Londres e por aí adiante”. Isso não é viável e, se o fosse, compaginaria a instauração do Estado policial pidesco.

Devem é os poderes estar com atenção a todas as tentativas de crime e a todos os crimes consumados. E os cidadãos, considerados individualmente ou integrados em suas estruturas representativas, têm uma palavra a dizer. Quanto ao mais, atenhamo-nos ao aforismo atribuído a Voltaire “Posso não concordar com o que tu dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.

2015.11.15 – Louro de Carvalho

domingo, 15 de novembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Da geringonça política…


Após as eleições legislativas do passado dia 4 de outubro, disse-se um pouco de tudo. Algumas coisas que foram ditas são óbvias, outras quase inéditas e outras desconcertantes.

A votação popular não deu a maioria de votos a nenhuma das forças políticas partidárias que se apresentaram ao escrutínio eleitoral e, por consequência do estabelecido no nosso ordenamento constitucional, não resultou um partido ou coligação que tivesse uma maioria parlamentar que sustentasse um governo capaz de fazer passar o seu programa perante o veredicto dos deputados. Não aconteceu apenas a não formação de uma maioria parlamentar natural, mas também não se formou uma maioria relativa negociadora.

Das eleições legislativas já resultaram vários governos minoritários à esquerda (PS) e à direita (PSD), mas nenhum deles foi confrontado pela aprovação de uma moção de rejeição do seu programa (pela maioria dos deputados em efetividade de funções).

É certo que, em 1978, um governo de iniciativa presidencial (mas não resultante diretamente das eleições de 1976), chefiado por Nobre da Costa, viu rejeitado o seu programa na Assembleia da República. Os tempos são e eram efetivamente outros, mas não se pode, a este nível, nem invocar a tradição constitucional, como alguns fizeram, nem pura e simplesmente ignorá-la ou negá-la como outros também fizeram. Mesmo o dizer-se que foi a primeira vez que a eleição do presidente da Assembleia da República recaiu num deputado não proposto pelo partido mais votado é complicado, já que, em 2011, também a primeira figura proposta pelo partido mais votado não foi eleita. Assunção Esteves foi a segunda escolha, porque a coligação pós-eleitoral não se entendeu em torno de Fernando Nobre.

Depois, o debate público rodou, a meu ver mal, em torno da legitimidade política ou não de a coligação Paf se apresentar para gerar um governo minoritário ou da mesma legitimidade ou não da constituição de uma maioria construída à esquerda liderada pelo segundo partido mais votado. Agora até se diz que três perdedores (PS+BE+PCP+PEV) não podem fazer um ganhador!

Não vale argumentar que a direita não tinha legitimidade política para gerar um governo minoritário. Pode é ser o seu líder apontado como não se tendo munido da habilidade ou da vontade de garantir o apoio a esse governo. Não se pode, por outro lado, aduzir que a maioria de esquerda foi constituída já depois das eleições, pois já houve duas maiorias de direita constituídas após o ato eleitoral (2002 e 2011).

Há neste rescaldo eleitoral algo de novo, quiçá preparado cavalheirescamente durante o período eleitoral: da mudança de alvo privilegiado nalguns discursos de campanha da parte de algumas agremiações políticas passou-se à disponibilidade de concertação negociada em torno do Partido Socialista. E o secretário-geral do PS declarou que o partido não alinharia numa coligação negativa para derrubar um governo minoritário sem dispor de alternativa credível de governo.

Constituirá o entendimento das esquerdas a aliança contra naturam, o convénio de ocasião, a aposta conjunta no combate à tentativa da constituição de um governo de direita? Não se sabe. Todavia, não se pode ignorar o fenómeno. E essa ignorância aconteceu, como se verá a seguir.

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E quem é que ganha eleições legislativas?

Uns dizem, pela lógica do voto popular, que é o partido mais votado; outros dizem, argumentando com a norma constitucional do artigo 149.º da CRP, que é aquele que tiver um número maior de deputados na Assembleia da República.

Ora, como a CRP não o define, parece-me que ganha as eleições a força partidária – partido, coligação ou frente partidária – que tenha um número suficiente de deputados para garantir a formação de um governo de legislatura. Não sendo atingido este objetivo, ninguém em rigor, pode reivindicar em absoluto uma vitória eleitoral clara. Não obstante, uns aproximam-se mais do objetivo que outros e não se podem ignorar importantes ganhos relativos, como o aumento do número de votos e/ou de deputados, a manutenção da fidelização do eleitorado, a subida da fasquia percentual do número de votos, a implantação nalgum círculo eleitoral, o impedimento da maioria absoluta de alguma força partidária, etc.

