sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A humanidade e o sagrado são, nela, uma e a mesma coisa


Livro


Pouco se sabe acerca de Maria de Nazaré que, muito jovem, foi mãe de Jesus. Mas, como escreve Jacques Duquesne (Maria, A Verdadeira História da Mãe de Jesus, ed. Asa), “esta quase desconhecida foi representada de todas as maneiras – com talento, ingenuidade ou estupidez – e sem ela a História da Arte seria completamente diferente”.
A escassa dezena de referências dos quatro evangelhos canónicos à sua pessoa contrasta com a maior importância que lhe é dada nos apócrifos (os textos não aceites como autênticos ou divinamente inspirados, onde até se “identificam” os pais de Maria, sobre os quais não há certeza histórica nenhuma) e, mais ainda, com todas as alusões, invocações e atributos que, ao longo da história, se centraram na sua figura.
Resume ainda Duquesne: “Esta mulher ignorada pelos autores do seu tempo foi proclamada três séculos mais tarde mãe de Deus, depois rainha e mãe da Igreja e mil vezes coroada. Ela foi – e continua a ser – invocada por milhões de homens e mulheres. São-lhe atribuídos milhares de milagres. Nunca ninguém no mundo inspirou tantos hinos, cânticos, poemas, histórias.” E, numa alusão a fenómenos como Fátima, lembra o jornalista católico francês (autor também de um Jesus que causou muita polémica) que esta mulher arrasta multidões “para os lugares onde ela apareceu, onde ela falou e falou bem mais do que nos Evangelhos, séculos depois da sua morte”.
Foi precisamente esse fascínio de tantos milhões que levou as autoras deste “acervo” de arte a dar-nos um retrato dos retratos desta mulher ímpar na história da humanidade. São 370 imagens (quase todas pinturas, algumas esculturas e algumas fotos de santuários a ela dedicados) aqui reunidas, que nos dão o mais belo das diferentes invocações, factos miraculosos ou histórias relacionadas com Nossa Senhora, como popularmente é tantas vezes designada.
O pequeno álbum, em formato de livro de bolso, mas com quase 800 páginas, percorre as etapas da vida de Maria de Nazaré. Mas a leitura que ele constrói é mais teológica e reflexiva do que cronológica, começando por apresentar as profecias e prefigurações marianas. Ou seja, incluem-se aqui as narrativas que relacionam a figura venerada no cristianismo com as mulheres que se destacam no judaísmo bíblico do Antigo Testamento. Maria é a nova Eva, mas está também prefigurada nas matriarcas fundadoras como Agar, Sara, Rebeca ou Raquel, ou em mulheres profetizas como Ana e Abigail ou mulheres lutadoras como Betsabé, Jael, Judite ou Ester. Nesse sentido, a arte acabou por traduzir a aproximação popular às figuras do judaísmo através dos atributos e características de Maria.
Essa lógica continua em vários outros capítulos – iconografias e símbolos, infância de Maria, Maria e Jesus, Maria e a Paixão de Cristo, Maria e os santos, Maria no Oriente –, e apenas se altera quando se fala de Maria ao longo dos séculos, em que se dá uma perspectiva de evolução da história da arte relativa à sua representação. Dois capítulos finais sobre as festividades e os santuários, bem como um anexo com a lista dos fenómenos de aparição mariana completam a preciosa informação iconográfica e documental do livro.
O traço comum a todas as abordagens é a profunda relação que se estabelece entre a humanidade e o sagrado; uma e outro estão implicados e são inseparáveis – são uma e a mesma coisa, nessa revelação de que a humanidade é sagrada e que o sagrado só o é quando vai ao mais fundo do humano.
Este livro, e a arte que ele revela, mais não faz mais do que colocar a arte a recuperar a figura marcante, mesmo se misteriosa e quase desconhecida, que foi Maria de Nazaré. Aquela capaz de exaltar os humildes e os famintos, como faz no seu hino, a que faz perguntas ao anjo ou ao filho, a que se alegra com o nascimento e crescimento do filho ou sofre com a sua morte, aquela que é capaz do silêncio, a que cultiva o quotidiano como se da eternidade se tratasse.
(texto publicado no DN de 24 de Dezembro). Vi aqui

Título: Maria
Autoras: Martina Degli'Innocenti e Stella Marinone

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Morreu George Michael

"Um artista e compositor versátil e talentoso, com uma longa carreira de inequívoca qualidade"
(Marcelo Rebelo de Sousa)















Veja aqui





quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Boas Festas, caro(a) Visitante!


