segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Virgem Maria morreu ou não?


 
É claro que morreu. Embora durante vários séculos muitos católicos acreditassem que Maria não tinha morrido como as outras criaturas. Que, ao chegar a hora da sua partida deste mundo, ficou adormecida, como num sono profundo e assim foi  (e) levada por Deus em corpo e alma ao Céu. E que, por isso, o seu corpo não tinha sofrido a corrupção que qualquer cadáver experimenta. Muitos assim pensavam, porque vendo a morte como consequência do pecado, entendiam então que a Virgem Imaculada não sofreria dessa morte, porque foi concebida sem pecado. Simplesmente todos sabemos que quando falamos daquela «morte» que é consequência do pecado, não nos referimos tanto à morte física ou biológica, mas sobretudo à morte da pessoa, na sua viva relação com Deus e com os outros. Ora se o próprio Filho de Deus morrera, por que não havia de morrer a Virgem Maria, se a morte faz parte natural da condição humana? 

Quando em 1950 o Papa Pio XII declarou o dogma da Assunção de Nossa Senhora, a questão da morte de Maria é contornada com alguma habilidade. Diz o texto: “Declaramos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, terminado o (per)curso da sua vida terrena, foi levada em corpo e alma à glória do Céu». Não diz se morreu ou não. Com isto deixou a questão da morte de Maria por resolver. Foi finalmente João Paulo II quem, em 1997, numa das suas catequeses semanais, se pronunciou sobre esta controvérsia, manifestando que, de facto, a Mãe de Jesus morreu e que por isso experimentou na sua própria carne o drama da morte, como toda a criatura humana. O Papa justificou a sua afirmação com três razões: 

Primeira, porque toda a Tradição da Igreja sustentou que Maria foi levada ao céu depois de morrer. Querer defender o contrário, é alinhar-se fora do fio comum da doutrina da Igreja.  

Segunda, o privilégio de «escapar» à morte, poria Maria acima do próprio Filho; o que é impensável.  

Terceira, porque para ressuscitar é preciso morrer. Sem a morte prévia é impossível a ressurreição. Se Maria não tivesse morrido, como teria podido ressuscitar? De facto, outra coisa não queremos dizer com a assunção: é a Páscoa de Maria. Unida ao Filho na vida e na morte, Ela participa em primeiro lugar da vitória pascal de Jesus e é a primeira entre muitas criaturas, que Deus chama à plena comunhão de vida e amor com Ele. Tudo o que se diga além disto não passa de piedosa imaginação.
Amaro Gonçalo

