sexta-feira, 19 de maio de 2017

Salvador Sobral, Fátima e os pseudo-intelectuais


O dia 13 de Maio de 2017 não volta mais. Não volta porque nenhum dia que passa pode voltar a passar. O que eventualmente permanece de cada dia que passa é a marca ou as marcas que ele deixa em nós. E o dia 13 de Maio de 2017 deixou em Portugal marcas que haveriam de ser gravadas no nosso coração e que nos deveriam fazer sentir bem como o país que somos. 
Destaco pessoalmente o centenário das aparições de Fátima e a canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta, com o suplemente da visita do Papa. Sim, que a sua visita foi o suplemento ou complemento que faltava, mas não foi o centro do que ocorreu nesse dia. 
(...) Tamanho maior reservei para a vitória no festival da Eurovisão.
Sim, gosto muito de música e desde pequeno que assistir a este evento faz parte da minha gramática pessoal. Alguns até poderiam lembrar-se de fazer alusão a um verdadeiro milagre de Nossa Senhora ou por intermédio de algum dos novos santos. Não vou tão longe. Mas de facto o dia 13 de Maio deste ano, no centenário das aparições de Fátima, trouxe-nos um novo salvador, o Salvador Sobral. Portugal venceu o festival da Eurovisão com a autenticidade deste rapaz que nos salvou de cinquenta e não sei quantos anos de festival, quase sempre em lugares que faziam esquecer o país que somos. 
Foi deveras um dia em cheio, que me encheu por dentro e por fora. Sobretudo por dentro. Encheu-me de orgulho por ser português, por ter fé, por ser assim como sou. Contudo, e como sempre, não há bela sem senão. Ainda recordo os comentários na internet que fui lendo desde o dia em que o Salvador venceu o programa em Portugal. E mesmo com a vitória nas mãos, os mesmos derrotistas que falavam mal dos seus tiques e de uma pobre melodia, pouco festivaleira e que nos ia envergonhar na Ucrânia, continuam a sua ventura de dizer coisas e mais coisas para justificar as coisas e mais coisas que já haviam dito. 
Já sobre as notícias que a internet dava a conhecer a propósito dos dias 12 e 13 em Fátima, então não queiram saber. Os muitos comentários que apareciam depois de muitas dessas notícias falavam de embustes, de analfabetismo dos que professam a fé católica, do engodo que é o catolicismo, de lavagens cerebrais, da inquisição e por aí fora. 
Creio que andamos realmente muito distraídos. Vivemos num mundo de pseudo-intelectuais que se acham donos de poder fazer todo o tipo de afirmações, mesmo sem saber do que falam. Só porque sim. Só porque temos a possibilidade de dar opiniões. Ainda bem que a maior parte delas são virtuais, isto é, são muito menos reais do que pensam os seus autores. São na maioria das vezes, faltas de atenção e respeito. E dizem muito mais de nós do que da nossa opinião. Isso sim é que é real. 
(...)
Fonte: aqui

terça-feira, 16 de maio de 2017

Nossa Senhora, há cem anos, não apareceu a três jornalistas importantes


No voo de regresso de Monte Real a Roma, a 13 de maio, o Papa concedeu uma Conferência de Imprensa sob a condução de Greg Burke, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, que iniciou o colóquio com o reconhecimento de que foram 24 horas muito intensas dedicadas à Senhora.

Mais acentuou que os portugueses sentiram tudo quanto Francisco lhes disse em torno da afirmação: “Temos uma Mãe!” – exclamação que Sua santidade vive em profundidade.

E, salientando que a Senhora não aparecera a três jornalistas importantes, mas a três pastorinhos que na sua simplicidade e santidade saíram a fazer chegar a mensagem a todo o mundo, considerou que os jornalistas também levam a todo o mundo uma mensagem.

E o Papa, saudando a todos, dispôs-se a responder ao máximo possível de perguntas, ao mesmo tempo que iam lanchando (embora não lhe tenha agradado a informação de que se avizinhava o lanche). No fim, agradeceu a todos o trabalho e a perspicácia das questões e pediu que não se esquecessem de rezar por ele.

Segue a passagem pelos diversos conteúdos, sem repetições, aspetos de pormenor e marcas de oralidade

***

– A Fátima Campos Ferreira, da RTP, que perguntou o que, do ponto de vista histórico, ficará para a Igreja e para o mundo da mensagem de Fátima e da canonização de dois dos pastorinhos, respondeu que Fátima tem uma mensagem de paz levada à humanidade por três comunicadores com menos de 13 anos de idade; que veio como peregrino; e que, embora a canonização não estivesse prevista a princípio, quase de súbito as perícias deram todas positivas e o caso foi dado por concluído. Ficou feliz por isto e o mundo pode esperar a paz, pois Francisco continuará a falar de paz. Por outro lado, confidenciou que recebera uns cientistas de várias religiões e alguns agnósticos e ateus que faziam estudos no Observatório Vaticano em Castelgandolfo. E um deles segredara-lhe que é ateu, mas pede que diga aos cristãos que amem mais os muçulmanos. Ora isto é mensagem de paz – diz o Pontífice.

Tendo a jornalista perguntado se iria dizer isto a Trump, a 24 de maio, limitou-se a sorrir. 

– Aura Miguel, da Rádio Renascença, questionou-o sobre o significado de se ter apresentado como “o Bispo vestido de branco”, expressão da 3.ª parte do Segredo aplicada a São João Paulo II e aos mártires do século XX. E Francisco revelou que a oração em que figura tal expressão foi redigida pelo Santuário, mas é uma conexão semântica em torno do branco na oração: Bispo vestido de branco, Senhora vestida de branco, alvura branca da inocência das crianças depois do batismo – é literariamente o branco do desejo de inocência, paz, não fazer mal a outrem, não fazer guerra. Porém, negou que se tratasse de uma reinterpretação da mensagem, opinando que o então Cardeal Ratzinger, ao tempo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), explicara tudo com clareza.

