terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

DEPOIS DO ENTRUDO, A ENTRADA


1. Depois da Terça-Feira de Carnaval, a Quarta-Feira de Cinzas. Após o Entrudo, a Quaresma. Aliás, chama-se Entrudo por ser precisamente entrada na Quaresma.

2. Dir-se-ia que é o tempo litúrgico que mais se assemelha à vida humana. Muito mais que o Carnaval.
Poucos, com efeito, encontrarão motivos para folia. Pelo contrário, o que mais nos pedem são sacrifícios.

3. A Quaresma é um tempo de penitência e o que mais se vê, hoje em dia, são pessoas com uma vida inteira de penitência.
Temos a penitência da crise. Temos a penitência de ouvir falar da crise e, ainda por cima, a toda a hora. Temos a penitência do desemprego. Temos a penitência da criminalidade. Temos a penitência da injustiça. Temos a penitência da pobreza, da exploração, da fome.

4. Pode parecer, por isso, pouco oportuno (e até desumano) vir apelar a mais penitência. Que maior pode ser a penitência de quem não tem pão para comer ou casa para habitar? Que maior pode ser a penitência de quem perdeu o emprego?
Como bem lembrou o Padre Ignacio Ellacuría, a Cruz tem uma permanente actualização histórica. Há pessoas crucificadas nas esquinas da existência. Cristo continua a ser torturado, condenado e morto em tantos deserdados da sorte, em tantos abandonados da vida: Ele está neles.

5. É fundamental, portanto, que quem faz apelos à penitência apresente também gestos visíveis de despojamento.
Isto significa que aquilo de que nos privamos há-de ser oferecido a quem precisa. Veremos então que muitos passam mal porque nós não nos importamos. E notaremos que o nosso supérfluo é essencial para eles.

6. Se somos capazes de jejuar por razões egoístas, porque é que não havemos de jejuar por razões altruístas?
Não falta quem reduza ao alimento para perder peso, para ser elegante. Porque não reduzir ao alimento para ajudar quem tem menos, quem tem quase nada?

7. Urge que nos habituemos a fazer do outro o centro do nosso ser, o centro da nossa preocupação, o centro da nossa vida.
Temos, pois, de nos des-centrar para nos re-centrar. O nosso centro só pode ser o centro de Cristo.

8. O centro de Cristo foi sempre Deus e o Homem. O centro dos membros da Igreja de Cristo só poderá ser Deus e o Homem.
Daí o grande tripé que alavanca toda a trajectória quaresmal: a oração (relação com Deus) e o jejum e a esmola (partilha com o ser humano).

9. Sabemos, por exemplo, que, no dia 25 de Janeiro de 2010, 120 milhões de cristãos de 39 países promoveram uma jornada de oração e de jejum pela justiça no Zimbabwe.
Muita coisa poderá ser feita. Porque não, por exemplo, oferecer o peditório de um mês nas paróquias para ajudar os mais carenciados? Uma Igreja pobre será sempre uma Igreja próxima, uma Igreja capaz de interpelar.

10. Façamos penitência apoiando quem tem de fazer penitência. A penitência por opção é um gesto de comunhão para com quem tem de fazer penitência por imposição.
Despojemo-nos da carne e do peixe caro, levando um pouco de pão a quem nada tem para comer. Mas porque não fazer também, de vez em quando, jejum do automóvel desanuviando o ambiente? Porque não fazer jejum do cigarro, contribuindo para a saúde pessoal e para a saúde dos outros?

11. Façamos também jejum de imagens e de palavras. E não deixemos de fazer jejum dos juízos precipitados, das acções agressivas e dos sentimentos violentos.
Deixemos que a bondade brilhe. Que a paz se instale. Que a justiça floresça. E que o amor vença. Não foi por tudo isto que Ele [Jesus] deu a vida?
João António Teixeira, in Facebook

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O que disse efetivamente o Papa sobre ser católico e ser ateu


Muita da comunicação social, infelizmente não só em Portugal, que se deixa pautar pela febre da venda de papel ou da conquista de audiências, adulterou um segmento importante da homilia do Papa Francisco na celebração da missa a que presidiu na Casa de Santa Marta no passado dia 23 de fevereiro. Não é a primeira vez e não será talvez a última que as palavras do Papa são desviadas para sentido diferente daquele com que foram proferidas.

Recordo que, por ocasião da publicação do testamento espiritual do Papa São João Paulo II em abril de 2005, alguns dias após a sua morte, a 2 de abril, os jornais garantiam que o Papa polaco chegara a colocar a hipótese da renúncia ao sumo pontificado. Nada que o Código de Direito Canónico não tenha previsto e regulado. Porém, estupidamente os jornalistas que veicularam em primeira mão tal atoarda baseavam-se na leitura desviante dum ponto do texto do testamento. Refletindo ter levado a bom porto as celebrações do jubileu do 2.º milénio (e inauguração do 3.º), o Pontífice polaco rezava como o velho Simeão, mas laconicamente, “Nunc dimittis”. E os apressados leitores italianos de furo jornalístico, à boa maneira portuguesa, entenderam que, se Deus lhe mandou “nunca te demitas”, era porque João Paulo tivera a tentação de se demitir. Se um fosse um português com o 12.º ano sem conhecimentos de latim, ainda se entenderia a confusão de “nunc” (agora) com “nunca” e “dimittere” com “demitir”. Ora toda a gente sabe que aquele segmento significa apenas que o Senhor já podia agora deixar morrer em paz o seu servo. Não se tratava de renúncia nem de reprimenda por hipótese de renúncia. Razão Tinha o Pontífice quando dizia que a bengala que usava também servia para corrigir jornalistas!

