sexta-feira, 29 de abril de 2016

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Em Portugal, em 2015, realizaram-se 32.393 casamentos, mais 915 (2,95 por cento) do que em 2014


O número de casamentos aumentou ligeiramente em 2015, quando se realizaram 32.393 matrimónios, 350 dos quais entre pessoas do mesmo sexo, revelou esta quinta-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE).

As Estatísticas Vitais do INE referem que, em 2015, realizaram-se em Portugal 32.393 casamentos, mais 915 (2,95 por cento) do que em 2014, quando ocorreram 31.478 matrimónios.


O INE adianta que este "aumento veio contrariar a evolução do número de casamentos dos últimos anos, em que se registou uma diminuição".
Fonte: aqui


Quantos destes foram casamento católicos?
Não conheço as estatísticas.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Dia da mãe


Este Domingo celebra-se o dia da mãe que foi introduzido oficialmente nos Estados Unidos da América em 1914. Esta ideia surgiu quando aos 41 anos de idade, em 1904, Anna Jarvis perdeu a sua mãe. Tanto ela como a sua irmã Elisinore, sentiram a sua grande perda, levando-as a reflectir sobre o facto de não existirem demonstrações concretas de apreço para com as mães. Anna apelou na igreja de Grafton para a necessidade de um dia especialmente dedicado a todas as mães, na esperança de que essa celebração iria estimular a estima e consideração dos filhos para com os seus pais, para além de criar e melhorar os laços familiares.
Em 1907 Anna empreendeu o esforço necessário para a instituição do Dia da Mãe, e com ajuda dos seus amigos, pôs em execução uma campanha por correio com o objectivo de obter o apoio de congressistas, políticos e personalidades influentes da sociedade norte-americana, com o único objectivo de ser oficialmente declarada uma data comemorativa do Dia da Mãe.
Dos Estados Unidos o costume passou para a Inglaterra e depois para o resto da Europa. A partir dos anos trinta, muitos Governos premiavam as mães que tivessem muitos filhos. Então era uma honra ter muitos filhos. Em Portugal também houve esse costume. O Presidente da República chegou a condecorar uma família de Figueiró dos Vinhos por ser a maior de Portugal. Tinha mais de vinte filhos!
Nos anos sessenta e setenta assiste-se à mudança do papel da mulher. A sociedade e a economia precisavam de mão de obra feminina para o trabalho nas fábricas e as mães começam a deixar mais os filhos entregues a creches. Por outro lado a natalidade reduz-se drasticamente causando grandes problemas económicos e sociais. Por isso, na União Europeia assiste-se hoje a uma política de fomento da procriação com prémios ou incentivos vários.
Infelizmente no nosso país isto não tem sido feito e as consequências podem ser desastrosas.
Aproveitemos este dia para um gesto de gratidão às nossas mães.
Fonte: aqui

terça-feira, 26 de abril de 2016

No centenário da trágica morte de Mário de Sá-Carneiro


Muita da opinião pública não descola dos classificativos de “suicida” ou de “desregrado” para enquadrar o perfil pessoal e literário do português residente em Paris, em grande parte do seu tempo de vida, usufruindo do contacto com os grandes artistas do tempo e assistindo à génese daquela que viria a ser a grande revolução artística do século XX, a Vanguarda, ora com ceticismo ora com entusiasmo. Ora nem a sua obra reveste o formato ou compagina o conteúdo de autobiografia em verso, como quiseram alguns (vg Giorgio di Marchis), nem o epidérmico confessionalismo dos seus versos leva a encontrar com segurança na obra uma justificação para a vida ou na vida uma justificação para a morte – a não ser em termos da empírica verificação existencial de que todos os que agora vivem hão de morrer a seu tempo.

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Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, a 19 de maio de 1890, no seio duma família abastada da alta burguesia. Filho e neto de militares (descendentes de cristãos novos da zona de Bragança), ficou órfão de mãe (Águeda Maria de Sousa Peres Murinelo) apenas com a idade de 2 anos e, dado que o pai (Carlos Augusto de Sá Carneiro) – um coronel de engenharia – teve de encetar uma vida de viagens, ficou entregue ao cuidado dos avós, passando a viver com eles na Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, passando aí grande parte da infância.

À semelhança do trisavô (que fez parte da Legião Portuguesa), do bisavô (que participou nas lutas liberais e que foi par do Reino) e do seu avô, também o pai seguira a carreira militar, depois de concluir o curso de Engenharia. Já a mãe, oriunda de família modesta de pequenos funcionários públicos, era filha de José Leopoldo Murinelo.