– A Cláudio Lavagna, da NBC, que lançou a questão da diferença entre o Papa, que pediu aos fiéis o derrube de todos os muros, e Trump, que ameaça construir mais muros (no atinente ao aquecimento global e ao acolhimento de migrantes), contrapôs que não faz juízos sobre uma pessoa sem a escutar. No encontro previsto, cada um dirá o que pensa. Já todos sabem o pensa Francisco sobre o acolhimento aos migrantes e refugiados. E, em relação ao que espera do encontro com um Chefe de Estado que pensa diferente de si, garante não ter portas fechadas, mas, ao menos com alguma abertura para cada um poder dizer o que pensa, para cada um entrar e falar sobre problemas comuns e andar para a frente, passo a passo. E reiterou que a paz é artesanal, se constrói no dia a dia, como a amizade, o conhecimento mútuo, a estima. Escuta-se e diz-se o que se pensa, mas sempre com respeito. Sobre a hipótese de o Presidente vir a modificar as suas decisões, o Papa diz tratar-se de um cálculo político que se abstém de fazer e disse que também no plano religioso não é proselitista.

– Elisabetta Piqué, do La Nación, recordou um outro facto importante para Francisco: fez a 13 de maio 25 anos que o Núncio Calabresi lhe disse que seria Bispo auxiliar de Buenos Aires. E perguntou se tal coincidência, que marcou a sua saída de Córdoba e mudou a sua vida, o ligou à Virgem de Fátima e se neste dia se lembrou daquele acontecimento. Respondeu que não tinha pensado na coincidência. No entanto, enquanto rezava a Nossa Senhora, lembrou-se de que num dia 13 recebera um telefonema do Núncio e falou com a Senhora sobre os seus erros e ainda sobre o pouco gosto na escolha de pessoas.

– Nicholas Senèze, do La Croix, pergunta o que se passa com a Fraternidade de São Pio X, que tem por Fátima uma grande devoção e se virá a ter um estatuto especial na Igreja, como pergunta quais os obstáculos à reconciliação e se esta significará o regresso triunfal dos fiéis que mostram o que significa ser verdadeiramente católico.

Em resposta, Francisco descarta qualquer forma de triunfalismo. Revela que a CDF estudou um documento que ainda não lhe chegou às mãos. Recorda que as relações atuais são fraternas e que, o ano passado, deu licença para a confissão aos seus fiéis e uma forma de jurisdição para os matrimónios. É certo que havia e há problemas, que vão sendo resolvidos ao nível da CDF e da Penitenciaria Apostólica. Porém, com Monsenhor Fellay há um bom relacionamento, tendo falado várias vezes, mas não interessa apressar as coisas. Importa caminhar em conjunto e, depois, se verá. Não é um problema de vencedores ou de vencidos; é um problema de irmãos que devem caminhar em conjunto, procurando a fórmula de dar passos em frente.     

Tassilo Forchheimer, da ARD, considerando o aniversário da Reforma, perguntou se os cristãos evangélicos e os católicos podem percorrer um outro troço da estrada em conjunto, por exemplo, a participação na mesma mesa eucarística.

O Bispo de Roma diz que foram dados grandes passos. Após a Declaração sobre a Justificação, nunca mais se parou no caminho. E a viagem à Suécia foi muito significativa por ser o início das celebrações e uma comemoração com a Suécia. Depois, foi significativa pelo ecumenismo do caminho, que é caminhar em conjunto pela oração, testemunho, obras de caridade e obras de misericórdia. E um grande passo foi o acordo celebrado entre a Cáritas luterana e a Cáritas católica para trabalharem em conjunto. Porém, esperam-se sempre novos passos, pois Deus é o Deus das surpresas. Nunca devemos parar, mas andar sempre – rezar em conjunto, testemunhar, fazer as obras de misericórdia, que é anunciar a caridade de Jesus Cristo. Anunciar que Jesus é o Senhor, o único Salvador e que a graça vem apenas dele. Neste caminho os teólogos continuam a estudar, mas deve-se andar no caminho, com o coração aberto às surpresas.  

Mimmo Muolo, do Avvenire, partindo da verificação do que se viu em Fátima – o Papa envolvido num grande testemunho de fé popular –, questionou-o sobre as ditas aparições de Medjugorje e o fervor religioso que suscitam, dado que nomeou um Arcebispo delegado para os aspetos pastorais. E ainda perguntou o que pensava sobre a notícia de que as ONG terão feito acordos com passadores traficantes de homens.

À segunda questão, respondeu que teve conhecimento pelos jornais matutinos, mas não opinava por não conhecer pormenores, apenas esperando que as investigações sigam em frente.

Em relação a Medjugorje, disse que todas as aparições ou as presumíveis aparições pertencem à esfera privada, não fazendo parte do Magistério público ordinário da Igreja. Porém, Bento XVI constituiu uma comissão presidida pelo Cardeal Ruini (integrada por competentes teólogos, bispos e cardeais), que produziu um relatório muito bom e o remeteu ao Pontífice nos fins de 2013 ou princípios de 2014. Todavia, por restarem algumas dúvidas, a CDF julgou oportuno enviar a todos os membros do congresso da sua ‘feria quarta’ toda a documentação e também o que parecia contrário ao relatório Ruini. O Papa recebeu a notificação e, não lhe parecendo justo como que pôr em leilão o relatório Ruini, que estava muito bem feito, enviou carta ao Prefeito da CDF a solicitar que, em vez de enviarem para a ‘feria quarta’ as opiniões, as enviassem para o próprio Papa. Tais opiniões foram estudadas e todas enfatizam a densidade do relatório Ruini.

