terça-feira, 28 de junho de 2016

Francisco diz que os cristãos devem pedir perdão se ofenderam homossexuais

No voo de regresso da Arménia, o Papa insistiu no acolhimento aos homossexuais, mas condenou manifestações. E voltou a falar do Brexit, lamentando que haja guerra e divisão na Europa.                              
                                                                  

Francisco diz que os cristãos devem pedir perdão se ofenderam homossexuais

O Papa Francisco diz que os cristãos devem pedir perdão por ofensas que tenham feito a homossexuais, mas também a crianças exploradas e a mulheres abusadas. No voo de regresso da Arménia, o Papa foi questionado por uma jornalista norte-americana sobre as declarações do cardeal Reinhard Marx que recentemente disse que a Igreja devia pedir desculpa aos homossexuais.

Na resposta, o Papa recordou mais uma vez o que diz o Catecismo da Igreja Católica, insistiu no acolhimento dos homossexuais e acrescentou que a Igreja é santa, mas os cristãos devem pedir perdão por todas as ofensas que façam.

“Repito o que diz o Catecismo da Igreja Católica: não devem ser discriminados, mas respeitados e acompanhados pastoralmente. Pode-se condenar, não por motivos teológicos, mas por comportamentos políticos ou certas manifestações demasiado ofensivas para os outros. Mas isto não tem a ver com o problema. O problema é quando uma pessoa com essa condição, tem boa vontade e busca Deus... quem somos nós para julgar? Devemos acompanhar bem o Catecismo, porque é muito claro, o Catecismo. Creio que a Igreja, não só deve pedir desculpa a uma pessoa gay a quem tenha ofendido, como também deve pedir desculpa aos pobres, às mulheres abusadas, às crianças exploradas pelo trabalho e por ter abençoado tantas armas... Quando digo Igreja, falo dos cristãos porque a Igreja é santa, os pecadores somos nós. E devemos pedir desculpa, e não só: devemos pedir perdão, que é uma palavra tão esquecida”, afirmou Francisco, que falou de mais de uma dezena de temas na conversa com os jornalistas no regresso da Arménia.
“Guerra” na Europa?
Um dos temas a que voltou foi o referendo no Reino Unido sobre a participação na União Europeia, do qual já tinha falado brevemente no vôo de Roma para Yerevan. Agora, Francisco foi mais longe e falou mesmo em guerra na Europa.
“Já há guerra na Europa, já persiste no ar a divisão e não só na Europa, mas dentro dos próprios países, basta pensar na Catalunha e, no ano passado, a Escócia. Não digo que estas divisões sejam perigosas, mas devemos estudá-las bem, antes de dar um passo a favor da divisão, falar bem uns com os outros e procurar soluções viáveis”, afirmou o Papa, acrescentando: “Não sei, nem estudei os motivos que levaram o Reino Unido a tomar esta decisão, mas para mim, a unidade é sempre superior ao conflito. Claro que há diversos modos de unidade. E também a fraternidade é melhor que a inimizade e que as distâncias; as pontes são melhores do que os muros.”
No regresso da visita de três dias à Arménia, o Papa voltou a elogiar o povo daquele país, um povo “com carácter de pedra e ternura de mãe”. E explicou porque voltou a usar a palavra “genocídio” para falar do extermínio de milhão e meio de arménios no início do século XX.
“Após ter usado esta palavra, no ano passado em São Pedro, publicamente, teria soado estranho não o ter feito agora na Arménia. Mas com isso, quis sublinhar uma outra coisa: neste genocídio [arménio], tal como nos outros dois [nazi e soviético], as grandes potências internacionais, olhavam para o lado... Foi esta a minha acusação. Nunca usei a palavra 'genocídio' com espírito ofensivo; usei-a objectivamente”, explicou o Papa.
Elogios a Bento XVI e críticas aos media
Outro assunto que acaba por ser recorrente nestas conversas a bordo do avião é a relação com o Papa emérito Bento XVI. Francisco anunciou que vai celebrar com Bento XVI os seus 65 anos de ordenação sacerdotal. E mais uma vez não poupou nos elogios ao seu antecessor.
“Para mim, o Papa emérito é como um avô sábio, é o homem que toma conta de mim e me ampara, na rectaguarda, com a oração. Ouvi dizer, mas não sei se é verdade, ou se é só mexericos, que alguns foram lamentar-se a ele deste novo Papa, mas ele mandou-os embora, à boa maneira bávara: educadamente, mandou-os embora! Se não é verdade, está bem visto, porque este homem é mesmo assim: é um homem de palavra e profundamente recto”, afirmou o actual Papa, que também aproveitou para deixar umas queixas sobre os jornalistas.
Francisco comentou ainda as notícias de uma eventual abertura da Igreja Católica à existência de mulheres diaconisas. “Fiquei um bocado zangado com os média”, disse Francisco.
Num encontro com a União Internacional de Superioras Gerais (UISG) no Vaticano, o Papa tinha dito que se podia voltar a estudar essa figura que existiu na igreja primitiva. Mas vários meios de comunicação noticiaram o assunto como uma admissão da ordenação de mulheres como diaconisas.
Fonte: aqui

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Eh, eh, sou eu quem decide!


A sintaxe não foi a plasmada em epígrafe, mas a semântica anda por aí. Pela SIC passou recentemente um programa “Eu é que sou o Presidente da Junta!”, como passou, há anos, um outro, “O juiz decide”, que terminava com o estribilho rifónico “O juiz decidiu, está decidido!”. E, na Administração Pública ou na empresa, não raro, o diretor, administrador ou algo que o valha é apanhado, à falta de melhor, com o argumento autoritário (que não de autoridade): “Eu sou o diretor (presidente/administrador…) e eu decido assim”!

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No encerramento da X Convenção do Bloco de Esquerda (BE), a líder reconfirmada, Catarina Martins, deixou aviso a António Costa e à UE, ou seja, anunciou que o BE entende que exigirá um referendo sobre a permanência de Portugal na UE se a Comissão Europeia decidir pela aplicação de sanções a Portugal em razão do desempenho orçamental de 2015:

“Se a Comissão Europeia tomar uma iniciativa gravíssima de aplicar uma sanção inédita, inaceitável e provocatória de penalizar Portugal pelo mau desempenho de Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, a Comissão declara guerra a Portugal”.