Segundo João Pinto de Figueiredo, autor de A Morte de Mário de Sá-Carneiro, José Leopoldo tornou-se conhecido pelo crime de abuso de confiança na Santa Casa da Misericórdia, onde trabalhava, tendo sobre ele recaído como sanção a reforma compulsiva (com o vencimento por inteiro). O caso, badalado nos jornais, fez com que o mui indignado jornalista Silva Pinto, amigo de Cesário Verde e Camilo Castelo Branco, criasse o neologismo murinelizar.

A trágica morte da mãe do escritor, por febre tifoide, viria a originar a criação de alguns dos mitos associados ao poeta. Em 1991, António Quadros escreveu, na introdução à edição da poesia completa de Sá-Carneiro, da Europa-América: “O drama psicológico de Mário de Sá-Carneiro principiou sem dúvida com a morte prematura da sua mãe”. Tal asserção, contudo, parece não corresponder à verdade, dado que Mário era ainda muito criança ainda.  Em todo o caso, o escritor viu-se desde cedo rodeado apenas de figuras masculinas, de que se destacam o pai, com quem acabou por conviver mais à distância, e o avô, José Paulino, com quem o pequeno vivia na Quinta da Vitória. A quase única presença feminina na infância de Sá-Carneiro terá sido Maria Encarnação, a antiga governanta da quinta de Camarate.

Foi naquela Quinta que em rapaz se iniciou na escrita das primeiras linhas. Com 9 anos, tinha o hábito de criar pequenas peças de teatro, que distribuía pela cozinheira e criadas. Costumava representar em cima dum pequeno poço que o pai mandara tapar para ele poder brincar sem perigo, como lembrou anos mais tarde Edith de Sá Carneiro, tia de Sá-Carneiro e filha do segundo casamento do avô.

Deixou a quinta de Camarate, em 1900, para ingressar no Liceu do Carmo (hoje, Escola Secundária Veiga Beirão); e é daí que datam as primeiras deambulações pela poesia e jornalismo. Em 1904, lançou O Chinó, um jornal académico humorístico, que pôs à venda no quiosque do Largo do Carmo, mas que teve vida curta, pois, no início de 1905, o pai proibiu a sua venda por ser demasiado humorístico em relação a alguns professores do Liceu do Carmo.

Iniciado na poesia aos 12 anos, já traduzia Victor Hugo aos 15; e aos 16, traduzia Goethe e Schiller. E foi durante o ensino liceal que teve as episódicas experiências como ator e começou a escrita em forma. Só aos 21 anos se matriculou em Coimbra na Faculdade de Direito, mas não chegou a concluir o ano letivo. Em 1912, travou conhecimento com Fernando Pessoa, aquele que veio a ser o seu melhor amigo. E, desencantado da lusa Atenas, seguiu para a cidade das Luzes a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Porém, em breve, abandonou as aulas na Sorbonne e passou à vida boémia deambulando por cafés e salas de espetáculo, conhecendo a fome e o desespero – situação que o levou à ligação emocional a uma prostituta com o fito de ultrapassar frustrações e angústias, mas com tempo para editar.

A sua vida desregrada e os fumos da nascente revolução artística a que estava a assistir vêm espelhados na correspondência trocada com Fernando Pessoa – escritor, “irmão de Alma” – com quem fundou, em 1915, a revista Orpheu (nela foram publicados os desabafos do poeta residente em Paris), um dos mais importantes acontecimentos literários do século XX português.

Quando o ocorreu o suicídio, a 26 de abril de 1916, o poeta tinha apenas 25 anos, mas a sua obra influenciou a geração da Presença e muitos escritores que lhe seguiram toparam nos seus textos uma linguagem tão estranha e intrigante como tempo fascinante. Por isso, pode dizer-se, com Fernando Cabral Martins, “Mário de Sá-Carneiro ajudou a mudar a literatura portuguesa”.

Apelidado de “maluquinho”, sem nunca parar, escreveu poesia, prosa (nomeadamente ficção: conto, novela e romance) e teatro. Porque tinha “um sentido de obra relativamente grande”, como refere Ricardo Vasconcelos “levava aquilo de uma ponta à outra e desenvolvia as obras com grande coerência. Tinha muito mais esse sentido de obra e de conclusão” (cf Observador, de 26 de abril), muito mais do que Pessoa, para quem a literatura era sempre um work in progress.

Entre 1912 e 1915, datas respetivamente do primeiro livro e do último, editou vários livros de contos, novelas, um romance e uma plaquette de poesia sem igual com o título de Dispersão. Por editar ficaram ainda dezenas de poemas.