Também Bento XVI foi penalizado por retirarem do contexto uma sua afirmação em Ratisbona sobre o islão. Recordo que um professor de Sagrada Escritura em Lamego (o Dr. António José de Anciães), ao falar da inerrância na Escritura, alertava para a necessidade de não retirarmos as frases bíblicas do seu contexto, exemplificando: “Eh, eh! Alguns dizem que a Bíblia diz que não há Deus, mas não leem bem”. De facto, o salmo 53 (52) diz no seu v. 2: “O insensato diz no seu coração: ‘Não há Deus!’”. Mas o salmo põe tais palavras no coração do insensato e adverte que os insensatos que não procuram Deus o são porque se transviaram e corromperam (cf Sl 53,4).

E quantas vezes não se diz ou escreve algo com um determinado sentido e é entendido em sentido totalmente diverso! É o risco de quem fala ou escreve e o direito de quem ouve ou lê…   

***

Afinal, o que se passou com o Papa Francisco? Na sua homilia, partiu do salmo 1, em que se lê:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.” (Sl 1,1-2).

Trata-se de um salmo que pertence ao género sapiencial e constitui a meditação introdutória a todo o livro dos Salmos. Esta é uma reflexão de claras conotações éticas a mostrar que o livro, além de ser uma antologia de orações pessoais e litúrgicas, é um espelho de vida e de moral. Por isso, é sublinhada a divisão de caminhos e respetivos comportamentos, em que se figuram dois modos de vida com resultados diferentes, na linha do veiculado no livro do Deuteronómio:

“Repara que coloco hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Assim, ordeno-te hoje que ames o SENHOR, teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus mandamentos, preceitos e sentenças. Assim viverás, multiplicar-te-ás e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra em que vais entrar para dela tomar posse.” (Dt 30,15-16).

São dois objetivos – vida e morte – cada um com sua via. E o mandamento é amar o Senhor e seguir os seus caminhos, guardando todos os seus preceitos, o que garantirá a bênção de Deus.

A seguir, vem o enunciado do resultado para quem se afaste da via da vida, caindo na idolatria:

“Mas se o teu coração se desviar e não escutares, se te deixares arrastar e adorares deuses estranhos e os servires, declaro-vos hoje que, sem dúvida, morrereis; os vossos dias não se prolongarão na terra na qual ides entrar, passando o Jordão, para dela tomar posse” (ib, 17-18).

E o Senhor mobiliza o céu e a terra como testemunhas deste pacto do Senhor dom o povo:

“Tomo hoje por testemunhas contra vós, o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habitares na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob.” (ib, 19-20).

São passagens a replicar e ampliar (alternando tu e vós) o teor doutro capítulo do Deuteronómio (Dt 11, 26-28) e antecipam o que vem referido no livro de Josué, como se pode ler:

“Temei o Senhor, e servi-o com toda a reti­dão e verdade. Afastai esses deuses a quem os vossos pais serviram do outro lado do rio e no Egito e servi o Senhor. E se vos desagrada servi-lo, então escolhei hoje aquele a quem quereis servir: os deu­ses a quem vossos pais ser­vi­ram, do outro lado do rio, ou os deu­ses dos amorreus cuja terra ocupas­tes, por­que eu e a minha casa serviremos o Senhor.” (Js 24, 14-15).

Ao desafio de Josué, que se tornou exemplo para os demais (como Clóvis iria fazer), o povo reagiu:

“Longe de nós abandonarmos o Senhor para ser­vir outros deuses! Pois o Senhor nosso Deus é que nos fez subir, junta­mente com nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão, e rea­lizou aqueles maravilhosos prodí­gios aos nossos olhos; Ele guardou-nos ao longo de todo o caminho que tive­mos de percorrer, e entre todos os povos pelos quais passámos. O Senhor expulsou diante de nós to­das as na­ções e os amorreus que habitavam na terra: também nós ser­viremos o Senhor, porque Ele é o nosso Deus.” (ib, 16-18).

E à objeção de Josué

Vós não sereis capazes de servir o Se­nhor, porque Ele é um Deus santo, um Deus zeloso que não perdoará as vossas transgressões nem os vossos peca­dos. Quando abandonardes o Senhor para servir a deuses estra­nhos, Ele voltar-se-á contra vós e far-vos-á mal; há de des­truir-vos, após ter-vos feito bem.” (ib, 19-20).