Desilusão com aquela grande superfície comercial

Alguém, precisando de adquirir umas roupas, deslocou-se a uma grande superfície comercial de uma grande cidade. Tinham-lhe dito que ali havia variadíssimas lojas, desde o baixo custo até às mais caras.
Na companhia de uma pessoa amiga, fez-se à estrada após o trabalho, uma vez que essa grande superfície estava aberta ao público até à meia-noite.
Gente, gente, gente. Encontrar um lugar para estacionar o veículo foi quase um milagre. Descobrir um espaço para jantar foi uma odisseia. Tudo cheio.
Loja de baixo custo. Uma desilusão. O pouco tempo que lá aguentou foi "pelos cabelos". Parecia a Feira da Ladra. Nada de jeito e o aspeto do espaço era horrível.
Nas outras lojas o aspeto era obviamente diferente. Mas os preços? Uma loucura. Num país em que tanta gente tem ordenados tão baixos, há tantas pessoas desempregadas, como são possíveis tais preços?
Depois, num tempo em que se reclama tanto pela liberdade individual, parece que o comércio opta pela uniformidade. Variam as marcas, variam os preços, mas o estilo de roupa é o mesmo. Algo parecido acontece hoje com o mercado automóvel. Todos muito parecidos!
Resultado. Essa pessoa não adquiriu nada! Valeu pelo esticanço ao carro, uma vez que normalmente circula em espaços curtos e os veículos precisam , de quando em vez, de mais estrada para a sua saúde. Lá foi o custo do combustível, as portagens e o custo do jantar...
Ficou a jura. Aqui nunca mais! Se bem que lá vem o ditado: "Nunca digas nunca!"

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

As três Rainhas Magas


O que se teria passado, se, em vez de três Reis Magos, tivessem sido três Rainhas Magas?
1 – Teriam perguntado como chegar ao local e teriam chegado a horas.
2 – Teriam ajudado no parto e deixado o estábulo a brilhar....
3 – Teriam ainda preparado uma panela de comida.
4 – Teriam trazido ofertas mais práticas.

Mas quais teriam sido os seus comentários ao partirem?
1 – Viste as sandálias que a Maria usava com aquela túnica?
2 – O menino não se parece nada com o José!
3 – Virgem! Pois está bem! Já a conheço desde o liceu…
4 – Como é que é possível que tenha todos esses animais imundos a viver dentro de casa?
5 – Disseram-me que o José está desempregado!
6 – Queres apostar em como não te devolvem a panela?

Eça de Queirós e a política


Muitas vezes se aduz com razão as frases sentenciosas de Eça de Queirós para afiançar que os políticos cometem inveteradamente os mesmos erros e que facilmente a política se desvirtua abandonado a sua configuração e finalidade de procura do bem comum pela via da verdade para se tornar o serviço interesseiro dos seus operadores ou de seus amigos na via da mentira e do logro. São, na verdade, muitos os lugares linguístico-literários em que a prosa queirosiana carrega na política e nos políticos, porém, cinjo-me, como é de esperar, a alguns exemplos.

No Distrito de Évora, de 1867, o jornalista escritor fala da “política de interesse” dizendo que,

“Em Portugal, não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.”.  

No entanto, não deixa de especificar o que é, entre nós, a ciência de governar e a política:

“A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.”.

Sobre o acesso dos cidadãos à atividade política, diz:

“À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espetáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade”.

Porém, hoje abundam os que têm em mente o ingresso na política sobretudo como trampolim para futuros cargos chorudos em grandes empresas – desígnio acessível a mulheres.

Andámos quatro anos a dizer que não somos a Grécia – tese contestada por alguns, provavelmente não em todos os epifenómenos, mas nas questões de fundo. Veja-se o que escreve o prosador de Oitocentos sobre a matéria:

“Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos carateres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.” (in ‘Farpas,1872’).