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Aquando do nascimento do poeta escritor, ainda estava muito vivo na mente dos portugueses o ultimatum inglês que obrigou, a 11 de janeiro daquele ano, à retirada das tropas chefiadas pelo Major Serpa Pinto da faixa territorial compreendida entre Angola e Moçambique, representada nos mapas a cor-de-rosa – o que fez a gota de água que, 10 anos mais tarde, havia de conduzir levaria à queda da monarquia e ao advento da República.

Um dos poemas mais antigos de Sá-Carneiro foi dedicado à Quinta da Vitória. “Não veem que nessa quinta/ Dá uma fruta tão bela?/ Seus caturras duma figa/ Sejam gratos pra com ela” – escreveu, então com 13 anos. Mas já, em 1910, em parceria com Tomás Cabreira Júnior, amigo de escola, Mário de Sá-Carneiro escrevera Amizade, peça de teatro que viria a ser apresentada dois anos depois pela Sociedade de Amadores Dramáticos, no Clube Estefânia e que António Quadros consideraria “o primeiro trabalho de vulto” do escritor. E constitui, com Fernando Pessoa Almada-Negreiros, Luís de Montalvor, Armando Cortes-Rodrigues, Alfredo Guisado e outros, o grupo exponencial do modernismo em Portugal e Mário passa a figurar como um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.

Os poemas editados no número 1 de Orpheu, destinados a Indícios de Oiro, são denunciadores da adesão às estéticas paúlica e sensacionista, gerada na correspondência entre Pessoa e Carneiro, glosando, em moldes do simbolismo-decadentismo, a abjeção de um eu em conflito com um outro eu, verso da frustração/insatisfação. Por sua vez, Manucure, no número 2 de Orpheu, revela um excursus por uma forma poética mais próxima da escrita da vanguardista futurista, sobressaindo a autonomização do significante. Porém, já na revista Renascença (1914), onde Pessoa publica Impressões de Crepúsculo Sá-Carneiro instituíra a experiência poética situada entre a herança simbolista e as tentativas paúlicas e interseccionistas.

Por outro lado, em Sá-Carneiro ganha vulto o sustentável paradigma da prosa modernista com a publicação das narrativas Céu em Fogo A Confissão de Lúcio, construídas essencialmente a partir do estranhamento dum narrador insolitamente imerso em situações em que aos temas obsessivos do desdobramento, fragmentação e autodestruição do “eu” se associam o erotismo, o onirismo e o fantástico. O seu óbito, com 26 anos, parece vir confirmar o agudo sentimento de inadaptação à vida, de permanente incompletude, de narcísico autoaviltamento e de consciência angustiada da irremediável cisão do eu. É o corolário da tensão existencial entre um “eu” que faz o que não quer, arrastado pelo materialismo da vida, e um outro “eu”, seu contraponto ideal, que não consegue fazer aquilo a que o espírito o provoca – seres diálicos que alimentam temática e esteticamente a obra, fazendo do escritor uma espécie de poeta proscrito. E é desta veia pessimista e melancólica que se alimentam, em parte, os poetas e prosadores subsequentes, assaz tocados pelas nefastas consequências do primeiro grande conflito bélico mundial, a que se seguem as alastrantes crises políticas, económicas, sociais e financeiras – a servir de lastro ao imparável mundo da fome, exploração e miséria, campo fértil à proliferação de totalitarismos.

Aqui se deixa, por amostra, sem comentário que manipule o leitor o poema Último soneto:

Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes – e vieste...
– Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
 
Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste –
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...
Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...
 
E fugiste... Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?...
 
Paris, dezembro 1915
 

 

***

Em suma, Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, estudou em Paris e fundou, com outros, a Orpheu, revista que veio a ter um papel fundamental na compaginação da nova da literatura portuguesa, a do século XX. Sofrendo uma crise existencial grave, suicidou-se num quarto de hotel em Paris. Como principais obras poéticas, legou-nos: Dispersão (1914), Indícios de Oiro (1937). E, como principais obras de ficção: A Confissão de Lúcio (1914) e Céu em Fogo (1915).

Não vale julgá-lo pelo estilo de vida nem pelo modo como lhe pôs fim (como Camilo ou Antero), mas pelas aspirações e mensagens plasmadas na obra literária através da qual podemos compreender melhor o drama humano.

2016.04.26 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Duas medidas a saudar na atual conjuntura se bem aplicadas


São efetivamente duas medidas a que é justo dar as boas-vindas no contexto do excessivo peso do ISP (imposto sobre os produtos petrolíferos) nas bolsas de famílias e empresas no atinente à gestão do orçamento familiar e na oneração dos custos da produção e trabalho.