O povo res­pon­deu: “Não. É ao Se­nhor que quere­mos servir.” (ib, 21). Josué já não aduziu como testemunhas o céu e a terra, mas os próprios israelitas:

“Jo­sué disse-lhes então: ‘Sois tes­te­mu­nhas contra vós mes­mos de que es­co­lhestes o Senhor para o servir’. E eles responderam: ‘Somos teste­mu­­nhas!’. E Josué ordenou: Tirai, pois, os deuses es­tranhos que estão no meio de vós, e inclinai os vossos corações para o Senhor, Deus de Is­rael.’. E o povo respondeu a Jo­sué: ‘Nós serviremos o Senhor nosso Deus, e obedecere­mos à sua voz’.” (ib, 22-24)

Face a esta postura do povo, Jo­sué fez aliança com ele e deu-lhe, em Si­quém, leis e pres­cri­ções, escreveu aquelas pala­vras no livro da Lei e, tomando uma grande pedra, erigiu-a como monu­mento, sob o carvalho que se estava no san­tuário do Se­nhor. Depois, disse ao povo (cf ib, 25-27):

“Esta pedra servirá de tes­te­mu­nho entre nós, pois ela ouviu todas as pala­vras que o Senhor nos disse; ela ser­virá de testemunho contra vós, para que não renegueis o vosso Deus” (ib, 27).

***

Porém, Francisco tira consequências do salmo donde partiu a sua reflexão em torno do real e penoso “escândalo” de quem se professa cristão (alegadamente escolhendo a via da vida) e depois mostra o seu verdadeiro rosto com uma vida que de cristã nada tem; e do contratestemunho de quem “explora” e “destrói” as vidas dos outros sob a capa de bom católico. E fê-lo comentando as palavras severas usadas por Jesus no Evangelho e chamando à conversão (que não se pode adiar) os protagonistas de certas “vidas duplas”, sendo que todo o motivo de escândalo ou o que for ocasião de pecado deve ser eliminado. Por outro lado, quem ajudar os discípulos do Senhor não ficará sem a sua recompensa, enquanto quem os levar ao pecado incorrerá em terrível castigo.

No dizer do Papa, a Escritura refere-se a quem tem “a sua força” no Senhor, “que se sente pequenino, que sabe que sem o Senhor nada pode fazer”. Esse “é bem-aventurado no Senhor”.

E o salmo mostra a contraposição entre os seguidores da lei de Deus e os arrogantes, malvados” – contraposição visível no trecho evangélico do dia (Mc 9, 41-50), onde também há bons e maus.

Nas palavras de Jesus vê-se a figura dos justos que se sentem pequeninos, mas cuja confiança está em Deus. É um trecho em que “por 4 vezes” se repete o termo “escândalo”. Usando-o, o Senhor foi muito severo: “Ai de quem escandalizar um só destes pequeninos!”. De facto, segundo o Pontífice, “o escândalo, para o Senhor, é destruição”. Por isso, Jesus aconselha:

“É melhor que se destrua a si mesmo que aos outros. Corta a tua mão, o pé, arranca um olho, lança-te ao mar. Mas não escandalizes os pequeninos, ou seja, os justos, os que confiam no Senhor, que simplesmente creem no Senhor.” (cf Mc 9,42-48).

Dissertando sobre o que é o escândalo e referindo que diz respeito à vida concreta de cada pessoa, o Papa explicitou, como se pôde ler no site da Rádio Vaticano, a 23 de fevereiro:  

“O escândalo é dizer uma coisa e fazer outra; é a vida dupla. Um exemplo? Eu sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta associação e àquela; mas a minha vida não é cristã, não pago o justo aos meus empregados, exploro as pessoas, faço negócios sujos, lavagem de dinheiro. Esta é uma vida dupla. Infelizmente, muitos católicos são assim e escandalizam.”.

***

E é aqui que bate o ponto! Francisco transliterou palavras comuns de outrem: “Quantas vezes ouvimos no bairro ou noutras partes: ‘Mas ser católico como aquele, é melhor ser ateu!’. Não foi o Papa que disse ou sequer se interrogou que ser ateu é melhor que ser católico de vida dupla ou hipócrita. Mas foi claro ao aproveitar-se de lugares comuns na linguagem corrente:

“Eis o escândalo, que destrói, que desmoraliza. E isto acontece todos os dias: é suficiente ver o telejornal ou ler os jornais. Nos jornais há tantos escândalos, e há também a grande publicidade dos escândalos. E com os escândalos destrói-se.”.

E aduziu, para exemplo, um facto recente relativo a uma grande empresa à beira da falência. As autoridades queriam evitar uma greve justa, mas que não seria boa e procuraram entrar em contacto com o responsável da empresa. O dirigente, que dizia ser homem muito católico, estava numa praia do Médio Oriente a passar as férias invernais, enquanto os trabalhadores estavam sem salário e condições de trabalho. Apesar de o episódio não ter sido publicado, as pessoas souberam-no. Estes, diz o Papa “são os escândalos, a vida dupla”. E Jesus, face a isto, diz: A estes pequeninos, que creem em mim, não os arruínes com a tua vida dupla.