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

BISCATES

                                                                                                                                                    por Carlos de Matos Gomes

Para que servem as primeiras páginas dos jornais e os grandes casos dos noticiários das TV?
Se pensarmos no que as primeiras páginas e as aberturas dos telejornais nos disseram enquanto decorriam as traficâncias que iriam dar origem aos casos do BPN, do BPP, dos submarinos, das PPP, dos SWAPs, da dívida, e agora do Espírito Santo, é fácil concluir que servem para nos tourear.
Desde 2008 que as primeiras páginas dos Correios das Manhas, os telejornais das Moura Guedes, os comentários dos Medinas Carreiras, dos Gomes Ferreiras, dos Camilos Lourenços, dos assessores do Presidente da República, dos assessores e boys dos gabinetes dos ministros, dos jornalistas de investigação, nos andam a falar de tudo e mais alguma coisa, excepto das grandes vigarices, aquelas que, de facto, colocam em causa o governo das nossas vidas, da nossa sociedade, os nossos empregos, os nossos salários, as nossas pensões, o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos. Que me lembre falaram do caso Freeport, do caso do exame de inglês de Sócrates, da casa da mãe do Sócrates, do tio do Sócrates, do primo do Sócrates que foi treinar artes marciais para a China, enfim que o Sócrates se estava a abotoar com umas massas que davam para passar um ano em Paris, mas nem uma página sobre os Espirito Santo! É claro que é importante saber se um primeiro ministro é merecedor de confiança, mas também é, julgo, importante saber se os Donos Disto Tudo o são. E, quanto a estes, nem uma palavra. O máximo que sei é que alguns passam férias na Comporta a brincar aos pobrezinhos. Eu, que sei tudo do Freeport, não sei nada da Rioforte! E esta minha informação, num caso, e falta dela, noutro, não pode ser fruto do acaso. Os directores de informação são responsáveis pela decisão de saber uma e desconhecer outra.
Os jornais, os jornalistas, andaram a tourear o público que compra jornais e que vê telejornais.
Em vez de directores de informação e jornalistas, temos novilheiros, bandarilheiros, apoderados, moços de estoques, em vez de notícias temos chicuelinas.
Não tenho nenhuma confiança no espírito de auto critica dos jornalistas que dirigem e condicionam o meu acesso à informação: todos eles aparecerão com uma cara à José Alberto de Carvalho, à Rodrigues dos Santos, à Guedes de Carvalho, à Judite de Sousa (entre tantos outros) a dar as mesmas notícias sobre os gravíssimos casos da sucata, dos apelos ao consenso do venerando chefe de Estado, do desempenho das exportações, dos engarrafamentos do IC 19, das notas a matemática, do roubo das máquinas multibanco, da vinda de um rebenta canelas uzebeque para o ataque do Paiolense de Cima, dos enjoos de uma apresentadeira de TV, das tiradas filosóficas da Teresa Guilherme. Todos continuarão a acenar-me com um pano diante dos olhos para eu não ver o que se passa onde se decide tudo o que me diz respeito.
Tenho a máxima confiança no profissionalismo dos directores de informação, que eles continuarão a fazer o que melhor sabem: tourear-nos. Abanar-nos diante dos olhos uma falsa ameaça para nos fazerem investir contra ela enquanto alguém nos espeta umas farpas no cachaço e os empresários arrecadam o dinheiro do respeitável público.
Não temos comunicação social: temos quadrilhas de toureiros, uns a pé, outros a cavalo.
Uma primeira página de um jornal é, hoje em dia e após o silêncio sobre os Espirito Santo, um passe de peito.
Uma segunda página será uma sorte de bandarilhas.
Um editor é um embolador, um tipo que enfia umas peúgas de couro nos cornos do touro para a marrada não doer.
Um director de informação é um “inteligente” que dirige uma corrida.
Quando uma estação de televisão convida um Camilo Lourenço, um Proença de Carvalho, um Gomes Ferreira, um João Duque, um Judice, um Marcelo, um Miguel Sousa Tavares, um Angelo Correia, devia anunciá-los como um grupo de forcados: Os Amadores do Espirito Santo, por exemplo. Eles pegam-nos sempre e imobilizam-nos. Caem-nos literalmente em cima.
As primeiras páginas do Correio da Manhã podiam começar por uma introdução diária: Para não falarmos de toiros mansos, os nossos queridos espectadores, nem de toureios manhosos, os nossos queridos comentadores, temos as habituais notícias de José Sócrates, do memorando da troika, da imperiosa necessidade de pagar as nossas dividas.
Todos os programas de comentário político nas TV deviam começar com a música de um passo doble. Ou com a premonitória “Tourada” do Ary dos Santos, cantada pelo Fernando Tordo.
O silêncio que os “negócios “ da família "Dona Disto Tudo" mereceu da comunicação social, tão exigente noutros casos, é um atestado de cumplicidade: uns, os jornalistas venderam-se, outros queriam ser como os Espirito Santo. Em qualquer caso, as redacções dos jornais e das TV estão cheias de Espiritos Santos. Em termos tauromáticos, na melhor das hipóteses não temos jornalistas, mas moços de estoques. Na pior, temos as redacções cheias de vacas a que se chamam na gíria as “chocas”.
O que o silêncio cúmplice, deliberadamente cúmplice, feito sobre o caso Espirito Santo, o que a técnica do desvio de atenções, já usada por Goebels, o ministro da propaganda de Hitler, revelam é que temos uma comunicação social avacalhada, que não merece nenhuma confiança.
Quando um jornal, uma TV deu uma notícia na primeira página sobre Sócrates( e falo dele porque a comunicação social montou sobre ele um operação de barragem pelo fogo, que na altura justificou com o direito a sabermos o que se passava com quem nos governava e se esqueceu de nos informar sobre quem se governava) ficamos agora a saber que esteve a fazer como o toureiro, a abanar-nos um trapo diante dos olhos para nos enganar com ele e a esconder as suas verdadeiras intenções: dar-nos uma estocada fatal!
Porque será que comentadores e seus patrões, tão lestos a opinar sobre pensões de reforma, TSU, competitividade, despedimentos, aumentos de impostos, gente tão distinta como Miguel Júdice, Proença de Carvalho, Angelo Correia, Soares dos Santos, Ulrich, Maria João Avilez e esposo Vanzeller, não aparecem agora a dar a cara pelos amigos Espirito Santo?
Porque será que os jornais e as televisões não os chamam, agora que acabou o campeonato da bola?
Um grande Olé aos que estão agachados nas trincheiras, atrás dos burladeros!