Embora constituam uma luzinha no fundo do túnel da estagnação da economia e do incentivo ao consumo, a redução das tarifas nas ex-SCUT no interior do país e a criação do designado por gasóleo profissional podem acabar por se tornarem medidas que nada adiantem no atual panorama. A experiência da reversão do IVA da restauração dos 23% para 13% não implicou nem a baixa de preço da generalidade das refeições nem a criação de mais emprego no ramo. Com maior razão ainda se pode apontar o resultado quase insignificante da drástica redução do preço do barril de petróleo. É a força da inércia.


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De acordo com o Jornal de Notícias de hoje, dia 20 de abril, já nas últimas eleições legislativas, as portagens estiveram sobre a mesa da discussão no período eleitoral: a PaF e o PS queriam aplicar tarifas mais baixas em todas as regiões do interior e Algarve.


Até ao próximo verão (faltam dois meses), o Governo promete anunciar descontos generalizados nas ex-SCUT do interior do país. A ser confirmada, esta notícia configurará a segunda das grandes medidas reveladas para os automobilistas no espaço de dois dias.

Por outro lado, o Governo revelou que vai criar postos de combustível em Elvas, Vilar Formoso e Bragança, com o chamado gasóleo profissional, ou seja, gasóleo mais barato para as transportadoras – com veículos acima de 35 toneladas. Estes locais servirão de experiência-piloto para um modelo entre nós e que já existe em outros países europeus e que poderiam reverter a sediação de muitas empresas portuguesas de transportes que estão sediadas em Espanha devido ao preço do gasóleo profissional e poderão fazer que muitos camiões em trânsito, em vez de se abastecerem em Espanha, o façam em Portugal.

Para tanto, de acordo com o JN, o Governo deverá apenas notificar a Comissão Europeia destas situações, não tendo de pedir autorização.

Sabe-se que as portagens nas ex-SCUT (Sem Custos para o Utilizador) são uma questão já muito debatida pelo Governo e uma preocupação que vem de há muito, apesar de ter sido ainda no segundo Governo de José Sócrates que os pórticos começaram a ser instalados nas autoestradas construídas no quadro das SCUT. E o Governo de Passos Coelho ainda praticou o regime temporário de isenções para alguns utentes e o sistema de descontos perdurável para alguns utentes em determinadas circunstâncias. Como resultado da generalização das portagens em todas as autoestradas, sendo as zonas de viagens sem tarifas meramente residual, muitos utilizadores, sobretudo os de camiões passaram a utilizar, sempre que possível, as estradas que ainda podiam constituir alternativa, já que não podiam circular exclusivamente em Espanha!

Passos Coelho, no período pré-eleitoral dizia querer aplicar tarifas mais baixas em todas as regiões do interior e Algarve, tanto no tráfico ligeiro como no pesado de mercadorias. António Costa, então líder oposição, tinha uma opinião semelhante, acentuando a discriminação positiva a favor do interior e das zonas fronteiriças.

De momento, para lá da promessa de anúncio, pouco mais se sabe, nem mesmo qual será ao certo o desconto das portagens nas ex-SCUT. E resta saber muita coisa: quais estradas; se isso implica negociações com os privados; se a medida abrange só as mais antigas SCUT; se a medida abrange apenas as subcomissões que estão sob a tutela da IEP (Infraestruturas de Portugal).

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No concernente à segunda das grandes medidas, o Governo propõe um preço de gasóleo igual a Espanha para camionistas só nos municípios de fronteira, ou seja, propõe o gasóleo profissional para transportes públicos de mercadorias em veículos com mais de 35 toneladas em zonas de fronteira. E, como consequência, prevê o mecanismo de redução do ISP em caso de aumento do preço da venda ao público do gasóleo.

Tal medida constituirá uma resposta, embora transitória, à polémica que tem oposto os governos e as associações de transportes pesados de mercadorias na sequência do aumento do ISP: o Governo, que reuniu, no dia 16, com associações representantes do setor, propõe um regime experimental de gasóleo profissional, a partir de 1 de julho próximo, apenas para os veículos de transporte público de mercadorias com mais de 35 toneladas e unicamente em 3 concelhos piloto, que abrangem as 3 principais fronteiras terrestres do país. Ao mesmo tempo, seria já possível proceder à testagem do mecanismo de implementação e dos sistemas de controlo.

Além disso, o Governo consultará formalmente a Comissão Europeia para averiguar da possibilidade de instituir o regime de gasóleo profissional a nível nacional, mesmo que para um universo restrito ou de âmbito regional mais abrangente. 

