quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O dia 1 de Dezembro é feriado nacional, porque se comemora o dia da Restauração da Independência Portuguesa

Aclamação de D. João IV como rei de Portugal

Tudo começou em finais do século XVI, com a subida ao trono de D. Sebastião, que em 1578, desapareceu  na batalha de Alcácer Quibir, sem deixar herdeiro para ocupar o trono.

Subiu ao trono o seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique, que apenas governou dois anos e em 1580, Filipe II de Espanha foi dentre os pretendentes ao trono, netos de D. Manuel I, o escolhido para rei de Portugal.

Durante 60 anos, viveu-se em Portugal, um período que ficou conhecido na História como «domínio Filipino». Depois do reinado de Filipe I (II de Espanha), veio a governação de Filipe II e Filipe III, que governavam os dois países (Portugal e Espanha), como se fossem um só.

Descontentes, os nobres portugueses (muito embora toda a sociedade se revoltasse contra o jugo espanhol com revoltas e motins que sucediam por todo o país) preparam uma revolta que levam a cabo com sucesso no dia 1 de Dezembro de 1640. Com um golpe palaciano prendem a regente, a duquesa de Mântua e matam Miguel de Vasconcelos que atiram pela janela.

Aclamam o duque de Bragança que sobe ao trono como D. João IV, a 15 de Dezembro.

Termina desta forma 60 anos de domínio espanhol e Portugal recupera a sua independência.
(Aqui)




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SOBRE A EDUCAÇÃO DA NOSSA JUVENTUDE - UM TEXTO DO POETA MOÇAMBICANO MIA COUTO (PRÉMIO CAMÕES)


UM DIA, ISTO TINHA DE ACONTECER
por Mia Couto
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou.
Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o "ego" insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pode um psicólogo ser católico?

Guardemos a mordaça e lembremos os ensinamentos do bom e velho Stuart Mill: nunca devemos impedir de falar as pessoas que acreditamos estarem erradas.

Indignação da semana: Maria José Vilaça, psicóloga e responsável da Associação dos Psicólogos Católicos, disse nas páginas da revista Família Cristã que era possível aceitar um filho homossexual sem aceitar a homossexualidade. “Eu aceito o meu filho, amo-o se calhar até mais, porque sei que ele vive de uma forma que eu sei que não é natural e que o faz sofrer.” E acrescentou: “É como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom.” Esta frase provocou o habitual incêndio das redes sociais e dezenas de queixas na Ordem dos Psicólogos, que emitiu um comunicado onde recorda que nas suas intervenções públicas os psicólogos estão obrigados a “observar o princípio do rigor e da independência, abstendo-se de fazer declarações falsas ou sem fundamentação científica”. De seguida, a Ordem anunciou ir participar o caso ao Conselho Jurisdicional por considerar tais declarações “de extrema gravidade”.
Cá está – um piscar de olhos e já se foi longe demais. A opinião que eu tenho em relação às declarações de Maria José Vilaça é igual à dos indignados: discordo profundamente dela e acho a comparação entre um filho homossexual e um filho toxicodependente de uma infelicidade extrema. Parece-me, por isso, perfeitamente natural que as pessoas manifestem a sua discordância pública em relação à senhora e que as redes sociais se incendeiem, como de costume. Nada contra até aqui. Tudo contra a partir daqui: há um momento, altamente desagradável, mas cada vez mais recorrente, em que se passa do direito de discordar para o desejo de despedir. As pessoas deixam de se limitar a criticar Maria José Vilaça por ter dito uma tontice, e a rebater a sua opinião com argumentos sustentados, e passam a defender que ela deve ser silenciada e proibida de exercer a sua profissão porque, pelos vistos, hoje em dia não se pode ser psicólogo e ao mesmo tempo considerar a homossexualidade uma prática “não natural”.Mas será que não se pode mesmo? É que se não se pode, como a Ordem dos Psicólogos parece defender, se passou a ser uma coisa tão inadmissível como a prática da lobotomia para curar doenças mentais, então há aqui uma notícia muito maior do que as declarações de Maria José Vilaça, e que está tristemente a passar ao lado da comunicação social. A primeira frase de todos artigos sobre este tema deveria ser esta: “A Ordem dos Psicólogos Portugueses defende que um católico que aceite os ensinamentos da Igreja em relação à homossexualidade não tem condições para ser psicólogo e deve abandonar de imediato a sua profissão.” Esta é a notícia, meus senhores. Mandem imprimir, enviem para o Vaticano e informem o Papa Francisco.
Guardemos a mordaça e lembremos os ensinamentos do bom e velho Stuart Mill: nunca devemos impedir de falar as pessoas que acreditamos estarem erradas. Ao exporem as suas ideias, temos uma excelente oportunidade para as rebater e mostrar aos outros a superioridade dos nossos argumentos. Infelizmente, é cada vez menos isso que estamos a fazer. A linha entre o confronto de ideias e o silenciamento de ideias está a ser ultrapassada vezes sem fim, criando uma pressão insustentável sobre quem pensa diferente de nós. Depois espantamo-nos que as pessoas mintam nas sondagens sobre a sua orientação de voto e acabem a colocar a cruzinha em Donald Trump quando ninguém está a ver. Numa sociedade livre, a resposta a quem diz parvoeiras não é “cala-te!”. É, isso sim, “que argumentos tens para defender tamanha parvoíce?”.
João Miguel Tavares, Público

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Salvo da lixeira, hoje é seminarista

 

«Madre Teresa recuperou-me da lata do lixo. Nasci a 9 de setembro de 1982 e vivi dez dias com os meus pais. No dia 19, a minha mãe deixou-me na lata do lixo em frente da casa das Irmãs da Caridade» de Amravati, uma favela de Bombaim.