No caso das eleições autárquicas, a lei eleitoral é clara: ganha as eleições a força política (partido, coligação, frente partidária ou grupo de cidadãos independentes) que obtiver mais votos e, necessariamente, mais mandatos; e o cidadão que encabeça a lista da força política que obtiver o maior número de votos/mandatos será respetivamente o Presidente da Câmara Municipal ou o Presidente da Junta de Freguesia, conforme se trate de eleição para o município ou para a freguesia. E note-se que as eleições para a freguesia são apenas para a assembleia de freguesia. E o dito cidadão da lista mais votada preside à primeira sessão da assembleia de freguesia, até que termine a eleição interna dos restantes membros da Junta de Freguesia.

Porém, para as eleições legislativas nada está definido, a não ser que se elegem deputados, pelo que falar de eleições para primeiro-ministro ou para o governo é concluir abusivamente do articulado constitucional. Por isso, não me arrependo das críticas que fiz à iniciativa do PS em ter lançado as eleições para apuramento de um candidato a primeiro-ministro.

O n.º 1 do artigo 187.º da CRP apenas exige, para a nomeação do primeiro-ministro por parte do Presidente da República, a audição prévia dos partidos com assento parlamentar e que sejam tidos em conta os resultados eleitorais. Porém, esta última é uma indicação genérica.

Não vale, pois, agitar a simples ideia de que foi impedido de governar quem efetivamente ganhou as eleições, ou vir agora carpir-se de a Constituição, dadas as suas omissões, permitir quase tudo. Quem é que não se lembra das críticas recorrentes ao texto constitucional por ser demasiado extenso e excessivamente regulamentador? 

Nem vale argumentar que os eleitores que votaram no PS não votaram no entendimento à esquerda ou que não votaram no entendimento à direita. Por outro lado, ninguém abriu totalmente o jogo aos eleitores, até porque isso seria perigoso e relativamente comprometedor.

Sendo legítimo fazer leituras diversificadas dos resultados eleitorais à luz da nossa CRP, são certas duas coisas: os portugueses não quiseram a governança maioritária da PaF e não deram a suficiente confiança ao PS para governar; a vontade dos portugueses, como foi expressa nas urnas, possibilita diversas hipóteses de governo – minoritário, com abstenções violentas, ou maioritário com participação, ou ao menos apoio, em sistema de arco-íris.

Muito me admirou o facto de, segundo muitas sondagens (se as sondagens valem o que valem, constituem um indicador a ter em conta), muitos dos portugueses (a maior parte) manifestarem a esperança de que António Costa fosse primeiro-ministro, mas não dariam o voto ao PS.

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Que se passou a seguir?

Passos Coelho e Paulo Portas, porque o artigo 22.º da lei eleitoral para a Assembleia da República estabelece que as coligações eleitorais se desfazem com a eleição, acorreram à celebração de um acordo de governo. Esqueceu-se Passos do segundo partido mais votado e de que o acordo assinado com o parceiro não garantia uma solução maioritária de governo.

Por seu turno, o Presidente da República encarregou Passos Coelho de avaliar as possibilidades da criação de condições para a formação de uma solução governativa estável e duradoura. Além da crítica de que foi objeto por se apressar a coloquiar com Passos Coelho, antes de ouvir os partidos com assento parlamentar, irritou a potencial maioria de esquerda (que nunca fora real como agora) ao traçar os balizamentos da participação no governo ou na constituição de uma maioria de incidência parlamentar, designadamente o europeísmo, o equilíbrio das contas públicas, a política de alianças e os diversos compromissos internacionais, de que destacou a CPLP e o ainda inexistente tratado do comercio transatlântico.

Como consequência, assistiu-se ao recrudescimento da posição da esquerda e ao, ainda que moroso, desenvolvimento de vários painéis de negociações: do PS com o BE, com o PCP e, mais tarde, também com o PEV, marcadas pela negociação difícil, mas com a afirmação inequívoca da sua progressividade com vista a um certo sucesso. Por outro lado, entabularam-se negociações do PS com a PaF, com acusações recíprocas e cujo resultado deu em nada.