E, parafraseando outra passagem do Evangelho, o Papa evocou o momento de o escandaloso se apresentar à porta do Céu, criticando-o como Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno:

– “Sou eu, Senhor!”. – “Ah”. – “Mas como, não te recordas? Eu ia à missa, estava ao teu lado, pertencia a esta associação, faço isto... não te recordas de todas as ofertas que dei?” – “Sim, recordo. As ofertas, recordo-me delas: todas sujas. Todas roubadas aos pobres. Não te conheço”.

O problema nasce, pois, da atitude bem descrita na 1.ª leitura daquele dia (Ecl 5,1-10): “Não confies nas tuas riquezas e não digas: não preciso de ninguém”. E ainda: “Não sigas o teu instinto nem a tua força, satisfazendo as paixões do teu coração”. Na verdade a vida dupla resulta das paixões do coração, dos pecados capitais. Quem dá escândalo segue as paixões, mesmo que as esconda. É um texto replicado na carta de Tiago, pelo que o Pontífice admoesta:  

“A cada um de nós fará bem, hoje, pensar se há algo de dupla vida em nós, de parecer justos, de parecer bons crentes, bons católicos, mas por detrás fazer outra coisa. Trata-se de compreender se a atitude é a de quem diz: ‘Mas sim, o Senhor perdoar-me-á tudo, mas eu continuo...’. E, apesar de estar ciente dos próprios erros, repete: ‘Sim, isto não está bem, converter-me-ei, mas não hoje: amanhã’. Um exame de consciência que deve levar à conversão do coração, a partir da consciência de que o escândalo destrói.”.

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Cada vez se exige mais que não peguemos nas coisas pela rama, mas as encaremos na sua profundidade, sempre vendo com olhos de ver, ouvindo com ouvidos purificados e falando e escrevendo com verdade total. Assim, o risco de quem fala/escreve não o precipita no barranco de cegos e o direito de quem ouve/lê não será um direito cujo exercício se torne vazio ou insone como o sino sem badalo ou com badalo partido. É a autenticidade de vida e de ação a impor-se!

2017.02.26 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ignorar os pobres é uma fraude moral


Quem o diz, como se pode ler no site da Rádio Vaticano, é o Papa Francisco em mensagem enviada, a 17 de fevereiro, aos participantes do encontro dos Movimentos Populares que decorreu na cidade de Modesto, na Califórnia (EUA) de 16 a 18 deste mês. 

O Pontífice, escudado nos textos bíblicos, quer do Antigo Testamento, quer do Novo Testamento (sobretudo, do Evangelho de Lucas e das cartas de João e de Tiago), afirma:

“As feridas sociais causadas por um sistema económico desumano e difundido podem ser tratadas e curadas com o comportamento do bom samaritano, fazendo-se próximo de quem precisa”. 

Na ótica de Francisco, “os bons samaritanos”, dotados da “capacidade autêntica de estar próximo de quem sofre” é que salvarão o mundo”, ao invés daqueles hipócritas que “enchem os bolsos ignorando, com estilo, as chagas sociais, para depois manipularem as consciências quando as feridas são evidentes e não se pode mais fingir não as ver”.

Obviamente que o Papa gosta de ter como interlocutores todas as pessoas e grupos. Porém, quando os seus interlocutores são os porta-vozes das periferias existenciais – no caso vertente, os movimentos sociais –, encontra expressões fortes para evidenciar a nudez e crueza das falhas do que denomina “paradigma imperante”, um “sistema económico que causa sofrimentos enormes à família humana”, porque estribado no lucro em vez da solidariedade.

Aos participantes do encontro de Modesto o Papa apresenta a Parábola do Bom Samaritano (vd Lc 10,25-37), que evidencia a antítese entre o leigo “estrangeiro, pagão e impuro”, que se debruça sobre um moribundo agredido por assaltantes e cuida dele, e a indiferença dos mui cultos e mui religiosos sacerdote e levita, intimamente conexos com o Templo, que voltam as costas ao homem ferido e à lei de Deus que exigia a prestação de socorro em casos como este. Não sabemos se desandaram por receio de se contaminarem com as feridas e o sangue derramado, se por medo de serem considerados suspeitos de ato violento, se por convicção desviante sobre a prioridade do serviço do Templo, secundarizando o auxílio ao necessitado.