Foi assim que Emmanuel Leclercq – nascido na Índia, adotado por uma família francesa e hoje seminarista da diocese de Avignon – contou ao canal de televisão italiano Tg2000 alguns detalhes inéditos de sua história incrível.

«Se a minha mãe me deixou numa lata de lixo em frente à Casa de Madre Teresa – acrescentou Emmanuel – não foi por acaso. Deus quis que eu fosse depositado naquela lata de lixo! Porquê? Eu não sei. Talvez um dia eu venha a sabê-lo. Quando fui encontrado por Madre Teresa, a 19 de setembro de 1982, eu tinha o nome da minha mãe escrito no braço e a data do abandono. O nome da minha mãe é Subadhra, um nome hindu, que significa «a boa mãe». Eu também tinha no pescoço um pequeno colar no qual estava escrito em hindu o meu nome: Robin.»

«Agradeço à minha mãe – prosseguiu Emmanuel – por me ter dado um nome e, agora que me chamo Emmanuel, chamo Robin ao meu anjo da guarda. Eu diria que o meu anjo da guarda é a voz impercetível e a mão miudinha de Santa Madre Teresa velando por mim todos os dias. A minha mãe abandonou-me por amor, porque na palavra «abandono» está a palavra dono [em italiano, que significa «dom» em português]. Eu fui abbandonato [«abandonado»], para depois ser donato [«dado»].

«Após um ano em casa das Missionárias da Caridade, fui adotado por uma família francesa. Devo tudo a eles: deram-me de novo uma dignidade, educaram-me, deram-me a possibilidades de estudar e, graças a eles, posso tornar-me padre. Faltam três anos para eu realizar esse sonho.»

«Durante onze meses estive nos braços de Madre Teresa num berço da casa para as crianças abandonadas, porque ela pessoalmente me recolheu da sujeira para me colocar num berço. E o calor de Madre Teresa, quando ele me tomava em seus braços, sinto-o até hoje.»

«Conheci a minha história porque os meus pais adotivos ma contaram quando eu tinha 7 anos. Mas depois, no verão passado, quando voltei à Índia, pela primeira vez, depois de mais de trinta anos, tive a alegria de encontrar uma freira que tem agora 90 anos e que estava presente quando fui encontrado na lata de lixo. Ela contou-me a minha história e mostrou-me o colar com o meu nome Robin e o registo onde estava escrito o meu nome, a data de nascimento e a data do abandono, que eu trazia escrito no braço, e também a data em que fui encontrado. Quando eu vi o registo, agradeci ao Senhor, antes que tudo, pelo o primeiro dom, o da vida; depois agradeci pela minha mãe, que me concebeu e me pôs no mundo; agradeci a Santa Madre Teresa que me encontrou e salvou, e, por fim, agradeci à mãe que me adotou.»

«Infelizmente – concluiu Emmanuel – não encontrei a minha mãe, porque a irmã me disse que não era possível encontrá-la, porque no meu braço só estava escrito o seu nome, Subadhra, que é muito comum na Índia e não há nenhum documento que possa ajudar-nos a encontrá-la. Mas eu nunca deixei de procurá-la, rezo sempre por ela e digo a mim mesmo: "Talvez já tenha falecido, talvez eu tenha irmãos e irmãs... Marco encontro com eles lá em cima no céu para cantarmos juntos a glória de Deus".»
Fonte:aqui

sábado, 12 de novembro de 2016

Assim começámos e assim continuamos...

Assim começámos
Nos tempos em que os reis mandavam, numa noite escura, à entrada de dezembro, o rei veio à varanda do seu iluminado palácio e reparou que a cidade estava escura como breu.
Chamou o seu primeiro-ministro e ordenou-lhe:
- Antes do natal quero ver a cidade toda iluminada. Toma lá 500 cruzados e trata já de resolver o problema.
O primeiro-ministro chamou o presidente da câmara e ordenou-lhe:
- O nosso rei quer a cidade toda iluminada ainda antes do natal. Toma lá 250 cruzados e trata imediatamente de resolver o problema.
O presidente da câmara chama o chefe da polícia e diz-lhe:
- O nosso rei ordenou que puséssemos a cidade toda iluminada para o natal.
Toma lá 100 cruzados e trata imediatamente de resolver o problema.
O chefe da polícia emite um edital a dizer:
“Por ordem do rei em todas as ruas e em todas as casas deve imediatamente ser colocada iluminação de natal.  Quem não cumprir esta ordem será enforcado”.
Uns dias depois o rei veio à varanda e, ao ver a cidade profusamente iluminada, exclamou:
- Que lindo! Abençoado dinheiro que gastei. Valeu a pena.
                 … E foi assim que Portugal começou a funcionar …
(Recebido por email)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A onda da Web Summit: tecnologia e empreendedorismo


Decorreu, pela primeira vez em Lisboa (após as 7 edições em Dublin), de 7 a 10 de novembro, a Web Summit. Não sendo o maior evento de tecnologia da Europa, é indubitavelmente uma das feiras mais importantes da área, principalmente no que diz respeito às startups (definíveis como como empresas iniciantes de tecnologia) e ao empreendedorismo. Estiveram presentes mais de 53 mil pessoas, das quais cerca de 42% eram mulheres.

A Web Summit dividiu-se entre o MEO Arena e a FIL e serviu essencialmente para startups de várias partes do mundo mostrarem os seus produtos, fazerem novos contactos e encontrarem investidores ou parceiros. Participaram a Y Combinator, Intel Capital, Silver Lake, Google Ventures, Sherpa Capital, Union Squares Ventures, Portugal Ventures, Salesforce Ventures, 500 Startups… em suma, empresas com muito dinheiro para investir.