Sobre as primeiras aparições, quando os “videntes” eram jovens, o relatório diz que se deve continuar a investigar; sobre as supostas aparições atuais, o relatório tem dúvidas; e Francisco prefere a Nossa Senhora mãe, nossa mãe, e não a chefe de escritório telegráfico, que, todos os dias, envia uma mensagem a tal hora... E garante: “Esta não é a Mãe de Jesus. E pergunta: “Quem pensa que a Nossa Senhora dizia: ‘Venham que, amanhã, a tal hora, vou dizer uma mensagem àquele vidente’?”. Porém, o ponto crucial próprio do relatório Ruini é o facto espiritual, o facto pastoral: as pessoas que vão lá e se convertem, pessoas que se encontram com Deus, que mudam de vida. Ora, esse facto espiritual e pastoral não pode ser negado. Entretanto, para ver as coisas com todos os dados, com as respostas que os teólogos lhe enviaram, nomeou o predito bispo – muito competente, porque tem experiência – para ver como vai a parte pastoral. E, no fim, se dirá alguma palavra.

Joshua McElwee, do National Catholic Reporter, levantou a questão da renúncia, em março, de Marie Collins, o último membro da Comissão para a Proteção dos Menores, que foi abusada por um padre. A senhora alegou renunciar porque as autoridades no Vaticano não colocavam em prática os conselhos da Comissão que o Santo Padre aprovou.

Respondeu que Marie Collins se explicou bem perante ele e que esta ótima mulher continua a trabalhar na formação com os sacerdotes sobre esta matéria. E tem alguma razão. De facto, há muitos casos atrasados, porque se amontoavam. Teve de se fazer legislação para isso, nomeadamente sobre o que devem fazer os bispos diocesanos. Hoje, como em quase todas as dioceses, há o protocolo a seguir nesses casos – grande progresso –, os arquivos são bem feitos.

Depois, há poucas pessoas. Precisa-se de mais pessoas capazes disso. O Secretário de Estado e o Cardeal Müller estão interessados em apresentar novas pessoas. Já foram admitidas mais duas ou três. Mudou-se o diretor do escritório disciplinar, que era muito competente, mas estava um pouco cansado. Voltou ao seu país para fazer o mesmo com o seu episcopado. E o novo – é um irlandês, Dom Kennedy – uma pessoa muito competente, muito eficiente, rápida, o que ajudará bastante. Por outro lado, sucede que os bispos enviam os casos. Se o protocolo está bem, vai imediatamente para a “feria quarta”, e a “feria quarta” estuda e decide. Se o protocolo não está em conformidade, deve voltar e ser refeito. Por isso, se pensa em ajudas continentais, ou duas por continente: por exemplo, na América Latina, uma na Colômbia, outra no Brasil... Seriam como que pré-tribunais ou tribunais continentais. Mas isso está em planeamento.

Depois, a “feria quarta” estuda e delibera tirar da pessoa o estado clerical. O sacerdote retorna à diocese e recorre. Antes, o recurso era estudado pela mesma “feria quarta” que tinha dado a sentença. Mas isso é injusto. Por isso, foi criado outro tribunal sob a responsabilidade duma pessoa indiscutível: o arcebispo de Malta, Dom Scicluna, que é um dos mais intrépidos contra os abusos. E, neste segundo tribunal – porque devemos ser justos –, a pessoa que recorre tem direito a advogado de defesa. Se o tribunal confirma a primeira sentença, acabou o caso. Só resta o direito implorar por carta a graça ao Papa, sendo que este Papa nunca assinou uma graça. É assim que as coisas estão, estamos seguindo em frente. Marie Collins, nesse ponto, tinha razão, mas nós também estávamos na estrada. Há ainda dois mil casos amontoados.

– Finalmente, Joana Haderer, da agência portuguesa Lusa, apontou o caso de Portugal, aliás como o de muitas sociedades ocidentais, em que (no caso português) quase todos se identificam como católicos (quase 90%), mas a forma como a sociedade se organiza e as decisões tomadas são contrárias às orientações da Igreja: matrimónio dos homossexuais, despenalização do aborto e agora a despenalização da eutanásia em discussão…

O Papa encara tal situação como um problema político e refere que nem sempre a consciência católica é uma consciência de pertença total à Igreja, faltando uma catequese matizada, humana. E evoca o Catecismo da Igreja Católica como um exemplo do que é uma catequese séria e matizada. Depois, aponta a falta de formação e de cultura, que leva muitos dos muito católicos (em Itália e em alguns lugares da América Latina) a serem anticlericais, os papa-padres – o que muito o preocupa. Por isso, insta os sacerdotes a que fujam do clericalismo, porque este afasta muita gente, é uma peste na Igreja. Assim, exige-se o trabalho de catequese, de consciencialização, de diálogo, incluindo valores humanos.

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Trata-se duma sessão em que o Papa revela a sua audácia de Igreja em saída na caminhada reformista, sinodal e ecuménica e o cuidado com as questões de melindre, como as aparições, visões, mensagens e fé popular. Não sendo um político do ponto de vista técnico, assume-se como o político de intervenção em nome do Evangelho da misericórdia, da paz e dos pobres.