É óbvio que tem sido grande o embate com os camionistas e a receita fiscal ressente-se, porque a opção dos profissionais acaba por redundar na ida até à fronteira e abastecer em Espanha, para evitar pagar os preços mais elevados em Portugal, bem como aproveitar o regime de trânsito para prevenir o abastecimento ainda (ou já) em Espanha. 

O Governo crê não perder receita com o gasóleo profissional nos 3 municípios referidos. Basicamente, quem abastece em Portugal noutras zonas continuará a fazê-lo e os pesados de mercadorias que abasteciam em Espanha, junto à fronteira, voltarão a abastecer em Portugal.

A este respeito, o ministro-adjunto, Eduardo Cabrita, declarou à Lusa:

“Estão por identificar quais os municípios em definitivo, mas teremos postos de abastecimento exclusivamente para transporte internacional de mercadorias, para veículos com uma dimensão superior a 35 toneladas, nos quais será eliminado o diferencial fiscal relativamente a Espanha”.

Depois, o Governo considera que a forma “mais célere e com menos custos de contexto” é um modelo semelhante ao de Espanha, em que se recorre aos sistemas de abastecimento de frota das companhias petrolíferas, mediante certificação. Por seu turno, as empresas abastecedoras informariam o Fisco sobre cada abastecimento e seria trimestralmente processada uma devolução do ISP, sem que houvesse qualquer redução do preço ao utente no momento do abastecimento. 

Do seu lado, a associação que representa as transportadoras de passageiros, a ANTROP (Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros) revela, pela voz do seu presidente, Luís Cabaço Martins, que o Governo lhe propôs as mesmas medidas que foram anunciadas para as mercadorias para minorar o impacto do aumento do ISP.

Como acentuou Cabaço Martins, os transportadores de passageiros serão assim igualmente abrangidos pelas medidas anunciadas pelo Governo, ou seja: descontos nas portagens nas antigas SCUT, criação de postos fronteiriços exclusivos com preços de combustíveis mais baixos e o mecanismo de redução do ISP em caso de aumento do preço da venda ao público. 

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Recorde-se que, no caso dos transportes de mercadorias, as empresas já beneficiam de descontos nas portagens de 25% no período noturno e de 10% no diurno, o que não acontece agora com as transportadoras de passageiros. Assim, resta saber se os descontos para essas empresas serão ainda mais vantajosos ou se apenas se estendem aos demais utentes, sobretudo, os transportadores de passageiros.

No atinente aos preços do gasóleo, atualmente, o preço médio do gasóleo em Portugal anda nos 1,11 euros, enquanto em Espanha é de 0,95 euros. Ou seja, a redução do preço médio para o gasóleo profissional teria de ultrapassar os 0,15 euros. Caso a experiência resulte, depois, alargar-se-á o sistema a todo o país. Com efeito, o sistema de teste permitirá medir resultados e perceber até que ponto a criação do gasóleo profissional em todo o território pode ou não ser implementada, pois, convém mesmo avaliar a captação de receita e comparar com a eventual futura perda global resultante do pretendido alargamento.

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Parece-me que a instalação do regime de gasóleo profissional apenas nos postos fronteiriços levanta um previsível problema de insuficiência. Um posto de abastecimento de gasóleo em cada um dos locais referidos não dá para quase nada, dado o volume da frota de camiões que passa em cada um dos postos. E a situação ficará agravada se for levado à prática o sistema de abastecimento acima enunciado, por duas razões: por um lado, se os camiões abastecem nos mesmos postos que os demais veículos, terão de esperar imenso tempo, mais ainda do que se o forem em postos especiais, e, como tempo também é dinheiro, rapidamente se chega a Espanha; por outro, se o desconto não é feito no imediato, pergunta-se se um aumento da burocracia se torna economicamente compensável.

Por isso, se o Governo quer efetivamente resolver o problema, deverá promover a reserva de bombas para abastecimento exclusivo destes camiões nos diversos postos de abastecimento ao longo das diversas vias de tráfego internacional – sobretudo ao longo da A25, da A23, da A22 e da A28 – e recomendar o pagamento nos termos atuais, mas já com o respetivo desconto. E, além disso, deverá implementar a campanha publicitária que, vencendo a inércia estabelecida, induza a reversão e bater o pé à Comissão Europeia.

Só assim conseguirá a satisfação económica desejada e o não depauperamento da receita fiscal. De outra forma, continuará a poupar na farinha e a gastar no farelo, como até agora.