Além da componente de exposição, a Web Summit contou com uma série de conferências (21) a cargo de alguns dos maiores nomes da indústria, incluindo: Sean Rad, cofundador e CEO do TinderMike Schroepfer, diretor de tecnologia do Facebook; Takeshi Idezawa, CEO do Line, uma das aplicações de mensagens mais populares no Japão; Mike Quigley, diretor de marketing da Niantic, empresa que desenvolveu o Pokémon GoWerner Vogels, diretor de tecnologia da Amazon; Ryan Hoover, fundador do Product HuntEric Friedman, cofundador do Fitbit; Gillian Tans, CEO do site de reservas hoteleiras Booking.com; Eric Wahlforss, cofundador e diretor de tecnologia do SoundCloud; Corinne Vigreux, cofundadora da TomTomAlexis Ohanian, cofundador do RedditBlackstock, cofundador e CEO do BitmojiNicolas Brusson, cofundador e CEO do BlaBlaCar, um dos serviços de partilha de carro mais populares; Robert Scoble, um dos bloggers de tecnologia mais influentes; David Marcus, diretor do Messenger no Facebook; Alan Schaaf, fundador do ImgurMichael Pryor, CEO do TrelloTill Faida, fundador e CEO do Adblock PlusJustin Smith, CEO da Bloomberg Media… e muitos mais.

Temas atuais como a inteligência artificial, o ad-blocking, a condução autónoma, a realidade virtual, o open-source ou a utilização de cannabis medicinal não ficaram de fora do debate e da mostra. Também estiveram presentes políticos como Durão Barroso (que foi vaiado), Paulo Portas ou Tiago Brandão Rodrigues, bem como pessoas ligadas ao mundo do desporto como Patrícia Mamona, Luís Figo, Rui Costa ou Bruno de Carvalho. Ao Primeiro-Ministro coube participar na sessão inaugural e visitar a feira, visita onde chegou a ser confundido com um investidor. Também Fernando Medina, presidente do município lisboeta, deu as boas-vindas.

À semelhança do que acontecia em Dublin, a Web Summit não ficou restrita à zona oriental da capital, mas espalhou-se pela cidade, a coberto de diversos eventos paralelos, entre eles, visitas culturais a Lisboa e  saídas noturnas com os oradores e investidores que houveram por bem participar. O Turismo de Portugal  organizou eventos complementares da Web Summit: durante os dias 8 e 9, houve música (a editora Mano a Mano, o brilhante Benjamin, o campeão DJ Ride e outros mais), gastronomia e produtos regionais, bem como uma sessão videomapping. Já no dia 5, Paddy Cosgrave, fundador do evento, deu o pontapé de saída ao Surf Summit na Foz do Lizandro, na Ericeira, onde cerca de 200 participantes aproveitaram as ondas, após uma breve aula de surf.

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Embora a Web Summit seja um evento mais pequeno que qualquer um dos festivais de verão que se realizam em Portugal, tem gozado de um mediatismo excecional, não só pelas vozes oficiais do Governo, como pela comunicação social, que lhe tem dedicado páginas inteiras em jornais e rubricas em noticiários.

O evento chegou a Lisboa numa altura em que a cidade está na moda como nunca esteve. Com efeito, assistiu-se a um aumento substancial do turismo na capital e o ecossistema empreendedor da cidade ganhou relevância no panorama europeu e global. Lisboa tem centenas de startups, incubadoras, fablabs, espaços de coworking e investidores. António Costa, Primeiro-ministro e anterior Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e João Vasconcelos, Secretário de Estado da Indústria e fundador da incubadora Startup Lisboa, foram os principais rostos desta transformação de Lisboa numa “cidade startup”. E o empreendedorismo, abordado na recente Cimeira Ibero-americana, é, na senda do que se passou com governos anteriores, um dos principais pilares de ação do atual Governo, que, vendo nesta economia um forte potencial e rica oportunidade de crescimento e de valorização competitiva, lançou iniciativas como o Startup Portugal, com vista a ajudar quem pretende começar o próprio negócio.

Se os festivais de música como o NOS Alive colocaram Portugal na rota dos grandes eventos de música a nível europeu, a Web Summit pode ter o mesmo impacto no âmbito da tecnologia e das startups; e as startups nacionais tiveram aqui uma oportunidade para alcançarem o mercado internacional, sem terem de se deslocar.

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O que ficou do evento?

Ficaram 500 “estrelas de rock” portuguesas, os afetos do Presidente Marcelo, um robô que almeja destronar Donald Trump e outro que visa pôr crianças a programar, 1.200 milhões de euros para startups, reuniões e 53.056 QR Codes. Em três dias e meio, o evento abarcou 53.056 pessoas, 4 pavilhões da FIL para 1.490 startups, o MEO Arena cheio, mais de 4 milhões de visualizações de vídeo em direto do Facebook, 1.835 milhões de mensagens trocadas na app97.000 pastéis de nata, 37.000 quilómetros de cabos, 1.300 investidores.

A Web Summit foi uma conferência de 21 conferências, com 663 oradores e 2.000 jornalistas. 500 engenheiros portugueses asseguraram a internet de banda larga no evento (embora com críticas, algumas merecidas por cá e lá fora). Várias intervenções em palco abordaram a segurança nas redes sociais, a música, o amor, o empreendedorismo, o investimento, os meios de comunicação social, a inteligência artificial e, obviamente, as eleições norte-americanas (cujos resultados foram saudados por uns e vaiados por outros). 

