segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A importância da cultura geral

Um vendedor da Coca-Cola volta de uma temporada no Egipto e conversa com um amigo sobre a dificuldade que teve por lá.
O amigo pergunta:
- Por que você não conseguiu ter sucesso com os egípcios?...
O vendedor disse:
- Quando fui designado para o Oriente Médio, estava confiante de que conseguiria vender muito bem nas áreas desérticas.
Mas havia um problema, eu não sabia falar árabe.
Então, pensei em criar uma sequência de três cartazes para transmitir minha
mensagem de venda. 

 
- Primeiro cartaz: - Um homem caído na areia do deserto, totalmente exausto, a ponto de morrer de sede.
- Segundo cartaz: - O homem bebe uma Coca-Cola.
- Terceiro cartaz: - Nosso homem, agora completamente recuperado.
Então, mandei afixar estes cartazes em todos os lugares.
- Bem, me parece que isso deveria ter funcionado muito bem, disse-lhe o amigo.
O vendedor respondeu:
- É... eu só não sabia que os árabes lêem da direita para a esquerda!!!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

SER FELIZ É...


Podes ter defeitos, estar ansioso e viver irritado algumas vezes, mas não te esqueças que a tua vida é a maior empresa do mundo.
Só tu podes evitar que ela vá em decadência.
Há muitos que te apreciam, admiram e te querem. ...
Gostaria que recordasses que ser feliz, não é ter um céu sem tempestades, caminho sem acidentes, trabalhos sem fadiga, relacionamentos sem decepções.
Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.
Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas também reflectir sobre a tristeza.
Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos.
Não é apenas ter alegria com os aplausos, mas ter alegria no anonimato.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu próprio ser.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar actor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no longínquo de nossa alma.
É agradecer a Deus cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que seja injusta.
É beijar os filhos, mimar os pais, ter momentos poéticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.
Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples, que vive dentro de cada um de nós.
É ter maturidade para dizer ‘enganei-me’.
É ter a ousadia para dizer ‘perdoa-me’.
É ter sensibilidade para expressar ‘preciso de ti’.
É ter capacidade de dizer ‘amo-te’.
Que tua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz…
Que nas tuas primaveras sejas amante da alegria.
Que nos teus Invernos sejas amigo da sabedoria.
E que quando te enganares no caminho, comeces tudo de novo.
Pois assim serás mais apaixonado pela vida.
E podes facilmente encontrar novamente que ser feliz não é ter uma vida perfeita.
Mas usar as lágrimas para regar a tolerância.
Usar as perdas para refinar a paciência.
Usar as falhas para esculpir a serenidade.
Usar a dor para lapidar o prazer.
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Nunca desistas….
Nunca desistas das pessoas que amas.
Nunca desistas de ser feliz, pois a vida é um espectáculo imperdível!

domingo, 23 de outubro de 2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Os Espiões do Papa – A Guerra Secreta de Pio XII contra Hitler


Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado” – que a opinião pública mundial vem absorvendo a tese de que Pio XII fora o “Papa de Hitler”. Com efeito, muitos o apresentaram como aliado do regime nazi. Não obstante, há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que a referia tese não passa de uma distorção deliberada, pois, vários líderes judeus vieram em defesa de Pacelli. Agora surge a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade. Na verdade, com base em documentos do Vaticano, o historiador Mark Riebling conta o outro lado de um dos mais importantes dilemas do século XX.

***

Como surge a ideia do filogermanismo do cardeal Pacelli? O Secretário de Estado de Pio XI tinha sido núncio apostólico na Baviera e, depois, em Berlim – cargo que desempenhou com proficiência. É normal que tivesse conhecimento apurado da idiossincrasia do povo alemão e da Igreja na Alemanha. E  é natural que, enquanto diplomata tentasse equilíbrios difíceis ou até incorrido na crença de que o Governo estaria bem intencionado, pois Hitler chegou ao poder por via eleitoral em tempo de crise social, política e económica. Por outro lado Riebling recorda:

“Quando os nazis tomaram o poder, em 1933, Pio XII [aliás, Pacelli] elogiou o anticomunismo de Hitler e aceitou a proposta deste para formalizar os direitos dos católicos. Pacelli negociou uma concordata garantindo o financiamento da Igreja com 500 milhões de marcos de receitas fiscais anuais.”.

Entretanto, a Igreja Católica estabelecera, como Riebling refere, uma concordata com o Estado alemão como o fizera com o Estado italiano e outros Estados. Ora, a concordata é um pacto entre Estados que estabelece obrigações entre as partes, reconhecimento de legitimidades mútuas e cedências em matérias que não descaraterizem as partes.

Foi com base na confiança mútua que, em 11 de fevereiro de 1929, Pio XI e o Estado italiano celebraram o Tratado de Latrão, que reconhecia a soberania dos Estado Pontifício na atual faixa territorial e nos locais onde se situam imóveis da Santa Sé, bem como a concordata.