E a crispação política, que, entretanto, se gerou em torno da tradição e não tradição, da legitimidade e não legitimidade e da leitura da Constituição versus recurso à sabedoria política, acentuou-se quando o Presidente da República indigitou Passos Coelho como primeiro-ministro e reiterou o essencial do seu discurso anterior, embora com amenização do tom, depois de ter declarado publicamente que não retirava uma única linha ao que tinha dito anteriormente. E foi criticado por ter declarado tratar-se da formação que ganhou as eleições e que as demais forças políticas não lhe apresentaram uma solução governativa, estável, duradoura e credível, como se a coligação o tivesse feito.

E, embora fosse geralmente aceitável como legítima a indigitação daquele primeiro-ministro, começou a receber-se o elenco governativo com a sensação mista da ineficácia e do sinal tido como de agrado ao PS pela criação de pastas simpáticas, mas sem orçamento e com misturas esquisitas em termos da acoplação de competências no mesmo ministério. Por outro lado, a crítica pareceu-me intempestiva quer no atinente à demora em constituir a equipa governativa quer no atinente à apresentação o programa de governo (não estavam a ser ultrapassados os prazos constitucionais) – até porque os acordos à esquerda não estavam a dar sinais de conclusão e o PS mantinha-se dividido na estratégia. E aqui pergunto-me: E, se o Presidente tivesse optado por indigitar de imediato como primeiro-ministro o secretário-geral do PS?

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O plenário da Assembleia da Republica até ao debate do programa do governo só reuniu para a verificação de poderes e para a eleição do presidente e líderes das bancadas parlamentares, o que deu a sensação da inexistência ou da ineficácia deste órgão de soberania. E a eleição do presidente deu azo à crispação num grau a que já não estávamos habituados. O próprio presidente eleito resolveu inusitadamente a partir da sua cadeira presidencial (que não da bancada do seu partido) responder ao tom e conteúdos dos discursos do Presidente da República.

O debate do programa do governo foi aceso e crispado. Porém, mais do que os conteúdos, o debate centrou-se ou nas pessoas ou na legitimidade política a partir da leitura dos resultados eleitorais, de que, desnecessariamente, parece ter aflorado a emergência da usurpação do poder por parte de uns e de outros. Por outro lado, a discussão derivou para a bondade ou iniquidade do programa do governo que não existe, mas que todos trataram como se já existisse – tudo a partir dos fumos que se vislumbravam dos instrumentos dos acordos interpartidários que se vinham congeminando à esquerda, agitando-se todos os fantasmas já conhecidos a um lado e a outro. Até o silêncio do secretário-geral o PS foi passível de bordoada, assim como o facto de os acordos interpartidários não posarem para a fotografia!

Esperava que o Presidente da Assembleia da República, dada a sua notável experiência política e governativa, estivesse mais à vontade na gestão do plenário e lidasse melhor com os imprevistos (tem de caminhar um bocado mais). Como é que não decide, logo que lho sugerem, proceder à votação por fila, ao dar conta que o sistema eletrónico não funcionava? E, ao fazer a contagem na primeira fila, manda ingenuamente que os deputados que votam contra carreguem no botão (que não funciona)!

Registo como razoável, em termos de conteúdo, que não de forma, a chamada de atenção da Ministra das Finanças para as consequências orçamentais de novas políticas e as suas repercussões internacionais. Recebi como irónica a afirmação do Primeiro-Ministro de que não é todos os dias que se deita abaixo um governo sufragado pelo voto popular. E, do lado do Vice-Primeiro-Ministro, registo duas tiradas de mau gosto: a advertência de que, quando o futuro Primeiro-Ministro se vir enredado nas exigências dos parceiros de entendimento e nas constrições europeias, não venha pedir socorro à coligação de direita; e a denominação de geringonça, em abstrato, ao entendimento à esquerda e ao futuro governo.

Acho que até poderá ter razão, mas devia esperar pelo programa. E, após consulta a um bom dicionário de Língua Portuguesa, “geringonça” dá um pouco para tudo. Infelizmente, geringonça política não é somente o que António Costa confecionou com a Catarina, o Jerónimo e a Heloísa. Há mais e muito mais, Senhor Presidente, Senhoras Deputadas e Senhores Deputados!

2015.11.11 – Louro de Carvalho