2016.04.20 – Louro de Carvalho

domingo, 17 de abril de 2016

O governo dos rapazes

Estes têm sido dias difíceis. Não por cansaço, que ainda não é tempo para tanto. Mas por falta de perícia. E de sabedoria. A remodelação de um ministro e dois secretários de Estado foi desagradável. Não mais do que isso, mas suficiente para revelar desordem nos espíritos.
O processo que conduziu à demissão do chefe do Estado-Maior do Exército tresanda a política, oportunismo e rivalidade. A posição do ministro ficou frágil.
A Educação parece calma, pois os sindicatos entenderam que era melhor abrandar a fim de bater mais tarde. O ministro não acerta, mas contenta os clientes. Ganha tempo, mas perde força.
Já se começam a sentir os efeitos das mãos generosas do governo. Por um lado, subida nas sondagens. Não muito, mas o suficiente para fazer sorrir. Por outro lado, o aperto financeiro. Começam a desaparecer as "folgas"...
A questão das nomeações continua viva. Há anos. Com todos os governos. Desta vez, com o Bloco e o PCP no radar, será ainda mais complexo. Cargos para os camaradas surgem todos os dias. Dirigentes seleccionados pela CRESAP já foram substituídos por decisão política discricionária. São inéditos os ataques ao Banco de Portugal.
Foi insólita a designação, nomeação e contratação do "meu melhor amigo há muitos anos" para tratar das situações delicadas, da TAP ao BANIF e ao BES passando por Angola... Assim é que se perpetua uma prática que conduziu à decapitação do Estado. Retirou-se-lhe a capacidade técnica e científica e procura-se nos escritórios, nas agências e nas empresas de consultoria os juristas, os advogados, os economistas e os engenheiros à altura. O Estado não emagrece, perde a cabeça. E fica dependente.
As trocas de acusações entre o governo, os partidos, o Banco de Portugal, o Banco Central Europeu e a Comissão da União Europeia já foram longe de mais e deixaram sequelas. A esta altura de responsabilidades é impossível ficar impune e imune. Os acima nomeados já se trataram de mentirosos... Nunca se viu uma tal guerra aberta e ácida que enfraquece o país e a economia. É possível que a banca portuguesa não venha a recompor-se tão cedo! Já tínhamos um longo percurso de erros, aldrabices e imperícia. Com a situação financeira internacional menos dramática, esperava-se que fosse possível salvar alguma coisa da banca portuguesa ou manter os pilares e as traves mestras de um sistema financeiro. É cada vez mais causa perdida.
O primeiro-ministro está radiante. Acredita no seu talento negocial e naquilo a que os jornalistas chamam há vários meses a sua grande habilidade, sem se dar conta de que é o pior que se pode dizer de alguém. Está satisfeito com a suavidade do Presidente Marcelo. Jubila com a cordialidade pacata do Bloco e a macieza do PCP.
Liderar um governo ou um país tem exigências. Uma delas consiste na necessidade de ser ou ter algo mais do que jeito para resolver problemas. A direcção política não se resume à habilidade para tratar de conflitos. A negociação permanente com os partidos, parceiros e grupos de pressão traz informação e traquejo, há mesmo quem lhe chame democracia, o que não é a mesma coisa. Mas é errada a crença de que a liderança resulta da negociação. É exactamente o contrário. A boa negociação resulta da capacidade de liderança. Da inspiração. Da existência de uma política.
Das peças avulso de um puzzle não sai uma imagem. A percepção da imagem é que vai ordenar as peças. Das azinhagas não sai um percurso. É o objectivo que selecciona os caminhos, o fim que define os meios. Ao contrário do que gostam de dizer os adolescentes românticos, o caminho não se faz caminhando. É o destino que desenha o itinerário.
É provável que António Costa venha a dizer aos colaboradores, aos membros do governo e aos apoiantes no Parlamento: "Já que sou o vosso primeiro-ministro, sigo-vos!"
António Barreto, DN 2016.04.17, aqui

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Bloco quer mudar nome “sexista” do Cartão de Cidadão


O Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia da República um projecto de resolução para mudar o nome do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania.
Segundo o Bloco de Esquerda, a actual designação do documento de identificação “não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa”.
O projecto de resolução, entregue no Parlamento com data de 13 de abril, realça que o nome do documento “não cumpre as orientações de não discriminação, de promoção da igualdade entre homens e mulheres e de utilização de uma linguagem inclusiva”.
Segundo o BE, “não há qualquer razão que legitime o uso de linguagem sexista” num documento de identificação obrigatório para todos os cidadãos e cidadãs nacionais.
O projecto de resolução, assinado “pelas Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda”, propõe assim que a Assembleia da República “recomende ao Governo a alteração da designação do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania“.
Fonte: aqui