E prosseguiu, dizendo que, se a Comissão “aplicar uma sanção por causa desses anos (2015 é o 1.º ano inteiro sem troika – reflexo da caminhada do triénio anterior) e a usar, para pressionar o Orçamento do Estado para 2017 exigindo mais impostos”, também “declara guerra a Portugal”. Ora, para que a UE não continue a pisar-nos, Portugal, naquele cenário, “só pode responder recusando as sanções e o arbítrio e anunciar que está disposto a colocar na ordem do dia um referendo para pôr termo à chantagem”, a exemplo do que fez o Reino Unido, em que venceu a opção que defende a saída da União Europeia (UE) – o que representa um precedente e “outros países poderão decidir por referendo o que querem fazer na União Europeia”.

Por outro lado, mostrou-se crítica face à atitude de Merkel em convocar os ditos seis fundadores da CEE, “uma instituição fantasma que já nem sequer existe”, para uma reunião, que se realizou a 25 de junho, de aceleração de resposta ao “Brexit”. Em contraponto à tendência da direita e seus aliados de responder ao referendo britânico com a alegada corrida “para mais integração”, anotou:

“O pior da UE é mesmo a sua chefia, são perigosos e mostram todos os dias que estão dispostos a destroçar a Europa para aguentar uma política que assusta os povos”.

E porfiou que “Portugal não tem de assistir em silêncio a uma vingança contra a democracia”. Na verdade, “o Reino Unido decidiu sair e tem o direito de sair. Se a UE ofereceu a Cameron “uma exceção contra os imigrantes, não pode agora inventar regras quando violou as regras essenciais”, recordou criticando o acordo celebrado com Cameron pelo Conselho a 18-19 de fevereiro deste ano.

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Às declarações feitas por Catarina Martins em nome do BE, opuseram-se diversas posições marcadas pelo denominador comum da contestação ao referendo. E sobre o referendo é de salientar a declaração do Presidente da República, que tinha, do meu ponto de vista, reagido de forma exemplar à notícia do “Brexit” na manhã do dia 24.

Sobre o “Brexit”, Marcelo sublinhara o desconforto da decisão, o respeito pela vontade soberana do povo do Reino unido, a resposta a dar de forma rápida e coesa pelo reforço do projeto europeu e as consequências económicas nos diversos países da Europa; e dissera esperar as condições de tranquilidade dos compatriotas que trabalham no reino Unido, bem como evocou a velha aliança e a factualidade de o Reino continuar a pertencer à Europa, devendo ser definidas da melhor forma as relações que essa pertença implica.

Sobre a posição do BE e o referendo, disse aos jornalistas em Torres Vedras, no passado dia 26, que não lhe competia comentar convenções e congressos dos partidos, mas atirou que um referendo em Portugal como aconteceu em Inglaterra “é uma questão que não se põe”, aduzindo que Portugal “quer continuar na União Europeia”, que “Portugal está na União Europeia, sente-se bem na União Europeia e quer continuar na União Europeia”. E ainda: “Quanto ao resto, a Constituição diz que a decisão sobre o referendo é do Presidente da República e, portanto, é uma questão que não se põe neste momento”.

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É verdade que, segundo a CRP, a decisão sobre o referendo é uma competência do Presidente da República. Porém, esta verdade dita assim, sem o seu contexto, pode levar a equívocos. Por exemplo, o Presidente não pode tomar a iniciativa do referendo, nem é a ele que os cidadãos ou os partidos se devem dirigir para pedir um referendo.

Com efeito, a alínea c) do art.º 134.º da CRP estabelece como competência para a prática de atos próprios do Presidente: “submeter a referendo questões de relevante interesse nacional, nos termos do artigo 115.º, e as referidas no n.º 2 do artigo 232.º e no n.º 3 do artigo 256.º”. Ora, outras competências o mesmo artigo consagra como competências para a prática de atos próprios do Presidente e em que os seus poderes são bem condicionados. Por exemplo, só excecionalmente recusa a promulgação de lei ou decreto-lei (observado o estipulado no art.º 136.º) e não lhe cabe tomar qualquer iniciativa legislativa ou regulamentar; dificilmente declara o estado de sítio ou o estado de emergência (e tem de observar o estipulado no art.º 19.º, que impõe limitações e precauções, e o art.º 138.º, que impõe a audição do Governo e autorização da AR); como comandante supremo das forças armadas não tem funções operacionais e a sua ação tem de estar articulada com a definição da política geral definida pelo Governo (vd art.º 182.º); indultar ou comutar penas implica a audição do Governo; requerer ao Tribunal Constitucional (TC) a apreciação da constitucionalidade das leis acontece esporadicamente quando o Presidente tem dúvidas fundadas; e a pronunciar-se sobre as emergências graves da República tem de ser comedido para não banalizar a pronúncia e não correr o risco de não ser escutado quando o superior interesse do país o postular. O que pode fazer mais livremente será dar condecorações nos termos da lei.

Quanto ao referendo, o art.º 115.º prevê que “os cidadãos eleitores recenseados no território nacional” e os residentes no estrangeiro (tendo em conta a existência de laços de efetiva ligação à comunidade nacional, nos termos do n.º 2 do art.º 121.º) “podem ser chamados a pronunciar-se diretamente, a título vinculativo, através de referendo, por decisão do Presidente da República, mediante proposta da Assembleia da República ou do Governo, em matérias das respetivas competências, nos casos e nos termos previstos na Constituição e na lei”. O referendo pode também “resultar da iniciativa de cidadãos dirigida à Assembleia da República, que será apresentada e apreciada nos termos e nos prazos fixados por lei” (vd n.º e n.º 2).

Compete, nos termos do n.º 2 do art.º 232.º, à Assembleia Legislativa da região autónoma respetiva “apresentar propostas de referendo regional, através do qual os cidadãos eleitores recenseados no respetivo território possam, por decisão do Presidente da República, ser chamados a pronunciar-se diretamente, a título vinculativo, acerca de questões de relevante interesse específico regional”. Também o art.º 256.º prevê as condições de instituição em concreto das regiões administrativas e o modo de fazer a consulta aos eleitores para o efeito (decide o Presidente por proposta da AR nos termos da respetiva lei orgânica).

Os n.os 3, 4, 5 e 7 do art.º 115.º limitam e/ou excluem do referendo algumas matérias. O n.º 6 estabelece que um referendo “recairá sobre uma só matéria, devendo as questões ser formuladas com objetividade, clareza e precisão e para respostas de sim ou não, num número máximo de perguntas a fixar por lei, a qual determinará igualmente as demais condições de formulação e efetivação de referendos”. O n.º 8 estipula que o Presidente da República submete ao Tribunal Constitucional “a fiscalização preventiva obrigatória da constitucionalidade e da legalidade as propostas de referendo que lhe tenham sido remetidas pela AR ou pelo Governo”. E o n.º 10 estabelece que “as propostas de referendo recusadas pelo Presidente da República ou objeto de resposta negativa do eleitorado não podem ser renovadas na mesma sessão legislativa, salvo nova eleição da Assembleia da República, ou até à demissão do Governo”.