Dos 1.200 milhões de euros, acima referenciados, 1.000 milhões são da Comissão Europeia para apoiar startups europeias e mais 200 milhões que o Estado português lançou para poder coinvestir em empresas, com mais 200 milhões dos privados. Ficou relevada – segundo Andrus Ansip, vice-presidente da Comissão Europeia e responsável pelo projeto do Mercado Único Digital – a vontade de acabar com uma certa Europa que tem “28 tipos de regras de mercado diferentes”, onde é “praticamente impossível” para as startups crescer, e que obriga “os cidadãos a usarem métodos ilegais para acederem a conteúdos digitais”.

Ficou também a imagem de Sophia, um dos robôs mais avançados do mundo, a propor-se como candidata à presidência dos EUA para que o país se visse livre de Trump; e a de Dave McClure, sócio fundador da aceleradora norte-americana 500 Startups a pedir aos milhares de pessoas sentadas no MEO Arena que se levantassem contra o novo presidente dos EUA. Antes, já o empresário norte-americano Bradley Tusk confessara sentir-se “envergonhado por estar no meio dos europeus com isto a acontecer” nos EUA.

Foi alertada a tecnologia, os políticos e os legisladores. Paddy Cosgrave disse, na última conferência de imprensa da Web Summit, que “a tecnologia também está a ter um impacto negativo no mundo e é importante que as pessoas que tomam decisões estejam aqui e conheçam as pessoas que estão a desenvolver estas tecnologias”. O orador pretende que haja diversidade de pessoas nesta que é a maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa, para que as startups interajam com empresas maiores, investidores, potenciais clientes, parceiros. E disse que “é um erro achar que toda a tecnologia é boa, na melhor das hipóteses é neutra”, pois, há “tecnologias que podem destruir o mundo inteiro”.

Pairou o medo do futuro. Segundo um inquérito feito, no evento, aos investidores, cerca de 1.300 (53%) creem que a inteligência artificial levará ao desaparecimento de milhões de empregos no mundo e 93% consideram que os governos não estão preparados para enfrentar essa realidade. Todavia, ficou também a esperança no futuro: quando o cubo dinamarquês que venceu os “óscares das startups portuguesas”, como lhes chamou Jaime Jorge, líder da Codacy, em 2014. Duzentos pitches depois, foi a Kubo-Robot que levou 100 mil euros da Portugal Ventures. O líder Tommy Otzen explicou aos jornalistas que quiseram “tirar a programação drag and drop do ecrã e passá-la para a vida real”, como se fossem legos. Construíram um robô em forma de cubo dotado de um sistema de inteligência artificial, que as crianças aprendem a controlar através da utilização das ordens certas, a base da programação.

E ficou a política. Ficaram os “afetos”, os beijinhos e as selfies  de Marcelo. O Presidente da República fez uma visita pelos stands dos pavilhões da FIL para conversar com empreendedores portugueses, acompanhado pelo Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, e pelo Secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos. E disse: “Estamos prontos para explorar as novas paisagens tecnológicas convosco”. Marcelo, num discurso marcado por três palavras-chave “gratidão”, “felicidade” e “crença” no futuro, deixou um alerta: “A tecnologia é apenas um instrumento”, que “não pode excluir os mais carenciados”.

Ficaram as chaves da cidade de Lisboa nas mãos de Paddy Cosgrave, depois de o Presidente da Câmara Municipal lhas ter dado na cerimónia de abertura, dizendo-lhe: “Lisboa é a tua casa”. E ficaram “as estrelas de rock” de João Vasconcelos: os engenheiros, programadores, empreendedores portugueses; o talento português; e, do Primeiro-Ministro, ficou a certeza de que “Portugal é o espaço ideal para tentar, falhar e voltar a tentar”.

E o que fica para as startups portuguesas?

Ficam reuniões, contactos trocados, esperança no futuro, conhecimento. Não ficam milhões, nem tanto mais investidores, mas fica a perspetiva e os olhos de futuro.

E não ficou o “adeus” ou o “até já” do criador da Web Summit. Onde se realizará no próximo ano a feira da tecnologia e do empreendedorismo?

2016.11.11 – Louro de Carvalho  

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

“God Bless America”


O que parecia altamente improvável aconteceu: Donald Trump, o multimilionário que foi estrela de um reality show, o candidato que prometeu construir um muro na fronteira com o México, o homem que foi acusado de mostras de racismo, xenofobia e misoginia vai liderar os destinos da maior potência mundial e policiar o mundo. Trump venceu Hillary Clinton, sucede a Barack Obama e será o 45.º Presidente dos EUA, a partir do ato de posse a 20 de janeiro de 2017.

Contrariando pesquisas e previsões, apoiadas em sondagens que maioritariamente davam vantagem a Hillary Clinton (subestimaram-se as poucas que punham Trump à frente nas intenções de voto), o republicano nova-iorquino derrotou a democrata, que pensava ter a via aberta para Washington, com uma vitória expressiva, conquistando 288 lugares no colégio eleitoral. E ainda conseguiu dar aos republicanos a maioria no Senado.

Com a vitória do magnata ‘outsider’ marca-se o retorno dos republicanos à Casa Branca após oito anos de poder nas mãos dos democratas, com os dois mandatos entregues pelo eleitorado a Barack Obama.

Em 18 meses de campanha, a candidatura de Trump foi marcada por comentários polémicos. A partir da promessa aliciante de “fazer a América grande novamente”, conquistou votos com ideias extremas, como a construção dum muro na fronteira com o México. Através de discursos centrados nas frustrações e inseguranças de muitos dos americanos, Trump tornou-se a voz da mudança para milhões deles.