Dizer que não é mariano como João Paulo II ou fatimita por ser latino-americano é esquecer a profundidade daquele que pretende recentrar a Mariologia no mistério de Cristo e da Igreja e reescreve a Salve Rainha com a colaboração do Santuário de Fátima (em que, não sei porquê, muitos ainda não reconhecem o serviço evangelizador); e é esquecer que solicitou a consagração do Pontificado à Mãe de Fátima, venerou publicamente a sua imagem no Vaticano e veio inferir audazmente as consequências da Mensagem. Se não ajoelhou perante a Imagem na Capelinha (com escândalo de alguns), incensou-a na missa; e não ajoelhou perante o Santíssimo Sacramento, mercê da artrose e da ciática. E não sabem que a oração em pé também é uma boa postura adorativa, sobretudo quando em nome do santo Povo de Deus. Mas ele teve o santo atrevimento de frisar que os pastorinhos são santos e se colocam à veneração universal, não por lhes ter aparecido a Senhora, mas pela santidade de vida e dedicação ao conteúdo da Mensagem, articulando a oração a Jesus e a Maria, em união com a Igreja, com a afeição pelos pobres e doentes. Grande Papa! 

2017.05.16 – Louro de Carvalho

sábado, 13 de maio de 2017

Viagem de oração, de encontro com o Senhor e com a Santa mãe de Deus



 

O Papa Francisco esteve em Portugal quase 24 horas, onde pronunciou ao todo em público apenas 2351 palavras, sem contar as orações da Missa e a fórmula da bênção papal na Capelinha das Aparições, mas incluindo a oração que pronunciou aquando da sua primeira visita à Capelinha à chegada ao Santuário. Esta oração que já constava do missal preparado, no Vaticano, para esta viagem de peregrinação a Fátima, integra a oração jubilar. E tanto a parte oracional típica do Pontífice como a oração jubilar (a assembleia proferiu esta parte em conjunto com o Papa) era entrecortada pela antífona aclamatória em latim: Ave o clemens, ave o pia! /Salve Regina Rosarii Fatimæ. /Ave o clemens, ave o pia! /Ave o dulcis Virgo Maria. (Avé, ó clemente, Avé ó piedosa, Salve, Rainha do Rosário de Fátima, Avé, ó clemente, Avé ó piedosa! Avé, ó doce Virgem Maria.).

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A saudação e consagração a Maria no serviço evangélico

A Rainha Universal, a Virgem Peregrina é saudada como “Senhora do Coração Imaculado” e refúgio e caminho que nos conduz até Deus. A “Mãe de Misericórdia”, a vida e doçura, que a todos mostrou “os desígnios de misericórdia do nosso Deus”, é a “Senhora da veste branca” e tem “veste de luz” que irradia.

Ela vê, no mais íntimo do seu coração, “as alegrias do ser humano” que peregrina e “as dores da família humana”, mas também nos adorna “do fulgor de todas as joias” da sua coroa para nos fazer peregrinos como ela foi. E com o seu “sorriso virginal” vem robustecer a alegria da Igreja”, com o seu olhar de doçura fortalece a esperança dos filhos e com as suas mãos orantes une a todos numa só família, a família humana.

Por seu turno, Francisco, o bispo vestido de branco e peregrino da Luz e da Paz, agradece ao Pai que, “em todo o tempo e lugar, atua na história humana” e, louvando a Cristo, nossa Paz, pede “a concórdia entre todos os povos”. E, como peregrino da Esperança, quer ser “profeta e mensageiro” do serviço evangélico da caridade, “para a todos lavar os pés, na mesma mesa que nos une”. E, na sua veste branca, lembra à Mãe da candura “todos os que, vestidos da alvura batismal, querem viver em Deus e rezam os mistérios de Cristo para alcançar a paz”.

O Papa deseja que sigamos o exemplo de Francisco e Jacinta e “de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho”, porfiando que percorreremos

Todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus”.

E, partindo da brancura da veste de Maria e apresentando-se vestido de branco, garante a semelhança da Igreja com Maria, porque mergulhada no sangue de Cristo, hoje como ontem:

Seremos, na alegria do Evangelho, a Igreja vestida de branco, da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras que destroem o mundo em que vivemos. E assim seremos, como Tu, imagem da coluna luminosa que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está, que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.”.

E a Mãe do Senhor, “bendita entre todas as mulheres”, é “a imagem da Igreja vestida da luz pascal”, a honra do nosso povo, o triunfo sobre o assalto do mal, profecia do misericordioso Amor do Pai, “Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho, sinal do Fogo ardente do Espírito Santo” a quem nos consagramos e que nos ensina, “neste vale de alegrias e dores, as verdades eternas que o Pai revela aos pequeninos, mostrando-nos a força do seu manto protetor no seu No teu Imaculado Coração, qual refúgio dos pecadores e caminho que conduz até Deus.

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Contra a miopia do olhar, seguir o exemplo da Mãe e dos Pastorinhos

Na homilia da missa da peregrinação centenária, o Papa garantiu a todos: “Temos Mãe!”. E a Mãe de que fala é a mulher revestida de sol que surge no céu e que estava para ser mãe, de que fala o vidente de Patmos (cf Ap 12,1-2); é aquela que Jesus entrega ao discípulo no alto da cruz (cf Jo 19,26-27); é a “Senhora tão bonita” a que se referiam os pastorinhos quando iam a caminho de casa a 13 de maio de 1917 e de quem Jacinta, não se contendo, dizia à mãe em casa à noite: 

Hoje vi Nossa Senhora”.

O Bispo vestido de branco diz que, pela esteira que seguiram os olhos dos videntes de Fátima, “se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram”. E foi perentório ao advertir:

“A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu”.