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Concluindo, a decisão do referendo é mesmo uma competência do Presidente da República no quadro das competências para a prática de atos próprios, mas tem de se encarar no contexto do equilíbrio ou contrapeso dos poderes. Implica a proposta da AR, do Governo ou da respetiva Assembleia Legislativa regional (em matérias de interesse regional) e a obrigatoriedade de fiscalização prévia da parte do TC. Ademais, o BE não mostrou ignorar as competências presidenciais, mas fez um aviso ao líder do partido do Governo, que também tem capacidade para, de certo modo, influenciar o agendamento das matérias na AR. 

Por isso, o Presidente não pode pôr-se em bicos de pés, pois, como se vê, o nosso sistema está longe de ser um sistema presidencialista. E, mesmo nos sistemas presidencialistas, o Presidente não pode fazer tudo o que quer. Veja-se o que se passa nos EUA e no Brasil. Porém, como diz o povo, “Presunção e água benta cada um toma a que quer”.

2016.06.27 – Louro de Carvalho  

sábado, 25 de junho de 2016

Cidadãos britânicos preferiram a saída da União Europeia. E agora?


Os factos são como são e também eles são elemento constitutivo da vida. O mundo acordou para o dia 24 de junho de 2016 com a notícia de que o Reino Unido optara claramente pelo “Brexit” ou saída da UE, o que implica necessariamente mudanças no continente europeu. Na verdade, o povo britânico votou, a 23, o abandono da UE, após uma campanha marcada pela desinformação, pela xenofobia, pelo medo e pelo assassinato da trabalhista deputada Jo Cox. Tal opção constitui uma irreparável derrota das forças progressistas do Reino Unido e da Europa, que estiveram na linha da frente da defesa da permanência.

Para garantir o resultado eleitoral favorável nas últimas eleições gerais, o Primeiro-Ministro conservador prometeu o referendo e negociou um acordo de exceção para os britânicos a 18 e 19 de fevereiro pp. E o povo disse não à eurocracia burocrática, excessivamente dirigista, pouco democrática, pouco subsidiária e pouco solidária. Mas o Estado escocês e algumas parcelas territoriais do País de Gales preferiam a permanência na UE, bem como a metrópole londrina. Nitidamente, as populações mais vizinhas do Canal da Mancha tiveram medo da invasão migrante e de refugiados que a vizinha e livre França não consegue travar nem controlar.   

Este resultado evidencia aquilo que os verdadeiros “eurófilos” sustentam há muito tempo: muito tem de mudar na UE para os cidadãos se sentirem próximos das instituições, apreenderem o projeto de construção europeia como seu e verem a possibilidade real de nele terem voz ativa. É urgente uma extensa reforma das instituições: maior abertura, transparência e democracia; e menos dirigismo, maior prática da subsidiariedade (tudo o que os Estados-Membros possam decidir e fazer não pode o diretório arrogar-se o direito de mandar e fazer) e maior solidariedade (não deixando para os Estados-Membros a resolução dos problemas comuns a toda da UE e os problemas que um só Estado não consiga resolver só por si).

Como a generalidade daqueles que se pronunciaram numa linha plausível do bom senso, também considero profundamente lamentável o resultado do referendo, mas impõe-se, acima de tudo, o respeito pela decisão soberana do povo. No entanto, pede-se ao Governo de Portugal que passe das palavras à vigilância e, se for necessário, aos atos, no sentido do enquadramento futuro dos emigrantes portugueses residentes no Reino Unido, reforçando a ação diplomática e as equipas de diplomatas naquele país para que os nossos concidadãos sejam devidamente acompanhados neste período de incerteza. Por outro lado, é preciso repudiar a tentativa que se está a evidenciar de fazer eclodir o efeito de dominó, com vários políticos extremistas a exigir o referendo em outros países, como a Grécia, a França, a Irlanda e a Itália – bem como o crescente apoio a forças na Europa favoráveis à desintegração da UE, que assentam os seus argumentos no medo e no nacionalismo, os quais se nutrem das consequências das inevitáveis políticas de austeridade e da terrível indiferença dum escol europeu de má catadura, que não tem sabido estar à altura das legítimas aspirações e expectativas dos 500 milhões de cidadãos europeus.

Neste ato referendário, a esmagadora maioria dos eleitores mais jovens votou pela permanência (mas não e lícita a eutanásia do voto dos mais velhos), o que faz entender que tais gerações percebem que pretender construir a UE é querer construir um projeto democrático, sustentável e em prol da prosperidade partilhada. Porém, tais objetivos só serão alcançados mediante a forte mobilização de todos os que, na Europa e no resto do mundo, estão convictos de que só com mais União se enfrentarão os desafios da atualidade, como: os conflitos globais, as alterações climáticas, a fome, as migrações e a luta contra a progressiva escassez de recursos. Para a Europa estar à altura, é preciso congregar todas as forças progressistas que desejam reformar a UE.

Neste 1.º quartel do século XXI, a opção far-se-á entre nacionalismos e refundação do projeto europeu. A Europa tem de apostar convictamente no destino coletivo dos cidadãos europeus, invertendo o status quo existente: exigindo transparência e revisão imediata dos mecanismos de tomada de decisão. Os governos verdadeiramente europeístas, os cidadãos que acreditam na transformação da Europa, as forças partidárias progressistas e os movimentos pan-europeus devem, todos juntos e sem diferenças de tratamento, optar sem tardança pela UE da cidadania.

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O Reino Unido era, no dizer de Miguel Mendes Pereira, no Expresso on line, de hoje, dia 24, um país que, na UE, “providenciava um elemento de equilíbrio crucial entre o poderio alemão e o desespero francês” – elemento que faltará com a saída da UE, agora decidida. Mas há mais.