Carlos de Matos Gomes 
Nascido em 24/07/1946, em V. N. da Barquinha. Coronel do Exército (reforma). Cumpriu três comissões na guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais «comandos».


Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.
Molière.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Carta de um noivo...e a resposta da noiva!

O noivo escreveu um poema para noiva um pouco antes do casamento:


Que feliz sou, meu amor!...
Domingo estaremos casados,
O café da manhã na cama,
Um bom sumo e pães torrados



Com ovos bem mexidinhos
Antes de ir p' ró trabalho
Tudo pronto bem cedinho
P'ra inda ires ao mercado


Depois regressas a casa
Rapidinho arrumas tudo
E corres pro teu trabalho
Para começares o teu turno


Tu sabes bem que, de noite
Gosto de jantar bem cedo
De te ver toda bonita
om sorriso ledo e quedo


Pela noite mini-séries
Cineminhas dos baratos
E nada, nada de shoppings
Nem de restaurantes caros


E vais cozinhar p'ra mim
Comidinhas bem caseiras
Pois não sou dessas pessoas
Que só comem baboseiras...


Já pensaste minha querida
Que dias gloriosos?
Não te esqueças, meu amor
Qu'em breve seremos esposos!


Como resposta, a noiva escreveu um poema para o noivo
( E acertadamente...!!!!)


Que sincero meu amor!
Que linguagem bem usada!
Esperas tanto de mim
Que me sinto intimidada


Não sei de ovos mexidos
Como tua mãe adorada,
Meu pão torrado se queima
De cozinha não sei nada!


Gosto muito de dormir
Até tarde, relaxada
Ir ao shopping fazer compras
de Visa, tarjeta dourada


Sair com minhas amigas,
Comprar roupa da melhor
Sapatos só exclusivos
E as lingeries p'ró amor


Pensa bem... ainda há tempo
A igreja não está paga
Eu devolvo o meu vestido
E tu o fato de gala


E domingo bem cedinho
Em vez de andar aos "AIS",
Ponho aviso no jornal
Com letras bem garrafais:


HOMEM JOVEM E BONITO PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
PORQUE A EX-FUTURA ESPOSA DECIDIU MANDÁ-LO À M****!
(recebido por email)

Uma ponte cinquentenária com história e histórias


No passado dia 6 de agosto, comemoraram-se os 50 anos da inauguração da Ponte Sobre o Tejo. O Arquivo Municipal de Lisboa assinalou a efeméride com uma exposição que mostra, por imagens inéditas, as diversas fases da construção, a cerimónia de abertura e as grandes mudanças que a infraestrutura trouxe principalmente às cidades de Lisboa e de Amada.

Na manhã de 6 de agosto de 1966, pelas 10,30 horas, ouviu-se o hino nacional, 21 tiros em salvas compassadas, foguetes de bateria e morteiros. Foi assim dado o início da cerimónia de inauguração da “Ponte Sobre o Tejo”, seu nome oficial, que deslocara, por barco para o lado de Almada, o Governo e o Presidente da República Américo Tomás, que presidiu, ficando o ónus da bênção da maior obra pública até então realizada em Portugal para o cardeal Cerejeira, então Patriarca de Lisboa, enquanto o “agradecimento” à personalidade central do Estado Novo ficava gravado em placa, com a atribuição do topónimo de “Ponte Salazar”. Tudo está documentado em fotografias alusivas à construção da “gigantesca” estrutura de aço que liga as duas margens do Tejo, que preenchem a exposição 50 Anos Ponte 25 de Abril: memórias em arquivo, patente ao público no Centro de Informação Urbana de Lisboa, no Picoas Plaza, até 27 de outubro.