Não obstante, os acontecimentos cedo ultrapassaram os tratados. E, logo em 29 de junho de 1931, promulgou a encíclica “Non abbiamo bisogno” (Não Precisamos) que possuía uma postura fortemente antifascista, recebendo como retaliação à sua publicação, da parte do ditador Benito Mussolini, que seguia tal política, a ordem de que fossem dissolvidas as associações católicas de jovens na Itália. Por ouro lado, o Papa teve de limitar fortemente a ação do Partido Popular, até que ele foi dissolvido, negou qualquer tentativa de Sturzo de reconstruir o partido e viu-se forçado a lidar com enormes conflitos e embates com o fascismo por causa de tentativas do regime de hegemonizar a educação dos jovens e da intromissão do regime na vida da Igreja. É óbvio que Pio XI foi também muito crítico sobre o papel da pessoa social imposto pelo capitalismo e, na encíclica “Quadragesimo anno”, de 1931, apelou à urgência de reformas sociais já identificadas 40 anos antes pelo Papa Leão XIII, reiterando a condenação de todas as formas de liberalismo e de socialismo. E condenou fortemente o nacional-socialismo (nazismo), em 1937, por meio da encíclica “Mit brennender Sorge”, sobretudo na vertente da estatolatria  e na racista alegadamente por motivos biológicos.

No entanto, num primeiro momento, o Episcopado alemão manifestou-se por Hitler, a ponto de o Presidente da CEP ter sido chamado ao Vaticano com ordem de promover a retratação.

Também, ao emitir a encíclica “Quas primas”, em 1925, com a qual estabeleceu a festa de Cristo Rei para lembrar a lei da religião a permear todas as áreas da vida quotidiana (o Estado, a economia e as artes), chamou os leigos a um maior envolvimento religioso e, em 1938, promoveu a reorganização da Ação Católica.

Contudo, a uns meses antes de morrer, Pio XI deixou de suportar o regime italiano e o regime alemão, sobretudo por causa da disseminação violenta do racismo e pelo endeusamento dos dois líderes – estado de alma de que dada conta nas audiências em Castelgandolfo. E encomendou um projeto de encíclica sobre a unidade do género humano a um padre da Companhia de Jesus, que agregou a si, para o trabalho, mais dois colaboradores jesuítas sob os auspícios do superior geral. Ora, é exatamente ante a atitude do Secretário de Estado, o cardeal Pacelli, que os colaboradores vaticanos se interrogam: Porque é que Pacelli fez desaparecer os papéis com o texto que estavam na escrivaninha do Papa moribundo?

À partida, poderia ser por discordância. Mas também poderia ser por não haver tempo de tratar o texto-projeto de encíclica de modo a dar-lhe forma encíclica e publicável em nome do Papa, o qual tinha preparado um discurso duro contra os dois regimes – italiano e alemão – que não chegou a pronunciar, embora a Rádio Vaticano tivesse feito algumas referências claras às disposições do Papa nos últimos dias de vida. No entanto, sabe-se hoje que Pio XII incluiu a maior parte das ideias na sua primeira encíclica “Summi Pontificatus” (publicada 10 meses depois da eleição papal), em que traça o programa do seu ministério petrino e exprime a sua angústia pelo sofrimento que atinge os indivíduos, as famílias e toda a sociedade. 

A demanda sobre o que se passou com a projetada encíclica de Pio XI “Humani Generis Unitas”, bem como a dupla posição de Pacelli pode ler-se no livro “O Papa e Mussolini”, de David I. Kertzer (ed. Individual Livros: 2015), que desvenda o relacionamento entre duas das mais importantes figuras políticas europeias do século XX.

***

“Pio XII” foi o nome escolhido pelo cardeal romano Eugénio Pacelli, eleito papa a 2 de março de 1939, num conclave que, “pela primeira vez desde que havia memória, atraiu uma multidão de correspondentes da imprensa estrangeira, cujas teleobjetivas, no dizer de uma testemunha, faziam lembrar canhões antitanque”. E, mal o cardeal Eugenio Pacelli se tornou o Papa Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, padre laicizado, que preparasse um dossiê sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que negociara com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma. Pacelli – dizia Hartl – acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Mais: pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o antissemitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo que “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.

Entretanto, Pio XII reunia-se com cardeais alemães a discutir o problema de Hitler. E queixou-se de que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi, que sustentou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.

O cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937, “Mit Brennender Sorge”, publicada em alemão e não em latim e distribuída por um exército de motociclistas. O texto, escrito em parte por Pacelli antes de se haver tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber:

“A questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado diretamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.

Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”, propondo que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e atualizada.” E o Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina”, pois, “quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. Tais sugestões mereceram a concordância do Papa XII.

Assim nasceu o plano de construção duma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.

No seu livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler” (agora a chegar às livrarias em português, editado pela Presença), Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e atas secretas, ora divulgadas que descrevem as táticas clandestinas de Pio XII para o derrube do regime nazi.

Após a invasão da Polónia por Hitler em 1939, o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A encíclica “Summi Pontificatus””, já mencionada, rejeitou o racismo, no pressuposto de que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo. Mais: o Pontífice escreveu que “ainda que à custa de ‘tormentos e martírio’, há que ‘confrontar essa perversidade dizendo: Non licet – não é permitido!’”. No mesmo texto, o Papa consagrou “a unidade do género humano”, sublinhando “que essa unidade negava o racismo” e rematou declarando: “Não há gentio nem judeu”.

O Papa foi amplamente louvado por isso. A este propósito, um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas sentia que era pouco.