Os acontecimentos e o desempenho do candidato republicano em noite eleitoral superaram todas as previsões dos analistas. Ao início da noite, a probabilidade de Trump vencer as eleições era só de cerca de 30%. Mas tudo a noite modificou. O magnata, vindo de fora da política, não só venceu a adversária democrata, como o fez com uma larga vitória, conquistando os referidos 288 lugares no colégio eleitoral e granjeando para os republicanos a maioria no Senado. Por outro lado, a sua alocução de vitória esteve quase nos antípodas discursivos das intervenções de campanha. Confidenciou que recebera um telefonema de felicitações da adversária democrata; agradeceu a confiança dos eleitores; e assegurou que será o Presidente de todos os norte-americanos, pedindo àqueles que não o escolheram a ajuda “para trabalharmos juntos”. Além disso, prometeu “lidar de forma justa” com todos os povos e nações e, no plano económico, duplicar o crescimento, declarando que “a América não se contentará com nada que não seja o melhor”.

À medida que as projeções das televisões norte-americanas eram divulgadas, o mapa eleitoral norte-americano ficava cada vez mais pintado de vermelho, a cor do Partido Republicano, e as conquistas em “Estados oscilantes” importantes, como o Ohio, a Flórida ou a Carolina do Norte, tornaram esta pintura cada vez mais definida e viva. 

Nada fazia prever este desfecho. E nem o próprio Partido Republicano, que desde o primeiro momento mostrou resistências em atribuir a nomeação a Trump, anteciparia um resultado como este. Apesar de nos últimos dias a campanha de Clinton ter sido abalada por uma pneumonia e sobretudo por um novo episódio da novela sobre os e-mails pessoais que enviou ou recebeu enquanto secretária de Estado, os especialistas continuavam a dar uma vantagem sólida à democrata. Todavia, as previsões baseadas em sondagens falharam. Depois duma campanha eleitoral que ficará para a posteridade pelas piores razões – excessiva crispação e muito pouco sumo político –, Donald Trump, com um discurso de candidato populista sobre temas tão sensíveis como o sistema político, a imigração, as relações económicas, a condição feminina ou a liberdade religiosa, mostrou que as sondagens não passam de sondagens e podem errar, sobretudo se não tiverem em conta a labilidade de opinião à medida que o tempo corre para a reta final do evento eleitoral e o receio de, ferindo o “politicamente correto”, os eleitores revelarem o sincero sentido de voto.

Os reflexos imediatos da vitória de Trump não se fizeram esperar. O peso (moeda) mexicano caiu abruptamente e as bolsas asiáticas abriram em queda. Cuba anunciou 5 dias de exercícios militares pré-agendados para se preparar para possíveis “ações inimigas”. O choque e a perplexidade perpassaram o mundo inteiro.

Os resultados das eleições trazem inevitavelmente à memória o que aconteceu com o referendo no Reino Unido sobre a União Europeia a meio do ano. Há um certo paralelismo: nos dois casos o eleitorado, desiludido e até zangado, escolheu a mudança – ainda que esta signifique um rumo radicalmente diferente de tudo o que se conheceu até então. Vota-se no desconhecido por tédio para com o conhecido.

Trump, muito além da propalada escolha do menor de dois males, logrou convencer a América desencantada, a América que, a braços com uma economia que perdeu o fulgor de outrora, está cansada dum sistema político viciado. Conseguiu aliciar a América que olha para os imigrantes com desdém, a que acredita no isolacionismo. É esta América que, dividida em várias, é apenas uma, a que olha com esperança para Trump como um outsider, alguém capaz de uma mudança qualquer, mesmo que não se saiba o que isso realmente significa.

A identidade dos Estados Unidos, como a nação da liberdade e o berço da multiculturalidade, pode ser profundamente alterada com a política populista de Trump que promete romper com a tradição diplomática norte-americana. O futuro do país está em suspenso, mas não só: porque os destinos da maior potência a nível global mexem com o destino de todos, é o futuro dos povos e o sentimento de estabilidade do mundo que está em causa. Será que o Presidente vai manter o discurso pré-eleitoral – demolidor da supressão da livre convivência e do comércio livre, da murificação entre povos e grupos, da misoginia e do ataque aos adversários? Ou, ao invés, tentará uma evolução para o discurso e políticas mais realistas, considerando as necessidades da América e as exigências do mundo que nela deposita esperança em intervenções positivas no concerto das nações? Irá condicionar as práticas definidas e a definir na COP22 em curso?  

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O ano de 2016, que pensaríamos vir a recordar por fenómenos insólitos – a guerra da Síria, a crise dos refugiados, as ondas de choque da crise das dívidas públicas e a fragilidade do sistema bancário ou os avanços técnico-científicos como os carros sem condutores ou a explosão da Inteligência Artificial – de momento para o outro fica indelevelmente marcado por um evento normal em democracia: eleições.

Está tão banalizado o recurso aos atos eleitorais e referendários nas sociedades ocidentais que grande parte dos cidadãos já nem se dá ao trabalho de votar: cresce a abstenção. No entanto, estas consultas populares estão a mostrar a sua força de uma forma pouco previsível.

Fitando as últimas décadas, diz Ricardo Costa (Sic Notícias), “podemos elencar uma série de acontecimentos incríveis, desde descobertas científicas a mudanças geopolíticas, de variadas revoluções tecnológicas a guerras sem fim, mas temos dificuldade em escolher uma eleição como algo que tenha mudado o mundo”. A exceção poderá ter sido a vitória de Obama: um Presidente afro-americano, que, pouco tempo depois da posse, foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz. Todavia, também essa eleição assentava na categoria habitual da arrumação das escolhas – esquerda e direita – que espelha o que nos habituámos a chamar de democracia ocidental representativa e parlamentar que se tornou como que norma na ordem mundial.