Após vários anos de gestão tensa entre os claros impulsos intergovernamentais protagonizados pelo poderio alemão e pelos nacionalismos emergentes na Europa Central e Oriental, bem como pelo supranacionalismo que enformou a história e os objetivos da UE desde o seu início, temos agora alguém que “simplesmente bate com a porta” (vd colunista citado). E isto é grave para a UE, porque evidencia que o divórcio europeu é uma solução possível decorrente dos Tratados. Ora, se a rutura integra o catálogo das soluções, não raro diminuem, se esvaem e anulam os esforços institucionais. Doravante, saem muito revigorados em todos os Estados-Membros (e em muitos o populismo nacionalista e a xenofobia ganham cada vez mais adeptos) os partidários da saída da UE. Por outro lado, o Reino Unido proporcionava, como se disse, “um elemento de equilíbrio crucial entre o poderio alemão e o desespero francês” (id et ib), pois a abordagem crítica britânica recusava o seguidismo da retórica do diretório franco-alemão, sendo aquele país quem tantas vezes dotou as soluções europeias do pragmatismo que induziu o avanço da integração europeia. Ademais, nenhum outro Estado-Membro tem o peso histórico, económico e militar que permita o mesmo tipo de desempenho. O “Brexit” é ainda de lamentar, a nível interno, porque o Reino Unido corporizava uma visão mais liberal da economia contraposta à visão da França, mais intervencionista e estatizante, o que gerava um certo equilíbrio entre duas visões distintas na UE. Ora, se o “Brexit” se estender, nos seus efeitos, ao grupo de países em que se integram, por exemplo, os Países Baixos e os países escandinavos – países não estão dispostos a descambar para uma deriva estatista à francesa – estes terão de se questionar sobre o que efetivamente querem. E a resposta a esta questão pode ser preocupante para a continuidade da UE.

Ao nível externo à UE, a saída dum Estado-Membro que tem assento no Conselho Permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e corporiza a quinta maior economia do mundo (que as agências de rating ameaçam desclassificar) constitui uma significativa perda de terreno face ao resto do mundo. A UE, cuja voz já era de peso insuficiente, fica mais diminuta ainda e, pior, fica politicamente muito mais débil.

E, quanto a Portugal, também é preciso ponderar os efeitos do “Brexit”. O país necessita de estabilidade política e económica. Os nossos indicadores económico-financeiros são tão débeis que um abalo, por mínimo que seja ou pareça, nos pode “reatirar” para uma situação-limite. E a situação do país é, neste momento, altamente periclitante. Portugal precisa duma UE forte, que ironicamente está cada vez mais enfraquecida. E, na UE, Portugal seguramente beneficiava por ter, na UE, o antigo aliado, com quem partilha a visão atlântica da Europa e do mundo.

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É normal que as economias e os movimentos financeiros se ressintam na turbulência que se aproxima. Cabe aos dirigentes da UE e dos países amigos do Reino Unido – e muitos (EUA e Canadá) estão a fazê-lo – moderar a tendência alarmista ou a tentação de retaliação (política, diplomática e económica). A este respeito, os líderes europeus – que deixarão de representar 28 países (o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, e Mark Rutte, detentor da presidência rotativa do Conselho da UE), depois de se terem pronunciado em separado, assinaram uma declaração conjunta.

Embora lamentem a decisão do povo britânico de sair da UE, dizem respeitá-la por ter decorrido dum “processo livre e democrático” e mostram-se unidos na resposta a esta “situação sem precedentes”, assegurando permanecer fortes e a defender “os valores essenciais da UE de promover a paz e o bem-estar dos seus povos”. A União de 27 Estados-Membros irá continuar e constituirá “o enquadramento do nosso futuro político comum”. Unidos pela História, Geografia e interesses comuns, “desenvolveremos” – porfiam – “a nossa cooperação nessa base”. Na sua ótica, a Europa responderá ao “desafio comum de gerar crescimento, aumentar a prosperidade e garantir um ambiente seguro para os nossos cidadãos” e “as Instituições desempenharão todas as suas funções neste sentido”. Aguardam que o governo britânico (que se declarou demissionário a curto prazo) concretize a decisão tomada pelo seu povo o mais rapidamente possível, por mais doloroso que o processo se venha a revelar, pois qualquer eventual atraso “prolongaria desnecessariamente a incerteza”. Recordam sumariamente as regras para lidar de forma ordenada com esta situação. Citam, em especial, o artigo 50.º do Tratado da União Europeia, que define o procedimento a seguir, caso um Estado-Membro decida sair da UE, mostrando-se prontos para lançar “as negociações com o Reino Unido relativamente aos termos e às condições da sua saída da UE”, sendo que, até o processo negocial ficar concluído, o Reino Unido continua membro da UE com todos os direitos e obrigações daí decorrentes. Declaram que, tal como foi acordado, o “Novo Quadro para o Reino Unido na União Europeia”, obtido no Conselho Europeu de 18 e 19 de fevereiro de 2016, não produzirá efeitos e deixará de existir. E, no atinente ao Reino Unido, dizem esperar tê-lo como “um parceiro próximo da União Europeia no futuro”, esperando que o país “formule as suas propostas a este respeito”, já que qualquer acordo concluído com o Reino Unido enquanto país terceiro refletirá “os interesses de ambas as partes” e será “equilibrado em termos de direitos e obrigações.”

Jaime Gama sugere que a UE tem de evitar a sobranceria ou espírito de retaliação nas negociações que vai iniciar (que parecem aflorar na declaração conjunta) e Jaime Nogueira Pinto sublinha a importância do regresso da política. Também o Papa, na viagem para a Arménia, sublinha a vontade expressa pelo povo e apela a que todos ajam com grande responsabilidade para garantir o bem daquele povo bem, como o bem e a convivência de todo o eurocontinente.

Finalmente, os dirigentes europeus, em nome da paz, deveriam prudentemente aguardar pelo desfecho da petição (já com mais de 100 mil assinaturas) para o lançamento de novo referendo, dada a reduzida margem de vitória do sim neste, o que nalguns países tirava o seu caráter vinculativo.