Depois, “conforme afirmou um oficial das SS [organização paramilitar nazi], seria absurdo acusar Pacelli de ser pró-nazi” e, por outro lado, “as declarações públicas de Pacelli incomodavam Berlim”.

Convicto de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos que colaborassem com ações clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era Josef Muller, advogado e herói da I Guerra Mundial, que organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Estes forneciam ao Vaticano informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942, Muller introduziu Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objetivo era fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões para os cristãos poderem coordenar a luta contra Hitler.

As tentativas de assassinato de Hitler falharam devido, segundo Muller, à “sorte do diabo”. Mas, em relação a tais planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.

Depois do falhanço do plano “Valquíria”, a Gestapo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.

Muller foi enviado para Buchenwald. A 4 de abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. E, depois dum julgamento fantoche, foram condenados à morte. Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas, temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15.º Exército dos EUA.

Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o, dizendo que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.

Riebling revela que, durante a visita de Muller ao Vaticano, o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra. Muller disse que durante a guerra a sua organização antinazi na Alemanha tinha insistido muito em que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico, os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras, o que teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis, tendo restringido imensamente a sua liberdade de ação na resistência ao regime. Muller disse que a política da resistência católica no interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. E o Papa seguira sempre este conselho durante a guerra.

De tal modo foi percebido o papel do Papa por Hitler que, segundo alguns historiadores, ordenou o sequestro do Papa por medo de Pio XII vir a aumentar e agravar as suas críticas à perseguição judia levada a cabo pelos nazistas. E temia que a oposição papal inspirasse mais resistência e oposição à ocupação alemã na Itália e outros países católicos. Nessa eventualidade, o Papa disse à Cúria que a sua captura pelos nazistas implicaria resignação imediata, abrindo caminho à eleição do sucessor. Os cardeais teriam de se refugiar em país seguro e neutro, como Portugal, onde iriam restabelecer a liderança da Igreja Católica Romana e eleger novo Papa.

***

Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu Nêmesis.

É certo que a suposta impassividade do Vaticano face às atrocidades nazis na II Guerra Mundial representa uma das maiores controvérsias da atualidade. A história apelidou Pio XII de “O Papa de Hitler”, considerando-o conivente com a política nazi. Porém, mais do que manter-se distanciado ou cúmplice dos acontecimentos ocorridos num dos mais períodos negros da história, o Papa teve papel fundamental nos eventos que levaram à derrota nazi. Mark Riebling, baseado em documentos recentemente abertos pelos arquivos secretos do Vaticano e pelo British Foreing Office, apresenta a versão que, ao longo de décadas, foi encoberta, abrindo as portas do Vaticano para revelar factos surpreendentes na história do pontificado.

2016.10.19 – Louro de Carvalho

domingo, 16 de outubro de 2016

O espectro da insegurança nacional


O país ficou abalado com o ocorrido perto de Aguiar da Beira no passado dia 11 de outubro. Um indivíduo armado ceifou a vida de um militar da GNR, feriu gravemente outro que obrigou a meter o falecido na bagageira do carro-patrulha da corporação, carro com que fugiu levando consigo falecido e ferido e que acabou por abandonar. Em seguida, fez parar um carro em que seguia um casal, matou o marido e deixou maltratada a esposa, que ainda se mantém com prognóstico reservado. Depois, pôs-se em fuga, deixando documentos, mas levando armas da GNR.

As forças da ordem cercaram a zona onde presumivelmente o foragido se acobertava e difundiram conselhos de autossegurança às populações interessadas, mas passadas várias horas, as forças desmobilizaram e mantiveram policiamento de proximidade às populações.

O certo é que o rasto do homem se perdeu até que hoje, dia 16, surgiram notícias que davam como certo um assalto a dois idosos, que sequestrou, numa das aldeias do concelho de Arouca, donde se terá evadido com uma viatura que furtou de um deles. 

***

O episódio dá-me azo a alguns comentários. Em primeiro lugar, aponto a série de informações contraditórias sobre factos presuntivamente relacionados com o ocorrido. Não se sabia se o episódio do morticínio ocorreu no âmbito duma operação policial de rotina, se na interceptação de um assalto. Não foram dadas com detalhe as caraterísticas do suspeito ou os antecedentes. Foi dada a notícia precipitada do óbito da senhora cujo marido foi morto para roubo da viatura em que seguia com ela a uma consulta de fertilidade em Coimbra, notícia que teve de ser desmentida.

Sobre a atuação das forças de segurança, devo dizer que lamento a morte do militar da GNR, eficiente, simpático e bom homem, cujo perfil reconheci; e imagino o sofrimento do seu colega a receber ordens estúpidas dum energúmeno armado e todo-poderoso. Porém, tenho de lamentar que alguém supostamente dum posto ou de uma central informe via rádio a patrulha de que o homem que tem em presença é perigoso e que está armado. Se o tivessem feito por telemóvel, provavelmente o circunstante não teria ouvido o recado. Depois, não percebo como é que a GNR difunde o facto de ter abandonado o cerco à zona em que o suspeito poderia estar a abrigar-se. Fazia o que podia e continuava a dar instruções de autodefesa às populações. E mais nada. Aliás, pergunto-me o que estaria a patrulha a fazer no início da noite no local do crime: a ver quem passava, a mostrar que policiava o local, com que fim, a tentar ver se algum condutor ultrapassava o limite de velocidade?