Todavia, hoje o acento não se coloca no catolicismo ou na falta de história e de literatura, mas nas agências de rating e no desmando financeiro e económico, sem um governo que ponha os pontos nos is.

***

Noutro número do Distrito de Évora, Eça denuncia o verdadeiro cancro que mina o país – a desconfiança:

O que verdadeiramente nos mata (…) é a desconfiança. O povo (…) não confia nos homens que hoje tão espetaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários (…); os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça.”.

Depois, tira as suas conclusões, tão válidas então como hoje:

“Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem atos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.”. 

Sobre a inabilidade de sair das crises, perora:

“Quando numa crise se protraem as discussões, as análises refletidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. (…) Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de 40 horas. Sabemos que um défice arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído. O que nos magoa é ver que só há energia e atividade para aqueles atos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.“.

E escalpeliza a forma como se tomam medidas gravosas e medidas úteis:

“Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projeto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.”.

Sobre o estado geral da nação, não se torna meigo:

“O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: ‘A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos’.”. 

A propósito da governança, é cáustico:

Entre nós têm-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegámos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos do futuro e do desconhecido que cada acerto, cada bom acerto é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecusável verdade.” (in 'Últimas Páginas'). 

Talvez venha a propósito recordar que, no seu romance “Os Maias – episódios da vida romântica”, João da Ega, que os críticos consideram a personagem Alter-ego do próprio escritor, só via uma saída para a crise portuguesa: a invasão espanhola. Não será algo parecido com o que hoje tantos sustentam já não pela militança, mas pela espanholização da economia e das finanças ou pela assunção do iberismo como filosofia de vida?

E quem não revê o Portugal de hoje da UE e do Euro no registo crítico seguinte?


***

Muitas vezes, os políticos são indiciados por atitudes e comportamentos ilícitos. Hoje é useiro e vezeiro vir a comunicação social fazer julgamentos na praça pública. Já no tempo de Eça isso acontecia, mas sem rádio, televisão, cinema e internet. Veja-se o que refere em Cartas de Paris o cônsul Queirós, escritor e jornalista sobre “Os Juízos Ligeiros da Imprensa”:

“Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já inerradicável hábito dos juízos ligeiros. Em todos os séculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com exceção de alguns filósofos mais metódicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de refletir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condenar em política o facto mais complexo, e onde entrem fatores múltiplos que mais necessitem de análise, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo ondeante do charuto.” 

A este respeito, refere o método e a tentação:

“O método do velho Cuvier de julgar o mastodonte pelo osso é o que adotamos, com magnífica inconsciência, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplêndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: ‘É uma besta! É um maroto!’ Para exclamar: ‘É um génio!’ ou ‘É um santo!’, oferecemos naturalmente mais resistência. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um fígado livre nos inclinam à benevolência risonha, também concedemos prontamente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa de louros ou a auréola de luz.”.

***

Porém, nem tudo o que se atribui a Eça é da sua autoria. Atribui-se-lhe, por exemplo, a seguinte frase sentenciosa: Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos a tempos pelo mesmo motivo”. Esta frase não parece ser de Eça, como se verá. 

Ao brasileiro Onésimo Teotónio de Almeida, que diz já a conhecer em inglês, aquele humor não parece eciano. E, a confirmá-lo, refere a resposta perentória que recebeu do especialista em textos queirosianos A. Campos Matos à questão que o consulente lhe levantava:

Tal como a conhecida história da carta ao diretor da Companhia das Águas a perguntar ‘Que posso eu cortar a V. Ex.cia se V. Ex.cia me cortar a água?’, essa frase não vem em qualquer livro de Eça. É uma falsa atribuição. E, de seguida, em PS: A carta ao diretor da Companhia das Águas é da ramalhal figura.”

Onésimo assegura que

“A frase passou a circular na Internet sobretudo depois do aparecimento do filme Man of the Year, de 2006, em que Robin Williams, no papel de Tom Dobbs, figura decalcada em vários talk-show hosts norte-americanos, a repete, supostamente citando Benjamin Frankin”.

- (vd Onésimo Teotónio Almeida, Nem tudo na rede é peixe.: http://lusopresse.com/2014/304/LER-Novembro-2013-OTA.aspx.)