Como partido que apoia o governo, o Bloco de Esquerda não terá mais com que se preocupar?
São estes os reais problemas do país?
É isto que preocupa realmente os portugueses?
Já sabemos, tudo o que é fraturante na sociedade tem jubiloso acolhimento no BE. Os do Bloco é que são a novidade, a geração "au point", a frescura social, o politicamente correto. O BE é a tradução literal de uma sociedade vazia, onde a espuma das palavras esconde o deserto de alma que varre o mundo atual.
Que esperar desta gente!?

quarta-feira, 13 de abril de 2016

sábado, 9 de abril de 2016

A alegria do amor na família


Em 8 de abril, foi publicada, como previsto, a “Amoris Laetitia” (Alegria do Amor), a exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco sobre a família. Num texto de nove capítulos, o Santo Padre recolhe os resultados de dois Sínodos dos Bispos sobre a família celebrados em 2014 e 2015, citando anteriores documentos papais, contributos de conferências episcopais e de várias personalidades. Trata-se de uma exortação apostólica dirigida aos bispos, aos presbíteros e diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fiéis leigos.

É um documento de grande dimensão com 325 parágrafos e que nos primeiros 7 (à laia de introdução) evidencia a grande complexidade do tema. Em particular, Francisco sustenta que para algumas questões, “em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas”, tendo em boa conta as tradições e os desafios locais. De facto, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”.

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Segue-se um bosquejo breve sobre os 9 capítulos do inestimável documento pontifício, seguindo de perto, os conteúdos selecionados pela síntese apresentada pela Rádio Vaticano, embora em confronto com a leitura rápida do documento e muitas alterações.

I. À luz da Palavra (9-30)

No 1.º capítulo, o Papa faz partir a sua reflexão das Sagradas Escrituras, em especial, de uma meditação acerca do Salmo 128, caraterístico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia surge repleta “de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares” (AL,8).

II. A realidade e os desafios das famílias (32-57)

A partir da Bíblia, o Pontífice olha, no 2.º capítulo, para a situação atual das famílias, mantendo “os pés assentes na terra” (AL,6). A humildade do realismo ajuda a não expor “um ideal teológico do matrimónio demasiado abstrato”, sem considerar na devida conta “a situação concreta e as possibilidades efetivas das famílias tais como são” (AL,36). Sendo o matrimónio “um caminho dinâmico de crescimento e realização”, nós “somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL,37). É certo que Jesus propôs um ideal exigente, mas “não perdia jamais a proximidade compassiva junto das pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL,38).

III. O olhar fixo em Jesus: a vocação da família (61-88)

O 3.º capítulo da Amoris Laetitia aborda alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimónio e da família. Em seus parágrafos explicita a vocação à e da família de acordo com o Evangelho, tal como ela foi percebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo no atinente aos temas da indissolubilidade e da sacramentalidade do matrimónio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Ressaltam inúmeras citações da Gaudium et Spes (GS), do Concílio Vaticano II, da encíclica Humanae Vitae (HV), do Beato Paulo VI, e da exortação apostólica Familiaris Consortio (FC), de São João Paulo II. Francisco, no 3.º capítulo, realça ainda um princípio geral importante: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (FC,84). Porque o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos e podem existir fatores que limitem uma capacidade de decisão, “ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL,79).

IV. O amor no matrimónio (90-164)

O amor no matrimónio é ilustrado, no 4.º capítulo, a partir do “hino ao amor” de São Paulo na 1.ª Carta aos Coríntios (1 Cor 13,4-7). O capítulo glosa o caráter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: “não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter de reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a Igreja, porque o matrimónio como sinal implica um processo dinâmico que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (AL,122). Também é produzida uma séria reflexão sobre o amor ao longo da vida e da sua transformação, podendo ler-se: “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL,163).

V. O amor que se torna fecundo (166-198)

O 5.º capítulo da Exortação foca-se na fecundidade, no acolhimento duma nova vida, na espera própria da gravidez, no amor de mãe e de pai. Mas também aborda a fecundidade alargada – da adoção, do acolhimento, do contributo das famílias para a promoção duma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. Embora não se tome em consideração a família “mononuclear”, evidencia-se a consciência da família como rede de relações alargadas. Mesmo a mística do sacramento do matrimónio tem um profundo caráter social (cf AL,186). E, no quadro desta dimensão social, o Papa sublinha tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.

VI. Algumas perspetivas pastorais (200-258)

No complexo 6.º capítulo, enunciam-se vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas em consonância com o plano de Deus. Em especial, o Papa observa que “os ministros ordenados carecem habitualmente de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL,202). Se é necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf AL, 203), por outro lado, pode ser útil a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (AL,202).