2016.06.24 – Louro de Carvalho

terça-feira, 21 de junho de 2016

Jacarés matam oito pessoas numa única aldeia angolana


Os ataques ocorreram na margem do rio Cunene e estão a preocupar as autoridades. Gado e cães também estão a ser atacados
Ataques de jacarés causaram a morte de oito pessoas na comuna do Mulondo, município da Matala, província angolana da Huíla, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, anunciou hoje a administração local.
Os ataques, que ocorreram na margem do rio Cunene, de janeiro a maio, estão a preocupar as autoridades, segundo o administrador comunal da aldeia do Mulondo, Zeca Mupinga, salientando que têm sido também atacados gado e cães que vão ao rio à procura de água.
O responsável disse que as autoridades administrativas e tradicionais têm sensibilizado a população ribeirinha sobre os cuidados que devem ter.
"A ausência de cautela por parte da nossa população tem contribuído para o aumento de casos, pois nos locais onde os jacarés atacam constantemente pessoas, nós colocamos sinais de chamada de atenção, mas as pessoas não obedecem aos alertas", disse Zeca Mupinga, citado pela agência noticiosa angolana, Angop.
Fonte: aqui

segunda-feira, 20 de junho de 2016

sábado, 18 de junho de 2016

Em 1300 cursos, 37 dão emprego a todos os licenciados

Medicina e engenharia informática estão entre os cursos que dão mais garantias para recém-licenciados
Veja aqui

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Uma Igreja clerical, em quebra e sem projecto mobilizador

A Igreja Católica que está em Portugal continua a ser predominantemente clerical, centralizada e com uma grande falta de corresponsabilidade pastoral, à qual falta um projecto mobilizador, numa sociedade em profunda mutação.
Fonte: aqui

sábado, 11 de junho de 2016

Crianças como cuidadores: uma investigação sobre a perspetiva dos enfermeiros da Região Autónoma da Madeira da Madeira

 O envelhecimento e as doenças psiquiátricas aumentam a probabilidade de uma criança assumir o papel de cuidadora.
Muito pouco se fala desta situação social. Crianças a cuidar de pessoas mais velhas que, por envelhecimento, doenças psiquiátricas e outras situações, ficam, em virtude de várias peripécias da vida, entregues aos cuidados de crianças.
Vale a pena ler estre trabalho inovador neste campo.
AQUI

É assim que ama?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Até agora, tudo bem

Vivemos hoje em Portugal uma das situações mais terríveis e perturbadoras da humanidade: a lenta gestação de uma catástrofe. No futuro, quando olharem para o nosso tempo, as pessoas terão muita dificuldade em entender a apatia nacional que conduziu ao colapso de 2017-2018. Nessa altura muitos perguntarão como foi possível tal cegueira, ignorando os verdadeiros problemas, até se cair na ruína? Nós temos a resposta a este terrível enigma em directo e ao vivo.
Os sinais de crescente desequilíbrio são gritantes há muito: banca e economia descapitalizadas, crescimento empatado, orçamento deficitário. Se hoje tomássemos a situação a sério, a cura ainda seria longa, dolorosa e incerta. Em vez de tentar, o governo prefere fingir que está tudo bem, garantindo que a austeridade acabou. Enquanto houver quem acredite, os desequilíbrios crescentes podem ir passando ao lado das preocupações ministeriais. Aquilo que ocupa as atenções mediáticas são projectos espúrios, polémicas tolas, planos mirabolantes, enquanto a tragédia cresce. Como em tantas calamidades antigas, a ilusão irresponsável das autoridades é boa parte da desgraça. No meio desta situação sumamente delicada e dramaticamente decisiva apenas um dos partidos que apoia o governo parece saber aquilo que quer, e isso pouco tem que ver com o interesse nacional.
O Partido Socialista, que já foi um dos pilares centrais da democracia, transformou-se no catavento do regime. Já esteve no poder com o CDS em 1978, com o PSD em 1983-85 e agora é apoiado pelo PCP, BE, PEV e PAN. A única orientação que mantinha, ser um partido democrático e europeísta sem relações com forças anticapitalistas e anticomunitárias, foi precisamente aquilo que António Costa desprezou para chegar a primeiro-ministro. Agora é evidente que o partido está disposto a tudo para conseguir sugar as delícias do poder. Devido a esta toxicodependência encontra-se na abjecta posição de pagador de promessas e feitor do caderno de encargos que a esquerda lhe impôs.
O Bloco de Esquerda, na boa tradição do newspeak do Big Brother orwelliano, onde as palavras invertem o sentido, é precisamente o oposto de um bloco. Amálgama de orientações diferentes, ainda consegue ser mais desorientada que o PS. Todas essas linhas só se unem na aversão, quando se trata de criticar, condenar e ridicularizar. Não admira que tenham dificuldade em dar contributos positivos.
Desde Novembro, tendo influência no poder, não conseguem apresentar ideias relevantes. Para lá das questões do baixo-ventre, onde gostam de se especializar, destacaram-se apenas na proposta de mudar o nome do "cartão de cidadão" para "cartão de cidadania", o que certamente evitaria graves melindres
O PCP é um fenómeno político especial, o único partido estalinista ocidental com alguma relevância. Este sucesso deve-se a uma linha muito simples, seguida com rigor e persistência. O partido conseguiu resistir à derrocada soviética e a todas as impressionantes mudanças sociais das últimas décadas porque se transformou numa força corporativa.
Através da Intersindical, o PCP serve para proteger os interesses de funcionários e serviços públicos. Ironia do destino, os comunistas viraram salazaristas. Mas assim são os únicos que nesta conjuntura sabem aquilo que querem, sendo quem está por detrás das únicas medidas marcantes do governo, da recompra da TAP às 35 horas do funcionalismo, passando pelo encerramento dos colégios privados. O PCP é o único claro vencedor da conjuntura.
Com cada uma das forças governamentais perdida no seu labirinto, a sociedade portuguesa está ao abandono, com os desequilíbrios a inchar. Tal como no governo de José Sócrates, a ilusão vai manter-se até ao colapso final. Só então vão cair os mitos e se tomarão as medidas desesperadas. Nessa altura as culpas da situação serão atribuídas à crise mundial, Europa, austeridade, exploração capitalista; a todos menos aos governantes que, quando ainda havia alguma coisa a fazer, ignoraram as dificuldades, envolvidos que estavam nas suas intrigas e projectos.
A 15 de Maio de 2006, escrevi neste jornal: «Portugal está como o homem que caiu do arranha-céus e quando, a meio da descida, um amigo da janela lhe pergunta como está, ele responde: "Até agora, tudo bem!"». Nestes dez anos o país já bateu no fundo, já se levantou e está de novo a cair. No Congresso do Partido Socialista do fim-de-semana, a mensagem de António Costa foi: "Até agora, tudo bem". Desta vez a queda será mais curta, pois o fundo está mais perto.
João César das Neves, DN20160609, aqui

terça-feira, 7 de junho de 2016

ÀS PORTAS DO EUROPEU

1. Aí está mais um campeonato da Europa para confirmar o que, desde sempre, se suspeitava e o que, desde há muito, se sabia: o futebol é bastante mais que um desporto.

Ele tornou-se também um fenómeno mediático de dimensões singulares e uma actividade económica de proporções únicas.

Não deixa, com efeito, de ser sintomático ver como, numa altura de crise, a humanidade consegue desligar dos problemas para se concentrar nas vicissitudes de uma bola conduzida por vinte e dois homens.