E diz-nos que Maria, “antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno aonde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem Deus e profanando Deus nas suas criaturas”, nos lembra “a Luz de Deus que nos habita e cobre”, pois “o filho foi levado para junto de Deus” (Ap 12,5). E, contra os que se fixam apenas no inferno, o Papa sublinha que “os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora” e acentua que, “no crer e sentir de muitos peregrinos”, Fátima “é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha: mostrai-nos Jesus”.

Por isso, Francisco sugere que agarrados a Maria como filhos, “vivamos da esperança que assenta em Jesus”, pois “aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo” (Rm 5,17). E, querendo que a esperança seja a alavanca da nossa vida a sustentar-nos sempre, “até ao último respiro”, explicita:

Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf Ef 2,6)”.

E, apelando ao agradecimento, à adoração permanentes e ao apreço por Jesus escondido no sacrário, a exemplo dos novos santos, hoje canonizados, rumo à missão, ensina:

Com esta esperança, nos congregamos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a ‘Jesus Escondido’ no Sacrário.”.

E, para urgir o duplo compromisso com a oração comunitária e, consequentemente com os pobres e deserdados, chama a atenção para a parte das Memorias de Lúcia (III, n. 6) em que esta dá a palavra à Jacinta que beneficiara duma visão:  

Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?”.

Tocado por este duplo fragmento de visão, o Papa agradece a solidariedade dos peregrinos para consigo e reconhece que “não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas”, pois sabe que, “sob o seu manto, não se perdem” e que “dos seus braços, virá a esperança e a paz de que necessitam” e que roga para todos os irmãos “no Batismo e em humanidade”, sobretudo “os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”. E acentua que Deus nos criou “como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um”; e que, ao “exigir” o cumprimento dos nossos deveres de estado, o Céu desencadeia uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar”.

Por isso, pede que “não queiramos ser uma esperança abortada”, pois “a vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. E, citando do Evangelho de João, “Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12,24), assegura que o Senhor assim o disse e assim o fez, já que Ele sempre nos precede. Assim:

Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz.”.

E apela a que

Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

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Os doentes não são meros recetores da solidariedade caritativa

Aos doentes presentes (física ou espiritualmente) para receber a bênção eucarística o Papa dirigiu palavras luminosas, reconfortantes e esperançosas.

Recordou que, se passamos por alguma cruz”, Jesus “já passou antes”. Com efeito, “na sua Paixão, tomou sobre Si todos os nossos sofrimentos”. Sabendo o significado do sofrimento, Jesus “compreende-nos, consola-nos e dá-nos força”, como fez a Francisco e a Jacinta e “aos Santos de todos os tempos e lugares”. E, enquanto Pedro estava na prisão, toda a Igreja rezava por ele e o Senhor consolou-o. Na verdade, este “é o mistério da Igreja: a Igreja pede ao Senhor para consolar os atribulados como vós e Ele consola-vos, mesmo às escondidas”.

Depois, refletiu com os peregrinos:

Diante dos nossos olhos, temos Jesus escondido mas presente na Eucaristia, como temos Jesus escondido mas presente nas chagas dos nossos irmãos e irmãs doentes e atribulados. No altar, adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus.”.

E deixou a todos o desafio lançado pela Virgem Mãe, há 100 anos, aos pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus?”, assegurando que a resposta decidida, “Sim, queremos!” nos possibilita compreender e imitar as suas vidas, vividas “com tudo o que elas tiveram de alegria e de sofrimento, em atitude de oferta ao Senhor”.

Porém, aos doentes, cujo sofrimento é útil no grémio da Paixão de Cristo e da Igreja, pediu:

Vivei a vossa vida como um dom e dizei a Nossa Senhora, como os Pastorinhos, que vos quereis oferecer a Deus de todo o coração. Não vos considereis apenas recetores de solidariedade caritativa, mas senti-vos inseridos a pleno título na vida e missão da Igreja.”.

E, garantindo que a “presença deles, silenciosa mas mais eloquente do que muitas palavras”, a sua oração, a oferta diária dos seus sofrimentos em união com os de Jesus crucificado pela salvação do mundo, a aceitação paciente e até feliz da sua condição são recurso espiritual, património para cada comunidade cristã”, pediu que não tenham “vergonha de ser um tesouro precioso da Igreja” e que a Jesus que ia passar junto deles no Santíssimo Sacramento a “mostrar a sua proximidade e o seu amor” confiassem as dores, sofrimentos e cansaço, contando com a oração da Igreja que de todo o lado se eleva ao Céu por eles e com eles, pois Deus é Pai e nunca os esquecerá.

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A Saudação aos peregrinos. Que Maria escolhemos?

O Papa começou por agradecer o acolhimento e a associação à sua peregrinação vivida na esperança e na paz, garantindo que a todos tinha no coração, pois o Senhor lhos confiou.

Por isso, a todos o Pontífice abraça e confia a Jesus “principalmente os que mais precisarem”, como a Senhora nos ensinou a rezar (Aparição de julho de 1917) e roga à “Mãe doce e solícita de todos os necessitados que lhes obtenha a bênção do Senhor. E, citando, segmentos da 1.ª leitura da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus – “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz” (Nm 6,24-26) – deseja “que sobre cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente, dos excluídos e abandonados a quem negam o futuro, dos órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado, desça a bênção de Deus encarnada em Jesus Cristo”.

Tendo-se esta bênção cumprido na Virgem Maria, pois nenhuma outra criatura viu brilhar sobre si a face de Deus como Ela, que deu rosto humano ao Filho do Pai, podemos nós contemplá-Lo nos momentos gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos da sua vida, que repassamos ao recitar o Rosário. Na verdade, “se queremos ser cristãos, devemos ser marianos”, reconhecendo a relação essencial, vital e providencial que une a Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele. Assim, ao rezarmos o terço, o Evangelho retoma o seu caminho na vida de cada um, das famílias, dos povos e do mundo.