Ora, o que estas eleições trouxeram de novo, como o referendo que ditou o Brexit, é que os eleitorados querem aproveitar as eleições “como armas de sentido contrário, de protesto contra o sistema, contra a globalização, contra a abertura ao exterior, contra tudo o que vem de fora, contra imigrantes ou outros credos, juntando em movimentos ou ao redor de um candidato imensas multidões de descontentes e saudosos de tempos aparentemente mais prósperos” (escreve Ricardo Costa). É certo que esta postura eleitoral não é inteiramente nova: tem emergido em outros atos eleitorais, nomeadamente nas eleições para o Parlamento Europeu e em eleições regionais e legislativas na Europa, onde têm levantado a crista movimentos extremistas ou antissistema; mas é novo o fenómeno a uma escala tão extensa e com uma vitória retumbante.

E é o ano de 2016 que marca a entrada em pleno desta tendência no centro eleitoral, apagando as fronteiras ideológicas e eliminando as distâncias entre os extremos. Foi o Brexit, foi Trump; será referendo constitucional italiano e poderá ser Marine Le Pen nas presidenciais francesas, contra a fraqueza económica da França e o peso do Islão, ou o voto no primeiro partido alemão de extrema-direita com sucesso desde 1945 nas eleições do ano de 2017.

Trump é, segundo Ricardo Costa, “um produto do seu próprio sucesso, de uma autoestima sem fim que soube cavalgar todas as contradições da democracia americana” e, opino eu, é produto igualmente do apoio que logrou concitar em torno de si e do seu discurso, aglutinando zangados, descontentes e insatisfeitos com a mediocridade política. O “não político” entrou na “política” a prometer sentido de gestão, o que é impossível. Para tanto, disse uma coisa e o seu contrário, mentiu, inventou, ofendeu, insultou e prometeu o que não cumprirá, arredando todos os potenciais e efetivos candidatos. Percebendo uma América farta dos partidos convencionais, quase destruiu o Partido Republicano, as suas elites e a sua máquina até os submeter. Que irá fazer na Casa Branca? De que América grande está o Presidente escolhido a falar?

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Porém, há que fazer diferente de Trump, aceitar os resultados ou, como ele, aceitar os resultados porque ganhou. Talvez seja oportuno expor aqui a posição da Santa Sé na perspetiva do cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin, pela Rádio Vaticano:

“Creio que, antes de tudo, tomamos conhecimento com respeito da vontade expressa pelo povo americano neste exercício de democracia que, soube, foi caraterizado também por uma grande afluência às urnas”.

E depois, o cardeal fez seus votos ao novo presidente,

“Para que o Senhor o ilumine e o ampare ao serviço da sua pátria naturalmente, mas também ao serviço do bem-estar e da paz no mundo. Acredito que hoje exista a necessidade de todos trabalharem para mudar a situação mundial, que é uma situação de grave dilaceração, de grave conflito.”.

Por fim, como a nação americana precisa e merece, pedindo a paz e a bênção:

God Bless America”!

2016.11.09 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Carros elétricos: Governo prepara ajuda direta de 2250 euros


Medida vai custar 2,25 milhões de euros. Para beneficiar do apoio deixa de ser necessário entregar um carro usado com mais de 10 anos para abate
O Governo está a preparar a atribuição de uma ajuda direta de 2 250 euros para a compra de carros elétricos. A proposta do Ministério do Ambiente deverá ser aprovada em novembro. A medida deverá custar um total de 2,25 milhões de euros e será atribuída até a um limite de mil veículos, adianta este sábado o jornal Público.
Fonte: aqui

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Comemoração católico-luterana do V Centenário da Reforma