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O sistema económico, ao colocar no centro o deus dinheiro e ao agir, às vezes, com a mesma brutalidade dos assaltantes da parábola, causa feridas vivas que dificilmente são saradas, visto que outras prioridades se constroem aos olhos circunstantes, dos decisores políticos, dos operadores económicos e, ainda, dos modernos discípulos de Cristo – que tantas vezes preferem ser o sacerdote ou o levita que viram as costas ao sofrimento e fogem a correr par o Templo, em vez de se aproximarem dos necessitados, se debruçarem sobre eles e tratar eficazmente das suas mazelas, implicando os outros nesta ação de solidariedade. É o grito da Justiça em prol dos sofredores da pobreza e da doença! E o Papa denuncia o facto de tais feridas serem a cada passo “transcuradas culposamente”, censurando o “estilo elegante usado para desviar o olhar de forma recorrente”. Com efeito, sob a aparência do politicamente correto ou do bem alinhado com as modas ideológicas, olha-se para quem sofre “sem tocá-lo, distante, vendo-o na televisão”, e adota-se “um discurso de aparência tolerante e cheio de eufemismos, mas nada se faz de sistemático para curar as feridas sociais e enfrentar as estruturas que deixam muitos irmãos ao longo da estrada”. Criam-se muitas fundações, sociedades e associações alegadamente para a solidariedade social, quando o verdadeiro escopo é engrossar o prestígio dos protagonistas e até diminuir os encargos fiscais de empresa e de empresário.

É precisamente este discurso eufemístico e hipócrita e esta postura de desmazelo atento que o Bispo de Roma aponta como “fraude moral, que antes ou depois se descobre e se dissipa como uma miragem”. Na verdade, os feridos existem e são uma realidade; e o desemprego é real, tal como a violência, a corrupção, a crise de identidade, o esvaziamento das democracias, a crise ecológica”. Diante desta crise ecológica concomitante da crise sociomoral, Francisco exorta os povos indígenas, os pastores e os governantes a “defenderem a criação”, confiando na ciência, mas sem crerem na existência de uma “ciência neutra”.

Na perspetiva papal, vertida para a mensagem referenciada supra, “a gangrena de um sistema não pode ser camuflada eternamente porque antes ou depois se sente o mau cheiro e quando não pode ser mais negada pelo próprio poder que criou este estado de coisas, nasce a manipulação do medo, a insegurança, a raiva, incluindo a indignação das pessoas, e transfere-se a responsabilidade de todos os males para alguém que não está próximo”. Sendo esta uma grande tentação que engorda “este processo social em andamento em muitas partes do mundo”, constitui “uma ameaça séria para a humanidade”. Não é, assim, lícito “classificar as pessoas em próximas ou não” e “aquelas que podem se tornar vizinhas de casa ou não”.

A este cenário atitudinal do mundo o Papa contrapõe o ensino de Jesus. Jesus ensina a “tornar-se próximo dos que precisam”, o que é possível se no próprio coração existir “compaixão e capacidade de sofrer com o outro”. E a Igreja explicita dever ser “como o dono da hospedaria ao qual o samaritano confia, no final da parábola, a pessoa que sofre” (releia-se o Auto da Alma, de Gil Vicente). Assim, “os cristãos e  todos os homens de boa vontade devem viver e agir agora, porque muito tempo precioso foi perdido sem resolver essas realidades destruidoras”.

É, segundo Francisco, “da participação ativa das pessoas, em grande parte realizada pelos movimentos populares”, que “depende a maneira como se pode resolver essa crise profunda”. E o Papa reiterou o que disse no último encontro com os Movimentos Populares:

“Nenhum povo é criminoso e nenhuma religião é terrorista; não existe o terrorismo cristão, nem o judeu ou muçulmano; enfrentando o terror com amor trabalhamos pela paz; e nisso se encontra a humanidade verdadeira que resiste à desumanização manifestada em forma de indiferença, hipocrisia e intolerância”.  

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Também no passado dia 16 de fevereiro, o arcebispo emérito de Barcelona, Cardeal Lluís Martínez Sistach, apresentou a Francisco, em audiência privada, o programa do II Congresso internacional das grandes cidades dedicado à “Laudato si”, encíclica sobre o cuidado da casa comum – evento que ocorrerá no Rio de Janeiro, de 13 a 15 de julho próximo.

O purpurado assegura o grande interesse do Papa pelo tema da pastoral nas cidades desde o seu tempo de arcebispo de Buenos Aires. Efetivamente, em discurso aos participantes do I Congresso, em 2014, em Barcelona, o Sumo Pontífice acenara as dificuldades que, como arcebispo duma megalópole como Buenos Aires, teve que enfrentar e convidou os bispos a aprofundar “desafios e possíveis horizontes de uma pastoral urbana”. Entre estes, destacou: uma “pastoral evangelizadora audaz e sem temores”, o “diálogo com realidades multiculturais”, a força da “religiosidade popular” e a atenção “aos pobres, aos excluídos, aos descartados”.

O II Congresso – promovido pela fundação “Antoni Gaudí para as Grandes Cidades”, presidida pelo próprio Cardeal Sistach, com a colaboração do Arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta – é “estritamente dedicado ao mundo latino-americano” e centrará os trabalhos nos ensinamentos papais sobre ecologia, à luz da encíclica “Laudato si”.

Cá está, mais uma vez, a preocupação com os pobres, os excluídos, os descartados, que ficam esquecidos tantas vezes no anonimato das grandes cidades e na exploração abusiva e destruidora do Planeta. Nestes termos, virão a propósito os pronunciamentos sobre ecologia por parte de especialistas do mundo inteiro, líderes religiosos, reitores de universidades e prefeitos de grandes cidades, que servirão de base a debates a fazer em mesas-redondas e simpósios. As reflexões serão feitas a partir de três temas ecológicos: o problema da água, as questões relacionadas à poluição dos grandes conglomerados urbanos e a gestão dos resíduos e detritos.