Depois, questionou que Maria os peregrinos escolhem. E elege, entre as várias escolhas dicotómicas, as mais evangélicas: não a Senhora inatingível, mas a Mestra de vida espiritual, a primeira seguidora de Cristo; não a “Santinha” com quem se negoceiam favores, mas a Bendita por ter acreditado (cf Lc 1,42.45) sempre e em toda a circunstância na palavra divina; não a portadora do braço justiceiro de Deus pronto a castigar ou uma Maria melhor do que Jesus Cristo, visto como Juiz impiedoso e mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós, mas a Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante e Mãe e pregoeira da Misericórdia.

Classifica de “grande injustiça” que se faz “a Deus e à sua graça”, ao pensar-se que “os pecados são punidos pelo seu julgamento”, sem antepor que “são perdoados pela sua misericórdia”. Com efeito, “devemos antepor a misericórdia ao julgamento” e saber que “o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”, embora a misericórdia de Deus não negue a justiça, pois “Jesus tomou sobre Si as consequências do nosso pecado juntamente com a justa pena”; “não negou o pecado, mas pagou por nós na Cruz”. Ora, porque “na fé que nos une à Cruz de Cristo, ficamos livres dos nossos pecados”, temos de abandonar qualquer medo e temor, que não se coadunam em “quem é amado” (cf 1Jo 4,18). E, citando a sua primeira exortação apostólica, diz:

“Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização” (EG. 288). 

E, chamados, com Maria, a “ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo” e “tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor”, dizendo-Lhe o louvor, contrição e esperança com Maria:

“A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração.”.

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E assim decorreu uma das mais breves jornadas peregrinantes de Francisco – terna, popular e evangélica, mas também “política”, por almejar o bem comum, sobretudo o dos deserdados.

2017.05.13 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 3 de maio de 2017

..."Desumano é equivaler o cão ao homem"...

Com a devida vénia, replicamos este  texto de Henrique Raposo, publicado na RR no passado dia 28 de Abril.

 "Ao equivaler o cão ao homem, o animalismo dessacraliza a vida humana, dessacraliza os direitos humanos, atira a vida humana para o estado da natureza. Os exemplos desta desumanidade já são às dezenas.

“Os cães não são coisas”, “quem não gosta de animais não é boa pessoa”, “eles (os cães) vêem sempre quem é boa ou má pessoa”, “gosto tanto dos meus cães como dos meus filhos”, “ter um cão ensinou-me a ser pai/mãe”, “os animais têm a mesma dignidade dos homens” e, claro, “os animais são mais humanos do que os próprios homens”. Estas e outras frases já fazem parte da poluição sonora que nos apascenta. O que até é compreensível. Este animalismo pagão é o reflexo de uma sociedade de gente sozinha, triste e com enormes doses de ressentimento por tratar.

O animalista é quase sempre uma pessoa que respira raiva contra outras pessoas, contra o ex-marido, contra a ex-mulher, contra a nora, contra a humanidade em geral, esse vírus que consome a mãe natureza. O alegado amor pelos animais é só uma forma de sublimar esse ódio galopante. É compreensível.

Somos uma sociedade de divórcios, de relações instáveis, de filhos únicos, de idosos solitários que passam meses sem ver os filhos ou netos. Não há primos ou irmãos, não há tios ou tias, não há netos ou avós, não há maridos e mulheres. Neste deserto emocional, é evidente que muitas pessoas transferem as emoções para os animais; cães e gatos funcionam como espelhos passivos onde são projectados afectos e ressentimentos. “Os cães são fiéis, ao contrário das pessoas”. Tudo isto é compreensível, sem dúvida, mas há limites. E este animalismo já passou há muito os limites morais de uma sociedade civilizada.

Quem é que recebe a maior onda de indignação? O toureiro que fere um touro ou o dono do rottweiller ou pittbul que mata um bebé? A resposta é o primeiro. E o poço é ainda mais fundo. O cão recebe uma campanha de compreensão na internet. As pessoas lembram-se do nome do cão assassino e não do nome do bebé assassinado. A humanização do animal (o abate é visto como um “assassínio”) causa assim a desumanização do bebé, da criança, do ser humano.

O espantoso é que esta tribo animalista equipara moralmente uma pessoa a um cão com uma vaidade moral que faz lembrar os marxistas dos anos 50. Julgam-se superiores, acham que são a vanguarda moral, julgam-se super-humanos. E, tal como as ideologias do passado, esta hubris esconde a sua intrínseca desumanidade.

Ao equivaler o cão ao homem, o animalismo dessacraliza a vida humana, dessacraliza os direitos humanos, atira a vida humana para o estado da natureza. Os exemplos desta desumanidade já são às dezenas. O parlamento que criminaliza o abandono de animais é o mesmo parlamento que recusa criminalizar o abandono de idosos. O PAN recusa barrigas de aluguer no gado suíno mas apoia as barrigas de aluguer em pessoas. Começa a ganhar força a ideia de que um animal “consciente” tem mais valor do que um ser humano inconsciente. Exagero? Lembrem-se das declarações do líder do PAN: “há mais características humanas num chimpanzé ou num cão do que num ser humano em coma”. Portanto, se seguíssemos esta lógica, teríamos de dizer que o abate de um cão é mais indecente do que a eutanásia de um homem em coma. Se repararem bem, já lá estamos, já vivemos nesta lógica: o ar do tempo defende a eutanásia enquanto grita histericamente contra o “assassínio” de um cão.