***

Estes casos abundam. E Onésimo refere muitos. Por mim, refiro alguns.

Muitos pensam que a expressão “este jardim à beira-mar plantado” é de Camões, quando o seu autor é Tomás Ribeiro que a encaixa no poema Dom Jaime.

E eu próprio, em tempos, recebi os parabéns de muitos por artigo de jornal que eu não escrevi.

Também se atribui, sem fundamento, a São Francisco de Assis a oração pela paz que se inicia pelo segmento “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz” e prossegue: “Onde há ódio, que eu leve o Amor…”. Veja-se a seguinte referência:

“A Oração a São Francisco de Assis é de origem católica, foi criada no século XIII, mas só foi publicada em 1912 por um padre francês Esther Bouquerel através da revista La Clochette (pequeno sininho). Há muita controvérsia acerca da origem da oração, muitas pessoas afirmam que o santo Assis não é o real autor da mensagem, todavia é assim que a conhecemos e creio que isso não é o mais importante!”.


E L'Osservatore Romano, de 19-20 janeiro 2009, refere pela pena de  Egidio Picucci:

“O Marquês Stanislas de A Rochethulon, presidente da associação anglo-francesa Souvenir Normand – que se qualificava como ‘obra de paz e de justiça ideal, inspirada no testamento de Guilherme, o Conquistador, considerado antepassado de todas as famílias reais da Europa, para fazer ressaltar o papel que tiveram a lei e o direito estabelecidos pelos conquistadores normandos’ – tinha feito chegar ao Papa duas orações pela paz e um cântico dedicado a Nossa Senhora das Normandias. A primeira oração era uma invocação ‘à Nossa Senhora dos Normandos e aos seus santos e santas padroeiros’; a segunda, uma ‘bela oração a recitar durante a Missa’, publicada por um certo abbé Bouquerel, redator do semanário católico A Cruzx de Orne, retomada no número de dezembro de 1912 do periódico La Clochette, um revistinha católica de caráter devocional fundada em outubro de 1901, e que se qualificava como boletim da Liga da Santa Missa.”.

***

Voltando à frase atribuída a Eça de Queirós, não creio que o humor do jornalista político e escritor confundisse políticos e fraldas. Uns e outros devem mudar-se de tempos a tempos e pelo mesmo motivo, mas por posicionamentos opostos. Não são as fraldas que dão o motivo, mas o corpo que elas servem (que não pode viver sem essa função) é que exala e expele o produto que leva a que sejam mudadas. Já os políticos, ao contrário das fraldas, é que produzem, por culpa própria, exalam e expelem o dito produto – o que dá a entender que o que eles queriam é que fosse descartado o tal corpo que eles deviam servir e de que, afinal, se servem, deixando-o cada vez mais sob a alçada das agências de rating, que não se inibem de tratar o país como lixo.

2016.12.16 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Será reposta a dignidade o túmulo de Dom Dinis, o que decidiu ficar só