A predita exposição é iniciativa do Arquivo Municipal de Lisboa que, a partir da grande variedade de documentação à sua guarda, selecionou as mais significativas fotografias, plantas e projetos expostos agora pela primeira vez. Ana Saraiva, investigadora do Arquivo Municipal de Lisboa, disse que “foi uma surpresa, mesmo para nós que sabemos o que existe, perceber a importância que a Câmara Municipal de Lisboa teve em todo o processo”. E explicou:

“Fala-se muito na construção da ponte, mas todo este projeto foi muito mais do que isso. Implicou estudos e projetos para os acessos rodoviários e ferroviários, a construção de infraestruturas urbanas, expropriações de terrenos, indemnizações e o realojamento de pessoas”.

Na exposição está, por exemplo, a planta e fotografias do Bairro do Relógio, construído pela Sorefame (uma das empresas que fazia parte do consórcio da ponte), junto ao Aeroporto General Humberto Delgado. A imagem do terreno onde está agora plantada a Vinha de Lisboa ajuda a situar a localização das casas pré-fabricadas, demolidas nos anos 1980. Já as fotografias da construção dos acessos em Alcântara deixam perceber como era, à época, esta zona. E sabe-se agora que muitas das propostas de ligação rodoviária apresentadas, também ali em exposição, muitas não saíram do papel, como, por exemplo, o projeto que previa uma via de ligação à autoestrada e que incluía a construção dum viaduto sobre o Aeroporto. Tudo disponível para consulta no site do Arquivo Municipal porque, como nota a investigadora, “esta é matéria de estudo que interessa a áreas tão diversas como a Sociologia, Antropologia ou a Arquitetura”.

Em setembro e outubro, serão organizadas visitas guiadas, por marcação, conduzidas pela equipa de investigadores do Arquivo Municipal de Lisboa que coordenou a exposição (além de Ana Saraiva, participaram Denise Santos e Nuno Martins). E em outubro, nos dias 26 e 27, desenvolver-se-á um ciclo de conferências com a participação da Faculdade de Arquitetura de Lisboa.

***

A primeira travessia sobre o Tejo na área de Lisboa e as localidades situadas sul constitui um marco histórico com forte importância socioeconómica gerada pela complexa mobilidade diária e pontual. No entanto, em torno da Ponte, geraram-se perplexidades curiosas. Chamar-lhe “Ponte Sobre o Tejo” leva a dizer que se pensava que este seria o monumento único e definitivo desta grandeza a construir nas imediações, quando, na verdade, em 29 de março de 1998 (menos de 32 anos depois) – menos imponente, mas mais longa e airosa – se inaugurou a Ponte Vasco da Gama; e já se fala, há anos, numa terceira travessia. Por outro lado, a designação de “Ponte Salazar” não passou de uma mostra fugaz de simpatia e homenagem à individualidade que era a antonomásia do regime. Porém, Salazar não era ainda uma figura imposta à memória coletiva pela História, mas apenas fruto do regime que fez criar em torno de si (sobre a Ditadura Nacional gerou, secundado por colaboradores indefectíveis, a criação do Estado Novo), o qual tomado à letra da Constituição depositava o poder político – que residia “em a nação” – nas mãos do Chefe de Estado, que passou rapidamente, após o falecimento de Carmona, a desempenhar funções meramente simbólicas e de representação, ficando o poder real nos ombros do Presidente do Conselho de Ministros (estrutura que nem sequer era órgão de soberania, mas sim o Governo, cujo chefe era o mesmo Presidente do Conselho, que tudo mandava). E, assim, mal alastraram as faúlhas da revolução abrilina, os novos “arquitetos” da Ponte rebatizaram-na de “Ponte 25 de Abril”, que se tornou sua designação oficial, cada vez mais incontestada.