Pela primeira vez, se procedeu à comemoração conjunta católico-luterana da Reforma. Para assinalar o V centenário da Reforma operada no século XVI, o Papa Francisco deslocou-se a Lund, na Suécia, a 31 de outubro, num propósito muito eclesial no campo do ecumenismo.
Obviamente que o Papa não despiu as vestes de Chefe de Estado, pelo que se encontrou com o Primeiro-Ministro, no Aeroporto Internacional de Malmö, e fez a visita de cortesia à Família Real, no Palácio Real Kungshuset em Lund. Porém, as ações mais significativas e que motivaram a deslocação pontifical foram a oração ecuménica e a declaração conjunta, na Catedral Luterana de Lund, bem como o evento ecuménico e o encontro com Delegações Ecuménicas na Arena Malmö, em Malmö.
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Na oração ecuménica, o Papa fez um discurso homilético a partir das palavras de Jesus no contexto da Última Ceia, “Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós” (Jo 15,4) – que nos levam a “sondar o coração de Cristo pouco antes da sua doação definitiva na cruz” em amor por nós e no desejo de unidade para todos os que n’Ele creem.
Manifestando o desejo comum de permanecer unidos a Ele para termos a vida, ousa pedir-Lhe a graça da ajuda a estarmos mais unidos “para darmos, juntos, um testemunho mais eficaz de fé, esperança e caridade” e declara este como “um momento propício para dar graças a Deus pelo esforço de muitos irmãos”, de diferentes comunidades eclesiais, que não se resignaram com a divisão, mas mantiveram viva a esperança da reconciliação entre todos os que creem no único Senhor”. Referindo-se ao contexto da comemoração comum da Reforma de 1517, assegura tratar-se de “nova oportunidade para acolher um percurso comum”, desenvolvido “ao longo dos últimos 50 anos no diálogo ecuménico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica”; e reconhece a possibilidade conjunta de “reparar um momento crucial da nossa história, superando controvérsias e mal-entendidos”.
Atendendo a que “o dono da vinha é o Pai (cf 15,1), que dela cuida e a poda para dar mais fruto (cf 15,2), apela a que olhemos, “com amor e honestidade, para o nosso passado” reconhecendo o erro e pedindo perdão, porque “a nossa divisão se afastava da intuição originária do povo de Deus” e “historicamente foi perpetuada mais por homens de poder deste mundo do que por vontade do povo fiel, que sempre e em toda parte precisa de ser guiado, com segurança e ternura, pelo seu Bom Pastor”. E salienta a “vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé” surgida de ambos os lados, a partir da consciência de que “nos fechamos em nós mesmos com medo ou preconceitos relativamente à fé que os outros professam com uma acentuação e uma linguagem diferentes”. Porém, como dizia João Paulo II, “não devemos deixar-nos guiar pelo intento de nos tornarmos árbitros da história”, mas “pela intenção de compreendermos melhor os acontecimentos e de sermos portadores da verdade”.
A separação, diz o Papa, fonte imensa de sofrimentos e incompreensões”, também nos levou “a tomar consciência sinceramente de que, sem Ele, nada podemos fazer” e que teremos “a possibilidade de compreender melhor alguns aspetos da nossa fé”. Por isso, Francisco refletiu:
“Com gratidão, reconhecemos que a Reforma contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja. Através da escuta comum da Palavra de Deus nas Escrituras, o diálogo entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial, cujo cinquentenário celebramos, deu passos importantes. Peçamos ao Senhor que a sua Palavra nos mantenha unidos, porque Ela é fonte de alimento e vida; sem a sua inspiração, nada podemos fazer.”
Evocando um dos principais corifeus da Reforma, explicitou:
“A experiência espiritual de Martinho Lutero interpela-nos lembrando-nos que nada podemos fazer sem Deus. Como posso ter um Deus misericordioso? Esta é a pergunta que constantemente atormentava Lutero. Na verdade, a questão da justa relação com Deus é a questão decisiva da vida. Como é sabido, Lutero descobriu este Deus misericordioso na Boa Nova de Jesus Cristo encarnado, morto e ressuscitado. Com o conceito ‘só por graça divina recorda-nos que Deus tem sempre a iniciativa e que precede qualquer resposta humana inclusive no momento em que procura suscitar tal resposta. Assim, a doutrina da justificação exprime a essência da existência humana diante de Deus.”
É Cristo que “intercede por nós como mediador junto do Pai, pedindo-Lhe a unidade dos seus discípulos para que ‘o mundo creia’ (Jo 17,21) – o que “nos conforta e impele a unir-nos a Jesus para implorar o Pai com insistência. Assim, nós, luteranos e católicos, “rezamos juntos nesta Catedral e estamos conscientes de que, sem Deus, nada podemos fazer; pedimos o seu auxílio para sermos membros vivos unidos a Ele, sempre carecidos da sua graça para podermos levar, juntos, a sua Palavra ao mundo”, necessitado da sua “ternura e misericórdia”.
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Um dos resultados da celebração católico-luterana do V centenário da Reforma é a Declaração Conjunta a partir do segmento textual evangélico:
Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim.” (Jo 15,4).
Com coração agradecido, os dois líderes iniciam o ano comemorativo do V centenário da Reforma e os 50 anos do “constante e frutuoso diálogo ecuménico entre católicos e luteranos”, que ajudaram “a superar muitas diferenças e aprofundaram a compreensão e confiança” mútuas, bem como facultaram a aproximação mútua no serviço comum ao próximo.
Do conflito à comunhão. Reconhecem os “dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, mas lamentam “diante de Cristo que luteranos e católicos tenham ferido a unidade visível da Igreja”, como lamentam que “diferenças teológicas” tenham sido “acompanhadas por preconceitos e conflitos”, com a instrumentalização da religião “para fins políticos”. Porém, sabem que a fé e o batismo comuns exigem a conversão diária para repelir “as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação”. Por isso, rezam pela cura das feridas e lembranças “que turvam a nossa visão uns dos outros”; rejeitam categoricamente “todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião”; escutam “o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito”; e sentem-se libertos “pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama”.