***

Porém, em tão pouco tempo, o Papa não fala dos pobres apenas a Movimentos Populares ou a congressistas. Foi também a uma universidade. Na verdade, deixou o Vaticano, na manhã do passado dia 17, para uma visita à Universidade “Roma Tre”, a mais nova da Cidade.

Depois de afirmar que a instrução e a formação académica das novas gerações são uma exigência primordial para a vida e para o desenvolvimento da sociedade, passou a discorrer em resposta a questões levantadas por alguns alunos. Assim, reconheceu haver “uma onda de violência nas nossas cidades” e que “a violência é um processo que nos torna anónimos”. No entanto, sublinhou a riqueza que a sociedade detém:

“A nossa sociedade é rica de bens, de atos de solidariedade e de amor com o próximo. Tantas pessoas e tantos jovens, certamente também muitos entre vós, estão comprometidos no voluntariado e no serviço aos mais necessitados. Vós deveis ser gratos e orgulhosos por estes valores.”.

Porém, recordou que, no mundo, “há tantos sinais de inimizade e de violência, de ações violentas”. E, evocando o teor da sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, que propõe a não violência como estilo de vida e de ação política, reiterou que, de facto, estamos a viver uma “verdadeira guerra mundial em pedaços”, que a Comunidade internacional não consegue travar. E acrescentou:

“A universidade é um universo, um lugar onde se pode dialogar. Uma universidade deve fazer um trabalho artesanal de diálogo, onde se formam as consciências, com um profundo confronto entre as exigências do bem, do verdadeiro e do belo, e a realidade com as suas contradições. Por exemplo, a indústria das armas, que, ao invés de diminuírem, aumentam. Diante desta dramática realidade, os jovens jamais devem perder a esperança. As bombas destroem os corpos e as dependências destroem os corpos, mas também as mentes e as almas.”.

Neste sentido, sugeriu à universidade o comprometimento com projetos de partilha e de serviço aos últimos, sobretudo na Cidade de Roma, “onde reinam urgências sociais, pobreza, migrantes, gente que dorme pelas ruas e passa fome”. E disse:

“Vós deveis ser protagonistas de ações construtivas, de combate à cultura do hedonismo e do descarte, baseados em ídolos do dinheiro e do prazer”.

E, partindo da sua experiência pessoal, apelando:

“Não tenhais medo de vos abrirdes aos horizontes do espírito, mediante o dom da fé. Não tenhais medo de vos abrirdes ao encontro com Cristo e aprofundar a vossa relação com Ele. Vós podeis tornar-vos ‘agentes da caridade intelectual’. Assim, a universidade pode dar a sua contribuição para a renovação da sociedade; pode e deve ser lugar onde se elabora a cultura do encontro e do acolhimento de pessoas, culturas e religiões diferentes”.

Por fim, encorajou docentes e estudantes a viverem a universidade como ambiente de verdadeiro diálogo e de confronto construtivo, pois a solidariedade, vivida concretamente e não com palavras, gera paz e esperança. Com efeito, a universidade tem de encontrar espaço para cuidar das pessoas todas e do seu mundo. Se não, para que serve a ciência que produz?

De facto, como dizia o Bispo do Porto, “os pobres não podem esperar” e o Ano da Misericórdia tinha de repor e reforçar a prática das obras por força da fé e da justiça, à luz da caridade.

2017.02.19 – Louro de Carvalho

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

domingo, 19 de fevereiro de 2017

“Quinta-feira e outros dias”


Domingos Andrade assina no JN de hoje, dia 18 de fevereiro, um artigo de opinião a que deu o título “As memórias de Cavaco”. E nele fala de estranheza a vários níveis.

Porém, a mim só me surpreende o título “Quinta-feira e outros dias”, porquanto esperava que o ex-Presidente quisesse falar do seu desempenho como titular de um órgão de soberania unipessoal e na sua relação com os demais órgãos do poder (aspetos positivos e aspetos negativos) e com o povo, já que fez questão de o adorar com os seus “roteiros”.

Afinal, o que o anterior inquilino do Palácio de Belém quis evidenciar foi a relação desconfiada e algo tumultuosa nos encontros de quinta-feira com um Primeiro-Ministro para o cumprimento do dever do Chefe do Governo de informar o Presidente acerca dos assuntos respeitantes à condução da política interna e externa do país, nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 201.º da Constituição, e uma palavra de censura a algumas tomadas de posição do Governo de Sócrates em relação a questões como negócios da PT e da TVI. A nível secundário, critica os encontros que teve na qualidade de Primeiro-Ministro com o Presidente Soares como aligeiradas e sonolentas; refere que Passos Coelho não levantava a voz e esperava que Aníbal iniciasse a conversa (quando o dever de informar recai sobre o Primeiro-Ministro e não sobre o Presidente), não o criticando alegadamente por agora ser o chefe da oposição; e quase nada diz aos costumes (a não ser uns ferroezinhos) sobre o relacionamento com António Costa, que praticamente não teve história, a não ser na colagem do Governo a Cavaco, antes duramente vilipendiado pelo então Presidente, a temas caros como o do mar e um convite inusitado de Costa a Aníbal para presidir a um Conselho de Ministros, nos termos da alínea i) do artigo 133.º da CRP.