Outro fenómeno a lamentar são as informações laterais que até serão verdadeiras, mas que constituem um fait divers e outras que circunstancialmente constituem de momento um insulto aos habitantes dos aglomerado populacionais mais vulneráveis. Quero lá saber se o homem estava casado ou junto com uma mulher e se depois se juntou com outra e a deixou; se era bom tipo e teve azar ou se já era de humor variável ou bipolar. Se já fora arguido de violência doméstica, porque não foi convenientemente punido? Dizem os jornais de hoje que é sociopata. Então porque não o tratam? Ou será que um relatório psiquiátrico serve apenas para declarar a inimputabilidade do presumível arguido e não para postular um tratamento com vista à defesa das populações indefesas, sobretudo rurais, que têm de se autodefender dos intocáveis criminosos, psicopatas, sociopatas, econnomicopatas, medicopatas, advocatopatas, etc? Imaginem que um jornal até noticiou que o sacerdote que presidiu a um funeral teve de chamar à razão, à calma os participantes na celebração religiosa, coisa que é usual fazer-se em circunstâncias destas de forte emoção, ou que a Ministra se emocionou, pois também ela é gente. Porque não?

***

Há um outro tipo de comentário a fazer, que atinge a postura dos poderes em relação ao regime jurídico-constitucional. Este nosso regime é garantístico. Porém, é preciso saber como o leem.

O art.º 9.º da CRP inscreve no quadro das tarefas fundamentais do Estado a garantia dos direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático (alínea b) e a promoção do bem-estar e da qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efetivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais (alínea d). O n.º 1 do art.º 25.º garante a inviolabilidade da integridade moral e física das pessoas; e o n.º 1 do art.º 27.º garante o direito de todos à liberdade e à segurança. Aqui, interrogo-me como é que alguns, nomeadamente advogados e magistrados só leem as normas atinentes à restrição da limitação das liberdades. Parece que o Estado aposta na defesa absoluta do indivíduo em detrimento da defesa e segurança da comunidade. Então o crime pode compensar, o que é inaceitável. É óbvio que a nossa lei processual vai no sentido garantístico do indivíduo: há demasiada e duradoura presunção de inocência e demasiadas dúvidas em que “standum est pro reo”.

Ora, no quadro das políticas de segurança e defesa nacional está definida, ao nível do conceito estratégico de defesa, como um dos objetivos permanentes a garantia da liberdade e da segurança das populações, bem como dos seus bens e da proteção do património nacional. Então, se as nossas forças de segurança não são capazes de capturar um foragido em seis dias, como não foram capazes de capturar um foragido em um mês, no ano passado, que garantia nos dão de prevenção e/ou resposta a ameaças de natureza global que podem pôr diretamente em causa a segurança do país?

O manual do conceito estratégico nacional de 2014 elenca como ameaças globais:

- O terrorismo, dado que a liberdade de acesso e a identidade de Portugal como uma democracia de tipo ocidental tornam o país um dos alvos do terrorismo internacional;

- A proliferação de armas de destruição massiva, que representa a ameaça mais imediata e preocupante, se na posse de grupos terroristas ou se redundar em crises sérias na segurança regional de áreas vitais;

- A criminalidade transnacional organizada, já que a nossa posição geográfica como ampla fronteira da UE e o vasto espaço aéreo e marítimo sob sua jurisdição nos impõem particulares responsabilidades;

- A cibercriminalidade, visto que os ciberataques são ameaça crescente a infraestruturas críticas, em que potenciais agressores (terroristas, criminalidade organizada, Estados ou indivíduos isolados) poderão fazer colapsar a estrutura tecnológica de uma organização social moderna;

- A pirataria, pela dependência energética e alimentar, pela importância do transporte marítimo para a economia nacional e pelas crescentes responsabilidades na segurança cooperativa dos recursos globais. (vd Governo de Portugal. Conceito estratégico de defesa nacional. Portal do Governo, 2014).

***

Não há homens nem meios infalíveis, mas não se devem menosprezar meios, pessoas, leis e procedimentos adequados. Não há recursos humanos e financeiros suficientes? Arranjem-se.

Nunca percebi como é que um país pobre de recursos disponíveis se dá ao luxo de prescindir dum período exigível a cada jovem de serviço cívico ou serviço militar. Talvez se ganhasse mística, solidariedade e sentido do todo e seria sobretudo uma oportunidade de formação. Reconheço que muitos jovens dão esse contributo cívico, promocional ou missionário de forma devotada e altruísta. Porém, a sociedade organizada em Estado deveria ser mais inteligente a aproveitar a pequenez do que os cidadãos lhe podem dar com esforço, é certo, mas sem sacrifício cruento da vida.

Não se contentem em mandar-nos trancar as portas, não sair de casa ou colocar alarmes. Num instante se chega, rouba, destrói mata e foge… e se pode voltar.

Enfim, sejam humildes, sejam bons e tolerantes, mas apanhem os suspeitos e entreguem-nos à justiça!

2016.10.16 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Proposta do OE/2017

 
No que vamos pagar mais impostos? 
 