O sarcófago do rei poeta, diplomata, culto e lavrador, que está no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, em Odivelas, foi gravemente desvirtuado pelo terramoto de 1755 e por restauros posteriores pouco ortodoxos. Agora uma equipa vai tentar restituir-lhe a dignidade.
A informação detalhada é prestada por Lucinda Canelas no Público de ontem, 13 de dezembro. Recorda-nos a articulista que, para ascender ao trono, Dinis teve que enfrentar o irmão Afonso, filho bastardo do pai, e para se segurar no trono, teve de lutar contra o filho, o futuro Dom Afonso IV. Mas pretendeu também decidir como havia de ser recordado após a morte. Escolheu o sítio da sua sepultura e a configuração do túmulo. Foi o primeiro soberano português que dispôs duma escultura – a representá-lo – jacente sobre a tampa do sarcófago; e foi o primeiro português (e a primeira personalidade laica no mundo) a quem o Papa autorizou a colocação dentro duma igreja e não em espaço anexo. Na verdade, o fim do rei lavrador condiz com o que foi em vida. E, a este respeito, Giulia Rossi Vairo, investigadora da Universidade Nova de Lisboa (autora de tese que encara o monarca e a esposa, a rainha Santa, a partir da arte tumulária a eles associada), diz:
 “Dom Dinis não é um rei qualquer, é um dos mais importantes da história de Portugal e uma personalidade fascinante por variadíssimos motivos com um percurso cheio de revoluções, de primeiras vezes”. (D. Dinis de Portugal e Isabel de Aragão in vita e in morte. Criação e transmissão da memória no contexto histórico e artístico europeu).
As aludidas revoluções “passam pela administração do território, pela agricultura e pela construção naval, pela educação e pela cultura”, e culminam no túmulo que ocupou lugar de destaque a meio da igreja do Mosteiro, entre a capela-mor e o coro das monjas de clausura.
Aquela localização tumular foi inovadora, mas, segundo a investigadora, o rei e a rainha quiseram “determinar que imagem sua ficaria para a eternidade”, o que era “muito moderno para a época”, sendo estes “os primeiros reis portugueses a fazê-lo”. Além disso, frisa que foi Dom Dinis (1261-1325) quem erigiu este mosteiro cisterciense (entre 1295-1305) na obediência à casa-mãe de Alcobaça, onde até aí se sepultavam os reis e sua descendência (com exceção de Afonso Henriques e Sancho I, que repousa, em Santa Cruz de Coimbra), e que foi ele que, por um breve lapso de tempo, o transformou num panteão régio.
No seu primeiro testamento, o de 1318, Dom Dinis determinou que o Mosteiro de Odivelas deveria receber o seu túmulo e o da esposa. Mas, em documento redigido quatro anos mais tarde, mudou de ideias, provavelmente devido à guerra civil que opôs o rei ao filho Afonso, que temia ver o pai nomear como sucessor o seu meio-irmão, Afonso Sanches, filho bastardo do soberano e certamente o seu predileto (trovador como o pai), e ao facto de a rainha estar longe de ser a figura que viria a promover a reconciliação entre o rei e o herdeiro real.
Segundo a historiadora italiana, “o casal zanga-se, a guerra separa-os, e nem mesmo a ligação emocional e até financeira que têm a Odivelas resolve as coisas”, “até o Papa lhes pede que se reconciliem porque a desunião do casal era a desunião da coroa”, o que podia ser perigoso, e pede que “Isabel reconcilie pai e filho, o que acaba por fazer”.
Rossi Vairo não sabe se foi o rei se a rainha quem determinou ficar sozinho por toda a eternidade, embora cronologicamente essa decisão pareça ter cabido ao rei, que morreu primeiro, e seja provável que a rainha tivesse conhecimento da decisão do rei. E foi Isabel de Aragão que depois escolheu o mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, e aprovou o túmulo que para si foi construído. Era “uma mulher de personalidade forte, com dinheiro e influência em Portugal e não só. Ela também não é uma rainha qualquer.”.
No último dos seus três testamentos, Dom Dinis exigiu que o túmulo ficasse no centro da igreja, entre a nave central e a capela-mor, um lugar de destaque onde a comunidade pudesse rezar pela sua alma e recordasse a memória do rei até à eternidade.
É este túmulo, gravemente danificado pelo terramoto de 1755 (a abóbada da igreja abateu-se sobre ele), que a DGPC (Direcção-Geral do Património Cultural) e a Câmara Municipal de Odivelas intentam restaurar, já que foi sujeito a inúmeras intervenções em moldes discutíveis, entre as quais se incluem as mais abrangentes: em meados do século XIX, por ordem da rainha Dona Estefânia; e a dos anos 1960, pela DGMN (Direção-Geral dos Monumentos Nacionais). Após anos de incúriae esquecimento, as entidades competentes juntam-se para dar renovada dignidade ao túmulo do 6.º rei, que, durante quase meio século, “consolidou as fronteiras, revolucionou a agricultura”, incrementou “a exploração mineira, impulsionou o comércio, fundou a universidade, travou uma guerra civil (1319-1324) e ainda escreveu poesia, sendo compositor de dezenas de cantigas de amor e de amigo – uma referência das letras trovadorescas no reino e fora dele.
O seu monumental sarcófago passou a ocupar uma capela lateral do mosteiro (à esquerda do altar-mor), que é monumento nacional desde 1910 e está entregue ao Ministério da Defesa Nacional (segundo a DGPC, a autarquia espera resposta ao pedido para que o edifício passe para a sua guarda).