Rir ou chorar? A sociedade que se cala ante o aborto, ante a eutanásia, ante a eugenia cada vez mais aberta, ante a nanotecnologia que cria um futuro pós-humano, ante as barrigas de aluguer que transformam bebés em bens que se podem comprar, enfim, esta sociedade que transforma o humano numa coisa é a mesmíssima sociedade que grita histérica “os animais não são coisas”."
(Henrique Raposo – RR – 28.04.17)
 Imagem SIC Radical

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Por um pacto na saúde em Portugal: menos hospitalicentricismo, mais eficiência


Marcelo Rebelo de Sousa lançou o repto a 4 de abril de 2016 na sessão comemorativa dos 75 anos da Liga Portuguesa contra o Cancro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – ideia que sustentara na semana anterior, em visita ao Hospital de Vila Franca de Xira, ao falar num “consenso nacional” no setor da saúde. Porém, ainda hoje o pacto ainda não está formalizado. Dizia, então, o Presidente que o Ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes pode ser um importante protagonista num “verdadeiro pacto da saúde” em Portugal, que já existe informalmente, sendo construído no dia a dia por muitas instituições. E acrescentava:

“Tenho para mim que é um pacto que já existe, não formalizado, para o qual a Fundação Calouste Gulbenkian já deu um importantíssimo contributo. E a aceitação de princípios fundamentais nos mais variados quadrantes da vida nacional é uma abertura de caminho para um pacto que, antes de ser formalizado, já existe.”.

A este respeito, Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos (OM) diz que o pacto na saúde depende dos políticos e não das Ordens, que já pediram mais financiamento. E Jorge Simões, coordenador do último diagnóstico da Saúde no país, diz que o pacto já existe. É o SNS (Serviço Nacional de Saúde). Porém, alguns entendem que o sistema de saúde vai além do SNS.

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Um ano volvido sobre o desafio presidencial, ainda não há pacto à vista, mas o assunto não está esquecido, tendo o líder da OM revelado ao semanário SOL que se encontrou, no passado dia 28 de abril, com o Presidente em dois eventos em Coimbra e que o assunto surgira em conversa.

Por outro lado, Barómetro sobre Saúde, do referido semanário SOL, revela que 70% dos portugueses estão a favor do pacto e que a sua necessidade é consensual.

Já na tarde do dia 4 de março deste ano, as oito ordens profissionais de Saúde – Ordem Biólogos, Ordem dos Enfermeiros, Ordem dos Farmacêuticos, Ordem dos Médicos, Ordem dos Médicos Dentistas, Ordem dos Médicos Veterinários, Ordem dos Nutricionistas e Ordem dos Psicólogos – estiveram reunidas e voltaram a apelar a um reforço do orçamento do SNS.

No encontro, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, participou o Ministro da Saúde, o Presidente da República e os representantes dos partidos políticos. E o tema em debate foiO futuro do financiamento da Saúde em Portugal”. A sessão de abertura contou com a participação do ministro da Saúde e a sessão de encerramento com o Presidente da República.

O encontro dividiu-se em dois painéis. O primeiro, dedicado à “Programação do investimento público – que experiências?”, com a participação de Fernando de Melo Gomes, Pedro Ferreira e José Carlos Lopes Martins, foi moderado pela jornalista da SIC Dulce Salzedas. O segundo, sobre “Lei de programação na saúde em Portugal – que futuro?”, contou com a participação dos representantes dos grupos parlamentares na Assembleia da República (PSD, PS, BE, CDS-PP, PCP, PEV e PAN) e com a moderação do ex-bastonário da OM, José Manuel Silva.

O evento foi organizado pelas oito ordens profissionais da área da saúde, acima discriminadas, que deixaram o seu contributo através de vários vídeos emitidos no arranque da conferência.

Por exemplo, a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) centrou as suas propostas nas seguintes ideias: o sistema de Saúde português vai para além do SNS; a população tem necessidades que não comportam visões redutoras do Estado; é fundamental nos termos da Constituição e da Lei de Bases da Saúde a complementaridade com o setor privado e o social; o nosso SNS desde sempre excluiu no essencial o acesso a cuidados básicos de saúde oral e à medicina dentária; é imperativo assegurar a acessibilidade da população à medicina dentária; e é necessário proceder ao ajustamento da formação e qualificação dos médicos dentistas. E Orlando Monteiro da Silva, bastonário da OMD, aproveitou o debate para, entre outras medidas, reforçar junto do poder político a necessidade de proporcionar a toda a população o acesso a serviços de medicina dentária nos cuidados de saúde primários e nos hospitais do SNS.

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Também o Conselho Estratégico Nacional da Saúde da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), que representa as empresas do setor privado na saúde, prestadores e fornecedores, apelou a uma lei de meios para o setor que garanta dotação orçamental previsível para o SNS. Por sua vez, Miguel Guimarães, Bastonário da OM, que sustenta que “o pacto está dependente dos políticos e não das ordens”, como acima foi mencionado, adiantou ao SOL que, ainda assim, o trabalho concertado das ordens é para continuar. E disse:

“Vamos reforçar os apelos, mas também que o essencial é ter-se um pacto para a saúde que seja bom para os cidadãos, que assegure as suas necessidades de saúde, e não um documento que se limite a distribuir aquilo que os políticos entendem que pode caber à saúde”.

Ainda que o apelo ao pacto possa ter esmorecido, a ideia está presente na opinião pública. O estudo de opinião realizado, no mês passado, pela Consulmark2 revela que 71% dos portugueses concordam com um pacto nacional para o SNS, com medidas a aplicar independentemente do partido ou coligação que estiver a governar. Entre os inquiridos, apenas 7% estão contra a iniciativa e 22% não sabem ou não respondem.