Não me parece estranha a rapidez da publicação do livro. Ele estava a ser preparado ainda nos idos de março de 2015 e Fernando Lima publicara um livro de memórias parciais ainda estava em Belém com Aníbal e por este arredado de funções.

É certo que “não é tradição em Portugal que os ex-presidentes da República escrevam sobre as suas relações no exercício do poder e que sejam tão detalhados nos pormenores”, mas também não o é em relação aos Primeiros-Ministros e Cavaco publicou dois volumes de autobiografia política sobre o seu desempenho primo-ministerial. Trabalhara com dois Presidentes: Eanes e Soares. E trabalhou com três Primeiros-Ministros, mas só um estava debaixo de olho (e também esta particularidade não é surpreendente). E Cavaco orgulha-se do que publicou abundantemente ao longo da sua vida política.

Ainda não temos passado um ano sobre a emigração de Aníbal para fora do Palácio de Belém. E parece que sentia urgência em se justificar perante o país, cônscio da sua má saída do exercício do cargo, com níveis de popularidade demasiado baixos. Acha que não pode passar assim para a História. Por isso é que fala quase sempre na primeira pessoa, suplantando os outros, impondo-lhes deveres e não aceitando sugestões. Tudo isto – e concordo com o colunista do JN – revela um “sentimento que o leva a revelar conversas, chamadas de atenção, contactos com o antigo primeiro-ministro José Sócrates, com quem mais coabitou”.

Também o livro não contará validamente para a História porque não respeita o distanciamento que permita um rigor, uma frieza e uma imparcialidade na análise dos acontecimentos. E Aníbal limita-se a fazer um relato autoencomiástico sobre os factos e a interpretação aligeirada dos mesmos sem um mínimo de análise de conteúdo e de circunstâncias.

Além disso, o livro pretende ser um dado para a História arquitetado por um autoproclamado protagonista dos acontecimentos, esquecido de que os caminhos que levaram àquela austeridade para a qual supostamente não havia alternativa foram gizados por vários operadores.

Do ponto de vista político, representa uma intervenção primária, já que não deu tempo para o amadurecimento secundarizante da iniciativa. E a prestação de contas facilmente se converte em ajuste de contas. E, se queria vingar-se, devia saber que “a vingança serve-se fria”.

Por outro lado, Cavaco Silva revela uma coerência pertinaz de convicções e de postura. Ninguém o pode acusar de escrever uma coisa de que não tenha já falado e de fazer revelações sobre algo de que não tenha avisado a lusa pátria.

Ele esteve sempre bem e quer mostrar o contraponto: teve pela frente um Primeiro-Ministro que subvalorizava compromissos, mentia e liderava uma “máquina tenebrosa” – para os cidadãos portugueses saberem que foi esse o calcanhar de Aquiles dos seus mandatos presidenciais.

Esta publicação, atendendo a que se tratava de dois homens poderosos que sabiam muito bem esgrimir as armas de que dispunham, poderia dar um rico filme de personagem ou uma boa peça teatral de cariz trágico-dramático.

Sendo linear no que exibe da coabitação entre um Presidente e um Primeiro-Ministro e tendo Cavaco estado de um e de outro lado da barricada em momentos diferentes, o livro acaba por expor inabilidades, erros e inações dos seus mandatos, deixando pairar a interrogação sobre se, sendo o Chefe de Estado a reserva moral e política da nação, não deveria ter sido mais firme e mais duro, denunciando no exercício de mandato os factos que agora vem a apontar, já sem remédio. Porque não dissolveu o Parlamento (alínea e do art.º 133.º da CRP) em finais de 2008, por exemplo? Porque esperou por 2011 para fazer frente a Sócrates, aproveitando a noite da vitória eleitoral nas presidenciais e sobretudo o ato de posse a 9 de março? Porque não quis demitir o Governo “para assegurar o funcionamento das instituições democráticas” (art.º 195.º/2 da CRP)?

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Sabe-se que muitos se preparam para levar em ombros o ex-Presidente pela publicação e pela ação que ela revela na convicção séria ou fingida de que a crise e o desgoverno foi obra de um Primeiro-Ministro que usou e abusou do poder para proveito próprio e de amigos sem lei ou por trás da lei, esquecendo a ação e a omissão dos demais.

Em contraponto, é pena que o principal visado – José Sócrates – não tenha hoje autoridade moral e política para enfrentar a publicação de Cavaco e opor-lhe um contraditório credível. Em todo o caso, merecem atenção alguns disparos que o hoje indiciado (não acusado, muito menos condenado) de três crimes, o antigo Primeiro-Ministro (aquele com quem Aníbal trabalhou durante mais tempo), desferiu em artigo de opinião no DN de hoje.