Salazar terá dito que não gostava da ideia e que mais tarde ou mais cedo o nome iria mudar. Dizem que até se deixara levar pela curiosidade de verificar se os carateres estavam embutidos no chumbo ou se apenas foram aparafusados. 

Por mim, penso que a Ponte não deveria ter sido batizada com o nome de Salazar, mas com o de figura historicamente consagrada. Mas também não pareceu bem a rebatização em “Ponte 25 de Abril”, já que não é obra da revolução. Poderiam ter-lhe dado, após a revolução, o nome de uma figura assumida pela História ou então o do engenheiro português que teve a ideia da ponte.

Assim, a primeira “Ponte Sobre o Tejo” tem 50 anos: 8 como “Ponte Salazar” e 42 como “Ponte 25 de Abril”. E foi palco da maior e mais ruidosa manifestação e dum gigantesco bloqueio de camiões, porque o 3.º Governo de Cavaco Silva decidiu de pé para a mão o aumento de 50% das portagens na Ponte, o que marcou o princípio do fim do cavaquismo.

Foram necessários 90 anos para que o sonho de construir uma ponte sobre o Tejo, na área de Lisboa se realizasse. Tudo começou com a ideia do engenheiro português Miguel Pais, em 1876, para o primeiro projeto de construção duma ponte de cariz ferroviário (não era ainda a era do automóvel), a articular com o novo porto de Lisboa e a ligar a capital com o Montijo.

A demora deveu-se, “essencialmente, a questões de ordem técnica e política” e, mesmo assim, calcula-se que tenham morrido cerca de uma dezena de trabalhadores durante a construção, como explicou à agência Lusa o arquiteto Luís F. Rodrigues, autor do recente livro “A Ponte Inevitável – A História da Ponte 25 de Abril”. Segundo este arquiteto, no século XIX, a idealização de uma rudimentar ponte de ferro para atravessar as duas margens do Tejo era suportada por uma visão essencialmente nacional, com a mira de transformar Lisboa num grande cais da Europa para escoar mercadorias no continente europeu e para servir de ligação para o oceano Atlântico. Após o projeto de Miguel Pais, “Lisboa foi inundada por propostas de pontes” – diz o arquiteto no livro por si escrito.

Assim, em 1888, o engenheiro americano Lye pretendia ligar Almada ao Chiado; em 1889, os franceses Bartissol e Seyrig propunham uma ponte entre Almada e a Rocha Conde de Óbidos; em 1890, a empresa alemã Maschinenbau-Actien-Gesellschaft sugeria a ligação entre Montijo e a zona oriental de Lisboa; e, em 1890, o engenheiro André de Proença Vieira pretendia ligar Alcântara a Almada. Em 1921, o engenheiro espanhol Alfonso Peña Boeuf propôs ao Governo a ideia de estabelecer a ligação entre Almada e a Rocha Conde de Óbidos, mas o projeto, apesar de ainda ser discutido no Parlamento, não se concretizou.

É que, no domínio político, surgiram as “grandes turbulências a nível institucional, a I Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial” – explicou o arquiteto autor do livro mencionado – sustentando que, a nível técnico, o projeto estava dependente do “desenvolvimento da tecnologia das pontes suspensas”, que só se tornou visível em 1937 com a inauguração da “Ponte Golden Gate”, nos Estados Unidos. Foi, segundo Rodrigues, a inauguração daquela ponte que “permitiu equacionar uma travessia com mais de dois quilómetros sem interrupção por vãos que pudessem perturbar a fluidez no rio, que “era uma das questões essenciais”.

Após a II Guerra Mundial (1939-1945), a ideia da construção da ponte sobre o Tejo visava responder à “grande explosão urbanística na margem sul”. A ponte foi estudada durante anos, mas só em 1953 foi criada uma comissão, coordenada pelo engenheiro Barbosa Carmona, com o objetivo de estudar e apresentar soluções para a construção da ponte. Em 1959, foi aberto concurso público internacional para apresentação de projetos, que reuniu 4 propostas, tendo vencido a empresa norte-americana United States Steel Export Company, que ficou responsável por ligar Lisboa a Almada. O sonho começou a ganhar forma a partir de 5 de novembro de 1962 e, passados quase 4 anos – 6 meses antes do prazo previsto –, foi inaugurada a primeira ponte sobre o Tejo na área de Lisboa e arredores. O processo da sua construção tornou-se “muito rápido, devido à coordenação do Gabinete da Ponte sobre o Tejo, chefiado pelo engenheiro Canto Moniz, no que foi secundado pelo próprio consórcio norte-americano, que era muito exigente.