Refrigerantes, bebidas alcoólicas e balas são alguns dos produtos que vão pagar mais. Veja o que já se sabe da proposta do OE2017
* Novo imposto sobre o património imobiliário
O novo imposto sobre o património imobiliário terá receita anual de 170 milhões de euros, segundo apurou o DN, e será aplicado a património no valor de 600 mil euros, com uma taxa única de 0,3. O valor será consignado ao Fundo de Estabilização da Segurança Social (FESS).
*Novo imposto sobre os refrigerantes
O Governo quer taxar os refrigerantes através do IABA, o que vai encarecer as bebidas açucaradas até 16,5 cêntimos por litro, e consignar a receita obtida com este imposto à "sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde".
* Imposto sobre cerveja, licores e bebidas espirituosas sobe 3%
O Governo vai voltar a aumentar no próximo ano o imposto sobre a cerveja, as bebidas espirituosas e os vinhos licorosos em 3%, segundo uma versão do articulado da proposta de Orçamento do Estado para 2017 (OE2017).
* Novo imposto sobre as balas
O governo vai criar um novo imposto sobre o consumo que irá incidir sobre as balas feitas de chumbo, no fundo as munições da maioria das armas de fogo. Cada projétil vai pagar dois cêntimos.
* Aumento do imposto sobre o alojamento local
Os proprietários de imóveis afetos ao arrendamento local, que estejam no regime simplificado de IRS e de IRC, vão passar a ser tributados sobre 35% do valor as rendas auferidas com esta atividade.

 Onde vamos receber mais? 
 Eliminação progressiva da sobretaxa, aumento nas pensões e mais 25 cêntimos no subsídio de refeição para a função pública são algumas medidas que vão subir rendimentos. O que já se sabe do OE2017.
* Sobretaxa reduzida gradualmente
A sobretaxa do IRS vai só terminar no final do ano, mas ao longo de 2017 vai sendo reduzida, conforme os rendimentos. Para quem ganha menos, acaba mais depressa, ao passo que os rendimentos maiores só a verão desaparecer a 30 de novembro - quem recebe até 7021 já não paga nada. Assim, os contribuintes com rendimento anual coletável até 20261 euros terão retenção na fonte até 31 de março; os que recebam entre 20161 e 40522 euros pagam até 30 de junho; os que estão acima de 40522 e até 80640 euros pagam até 30 de setembro; e os restantes só veem desaparecer este corte a 30 de novembro. (leia mais aqui) A taxa paga em 2017 mantém-se igual à de 2016 para todos os escalões.
* Pensões até 628 euros sobem 10 euros em agosto
A atualização extraordinária das pensões vai mesmo acontecer em 2017, para "compensar a perda de poder de compra causada pela suspensão, no período entre 2011 e 2015, do regime de atualização", mas só a partir de agosto e limitada às reformas até um máximo de 628 euros. De acordo com a proposta de Orçamento do Estado para 2017, a que o DN teve acesso, trata-se de uma atualização "de valor igual ou inferior a 1,5 vezes o valor do Indexante dos Apoios Sociais (628,83 euros), a atribuir, por cada pensionista, no mês de agosto".
* Subsídio de alimentação na função pública sobe 25 cêntimos
Congelado nos 4,27 euros desde 2009, o subsídio de alimentação vai subir acima da inflação, para os funcionários públicos, como forma de compensar a falta de atualização salarial no próximo ano. Serão mais 25 cêntimos.
* Metade do subsídio de Natal pago em novembro a pensionistas e funcionários públicos
Só em 2018 é que pensionistas e funcionários públicos poderão receber todo o subsídio de Natal em novembro - o OE2017 refere que nesse ano passará a ser pago integralmente. Até lá, no próximo ano mantém-se o pagamento por duodécimos, mas reduzido a apenas metade: ou seja, 50% do valor será pago ao longo do ano, engordando os rendimentos mensais, e 50% serão pagos em novembro de 2017. (leia mais no Dinheiro Vivo)
* Manuais gratuitos para alunos do 1.º ao 4.º ano
Todos os alunos do 1.º ciclo que, no próximo ano letivo, frequentem a rede pública vão ter direito a manuais gratuitos, uma medida que a secretária de Estado Alexandra Leitão já tinha admitido vir a acontecer e que terá um custo de 12 milhões de euros.
* Contribuintes com deficiência têm desconto nos impostos
Os contribuintes com deficiência que tenham rendimentos de trabalho vão contar com um desagravamento da tributação em sede de IRS, em 2017, passando a ser tributados sobre 85% do seu rendimento. Até agora, os rendimentos brutos de cada uma das categorias A, B e H (esta última relativa a pensões) de pessoas com deficiência eram considerados a 90%.
 