Para já e até fins de dezembro, os trabalhos  da 1.ª fase concentram-se na limpeza do sarcófago.
Maria Antónia Tinturé, técnica de conservação e restauro da DGPC, apontando para a argamassa que cola o tampo à base, que não estava lá nas fotografias dos anos 1960, diz que “estava muito sujo” e que, “sem retirar as camadas de sujidade, é impossível perceber a própria estrutura do túmulo, distinguir o que é original do que é dos restauros dos séculos XIX e XX”.
Crendo serem desta época os acrescentos em cimento e ferro e a fina camada acinzentada que cobria todo o conjunto, supõe tratar-se duma “espécie de véu” posto para dar “unidade ao conjunto”, sendo ainda visíveis alguns vestígios da policromia, que pode ou não ser do original. Entretanto, o Instituto Politécnico de Tomar estudará amostras da pedra e da tinta usada para decorar o sarcófago para que se possa determinar a sua idade.
Apesar de tudo, não há intenção de retirar o que o tempo lhe foi acrescentando, por mais despropositado que hoje pareça, pois as técnicas de conservação regem-se por uma cartilha de intervenção que, evitando as reconstituições, “deixa bem visíveis quaisquer alterações ao original”. A exceção a essa permanência, segundo Tinturé, é quando ameaçam a integridade do original, o que aqui não acontece. João Seabra Gomes, outro dos técnicos da DGPC, assegura:
“Hoje sabemos que a intervenção deve ser mínima, que devemos manter lacunas e omissões, que não deve haver qualquer especulação. No passado não era assim, mas os restauros do passado também fazem parte da história e, por isso, devem ficar.”
***
Não se sabe como era o túmulo antes do terramoto e, embora alguns defendam que lhe falta nas mãos a espada, comum nas estátuas jacentes dos reis europeus da Idade Média, outros levantam a hipótese de ela nunca ter existido. Por outro lado, questiona-se por que razão a cabeça do rei é tão desproporcional face ao resto do corpo e porque segura ele um pedaço do manto, num gesto tipicamente feminino. Depois, pergunta-se se o túmulo foi construído em calcário colorido ou se veio a ser pintado no grande restauro do século XIX.
Reunida e tratada a informação do levantamento em curso, começará a 2.ª fase dos trabalhos.
A intervenção deverá estender-se ao outro túmulo do mosteiro, que pertencerá a um dos netos de Dom Dinis (durante muito tempo cria-se que nele jazia uma das suas duas filhas bastardas – ao todo o rei teve 7 filhos ilegítimos –, mas hoje as teses andam entre os netos João e Dinis, infantes que terão morrido com cerca de um ano). E persiste a possibilidade de os restos mortais do rei serem estudados durante o processo, embora não haja ainda qualquer projeto nesse sentido.
O Túmulo de Dom Dinis não é atribuído a nenhum artista ou oficina específicos. A estética permite-nos apenas especular a influência da arte tumular francesa na escolha do seu autor.
***
Filho de D. Afonso III e Dona Beatriz de Castela, Dom Dinis pontificou os destinos de “Portugal e do Algarve” durante 46 anos, entre fevereiro de 1279 e janeiro de 1325, comummente associado ao restabelecimento de relações com a Santa Sé, ao desenvolvimento da marinha e da agricultura. São-lhe atribuídos os louros pela consolidação do poder nas comarcas e no território nacional e por uma estabilidade monárquica pouco comum na Europa de então. Foi um rei marcadamente diplomático na ação voltada para outros reinos no Mediterrâneo, com fulcral relevância no xadrez político. O “Rei Poeta” afirmou-se como homem da cultura, das artes, da poesia e incrementou a literatura e a tradução de obras para português. Foi graças a si que ficou assinado o primeiro estatuto de universidade em Portugal, pela Magna Charta Privilegiorum. 
Porém, a representação tumular da imagem do 6.º rei português foi totalmente adulterada aquando do restauro do século XIX, por um lado, pela utilização de gesso em contacto com o ferro, o que levou à oxidação, e, por outro, pela reconstrução da imagem real, longe de qualquer rigor histórico e num puro exercício de invenção. Traje, cabelo e barba são reconstituídos à imagem régia de oitocentos, não há símbolos associados às esculturas régias, como a espada e as esporas ou outras insígnias do rei; e a coroa é anacronicamente caraterística do século XIX. 
Assim, sobre as operações de restauro, o vereador da cultura do município de Odivelas, refere:
“Hoje, a fazer-se o restauro, ter-se-ia de perceber o que é o original e o que é do século XIX. E depois tomar uma decisão. Muitos conservadores defendem que mais vale ficar uma coisa imperfeita, mas respeitando a primeira versão, do que fazer uma reconstrução. É preciso perceber o que é original e o que é gesso. Mas isso é uma decisão que não nos cabe a nós”.  
A coordenadora do setor do Património Cultural da Câmara pormenoriza a explicação do vereador Edgar Valles, lembrando que foi o próprio rei que projetou a sua representação futura:
“Quando mandou fazer a sua estátua jacente, o rei nunca se deixaria representar sem ser com a sua espada e com as esporas, como outros reis ibéricos. Aqui nesta recuperação, tudo desapareceu. A mão aparece a segurar o manto do rei, uma posição mais feminina. Só com um estudo prévio é que temos alguma garantia de que se tratou de uma invenção do século XIX. A tutela terá de tomar essa decisão e perceber se se pretende manter a reconstrução errada ou fazer um novo restauro. Mas aqui há outro problema, não podemos inventar o que não sabemos como era”.
André Varela Remígio, especialista em conservação e escultura em talha dourada, embora nunca tenha trabalhado o túmulo de Dom Dinis, conhece o caso e adverte:
“O estado atual do túmulo é mau, muito mau. Tanto têm problemas o original como as matérias novas adicionadas. Olhando para o túmulo, vemos que faltam partes, existem fraturas e fissuras, para além da sujidade imensa. Existem fragmentos dispersos que se podem perder”. 
Todavia entende que, enquanto representações de figuras cimeiras da História, o tratamento de túmulos como este é “quase uma obrigação nacional”, uma retribuição pelo legado deixado por estas personagens. Mas reconhece as dificuldades que poderão ser encontradas na eventualidade do restauro:
“É um caso muito complicado em termos técnicos. Há efetivamente uma grande parte de matéria nova que está a sobrepor-se à pedra original. Claro que não podemos censurar o restauro do século XIX. Foi feito de acordo com as ideias de então. Mas mais vale termos pouco original do que termos um puzzle, com várias matérias que deturpam a leitura. É complicado, só depois da desmontagem se pode tomar uma decisão e procurar um equilíbrio”.
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A incúria e o esquecimento em relação ao túmulo a que se alude acima devem-se à diversidade de entidades que têm a responsabilidade do mosteiro e ao facto de o mosteiro – e obviamente o túmulo – ficar num sítio isolado e sob a alçada do MDN (Ministério da Defesa Nacional). Por outro lado, não podem esquecer-se as consequências da extinção das ordens religiosas em 1834 e, no caso das ordens femininas, a manutenção até ao óbito da última freira, o que redundou na dificuldade de manutenção pela ausência de recursos.
O mosteiro foi classificado como monumento nacional em 1910 (ficando sob a alçada da DGMN, agora da DGPC), mas lá funcionava o Instituto de Odivelas (da responsabilidade do MDN), criado em 1900, pelo infante Dom Afonso, irmão do rei Dom Carlos, que fechou portas no ano passado, com as alunas a serem transferidas para o Colégio Militar, em Benfica. E a Câmara Municipal quer ficar com a gestão do imóvel, pois não quer que este excelente património caia nas mãos de privados ou acabe por ser usado para outros fins que não fins públicos.
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Sobre o futuro do túmulo e as condições do restauro e conservação de obras desta natureza, estão em confronto correntes de pensamento distintas. Assim, o esteta Eugène Viollet-le-Duc defende a busca pela perfeição formal em termos estéticos puros, desconsiderando os aspetos históricos. O historiador John Ruskin bate-se pela intocabilidade do monumento degradado, onde a intervenção deve ser mínima e de cariz apenas preventivo, pois também o monumento tem uma hora para a sua morte digna.
Entre as duas teorias, o crítico e historiador Cesare Brandi defende uma intervenção que tenha em conta o significado histórico do objeto e o estado físico em que se encontra. E Valdirene do Carmo Ambiel entende que esta teoria defende que o restauro “não pode depender do gosto particular do restaurador” e deve deixar os acréscimos e intervenções facilmente reconhecíveis.
Ora, ao longo dos séculos, o túmulo dionisíaco não teve a melhor sorte. Foi destruído, adulterado e sobretudo esquecido.
Afinal, qual será a melhor forma de intervir e garantir a conservação deste túmulo, respeitando a obra original? Para Carla Varela Fernandes é “a pergunta de um milhão de dólares”, mas aventa uma hipótese, mais próxima do que é sustentado pelo crítico italiano e a juízo de “um grupo muito sério de conservadores”:
“Seria excelente que se pudesse reconstruir o túmulo com materiais mais novos e menos perecíveis, que pudessem devolver alguma dignidade à figura de Dom Dinis. Mas, é claro, mostrando sempre o que é novo e o que é da peça original”.
O vereador Edgar Valles, que incentiva o restauro e a conservação nas melhores condições, identifica o túmulo e o mosteiro que o encerra como o “ex-libris do concelho de Odivelas”, pois “trata-se de um mosteiro do século XIII, com um rei de Portugal da I Dinastia. Isso é algo que não pode ser esquecido e de que muito nos orgulhamos”.
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Parece que, além do restauro e conservação destas peças monumentais, será útil aproveitar o ensejo para o estudo osteológico e similares das figuras históricas cujos restos mortais ali se encontram. No caso vertente, era saber se a cabeça desproporcional da estátua jacente se deve a uma razão de simbologia ou se a outra – o que poderia constituir um interessante contributo para a história das mentalidades ou para a perceção das caraterísticas somáticas.  
2016.12.14 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Natal ou natais!?