E é poderosamente significativo verificar as somas vultuosas de dinheiro que, mesmo no epicentro da supracitada crise, continuam a ser movimentadas à volta deste fenómeno.


2. Há, sem dúvida, uma necessidade infrene de escapar, nem que seja por uns dias, à dureza da realidade. Impressiona vivamente a identificação das populações com uma realização que, à partida, é meramente lúdica.

O real esmaga-nos com a sua crueza. O futebol não nos dá pão, mas vai oferecendo (quando oferece) contentamento, exultação e farta vivacidade.

Em poucas ocasiões os sentimentos se soltam como no futebol: a alegria, a tristeza, a proximidade, a violência, o patriotismo.

A bem dizer, a terra tem semelhanças com a bola e, pelos vistos, é a bola que mais a faz movimentar.

Há uma espécie de relação simbiótica que ilustra este impacto planetário do futebol. Não é a terra tão redonda como a bola e não é a bola tão redonda como a terra?

3. O futebol faz-nos lembrar e faz-nos também esquecer. Até parece que o nosso compromisso com a causa da justiça desaparece às portas do futebol.

Sofremos com a vida, mas pouco nos incomodam os milhões que serpenteiam no futebol.

Até os mais pobres exultam com o investimento que os seus clubes fazem no plantel. Desde que as vitórias venham, todos os sacrifícios são bem-vindos e todas as somas acabam por ser vitoriadas.

Não espanta, assim, que o futebol seja muito mais que um desporto.

Há quem faça dele uma ciência e apresente as tácticas e as jogadas como algo acabado de sair de um laboratório ou de uma sebenta.

Também não falta quem o patenteie emoldurado em belas peças de literatura.

E, claro, abunda igualmente quem o transfigure numa acção bélica como se de uma guerra se tratasse.

Desde logo, a linguagem eleva o futebol ao patamar de uma questão de vida ou de morte. É como se tudo esteja em jogo numa partida. Daí os feridos. Daí as mortes. E daí as vitórias não só de alguém, mas contra alguém.

O futebol é um fenómeno antropológico de grande complexidade. Ele mistura a eficácia com a arte. Nele há lugar tanto para a elite como para o popular.

É uma amálgama que tanto faz aproximar como explodir. É verdadeiramente imprevisível.


4. Como não podia deixar de ser, também não escasseia quem assimile o futebol à religião.

Dir-se-ia que o ser humano não passa sem rituais. E se não os faz nas igrejas, não os dispensa nos estádios.

A conversação está cheia de pontos comuns. Fala-se da fé no triunfo. Aponta-se o clube como uma religião e o estádio como um inferno.

Há quem faça peregrinações por causa de um jogo e dá-se até o caso de um dirigente ser conhecido como…papa!

Recordo que o anterior seleccionador italiano, Roberto Donadoni, assinalou, há anos, que se Bento XVI e João Paulo II fossem jogadores de futebol, «localizá-los-ia claramente do meio-campo para a frente».

Porquê? Porque, no mundo dos princípios, «não faz falta somente defensores mas também dianteiros».


5. Joseph Ratzinger, que nunca apreciou muito o desporto, refere que o futebol pode «ensinar o respeito mútuo, onde a aceitação de regras por todos faz com que, apesar da contenda, subsista aquilo que une e unifica».

Que este campeonato do mundo sirva, sobretudo, para aproximar pessoas e povos.

Se houver serenidade e entreajuda, ninguém perderá mesmo que alguém não vença.

No campo só uma equipa pode ganhar. Mas, se quisermos, na vida todos poderão sair vencedores!
João António Teixeira

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Os efeitos “pisca-pisca” do XXI Congresso do PS


Obviamente que a escolha do líder partidário em eleições diretas obnubila o esplendor da sessão magna do órgão máximo de debate e opções políticas no partido. No entanto, os congressos dos partidos não se transformam numa espécie de verbo-de-encher, porquanto os congressistas podem usar da palavra, debatem as diversas moções estratégicas e os militantes que na sua qualidade de delegados ao Congresso dão corpo a tais moções, mesmo minoritárias, podem integrar os órgãos colegiais partidários, dado que os estatutos consagram o sistema de representação proporcional. Por outro lado, convites que sejam endereçados a determinadas vozes críticas têm o mérito de, se aceites, integrar em certa medida algo dos fumos críticos, relativizando o efeito perverso e demolidor da palavra e ação de um opositor que ficasse fora do baralho. Depois, os Congressos mostram alguns números de episódio pitoresco. 

Ora, encaixa nestes parâmetros o XXI Congresso do PS e primeiro desde as eleições legislativas de 4 de outubro de 2015, que ditaram a não vitória eleitoral do Partido Socialista, mas criaram as condições políticas para a governação socialista com o apoio tático do PCP, BE e PEV e alguma sintonia do PAN – que Marcelo Rebelo de Sousa vem homologando.

***

A lista do secretário-geral do PS, encabeçada pela secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, para a Comissão Nacional conseguiu 233 dos 251 lugares (92,8% dos votos), enquanto a lista encabeçada por Daniel Adrião obteve 18 lugares. Entre os primeiros lugares da lista de Ana Catarina, estão dois dos principais representantes da Tendência Sindical Socialista, Rui Riso (UGT) e Carlos Trindade (CGTP-IN), ocupando respetivamente as 6.ª e 8.ª posições. A inclusão destes nomes responde ao objetivo da direção do PS de colocar mais representantes da esfera sindical, assim como ativistas sociais, na Comissão Nacional, o órgão máximo entre congressos.

Na parte cimeira duma lista que apresenta 251 efetivos (sendo 233 os que constituem a linha maioritária), estão figuras preponderantes, como: António Correia de Campos, antigo ministro da Saúde (2.º lugar); o diplomata Alexandre Leitão (4.º lugar); a eurodeputada Maria João Rodrigues (7.º lugar); o deputado Miranda Calha (8.º lugar); a Secretária de Estado Ana Sofia Antunes (10.º lugar) e o ex-dirigente Sérgio Sousa Pinto (5.º Lugar), que se demitira do Secretariado Nacional do PS por discordar do acordo político com o BE e o PCP para a formação do XXI Governo.

A lista de Daniel Adrião apresenta em 3.ª posição a militante Cristina Martins, que na Federação de Coimbra denunciou o caso de fichas falsas, o que já levou à suspensão de quase duas dezenas de militantes afetos à corrente de Pedro Coimbra, o atual líder daquela distrital.