A construção da “Ponte 25 de Abril”, que tornou a travessia entre as duas margens do rio Tejo mais fácil e rápida, envolveu cerca de 3000 trabalhadores e constituiu um bom exemplar de “grande inovação técnica” para a época. A criação da estrutura custou cerca de 2 milhões de contos (cerca de 10 milhões de euros), um investimento muito elevado ao tempo, mas financiado pela banca estrangeira, designadamente a norte-americana.

De acordo com Luís F. Rodrigues, a obra envolveu “muitos recursos técnicos e humanos, mobilizou muitos operários, congregou engenheiros de diferentes nacionalidades, sobretudo norte-americanos, e “constituiu quase uma escola da engenharia”.

A construção duma ponte suspensa “nunca tinha sido desenvolvida em Portugal”, pelo que esta, ao tempo a maior da Europa e a segunda maior do mundo, despertou o interesse de vários técnicos da área da engenharia. Apesar de inspirada na “Ponte Golden Gate”, nos Estados Unidos, tinha “especificidades muito próprias” e “um design muito mais leve e muito mais dinâmico” do que a norte-americana (cf op cit).

***

Em tempo em que o automóvel ia a lugares aonde ao comboio não poderia ir (coisa parecida se dizia do comboio nos finais do século XIX, que chegara a sítios impensáveis), a ferrovia cedeu à rodovia. No entanto, a estrutura ficou preparada (incluindo o túnel) para a ferrovia, o que veio a concretizar-se a 30 de junho de 1999, já que, em 1996, o Governo procedeu à elaboração do projeto ferroviário, com a montagem de novo tabuleiro, alguns metros abaixo da plataforma da rodovia.

Uma ponte com história e com histórias!

2016.08.07 – Louro de Carvalho

terça-feira, 2 de agosto de 2016

UM ARTIGO FABULOSO DE FRANCISCO MOITA FLORES

A Inglaterra foi o berço da democracia. Ensinou-a e aprofundou-a ao ponto de ter sido o farol de esperança que, praticamente sozinho, teve a audácia de enfrentar a poderosa ditadura imperialista nazi-fascista. Decidiu sair da UE. Só a hipocrisia dos poderes dominantes quer ver neste Brexit uma vitória da extrema-direita. E também da extrema-esquerda. Foi o povo quem decidiu. Em primeiro lugar contra David Cameron, que usou o cargo ...de primeiro-ministro para resolver os seus problemas políticos e partidários. Esta criatura representa a esmagadora maioria de líderes europeus mais preocupados com o seu umbigo e ambições pessoais do que com os verdadeiros problemas dos seus países. Depois contra o circo de parasitas que em Bruxelas construiu a pior corte de carreiristas, de medíocres, de caciques locais reformados, de políticos fora de prazo ou que são incómodos aos dirigentes nacionais porque ousam afrontá-los em questões de carreira pessoal. Quem conhece os bastidores de Bruxelas sabe do que falo. Do exército de burocratas e da mais tenebrosa teia de influências e compadrio que são, em si mesmos, um dos fatores de decadência da UE. É esta tribo de parasitas, de que nem conhecemos os rostos, que decide se há sanções, se há dinheiro, se podemos comer queijo da serra, quais as quotas de mercado, os destinos coletivos. Nem votámos neles. Passam as pastas técnicas aos políticos e aí começa a desgraça. Sem rasgo de génio, sem coragem, medrosos, também eles parasitas desta orgia de poder, defendem e atuam em defesa e ao serviço dessa burocracia feita de inúteis, apenas ao serviço das suas carreiras pessoais, de mal preparados, de gente que ascendeu à custa do partido e sem um único contributo positivo nos seus países de origem. Foi contra este circo que a Inglaterra votou. Contra a chulice engravatada. Esta é a estalada maior para que a UE desperte para os nobres e generosos sonhos que a criaram.