Ele são peditórios de todo o lado e pelas mais diversas formas... telefone, email, carta, redes sociais, à porta...
Ele são as famosas  ceias de Natal por todo o lado, associação, grupo, empresa...
Ele são todo o tipo de corridas por tudo o que é sítio...
Ele são as agressividades do comércio que não olha a meios para "dourar a pílula"...
Ele são as prendas como obsessão da época...

Ele são as iluminações públicas e das montras…
Ele são os preparativos obsessivos para a Consoada e a passagem de ano...
Azáfama... corre-corre...efervescência….Tanto que em outubro já se fala de Natal como se não houvesse outras etapas a percorrer.
O Advento resume-se a viver antecipadamente o Natal...
O presépio foi chutado para canto ou remetido a mero objeto de adorno…
As referências bíblicas ao nascimento de Jesus ficam esquecidas na gaveta.
A contemplação do Deus da Paz que se faz Menino não tem espaço no coração da correria.
A solidariedade como um natal de todos os dias é despejada nesta altura como quem alivia a consciência.
As pessoas deixam-se escravizar por uma propaganda comercial sem escrúpulos que as conduz ao que pretende.
A sensação do momento, o êxtase do ter e do gozar encharcam o natal de muita gente. A tal ponte que o pai ou a mãe ficam no Lar para não estorvar o clima lá em casa.
A noite de passagem de ano baila com ímpeto no coração e na cabeça de muitos. Vale tudo. Importa a extravagância, a nova sensação, o diferente, o excesso.
O Deus do Natal  serve só de ocasião para natais pagãos.

Enquanto assim for, continuaremos alienados e a leste do essencial, do verdadeiramente humano, do que realmente importa, do que é importante que permaneça.

Precisamos de voltar a aprender a ler e a escutar um Deus que nos fala e se nos mostra a partir de uma manjedoura.

Urge a simplicidade, a riqueza de afetos, o estreitar dos laços familiares, a disponibilidade para os outros.

Importa fazer da revolução do Natal o convite permanente à desinstalação, ao compromisso com a vida e com a pessoa humana.

É desafiante a paz do Presépio e que ela encharque corações, famílias e povos.

Natal não é lirismo ou “consolo de alma”. É compromisso com a vida e com a transformação das estruturas, rumo a um mundo mais justo, mais transparente, mais solidário.

Então que decresçam os natais para que cresça o NATAl!