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Francisco Assis continua a ser, no congresso e no pós-congresso, o rosto mais persistente e claro da oposição à geringonça PS/BE/PCP/PEV. O seu discurso, dos mais esperados, centrou-se na Europa. Ele aguardou pacientemente pela sua vez numa das últimas filas do pavilhão, depois de tirar a senha – desta vez, inovou-se condicionando-se a intervenção dos congressistas à inscrição prévia e ao levantamento da respetiva senha – sendo alvo de fotografias, não só de fotojornalistas, mas também de militantes e o 41.º a tomar a palavra. Recebeu assobios no início, mas foi aplaudido no fim. Compareceu e inscreveu-se “por um indeclinável dever de lealdade” para com o partido e a “família política”, porque, “em democracia há o direito a dizer publicamente o que pensamos, fazê-lo sempre sem disfarces”. E o líder do PS deu a mão ao debate democrático.

Outro crítico da estratégia do PS a governar foi e é Eurico Brilhante Dias, que interveio mais tarde, não fazendo como vários outros congressistas que prescindiram da palavra, dado o atraso nos trabalhos, porque assume integralmente “que uma solução política que António Costa propôs ao partido era frágil” e, como militante, considera que “o PS deve abrir-se não só à sua esquerda como à sua direita, pelo Estado social, escola pública, serviço nacional de saúde”. Porém, mostra “total solidariedade” com o programa político aprovado por unanimidade:


“Tudo farei para que o programa do PS seja aplicado de forma fiel, porque palavra dada é palavra honrada. Para aqueles que tiveram medo e estavam revoltados, poderem votar no PS nas próximas eleições.”.


Também Álvaro Beleza acenou ao secretário-geral com o aviso de que o PS não pode “andar a reboque” de outros partidos.

Estes críticos ficaram, sem ressentimento, fora dos órgãos partidários nacionais.


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E houve ministros criticados. Eduardo Cabrita e Vieira da Silva, apesar de militantes de longa data, estiveram sob o foco da crítica. Também Santos Silva, Mário Centeno e Caldeira Cabral, como outros, não foram poupados.

O Ministro-Adjunto, com a tutela do poder local, não podia dizer que “não faz sentido voltar ao passado” para rever o mapeamento das freguesias. Por isso, houve um apelo ao Presidente da Associação de Municípios, Manuel Machado, para que as palavras dos autarcas fossem ouvidas. E o próprio Manuel Machado, também Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, deixou conselhos ao Governo e a Eduardo Cabrita, defendendo a necessidade de democratizar as CCDR e promover a descentralização administrativa do Estado, começando por pôr em prática “uma nova lei de financiamento local” e “acelerar a aplicação de fundos comunitários do programa Portugal 2020”.

O Governo foi visado por militantes emigrantes pela falta de entrosamento entre o PS nacional e as secções socialistas no estrangeiro. Neste sentido, Tiago Pereira, da secção socialista de Macau, chegou a avançar com uma proposta para que os socialistas emigrantes se sintam mais incluídos: o voto eletrónico. É um recado para Augusto Santos Silva.

Muitos congressistas, sobretudo jovens socialistas, criticaram as condições laborais existentes no país, nomeadamente a precariedade laboral e os falsos recibos verdes – críticas que Vieira da Silva não ignorou. Também foi abordada a problemática atinente à Segurança Social. Pedro Simões Pereira, deputado da Assembleia Municipal de Benavente e candidato à Assembleia da República na lista de Santarém, encabeçada por Vieira da Silva, deixou conselho ao ministro: “Embora os consensos à esquerda funcionem, é preciso consensos à direita em matérias como a Segurança Social” – conselho corroborado dentro do partido por alguns militantes e também por cidadãos a ele exteriores, nomeadamente o próprio Passos Coelho.

Um dos temas a que devia ter sido conferida mais visibilidade e que é tantas vezes tema central de debate na sociedade é a saúde. Porém, o tema foi tocado poucas vezes ao longo do segundo dia de congresso. Não obstante, houve quem o tenha incluído na discussão, embora sem grande impacto naquela assembleia magna. José Abraão, um dos socialistas sindicalistas mais notórios, trouxe o tema ao interior do Pavilhão 1 da FIL e deixou uma sugestão a Adalberto Campos Fernandes: “Para não pôr em causa o SNS, temos de dizer não à privatização da ADSE”.

Ricardo Gonçalves, conhecido por ser crítico da atual solução governativa, embora tenha subscrito “as palavras de Assis”, centrou a sua intervenção nos dados económicos – recados para os ministros das Finanças e da Economia. Segundo o militante socialista, os resultados económicos alcançados são fracos e o PS corre o risco de cometer “o maior falhanço político desde o 25 de abril”. Para o interveniente, o crescimento económico e o défice deveriam estar a melhorar mais do que estão porque há muitas frentes de combate no Governo. Exemplo disso, afirmou, “é a moção aqui apresentada, que se dedica mais a justificar o Governo do que a projetar o futuro”. Na mesma linha se posicionou Pedro Caetano, para quem os resultados económicos conseguidos pelo Governo são sinónimo de um Executivo “fraco, sem mobilismo e sem reformas”. Verificando que o desemprego, o défice e o crescimento económico estão aquém do esperado, concluiu que o PS perderá as autárquicas, se o rumo não mudar e deixou a crítica às preocupações excessivas que o Governo tem com os partidos que o sustentam.

E António Costa também foi visado, e numa das suas principais bandeiras: as 35 horas de trabalho semanal na administração pública. José Luís Correia opinou não ser este “o momento adequado” para avançar com a medida e acusou a governação de estar “demasiadamente concentrada no Parlamento e não nos ministérios”.

***

Entre os episódios pitorescos, destacam-se: a presença de Guterres, no equívoco de gostar e não gostar de estar nos congressos (pois foi por vontade própria que deixou a liderança do partido, aceitou ser ACNUR e agora ninguém o obriga a candidatar-se a secretário-geral da ONU); e António Arnaut, a tecer elogios ao Presidente da República pelo modo como ele pretende cumprir a Constituição.

Por mim, não aprecio a comparência de Guterres com aquela expressão de pena sentida por não ter estado ou por vir a não poder estar em Congressos de PS. E, quanto ao Presidente, revejo-me na crítica que Vasco Pulido Valente faz na entrevista ao Expresso do dia 4 de junho:

“Falta-lhe autoridade, falta-lhe uma visão, falta resolução […]. A autoridade exige uma certa gravitas e uma certa distância, e ele tem pouca autoridade neste momento […]. Ele fala de tudo, mas diz lugares comuns sobre tudo, incluindo coisas que não sabe.”.