 Défice: 1,6%, dívida: 128,3%, desemprego: 10,3%, PIB: 1,5%
 O ministro das Finanças apresentou hoje a proposta de Orçamento do Estado para 2017 que foi aprovada ontem em Conselho de Ministros, após 10 horas de reunião.
Fonte:aqui

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

The Voice - Jordan Smith (Somebody To Love


Obras da Carne...Frutos do Espírito



* Se as pessoas se conduzissem pelos frutos do Espírito:
- Teria acontecido aquela tragédia em Aguiar da Beira?...
- Haveria corrupção?
- Teriam ido à ruína tantos Bancos portugueses, com o cortejo de prejuízos para depositantes e para o erário público?
- Haveria tanta gente a fugir aos impostos?
- Haveria gente que, podendo trabalhar, vive à custa do dinheiro de todos através de prestações sociais?
- Haveria tanto casamento a terminar em divórcio com o estandarte de filhos órfãos de pais vivos?
- Haveria irmãos desentendidos e vizinhos que não se falam?
- Haveria crianças impedidas de nascer?
- Haveria tamanha desigualdade social?
- Haveria algum dia crianças abusadas e maltratadas?
- Haveria alguém caluniado, denegrido, enlameado?
- Haveria violência doméstica?
- Algum dia haveria assaltos, agressões, mortes, insegurança
?

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Enorme triunfo pessoal de Guterres ou transparência sem precedentes?

 

António Guterres será o novo secretário-geral da ONU. O português foi aprovado hoje por aclamação, após ter contado com 13 votos a favor dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Presidente Marcelo manifestou regozijo; Governo ficou satisfeito; Parlamento votou unanimemente o voto de congratulação; e o escolhido disse gratidão e humildade e pediu solidariedade em torno do ainda secretário-geral para que termine o mandato com êxito.