Também é feita importante referência à preparação para o matrimónio e ao acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), bem como nalgumas situações complexas e, sobretudo, de crises, sendo que “cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL,232).

Também fica tratado o acompanhamento de pessoas divorciadas, separadas ou abandonadas e coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito. É reiterada a plena comunhão na Eucaristia dos divorciados e, em relação aos divorciados recasados, é reforçada a sua comunhão eclesial e o acompanhamento das suas situações, que não deve ser visto como debilidade da indissolubilidade do matrimónio, mas uma expressão de caridade. São ainda referidas as situações dos matrimónios mistos e de disparidade de culto bem como a situação das famílias que têm dentro de si pessoas de tendência homossexual, insistindo-se no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas as formas de agressão e violência. E, no final do capítulo, vem uma especial nota para o tema da perda das pessoas queridas e da viuvez.

VII. Reforçar a educação dos filhos (260-290)

O 7.º capítulo é dedicado à educação dos filhos: a formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e a vida familiar como contexto educativo. O Papa acentua que “o que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL,261).

No âmbito da educação sexual, sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber se as “instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade”. Depois, esta educação deve ser realizada “no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua” (AL,280). E adverte-se que a expressão “sexo seguro” transmite “uma atitude negativa sobre a finalidade procriadora natural da sexualidade, como se o possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se”, promovendo-se consequentemente a agressividade narcisista em vez do acolhimento” (AL,283).

VIII. Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade (293-312)

O também complexo capítulo 8.º apela à misericórdia e ao discernimento pastoral face a situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa três verbos significativos: “acompanhar, discernir e integrar”, que são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Depois, apresenta a necessária gradualidade pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e aquela que é por ele definida como a “lógica da misericórdia pastoral”. As situações ditas irregulares devem ter um discernimento pessoal e pastoral e “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”. Em especial, afirma-se numa nota de rodapé que, “em certos casos, poderá existir também a ajuda dos sacramentos”, sendo que o confessionário não deve ser uma sala de tortura e que a Eucaristia “não é um prémio para os perfeitos, mas um alimento para os débeis”. E, sobre o sentido desta Exortação Apostólica, o Papa esclarece:

“É compreensível que não se deva esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL,300).

Francisco enuncia claramente as exigências e caraterísticas da rota de acompanhamento e discernimento em diálogo entre fiéis e pastores. Neste sentido, apela à reflexão da Igreja “sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás, detém-se na relação entre normas e discernimento, declarando:

“É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem descuidar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo, é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma” (AL,304).

Ressalta ainda o espaço para a lógica da misericórdia pastoral e para o pertinente convite papal nas palavras finais:

“Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximarem-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja (AL, 312).

IX. Espiritualidade conjugal e familiar (314-325)

O último capítulo glosa a espiritualidade conjugal e familiar, “feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL,315). Diz claramente que “aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística” (AL,316). Tudo, “os momentos de alegria, o descanso ou a festa e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL,317). E, no parágrafo conclusivo, o Papa afirma:

“Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL,325).

***

Acresce fazer referência ao facto de cada um dos 9 capítulos vir precedido de um ou mais parágrafos introdutórios em que se aponta o tom do conteúdo e do seu sentido nas diversas secções. Por outro lado, o aparato crítico não vem no final do documento, mas em notas de rodapé, pelo que se torna mais fácil perceber de imediato a complementaridade de algumas notas em relação ao texto dito principal.

Por outro lado, gostava de perceber em que sentido o Papa afirma que “pode ser útil a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (vd AL,202). Será pela leitura dos seus escritos, solicitando-lhes conferências, visitando-os ou introduzindo na Igreja Latina o instituto da ordenação sacerdotal também de homens casados?

Do meu ponto de vista, esperava que, dada a relevância que as assembleias sinodais tiveram na Comunicação Social, a exortação apostólica pós-sinodal tivesse sido também endereçada a todas as pessoas de boa vontade – o que não me inibe de assinalar a força de esperança inerente ao documento papal, até porque vem datado do dia da Solenidade de São José, o guardião da Santa Igreja, que foi tutor do tesouro da misericórdia no mundo e da Mãe de misericórdia.

Por fim, como bom remate, vem a oração à Sagrada Família, que se assume como ato de contemplação, consagração e súplica – denunciadora, esta, dos graves problemas que afetam a vida das famílias e apoiada na esperança resultante da beleza da família segundo o coração de Deus e da alegria do amor.

2016.04.08 – Louro de Carvalho