***

O Congresso foi pacífico: poucos foram os congressistas que deixaram críticas e recados e muitos foram os que teceram loas. Porém, há que te em conta a pequena minoria, informalmente encabeçada por Francisco Assis, que se assumiu contra a atual liderança do partido e, consequentemente, do governo do país. Se Assis centrou a intervenção nas coligações feitas pelo PS com os partidos à esquerda, usando a Europa para mostrar que os partidos que sustentam o Governo têm mais diferenças do que semelhanças com o PS, outros críticos fixaram-se noutras vertentes – as internas – como se deixou explicitado acima. Foram críticas bastantes suaves e algo escassas, parcialmente eclipsadas, nalguns casos, pelos vários elogios feitos nas mais de 100 intervenções.

O Governo sai aliviado e satisfeito mas, tem de ponderar as sugestões de melhoria. O Congresso serviu para alinhar estratégia, distribuir argumentos e galvanizar as tropas para o combate, sobretudo as que lidam pela 1.ª vez com a solução governativa em que nunca tinha acreditado.

António Costa encerrou o Congresso do PS com argumentos claros e pertinentes para os próximos tempos políticos e prescrevendo a receita: “Sejam otimistas porque faz bem à saúde”.

2016.06.05 – Louro de Carvalho

sábado, 4 de junho de 2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Frederico Lourenço às voltas com Jesus


Neste livro, um grande intelectual português e um dos nossos maiores classicistas coloca em evidência o que deveria ser um dado cultural inquestionável: “mesmo não acreditando que a Bíblia transmita ‘sem erro’ a palavra infalível de Deus e duvidando, ao mesmo tempo, que a correcta leitura da Bíblia seja relativizar e alegorizar tudo o que lá encontremos que não nos convém, mesmo assim considero o tempo gasto a ler este mais fascinante de todos os livros tempo ganho e (porque não?) infalivelmente bem empregue.”
Frederico Lourenço repetirá esta sua paixão pela Bíblia por diversas vezes ao longo do livro. E esta atitude de reconhecimento pelo valor do texto bíblico é de destacar mais ainda, quanto ela é rara na cultura portuguesa contemporânea. E é de sublinhar ainda mais quando se sabe que o autor se afastou do catolicismo em grande parte por causa da sua homossexualidade, facto que ele recorda de várias formas, em diferentes passagens do livro.
Composto por pequenos ensaios sobre os mais diversos temas, textos e personagens da Bíblia, O Livro Aberto devolve-nos ainda o prazer imenso da leitura de um texto literariamente rico e bem escrito.
Nesse exercício, Frederico Lourenço faz um trabalho (quase) completo: ele lê, desvela, revela, decifra, comenta e interroga o texto bíblico. Usando por vezes a ironia fina, o humor ou entrando em diálogo com o leitor.
O que falta, então? Colocando-se claramente numa posição antagónica da infeliz frase de Saramago, quando o escritor Nobel falou da Bíblia como um “manual de maus costumes”, Lourenço acaba por deixar o leitor frustrado porque não leva o seu exercício até ao fim. Ou seja, fica enredado quase numa tentação próxima da de Saramago: a de recusar a possibilidade da hermenêutica de um texto clássico.
Essa frustração é tanto maior quanto, em alguns momentos, Lourenço entra nesse domínio de forma arguta. Por exemplo, quando, a propósito de algumas visões cristãs mais tradicionais sobre a família, contesta a “ênfase hiperbólica na família enquanto estrutura divinamente sancionada, quando no fundo o que Jesus não parou de dizer foi precisamente o contrário: quem segue a palavra de Deus não quer saber da sua família, porque os laços de sangue não contam para nada: o que conta são os laços espirituais”.

É precisamente esse exercício que se tem pena, não ver mais assumido – e ser mesmo contrariado, por vezes. O autor contesta que a Bíblia possa ser lida de forma “alegórico-relativizante”, quando os seus muitos autores quiseram que os seus textos fossem “tomados à letra”. Seria preferível, no entanto, falar de uma leitura espiritualmente fundante ou fundadora (ou inspiradora). Ou seja, o texto bíblico, tendo sido escrito por muitos autores (talvez não todos – basta pensar nos livros “sapienciais” ou “proféticos”) para serem tomados à letra, devem ser lidos, cada vez mais, no seu contexto.
Isso não retira valor à intenção dos autores bíblicos: a leitura contextualizada não tem de ser necessariamente alegórico-relativizante. Mesmo se admite a alegoria e a relativização, ela procura, sobretudo, o modo como o texto pode ser espiritualmente fundante. Para um crente, desde logo, mas também para um não-crente: este procurará entender o modo como as várias leituras possíveis (porque de várias leituras se trata, diacrónica e sincronicamente) foram interpretando o que ali é dito.
Também no que escreve sobre São Paulo e as origens da zanga entre os primeiros cristãos e o judaísmo, Frederico Lourenço coloca o ónus da condenação do judaísmo em várias referências do Novo Testamento. Mas a questão é mais vasta do que isso: logo desde muito cedo, e durante os dois primeiros séculos da era comum, cristãos e judeus arremeteram verbal mas violentamente uns contra os outros naquilo que Isidro Lamelas já designou como o proto-cisma. O que se passou está, aliás, muito bem sintetizado numa frase de Frederico Lourenço, depois de referir as críticas do Novo Testamento cristão ao judaísmo: “Compreensivelmente, este novo movimento – o cristianismo – é visto por muitos judeus como visando a anulação da identidade judaica; e por isso o rejeitam. Os judeus desistem de tentar compreender os cristãos; e os primeiros cristãos desistem dos judeus.”
Os últimos capítulos, sobre Jesus, são – creio – os mais interessantes. Lourenço mostra aí, claramente, porque anda às voltas com a Bíblia. O texto com o título “Sepultar Jesus (em três etapas)” é, a esse respeito, de uma notável força humana (e literariamente belíssimo). Cito o final: “Se [Jesus] ressuscitou (ou não) não sei; mas que aqui, no mundo em que morreu, ele venceu a morte, disso tenho a certeza: porque tanto crentes como não-crentes andaremos às voltas com Jesus nas nossas cabeças enquanto houver seres humanos na Terra.”

O Livro Aberto: Leituras da Bíblia
Autor: Frederico Lourenço
Edição: Cotovia
152 pág., PVP 16 euros
 
(Texto publicado no Diário de Notícias de 10 de Abril de 2016)
Fonte: aqui