O compromisso em prol dum testemunho comum. Comprometem-se “a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus”, “visível em Cristo crucificado e ressuscitado”, e “a crescer ainda mais na comunhão radicada no Batismo, procurando remover os obstáculos ainda existentes que nos impedem de alcançar a unidade plena”. Verificam o anseio de “muitos membros das nossas comunidades” em “receber a Eucaristia a uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena” e assumem a “responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que o nosso povo tem de ser um só em Cristo”. E, sabendo daquele desejo das comunidades, fazem dele o objetivo dos seus “esforços ecuménicos”, que desejam “levar por diante” inclusive renovando o comum “empenho no diálogo teológico”. Entretanto, rezam “a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo, convidando a humanidade a ouvir e receber a boa notícia da ação redentora de Deus” e pedem-Lhe “inspiração, ânimo e força” para poderem continuar “juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando todas as formas de violência”. Porque Deus nos chama a estar perto de quantos “anseiam por dignidade, justiça, paz e reconciliação”, levantam hoje, de modo particular, as suas vozes a “pedir o fim da violência e do extremismo que ferem tantos países e comunidades e inumeráveis irmãos e irmãs em Cristo”; e exortam “luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher o estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição e defender os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo”. Mais do que nunca, hoje dão-se conta de que o serviço comum no mundo “deve estender-se à criação inteira, que sofre a exploração e os efeitos duma ganância insaciável”; reconhecem o direito das gerações futuras a gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza; e rezam “por uma mudança dos corações e das mentes” conducente a “um cuidado amoroso e responsável da criação”.
Um só em Cristo. Ao renovar o compromisso de passar do conflito à comunhão, fazem-no como “membros do único Corpo de Cristo, em que “estamos incorporados pelo Batismo”. Convidam os “companheiros de estrada no caminho ecuménico a lembrar-nos dos nossos compromissos e a encorajar-nos”, a “rezar por nós, caminhar connosco, apoiar-nos na observância dos compromissos de religião”.
Apelam aos católicos e luteranos do mundo inteiro, nomeadamente às paróquias e comunidades luteranas e católicas “para que sejam corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no seu compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera”. Importa que seja “o dom divino da unidade” a guiar a colaboração e a aprofundar a solidariedade. E, “estreitando-nos a Cristo na fé, rezando juntos, ouvindo-nos mutuamente, vivendo o amor de Cristo nas nossas relações”, abrimo-nos “ao poder de Deus Uno e Trino”, e, “radicados em Cristo e testemunhando-O”, renovam a determinação de ser “fiéis arautos do amor infinito de Deus por toda a humanidade”.
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No Encontro com Delegações Ecuménicas na Arena Malmö, Francisco agradeceu a Deus esta comemoração conjunta dos 500 anos da Reforma, vivida com espírito renovado e na convicção de que a unidade dos cristãos é uma prioridade, pois reconhecemos ser “muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa”. Confessando que o “caminho empreendido para a alcançar é um grande dom de Deus” há que dirigir “o olhar ao único Senhor, Jesus Cristo”.
Sente que “o diálogo entre nós permitiu aprofundar a compreensão mútua, gerar confiança recíproca e confirmar o desejo de caminhar para a plena comunhão”. Nesta ótica, selecionou como fruto deste diálogo “a colaboração entre distintas organizações da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica”. Assim, a Caritas Internationalis e a Lutheran World Federation World Service assinarão “uma declaração comum de acordos com vista a desenvolver e consolidar a cultura de colaboração para a promoção da dignidade humana e da justiça social”. São duas entidades que, “num mundo dividido por guerras e conflitos, foram e são um exemplo luminoso de dedicação e serviço ao próximo”.
Depois, referiu-se aos testemunhos que ouviu de “como, no meio de tantos desafios, dia após dia” muitos “dedicam a vida a construir um mundo que corresponda cada vez mais aos desígnios de Deus, nosso Pai”.
Um deles referiu-se à criação. Com efeito, sendo toda a criação “uma manifestação do amor imenso de Deus para connosco”, podemos “contemplar a Deus por meio dos dons da natureza. Neste sentido, o Papa compartilha a “consternação pelos abusos que danificam o nosso planeta, a nossa casa comum, com graves consequências também sobre o clima”, sendo que “os maiores impactos recaem frequentemente sobre as pessoas mais vulneráveis e com menos recursos, que se veem forçadas a emigrar para se salvarem dos efeitos das mudanças climáticas”. Ora, como todos e, em especial os cristãos, “somos responsáveis pela salvaguarda da criação”, temos de adotar um estilo de vida e uns comportamentos “coerentes com a nossa fé”. Na verdade, “somos chamados a cultivar uma harmonia com nós mesmos e com os outros, mas também com Deus e com a obra das suas mãos”.
Mons. Héctor Fabio informou sobre o trabalho conjunto de católicos e luteranos na Colômbia. Enquanto recebe como boa notícia “saber que os cristãos se unem para dar vida a processos comunitários e sociais de interesse comum”, o Pontífice pede “uma oração especial por aquela terra maravilhosa para que, com a colaboração de todos, se possa chegar finalmente à paz, tão desejada e necessária para uma digna convivência humana” e uma oração que “abrace também a todos os países onde perduram graves situações de conflito”.
Um outro testemunho evidenciou “o trabalho em prol das crianças vítimas de tantas atrocidades e para o compromisso a favor da paz”. É um trabalho admirável e um “apelo para tomar a sério inúmeras situações de vulnerabilidade que padecem tantas pessoas indefesas, que não têm voz”. Aquela missão, segundo Francisco, foi “uma semente que produziu frutos abundantes, e hoje, graças a esta semente, milhares de crianças podem estudar, crescer e recuperar a saúde”. É “a loucura do amor a Deus e ao próximo”.
Foi ainda oferecido um testemunho comovente de alguém que “soube tirar proveito do talento que Deus lhe deu através do desporto”. É o de uma jovem que, na convicção de que todos somos filhos de Deus, queridos e amados por Ele, animou muitas meninas “a regressar à escola” e reza “todos os dias pela paz no jovem Estado do Sudão do Sul”.
Depois, aproveitou o ensejo para agradecer aos governos que prestam assistência aos refugiados, aos governos que prestam assistência aos deslocados e àqueles que pedem asilo, porque “cada ação em favor destas pessoas que precisam de proteção constitui um grande gesto de solidariedade e reconhecimento da sua dignidade”. E porfiou para os cristãos a prioridade de “sair ao encontro dos descartados – porque são descartados pela sua pátria – e marginalizados do nosso mundo, tornando palpável a ternura e o amor misericordioso de Deus, que não descarta ninguém, mas acolhe a todos”. É a revolução da ternura que hoje se pede aos cristãos.
E anunciou o testemunho do Bispo D. Antoine, que vive em Alepo, cidade exausta pela guerra, onde se desprezam e espezinham os direitos mais fundamentais no contexto do conflito sírio, que dura há mais de 5 anos. No meio de tanta devastação, diz o Papa, “é verdadeiramente heroica a permanência lá de homens e mulheres para prestar assistência material e espiritual aos necessitados”. E é imperioso implorar a graça da conversão dos corações de quantos têm a responsabilidade dos destinos do mundo.
Finalmente, Francisco pretende que os testemunhos que ouviu estimulem a um trabalho conjunto e ao “compromisso de realizar diariamente um gesto de paz e reconciliação” como “testemunhas corajosas e fiéis de esperança cristã”.
2016.11.01 – Louro de Carvalho