 
Ambas as expressões grifadas em epígrafe figuram na carta em português enviada ao ex-Alto Comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR) e agora recomendado para secretário-geral da ONU e revelada hoje, dia 6 de outubro, pelo Presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, que transmite “calorosas felicitações” a Guterres, sublinhando a sua longa experiência em criar consensos no âmbito internacional.
Isto é tanto mais estranho, embora justo, quanto se sabe que o executivo liderado pelo eurocrata luxemburguês, não morrendo de amores pelo candidato português, criou as condições para o aparecimento, súbito e na reta final, da búlgara Kristalina Georgieva, vice-presidente da Comissão Europeia, proposta pelo Governo do seu país de origem, apoiada por Ângela Merkel e apadrinhada ativamente pelo nosso concidadão Mário David, a formiguinha europeia, que fura, a nível de contactos, por onde parecia impossível.
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Quando Guterres anunciou a demissão, em dezembro de 2001, alegadamente para não deixar o país mergulhado no pântano resultante da derrota socialista nas eleições autárquicas que haviam ocorrido, não era um chefe de governo popular. Depois de 6 anos de chefia do executivo, encontrava-se sistematicamente flagelado no Parlamento, ensarilhado no triturante aparelho partidário, amarrado pela política dos consensos, realisticamente desencantado e sem ânimo para mais 2 anos de governança com o grupo parlamentar empatado com os demais deputados.
Muitos, à esquerda, não lhe perdoaram a saída, que abriu caminho ao governo de Durão Barroso, embora lhe tivessem, antes, vituperado o referendo ao aborto e à regionalização, à boleia de Marcelo, o seu confesso catolicismo ou as excelentes relações com a Igreja Católica e com alguns dos grandes empresários. A direita apontava-lhe a hesitação dos últimos tempos, a incapacidade de controlar a despesa pública, a imagem de “picareta falante” com que alguns o denominavam. Todavia, o então primeiro-ministro demissionário sempre se afirmou um político extraordinariamente culto, devotado às grandes causas e com uma invulgar capacidade de raciocínio e notório poder de comunicação, a ponto de Paulo Portas e Francisco Louçã, dois dos mais brilhantes parlamentares ao tempo serem irreparavelmente vencidos por Guterres nos debates parlamentares.
Ademais, ainda ontem António Costa referiu elogiosamente o seu consulado por ter cumprido como prometeu: não aumentar impostos, tendo baixado alguns; não ter reduzido as pensões, como prometera não reduzir; repor ou aumentar salários como prometera; e atribuir o rendimento mínimo garantido (agora rendimento social de inserção), como prometera. E podia bem dizer da concretização da paixão pela educação, pelo alargamento da educação pré-escolar, reforço da construção de equipamentos escolares e alteração cirúrgica, mas significativa, da Lei de Bases do Sistema Educativo.
Não sei, pois, se poderá continuar a dizer-se que não foi bom primeiro-ministro, pelo menos em comparação com os que se lhe seguiram, que levantaram a onda gigante e quase nunca acabada de crispação do país, cavando o fosso entre trabalhadores do setor público e do setor privado, fomentando o conflito intergeracional, entrando como ferro em madeira verde na carteira dos contribuintes, esvaziando de sentido e conteúdo a educação (a nível curricular e ao nível da escola pública) e o sistema nacional de saúde, enfim, engrossando a clientela do Papa dos pobres.
O à vontade comunicativo de Guterres em televisão era de tal ordem que, em 1999, propôs à SIC que os debates para as eleições legislativas se processassem em sucessivos “frente a frente”, num figurino que não existia e que depois se generalizou. Por conseguinte, Guterres debateu a dois com Durão Barroso, Carlos Carvalhas e Paulo Portas e venceu literalmente os debates. Não obstante, embora melhorasse o número de deputados apurados para o seu partido, não mobilizou indecisos e abstencionistas e falhou a maioria absoluta por um deputado. A partir daí, o seu consulado não mais foi o mesmo: deu poder excessivo a Pina Moura e visibilidade excessiva a Sócrates e a Vara; perdeu o apoio fulcral de Jorge Coelho depois da tragédia de Entre-os-Rios; e tornou-se um indeciso líder de governo.
Entretanto, esvaziado de poder a nível interno, refulgiu na presidência portuguesa da UE, onde colheu louros de todos os quadrantes e mostrou o que melhor sabe fazer – diplomacia – para o que não lhe falta cultura geral, capacidade oratória, segurança retórica e sentido de oportunidade, em que é difícil de igualar, não tanto por natureza, mas sobretudo afincada aplicação. Além do estudo dos dossiês, teve adestramento em dicção e colocação de voz, de modo que nunca ficou rouco nas longas campanhas eleitorais. Por outro lado, constrói, lê, decora e sublinha as frases que pensa que os jornalistas vão usar e, segundo Ricardo Costa, “quando discursa num palco fixa dois ou três espectadores e modela o discurso em função das suas reações”. O mesmo Ricardo Costa comenta (vd Expresso on line, de 5-10-2016):
“Nada disto é incomum em políticos muito profissionais ou aplicados. Mas Guterres é o mais profissional e aplicado dos políticos portugueses do pós-25 de abril. Não é o que mais mudou o país, nem o que provocou mais paixões ou ódios, muito menos o que mais animou uma área política. Não chegou à liderança do PS numa onda de glória, mas numa luta fratricida com Sampaio, nem abandonou o poder pela porta grande, longe disso. Mas era e é o mais dotado de todos.”
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Conhecidos que foram os resultados da última votação informal pelo Conselho de Segurança (CS) para a indigitação do único candidato à eleição de Secretário-Geral das Nações Unidas, ocorrida ontem, 5 de outubro, que deram como certo António Guterres, as reações não se fizeram esperar. É certo que faltava a votação formal no CS e a subsequente eleição pela Assembleia-Geral da ONU, pelos 193 representantes dos respetivos países-membros. Porém, dado que na 6.ª votação informal, em que enfrentou a recém-apresentada Georgieva, Guterres ficou com 13 votos “encoraja” e nenhum veto (bastava o veto de um dos 5 membros permanentes do CS: Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido ou França para a candidatura do português abortar), o resultado da votação formal foi garantido e a subsequente eleição será um facto. Só uma reviravolta impensável é que poderia ter frustrado as expectativas criadas no mundo inteiro.
Assim, é que a embaixadora na ONU por parte dos EUA, o da Rússia e os de outros países já o felicitaram e desejaram o maior êxito. Em todo o mundo, o ambiente é de aceitação e regozijo, com exceção de algumas vozes de movimentos feministas, que exprimiram o seu desencanto por não ter sido “nomeada” uma mulher.
Soa bem a boa disposição manifestada pela Espanha e por Timor-Leste. A de Espanha resulta por motivos de boa vizinhança; e a de Timor-Leste, por ter sido com Guterres que aquele país reavistou a independência, inaugurou a democracia e passou ao dinamismo da reconciliação nacional. No entanto, Ramos Horta afirma que não é só por Timor que está contente pela escolha de Guterres, mas sobretudo pelo perfil do escolhido, que é o melhor de todos, pelo currículo, pela cultura e pela capacidade de desencadear o diálogo – e por aquilo de que o mundo precisa. 
É também de registar com agrado a posição do Presidente da Comissão Europeia, apesar do que foi dito acima, que fala num “enorme triunfo pessoal” de Guterres, que foi escolhido para liderar as Nações Unidas através dum processo de seleção duma “transparência sem precedentes”. Sabemos que foi o mérito do candidato que pesou, quer do lado do currículo de experiência como chefe de Governo e de ACNUR (Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados), quer do lado da personalidade culta, dialogante e devotada às grandes causas da humanidade, quer ainda da forma como se apresentou e explicou perante a AG (Assembleia Geral).
Quanto à transparência sem precedentes, ela foi prometida e crê-se que os responsáveis centrais a honraram, mas temeu-se que a entrada à última hora da novel candidata búlgara viesse a baralhar as coisas – o que não fora preventivamente acautelado. Bastava ter-se fixado um prazo a partir do qual não seriam aceites mais candidaturas, a expirar antes do começo das audições.  
Juncker manifesta-se “extremamente satisfeito” pela nomeação de Guterres para secretário-geral das Nações Unidas (ONU) e deseja-lhe êxito na condução do novo cargo, justificando-se na missiva que lhe enviou:
 “O facto de ter emergido como a escolha unânime do Conselho de Segurança das Nações Unidas, depois de um processo de seleção de uma transparência sem precedentes, representa um enorme triunfo pessoal e o reconhecimento de sua longa experiência em gerar consensos no domínio dos assuntos internacionais”.
Sustenta que a nomeação constitui “forte sinal de esperança” para responder aos atuais desafios, como “a manutenção da paz e da segurança nível internacional, as migrações, as alterações climáticas, assim como a promoção e defesa do respeito dos Direitos Humanos”. E termina a carta com a referência “All the best”, depois de garantir “estar disponível” para “colaborar estreitamente” com António Guterres com vista a encontrar respostas para os atuais desafios.
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Em Portugal, criou-se um certo unanimismo em torno da candidatura do antigo ACNUR e ex-primeiro-ministro. Não sei se Mário David se inclui nesta onda, perdida que foi a oportunidade da sua amiga búlgara.