A avaliação dos utentes melhorou de março para abril. A pontuação global do SNS regressou para os 15,1 valores (numa escala de 0 a 20), depois duma ligeira quebra em março. Quase metade dos utentes (48%) inquiridos recomendaria o SNS, contra 33% em março. E 73% dizem-se satisfeitos ou muito satisfeitos com os serviços públicos de saúde. A percentagem dos inquiridos que revela que os tempos de espera foram mais rápidos do que antecipavam subiu de 19%, em março, para 23% em abril. Mesmo assim, os dados revelam que, no geral e apesar dos dados de abril, há mais inquiridos que dizem que recomendariam consultas no privado do que aqueles que têm a postura promotora do serviço público. E há também menos inquiridos a exibir uma postura crítica face aos serviços de saúde particulares do que em relação ao Estado.

Uma das perguntas do inquérito, feito a 409 pessoas – uma amostra representativa dos residentes em Portugal com mais de 15 anos – é como é que aplicariam 100 euros caso fossem responsáveis pela pasta da Saúde no país. Ao longo das últimas três vagas deste estudo de opinião, o investimento em pessoal foi sempre o que reuniu o maior consenso, mas tem vindo a crescer a ideia de que também é preciso reforçar os meios de diagnóstico e medicamentos.

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Embora os partidos ainda não tenham tomado qualquer iniciativa legislativa em torno de um pacto para a saúde, há já duas propostas na área do financiamento: A CIP defende uma programação financeira semelhante à que existe na Defesa Nacional, com alocação de impostos ao financiamento do SNS; e as ordens profissionais da saúde pedem um reforço do orçamento do SNS em 1,2 mil milhões de euros, para que o país se aproxime da percentagem média do PIB aplicado nesta área pelos outros países da OCDE.

Na verdade, a despesa pública em saúde em percentagem do PIB diminuiu em Portugal nos últimos anos, assim como a sua fatia na despesa global do Estado. Em 2014, a saúde representava 11,4% da despesa pública, quando a média da OCDE é de 15%. E os dados compilados no relatório Health System Review (HIT) – um diagnóstico do SNS comissariado pelo Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde – apresentado no passado dia 27 de abril, em Lisboa, relevam o facto de, nos últimos anos, as famílias portuguesas estarem a suportar cada vez mais encargos em saúde, enquanto a parte do Estado diminuiu e é já das mais baixas da UE. Os portugueses pagam diretamente 27,6% das despesas nacionais em saúde, enquanto o erário público assume 64,2% dos encargos. Em média na Europa as famílias contribuem com 13% em pagamentos diretos e o Estado entra com 76%.

O relatório conclui que existe consenso político, alargado a todos os partidos, de que o sistema de saúde se baseia no SNS, universal geral e tendencialmente gratuito. E “também é consensual a decisão sobre a expansão e melhoria dos cuidados primários e de cuidados continuados integrados”. De facto, “as diferenças e as disputas políticas não se centram no desenho geral do sistema de saúde, mas sim na forma como resolver os seus principais problemas”.

Jorge Simões, ex-Presidente da ERSE (Entidade Reguladora da Saúde) e coordenador do estudo no Instituto de Higiene Medicina Tropical da Universidade de Lisboa, defendeu que o reclamado pacto já existe: é o próprio SNS. Assim, não vê necessidade de mais documentos, mas do reforço de orçamento acompanhado de estratégia que torne o sistema menos hospitalicêntrico e mais eficiente. E Francisco Ramos, ex-secretário de Estado da Saúde socialista e Presidente do IPO de Lisboa, diz que existe “pacto implícito”, constatado nas políticas dos principais partidos – todos defendem o SNS. Para ele, o maior desafio é “perceber como reorganizar os hospitais que mantêm o mesmo modelo de funcionamento há 50 anos” e pensa, quanto ao financiamento, não ser viável um aumento imediato de 1,2 mil milhões de euros, como reivindicam as Ordens.

Por seu turno, Constantino Sakellarides, ex-Diretor-Geral da Saúde e consultor do Ministro Adalberto Fernandes, centrando a sua análise do momento atual na incógnita europeia, que impõe demasiados constrangimentos ao país, diz que “ultrapassados os anos da troika, o financiamento vai tornar a crescer umas décimas acima da riqueza nacional, como acontecia até aqui”. Segundo o perito, é imprescindível a solução a esse nível. E, quanto ao pacto, só admite que seja possível se vier a centrar-se em algo concreto, como o financiamento ou, noutras áreas como a pobreza infantil, e não no sistema como um todo. Com efeito, “a dificuldade dos pactos – diz – é que os pactuantes têm de ser estáveis ao longo do tempo e os partidos políticos têm várias faces”. E exemplifica: se em tempos, o PS foi apologista das parcerias público-privadas na saúde, neste executivo a palavra de ordem tornou-se internalizar a resposta.

Pelos vistos, ao que apurou o SOL, a tutela tem promovido encontros entre parceiros em torno dum compromisso nacional, mas algumas nuvens vêm ensombrando o diálogo, como os atrasos nos pagamentos. Por exemplo, as dívidas a fornecedores têm aumentado. No 1.º trimestre, os pagamentos em atraso nos hospitais subiram 157 milhões. Nesta fase, apesar da vontade do Presidente da República, não há um plano abrangente a ganhar forma. O dossiê poderá ser retomado depois das eleições autárquicas.

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Porquê esperar pelas autárquicas? Será que as Ordens são candidatas às autárquicas? E os partidos não têm quadros suficientes para definirem políticas públicas setoriais a tempo e fora de tempo? Não é a saúde uma prioridade? Não é urgente minimizar os negócios com a saúde?

2017.05.01 – Louro de Carvalho