Na verdade, “nunca um presidente ou primeiro-ministro relatou as conversas tidas entre ambos enquanto exerceram funções”. Além da boa educação que Sócrates sublinha na ordem das razões que sustentam a sua alegação, sublinha com razão o “necessário sentido de Estado”.

Não valoriza “as vulgares opiniões políticas expressas no livro” ou “outras conversas, na sua maioria distorcidas e falsas, que não passam de vulgar exercício de mesquinhez disfarçado de relato histórico”. Todavia, pronuncia-se sobre o “episódio das escutas”, que não teve “outro propósito que não seja o de distorcer e falsear a verdade histórica”. Parece demasiado ousada a postura de contradizer o ex-Presidente neste aspeto. Mas Sócrates refere:

“Houve, é certo, uma reunião no dia 16 de setembro de 2009, que recordo muito bem. Como poderia esquecê-la? Nessa reunião exprimi ao então Presidente o meu protesto por não ter visto desmentida uma grave acusação de escutas que o meu gabinete teria feito ao Palácio de Belém e que o Presidente sabia ser falsa. O Presidente respondeu-me, como aliás faria noutras ocasiões, que não interromperia as suas férias para responder aos deputados do meu partido que tinham criticado a participação de membros da casa civil do Presidente na elaboração do programa de governo do PSD.”

É óbvio que o então Presidente terá desviado a questão das escutas para a alegada colaboração de elementos da sua Casa Civil na confecção do programa eleitoral do PSD. Mas Sócrates não tem razão em alegar que “não percebia a ligação entre os dois assuntos”. E, se lembrou que os deputados “não eram do meu partido” (sic), mas deputados à Assembleia da República, membros de um órgão de soberania, e que só eles poderiam responder por eles”, também deveria ter admitido que o Presidente também não teria ascendente para impedir que membros da sua Casa Civil colaborassem com quem entendessem, fora de serviço.

Era excrescente lembrar a Sócrates que “estava a falar com o Presidente da República”, mas também era inadequada a lamúria de que a questão das escutas prejudicava o PS e era redundante lembrar ao Presidente que “estava ali a falar-lhe como primeiro-ministro, eleito democraticamente e contra o qual se tinha lançado uma falsa e maldosa campanha para que perdesse as eleições”.

É óbvio que, lido o livro de Fernando Lima, é líquida a conclusão de que a suspeita de escutas terá vindo de ordem superior ou então a verdade não foi apurada. E fico sem saber da real veracidade do que Sócrates afirma a seguir:

“Pela primeira vez na história democrática do país ficou provado que um Presidente concebeu e executou uma conjura baseada numa história falsa, por forma a deitar abaixo um governo legítimo em funções”.

Porém, muitas vezes, em política o que parece é. Aplicar-se-á ao caso o que o ex-Primeiro Ministro ressentido comenta:

“Todos os que acompanharam a vida política na altura da crise política sabem bem que a única preocupação do Senhor Presidente era aquela que revelou na noite da sua reeleição: vingança e desforra. O seu discurso de posse foi o sinal de que a direita precisava para atirar o governo abaixo e provocar eleições. Na Assembleia da República, e pela primeira vez na história democrática, chumbou-se um acordo e um compromisso com as instituições europeias que um governo legítimo tinha conseguido para que o país não fosse forçado a pedir ajuda externa.”?

E ressalta dos comentários de Sócrates na RTP1 antes da sua detenção:

“Na crise política de 2011, ele [Cavaco Silva] sempre foi a mão por detrás dos arbustos”.

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Em suma, relativizando as afirmações de Cavaco e as de Sócrates, penso que o ex-Presidente deveria ter resguardado a excelência da Presidência da República e o prestígio do Estado e das suas instituições. O livro, produzido a quente, não vale como peça estilística e acaba por constituir um mau serviço ao país, diabolizando a classe política perante os cidadãos. Não faz História e revela coisas que não deviam ser reveladas. E Cavaco Silva era considerado um institucionalista!  

Veria melhor algumas declarações do antigo Chefe de Estado numa futura remota entrevista. Mas não lhe posso negar o direito à liberdade de expressão. Que assuma as consequências!

2017.02.18 – Louro de Carvalho

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Só os brasileiros são capazes de abordar coisas sérias com humor, desta maneira…

O aparecimento do homem e da mulher
Versão brasileira!!!  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Difamação

Uma das categorias morais que tem desaparecido, juntamente com muitas outras coisas da cultura ocidental, é a noção de difamação. É pior do que mentir. É mentir com a intenção de causar dano.
- Robert Royal

domingo, 12 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Una Iglesia ocupada en virginidades mientras los niños se mueren de injusticia, es una Iglesia prescindible"

Santiago Agrelo
Monseñor Agrelo, Arzobispo de Tánger defiende a Sor Lucía, que ha recibido amenazas de muerte.
Aqui