O Presidente da República defende, em artigo de opinião no “Diário de Notícias” de hoje, que Guterres sempre foi “claramente” o melhor para o cargo, “pelas suas qualidades pessoais, pelo seu currículo na própria ONU, pela capacidade de visão e de equação dos principais problemas universais”. Insistindo em que Guterres “é o melhor para o cargo” de secretário-geral da ONU pela sua “capacidade e visão”, escreveu:

“Vencer na cena internacional é extremamente complexo, tal a junção de razões conjunturais e estruturais, ainda por cima num mundo mais imprevisível do que nunca. Mesmo para os melhores. Mas, quando os melhores ganham é bom, é muito bom. Foi o que aconteceu neste caso”.

E Marcelo destaca os esforços diplomáticos de outros envolvidos na candidatura: Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, o ex-Presidente Jorge Sampaio e o embaixador Álvaro de Mendonça Moura. No entanto, relativizando estas referências, assegura:
 “Tudo isto é verdade. Mas António Guterres foi o melhor. Pelo facto muito simples de que é o melhor. De longe. Por isso, a vitória é, em primeira linha, sua. Ou, se quisermos ser justos e prospetivos, da comunidade internacional, que soube perceber o que estava em causa. E teve a coragem de escolher em conformidade.”
Todos os partidos portugueses com assento parlamentar mostraram o seu regozijo público pela nomeação do português, frisando não só a sua índole lusa, mas também o mérito próprio acumulado e a capacidade para enfrentar os desafios do mundo, que Juncker enunciou.
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O Conselho de Segurança acabou hoje por aprovar hoje a resolução a indicar o nome Guterres para a AG das Nações Unidas, formalizando assim a eleição do sucessor de Ban Ki-moon. Guterres vai liderar, pois, a partir de janeiro, uma casa que conhece bem, depois de ter chefiado o ACNUR, entre junho de 2005 e dezembro de 2015, uma organização com cerca de 10.000 funcionários em 125 países. 
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Samantha Power, embaixadora dos Estados Unidos junto da ONU, sublinhou a união concitada entre os 15 países membros do Conselho de Segurança em torno de António Guterres, “devido às provas que deu na sua carreira e durante a campanha– “uma pessoa que impressionou ao longo de todo o processo e impressionou a vários níveis de serviço”.

O CS, com a presença de todos os embaixadores, anunciara que o português era o “vencedor claro” e que avançava já hoje para a aprovação de uma resolução que propõe o nome de Guterres para aprovação pela Assembleia Geral – situação já verificada.
À partida estava derrotado, não era mulher nem do Leste europeu. Mas deram-lhe um palco, o suficiente para se mostrar o que era: o melhor As palavras adequadas foram de um, o embaixador russo Vitaly Churkin, em nome de todos: “Hoje, depois da sexta votação temos um claro favorito, António Guterres”. E hoje, dia 6, foi aclamado.
O mundo da ONU é dirigido com cuidados, não tanto de agradar a todos, mas fazendo questão de que ninguém poderoso seja forçado. Por isso no topo do poder, o Conselho de Segurança, esse ajustamento é feito com o direito de veto dos membros permanentes. As palavras do russo e o sorriso da americana, virados para o mesmo objetivo – a eleição do secretário-geral –, significaram que o compromisso fora obtido com sucesso. Guterres jogava, afinal, em casa. O compromisso é a sua aposta favorita e a arma que tem ao dispor.
Obviamente, Guterres não revelou, no palácio de vidro, em Nova Iorque os pormenores que atravessaram a candidatura e as diligências feitas em Portugal e no resto do mundo. Levou, porém, consigo a maneira de ser que o fez ser um conciliador eficaz em prol do bem e da paz.
Prosit mundo!
2016.10.06 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A Madre Superiora

A Madre Superiora de uma congregação irlandesa, com seus 98 anos, estava em seu leito de morte.
As monjas  estavam à sua volta, tentando tornar cómoda sua última viagem.
Deram-lhe leite quentinho, bebeu um gole e não quis mais.
Uma monja levou para a cozinha o copo de leite. Nesse momento recordou- se que havia na despensa uma garrafa de whisky irlandês que lhes haviam dado para o Natal, e pôs uma boa dose no leite.
Voltou ao leito da superiora e aproximou o copo da boca.
A superiora bebeu um golinho, depois outro e antes de que se dessem conta, tomou até a última gota.
As monjas disseram: "Madre, dê-nos uma última palavra de sabedoria antes de morrer!"
Com um último esforço, levantou-se um pouco e lhes disse:
 
"Não vendam essa vaca".

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Vigilância

"A coisa mais sábia do mundo é gritar antes de ser ferido. Não é bom gritar depois de estar ferido; especialmente depois de estar mortalmente ferido. Há quem fale da impaciência da populaça; mas os historiadores seguros sabem que a maior parte das tiranias foram possíveis porque os homens se mexeram tarde demais.
É frequentemente essencial resistir à tirania antes que ela exista. Não é resposta dizer, com um optimismo distante, que o esquema anda ainda no ar. 
Um golpe de machado só pode ser parado enquanto ainda vai no ar."
G.K. Chesterton: "Eugenics and Other Evils."